Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 90 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 90

 

A Deusa Oculta retornou envolta em grossas peles e enfrentava vinte graus negativos no tablado de cem côvados, no Terceiro Céu. Paulo de Tarso acabara de chegar. Também teve que proteger-se do frio imediatamente. Ajoelhou-se diante da mulher, deusa judaica recém-revelada ao mundo.

Em seguida chegou o amigo em Cristo de Paulo de Tarso que havia ressuscitado e subido. Vestia também pesadas roupas. Sentaram-se todos em tronos. Havia neblina. Trombetas ecoaram junto com cítaras e pandeiros. A Deusa Oculta falou, com a voz mais bela que Paulo jamais ouvira, em hebraico:

- Paulo de Tarso - és um machista. És um judeu que não respeita as mulheres. És um ressuscitado que não quero ver habitando as nuvens.

Assustado, o grande sacerdote dos gentios:

- Por que assim falas - grande Deusa?

- Porque o processo da libertação das mulheres é irreversível. Não podemos conviver aqui contigo. Escreveste aos teus dizimistas apologias à discriminação das mulheres e dos homossexuais. Vou ler, para que confirmes ou desmintas os dizeres bíblicos: “Não permito à mulher que ensine nem que se arrogue autoridade sobre o homem, mas permaneça em silêncio”. Isso consta da tua carta I-Timóteo 2,9-15 e é uma iniquidade vergonhosa.

Paulo de Tarso:

- Certamente que escrevi isso. Mas, se me permites a defesa, peço para ler Êxodo 21,7 onde se vê a lei de Jeovah: “Se um homem vender a filha como escrava, esta não sairá como saem outros escravos. Se ela não agradar a outro senhor que a tinha designado para si, ele deve permitir que seja resgatada. Se tomar outra mulher para si, não deve privar a primeira do alimento, das vestes e dos direitos conjugais”. Ou seja, o próprio deus do povo de Israel admite a venda da filha como escrava. E pode ser recomprada. Para Jeovah as mulheres são meros objetos. É esse o deus que foi adotado pelo Vaticano e pelos evangélicos.

- Muito bem! – exclamou a Deusa Oculta. Sabias de tudo, e nada fizeste! Não combateste a escravidão e essas hediondas ações criminosas que grassavam em Israel, sempre sendo vítimas as mulheres e as adolescentes. Teu associado Pedro diz em 2,18-20: “Se é por ter feito o bem que sois maltratados, e se o suportardes pacientemente, isto é coisa agradável aos olhos de Jeovah, o deus de Israel”. Vocês não só aprovavam a escravidão, como, ainda, incentivavam os miseráveis cativos a sofrerem com resignação os castigos. Jeovah autorizava os pais a venderem suas filhas! Como escravas! Filhas que podiam ser designadas para si pelos novos proprietários! Designadas para si, ou seja, eram estupradas pelos compradores de escravas!

A Deusa Oculta acenou para um dos querubins. Aproximou-se a bela ave com seus quatro rostos e entregou-lhe um chicote. A empunhadura era toda trabalhada com prata, ouro e diamantes. Na extremidade da chibata um grande rubi faiscava como a lava escorrendo da montanha em noite de Lua Cheia. Faiscavam também os olhos da deusa recém-revelada ao mundo. A parte leão do cherub soltou vários urros, acompanhados de guinchos da águia e mugidos do boi. De um dos helicópteros que haviam chegado ordenou que descesse o repórter e focando a câmera bem de perto, desferiu quase sussurrando:

- Hoje finalmente o mundo pode me ouvir. Sei que as mulheres continuam sendo estupradas impunemente e, ainda, sendo apontadas como culpadas. Sei que as práticas discriminatórias contra os homo afetivos não terminaram nem mesmo com as leis que permitem casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Sei que mulheres são escravizadas e meninas são designadas para si pelos próprios pais. Sei que mulheres continuam a ser proibidas por religiosos a praticar sexo com prazer. São proibidas de controlar a natalidade e de abortarem em quaisquer circunstâncias. São os varões dos mosteiros, os sacerdotes pedófilos, os que se arvoram em regrar a vida das mulheres. Pastores evangélicos cuja origem e caráter não são informados se apresentam como bonzinhos, como aconselhadores, embora muitos sejam apanhados em deslizes graves. Os auto-iludidos são muitos. Os inspirados também. Os meramente criminosos da mesma forma. É um mundo diabólico em que a mulher continua sendo a grande vítima.

