Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 11
Jesus de Nazaré ordenou que lhe trouxessem agora o integrante da Organização Romana que
escrevera o roteiro para as torturas que deveriam ser levadas a efeito contra os hereges. Ele vestia uma túnica negra imponente. Era ornada com cordões de ouro e uma grande cruz branca estava lavrada no peito.
- Faça sua defesa, romano - ordenou Jesus de Nazaré.
- Sou romano. Meu nome é Tomás de Torquemada. Bem sei que nosso povo aniquilou os judeus durante décadas. Sei que nossos soldados crucificaram milhares de judeus. Mas eu sempre procurei defender essa religião que surgiu com o uso do Grujuem.
Jesus de Nazaré:
- Você pretende ser admitido no céu? Por que você pensa que pode ser aceito?
- Porque sou romano. Porque defendi a Igreja - respondeu.
Jesus de Nazaré:
- Você foi cruel. Organizou um roteiro para que seus associados pudessem torturar e matar pessoas que vocês denominaram de hereges. É o que me informam. Mas, ainda assim me cabe perguntar: você foi rico, justo, arrependeu-se dos seus pecados, creu em mim, jamais blasfemou contra o Espírito Santo, foi batizado?
- Fiquei rico, mas porque os dízimos que me eram ofertados não podiam ser recusados, pois destinados a Jeovah, a quem chamamos simplesmente de Deus. E se Jeovah deixava o dinheiro comigo e meus colegas romanos, eu nada podia fazer. Nunca cometi pecados.
Jesus de Nazaré:
- Milhões de pessoas foram assassinadas por iniciativa tua. Como podes dizer que não pecaste? Tens esperanças de ser absolvido?
- Porque eu sou romano. Nós temos o poder. Os judeus abandonaram a Jesus de Nazaré. E Paulo de Tarso legitimou nosso poder. Ele estabeleceu que é permitido pecar, basta que tenhamos fé em Jesus de Nazaré. E ele mandou queimar os apóstatas, os rebeldes, os que não tinham fé, os que abandonassem o rebanho de dizimistas. Não era essa a mensagem evangelizadora de Agostinho? Não era essa a propaganda feita por esse ser humano que dizia que as relações amorosas que levam à fecundação das mulheres eram atos vergonhosos? Agostinho foi nosso grande teórico mas ele julgava que o Diabo não era fornicador.
- Queres dizer – replicou o Mestre - em tua defesa, que os pecados, as milhares de mortes que cometeste, tudo isso é perdoado simplesmente porque tiveste fé no judeu de Nazaré?
- Está escrito em diversas passagens bíblicas: “Quem crer em mim será salvo” e “não vim para salvar os justos, mas os ímpios e pecadores”, respondeu o cruel integrante da Organização Romana.
Jesus de Nazaré:
- Pois eu te condeno ao fogo da fornalha eterna da Geena. Podes ter tido fé em mim. Podes até ter se arrependido na hora da morte. Mas és romano, um dos integrantes do povo que matou a centenas de milhares de judeus e que destruiu o templo judeu de Jerusalém. Além disso, me crucificaram teus ancestrais. Escarneceram de mim. Oprimiram meu povo. Estupraram as mulheres antes de serem queimadas vivas em nome da Santa Inquisição. Viveram à custa dos camponeses, tomando-lhes o trigo, as batatas, o vinho, os carneiros, o azeite de oliva.
- Sim, mas escreveu que tu vieste para salvar os ímpios e pecadores. Ora, reconheço que eu fui um deles, portanto deves me salvar. Além disso, parece que estás com ódio de mim. Não disseste que devemos amar os nossos inimigos?
Jesus de Nazaré:
- Não o farei. Arderás nas fornalhas da Geena eternamente, como está previsto na Bíblia Sagrada.
Mas o romano recorreu. Era seu direito. Disse:
- Recorro invocando em minha defesa que contribuí para as mortes e para os estupros, sim, mas isso estava ordenado por Jeovah. Ele ordenou, no Velho Testamento, que as feiticeiras deveriam ser eliminadas. Está escrito isso em Êxodo 22,18: “Não deixarás viva uma feiticeira”. É o que fiz. E Jesus disse que todos devem ser perdoados, basta que creiam no que dizem seus pastores.
Jesus de Nazaré olhou para Jeovah:
- Isso sobre queimar mulheres está escrito no Velho Testamento. Moisés é o autor. Mas essas mortes contrariam o Novo Testamento que, belissimamente, com raras exceções, busca o perdão, a fraternidade, a igualdade, tudo de acordo com minhas mensagens. Vou reconsiderar meu voto e absolvo o réu Tomás de Torquemada.
- Os hereges tinham que ser mortos - respondeu o romano. Eles eram um perigo para a existência mesmo da Igreja. Não era assim que Jeovah mantinha, por Moisés e outros, seu poder em Israel? Não usava ele das hemorroidas, chagas, úlceras, lepra, tísica, tumores, granizo, peste, espadas, para impor sua lei? Nos julgamentos e torturas feitos pelos celibatários agentes de Roma, não se prestava a máxima atenção a “marcas do Diabo”, provocadas nos seios e nas vaginas? Era o Diabo, sim! O Diabo que possuiria um membro frio - seja o que isso for! E os padres tinham que atestar a quantidade e a qualidade de orgasmos ocorridos!
Jesus de Nazaré foi até a Maschiene, procurou aparentemente um livro e um texto, e disparou:
- Os assim conhecidos por Santo Agostinho e São Tomás de Aquino eram da mesma organização diabólica. São Tomás de Aquino escreveu, segundo acabo de ler no livro do cientista Carl Sagan - O Mundo Assombrado pelos Demônios, escrito em 1995 - que “os demônios podem transferir o sêmen que coletaram e injetá-lo nos corpos de outros” e que São Boaventura disse que “os súcubos se entregam aos machos e recebem o seu sêmen e com habilidade astuciosa, os demônios preservam a sua potência, e mais tarde, com a permissão de Deus, tornam-se íncubos e despejam o sêmen em repositórios femininos”. Monstruosas criações de mentes doentias e sedentas de dízimos – ousaram valer-se em Roma de meu nome judeu com essas obtusas ações.
Um email chegou até a Máquina, vindo da cidade de Eisleben, da Elemanha, onde nascera em 1493 o padre agostiniano Martin Luther. Esse sacerdote criou as igrejas protestantes, ou evangélicas, passando a dizimar por conta própria e a hostilizar tanto os romanos como aos judeus - irmãos de Jesus de Nazaré - embora se valesse do Grujuem, composto de personagens judeus. Possuíra uma filha de nome Magdalena, nome judaico originário de Magdala. Consta do email:
- “Mestre, já se estabeleceu neste Juízo Final a explicação para essas aberrações. Os vilões só nos interessam para que se possa chegar à visão ampla de toda a organização dizimatória. São meros elos da fenomenal engrenagem criada pela astúcia”.
Em seguida Die Maschiene exibiu:
“Santo Agostinho de Hippo, nascido em 13 de setembro do ano de 354 desta Era, na cidade de Tagaste, na Numídia, atual Algéria, deu início ao obscurantismo, dizendo: “Temos a doença da curiosidade (...) que nos guia a tentar a desvendar os segredos da Natureza, aqueles segredos que escapam à nossa compreensão, que nada nos acrescentam e os quais o homem não deve desejar saber (...) jamais me sinto cativado pelo desejo autêntico de estudá-las. (...) Não sonho mais com as estrelas”.
Jesus de Nazaré:
- É oportuno esse comentário do computador. Me informaram que esse Agostinho foi um pensador inteligente que conseguiu se notabilizar pelos seus escritos, sempre procurando aumentar o rebanho romano. Usava do Grujuem, mas, surpreendentemente, não parece que desejava dízimos. Dizem que doou os bens herdados de seu pai, menos a casa, onde fundou um mosteiro: a Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho. No entanto logo que a glória que buscava o envolveu, tornou-se bispo, cargo em que não havia necessidade de trabalhar no amaino da terra ou qualquer outra atividade cansativa. Nesse ponto ele imitou os apóstolos que a tudo abandonaram para viver às custas de dízimos ou albergamentos em casas de ovelhas dos seus rebanhos.
- Vejo que esse nubídio, algeriano, passou a viver no mosteiro. Como a maioria, buscava a glória, a notoriedade e talvez fosse um auto-iludido. Ele aprendeu a usar do Grujuem com maestria, tornando-se padre e bispo em Annaba. Sua fama e seus pensamentos dominaram durante séculos o pensamento das ovelhas do imenso rebanho que ajudou a criar. Incentivava a seus adeptos no sentido de que deveriam manter-se ignorantes, não pesquisassem. Sábios são péssimos candidatos a dizimistas.
Ouvia-se o ronco de um avião comercial passando a poucas milhas do Juízo Final. Os helicópteros se revezavam dia e noite na sua missão de manter repórteres trabalhando. Prosseguiu Jesus de Nazaré:
- Voltemos ao assunto de que tratávamos. Jeovah jamais prometeu a ressurreição. Não posso te admitir nas nuvens após provocares a morte de milhares de mulheres em fogueiras.
- Jeovah eliminou também a incontáveis inimigos de Israel – replicou Torquemada - e, mesmo a israelitas. Por que devo ser penalizado, se o próprio Jeovah, aqui presente, agiu da mesma forma que eu e meus associados? Além disso, está escrito no Velho Testamento, como vimos, que as feiticeiras devem ser eliminadas.
Jesus de Nazaré pareceu indeciso. Mas continuou a proferir seu voto:
- Nunca eu poderia ter concordado com esses métodos violentos de Jeovah, caso houvesse vivido com ele, nos tempos do Velho Testamento. Ele foi terrível. Minhas mensagens de amor, perdão e de igualdade entre homens e mulheres tinham que ser acatadas. Meu voto é no sentido que esse réu seja levado à fornalha eterna da Geena, sendo desprovido seu recurso. No entanto, comuto a pena: o réu deverá permanecer no solo terrestre, alimentando o fogo da Geena, em Jerusalém, até que o Sistema Solar se transforme em um grande cemitério gelado, como está previsto pelos físicos, astrônomos e demais cientistas. Nesses poucos milhões de anos que restam à Terra, o réu deverá sofrer penalidades a serem fixadas por Jeovah. Minha mensagem terrena deve ser acatada: amai e perdoai a vossos inimigos.
Jeovah decretou imediatamente:
- Quero repetir: estou aqui neste julgamento indevidamente. Nunca previ Juízo Final. Mas, já que aqui me encontro por imposição da Bíblia Sagrada, decreto: o castigo desse romano deverá ser severo. Ele foi cruel. Foi responsável por torturas em milhares de seres humanos, judeus e gentios. Ele mandou eviscerar, empalar, esmagar crânios, queimar seios de mulheres. Ele deve sofrer o mesmo castigo que indiquei aos sacerdotes em Malaquias 2,3, no Velho Testamento: receberá esterco no rosto durante todos os dias da semana, menos aos sábados, quando deverá prostrar-se diante do Senhor dos Exércitos em frente à sinagoga de Jerusalém, onde deverá viver até que a Supernova Solar engula a Terra.
O voto, proferido em hebraico, deixou perplexos a todos os terráqueos e os moradores das nuvens. Mas, os Anjos Ceifadores, os Anjos Separadores, os apóstolos, todos concordaram com os dois veredictos. As Mulheres Queimadas, no entanto, vaiaram. Mostravam as chagas em seus corpos. Exibiam seus seios mutilados pelas torqueses – aranhas espanholas ou esmaga-peitos - em brasa usadas pelos Inquisidores Romanos. Diziam que Torquemada engordaria com o estrume que Jeovah haveria de enviar contra ele. A punição seria uma verdadeira dádiva para quem torturou milhares de mulheres e as empalou penduradas com os braços e pernas amarrados no teto das masmorras. Seria até um prêmio para aquele que se dizia cristão e era um monstro impiedoso, seguidor de Agostinho e de tantos outros autores romanos.
Sara Moshê estava inquieta e não parava de examinar as nuvens cirrus. Pensou ter visto um querubim transportando uma bela mulher. E que Jeovah olhara furtivamente para o alto. O sol era refletido pelas roupas brancas e resplandecentes da misteriosa aparição.
Sara e seu helicóptero tentaram chegar próximos às nuvens cirrus. Subitamente encontraram uma barreira certamente com mais de cem mil serafins, com suas seis asas batendo sem parar.
Era um espetáculo inigualável. Havia também serafins-bebês. Já nasciam com seis asas. Mas não se viam anjos adultos machos, pais dessas criaturas semi-humanas. Os pequenos seres, dotados de pequenos falos, voavam com surpreendente desenvoltura. O líder das legiões postou-se em frente ao helicóptero e ordenou:
- Ninguém está autorizado a ingressar neste espaço. Aqui é a parte das nuvens conhecida como Terceiro Céu, exatamente como descrito na Bíblia Sagrada por Paulo de Tarso, o grande e glorioso dizimador romano que afirma também que nós não existimos - que somos espíritos, invisíveis, pois.
Sara manejou seu computador e de fato, estava escrito na Bíblia que um lugar denominado Terceiro Céu efetivamente existia. Retirou-se imediatamente desse espaço e voltou até o Juízo Final. A notícia do Terceiro Céu obviamente surpreendeu o mundo. Todos procuravam freneticamente o texto até então desconhecido pelos dizimados.
Alguns aviões passavam novamente próximos ao Tribunal. Os jornalistas se perguntavam por que antes do Juízo nunca tinham sido observados aqueles seres humanos e aves humanóides pelos pilotos, nem tinham sido engolidos pelas turbinas dos jatos.
Os jornais passaram a especular: essas criaturas semi-humanas eram forçadas a trabalhar tão cruelmente? Havia escravatura prática humana e judaico-cristã que somente foi abolida há um século e pouco? Recebiam essas aves humanas os salários previstos pelas leis dos terráqueos? Eram subjugados como os que Paulo de Tarso e outros narradores incentivam a servir incondicionalmente aos seus donos? Quem lhes fornecia alimentos, vestimentas, tratamentos médicos, locais adequados para descansarem, férias? Podiam pedir demissão desses brutais cargos? Eram sempre obrigados a matar humanos, quando assim lhes fosse ordenado - como seguidamente é relatado no Livro Sagrado? O anjo que desceu obedecendo ordens de Jeovah e que matou com sua poderosa espada cento e oitenta e cinco mil assírios numa só noite - foi levado a julgamento? Recebeu o necessário trabalho de defesa por paráclito habilitado?
Esses jornais foram muito criticados pelas emissoras de televisão pertencentes a sacerdotes. Diziam que nas alturas quem impera é Jeovah e as regras dos terráqueos não se aplicam lá nas nuvens, não havendo prisões onde pudessem ser encarceradas as aves. A escravatura era tão legal como a que imperava e impera ainda no solo terrestre.