Altivamente a Deusa Oculta passou a percorrer o tablado de madeira, sustentado pelos anjos. Serafins esvoaçavam - sempre mudos. Com o látego batia nas pernas. Prosseguiu:

- Teus associados Mateus e Marcos escreveram - este em 13,17: “Ai das mulheres que naqueles dias estiverem grávidas e amamentando. Rogai para que isto não aconteça no inverno!”. Que ameaças infames fazem contra as mulheres! Que rudeza, que crueldade contra as mães, aquelas que deram vida aos varões de Israel, ingratos! Ameaçam - tu Paulo de Tarso, Marcos e todos os demais. Ameaçam dizendo Marcos em 13,24 e seguintes: “Haverá tribulações tais, como não as houve desde o princípio do mundo que Jeovah criou até agora, nem haverá jamais e quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o Filho do Homem está próximo, às portas”.

Paulo de Tarso:

- Penso que os evangelistas querem causar terror nas mentes dos seus ouvintes. Disso não se pode duvidar. Além disso, eles não tinham poderes para prever o que viria acontecer dois mil anos após.

- Sim – respondeu a Deusa Oculta. Você escreveu na sua Carta aos Hebreus 4,13 e seguintes, em resumo: “Nenhuma criatura é invisível a Jeovah. Tudo é nu e descoberto aos olhos daquele a quem havemos de prestar contas”. Você usa a mesma técnica, obviamente. Quer que os gentios de todo o planeta creiam que estão sendo espionados por um ser que deve ser temido por mandar queimar em fornalhas os humanos vivos e os que vierem a ser ressuscitados no Juízo Final.

A Deusa Oculta caminhava em círculos, ao redor de Paulo de Tarso. O vento frio fazia esvoaçar seus longos cabelos negros. Era uma verdadeira deusa, de raríssima beleza. Prosseguiu:

- Os sacerdotes estão dizendo que eu não existo e que eu seria uma invenção dos historiadores do julgamento do Juízo Final. Clamam e reclamam. Não aceitam minha existência. Mas não explicam quem gestou - quem carregou em seu ventre, os vários filhos de Jeovah. Não explicam de onde surgiu aquele outro filho, Jesus, que vivia com o deus judaico desde antes da criação de tudo pelo deus de Israel.

Ela apontou para baixo e exclamou:

- São sacerdotes incoerentes! Pretendem que haja filho sem mãe! Pois tanto discriminam as mulheres, que negam o óbvio: não há filho sem um ventre que o faça nascer em nove meses!

Paulo de Tarso:

- Agora que a conheço pessoalmente, digna Deusa, não posso negar a sua existência. Só posso lamentar que Jeovah tenha feito Adão artificialmente. Teve vários filhos no céu, certamente com Vossa Altíssima, como está em Gênesis 6,1 e várias outras passagens bíblicas do Velho Testamento.

- Muito bem - respondeu ela. Vou enfatizar tudo isso junto aos jornais e televisões. Mas, antes, quero que me diga: por que, em dois milênios, os humanos não perceberam tudo isso? Por que não investigaram devidamente os textos bíblicos? Não se deram conta de que anjos somente existiram nos mitos dos povos e na imaginação dos plebeus, como diziam os romanos?

Paulo de Tarso:

- Muito simples - Altíssima. Não o fizeram por medo. Por temor aos castigos de quem ousasse examinar as contradições espetaculares que se encontram nos textos bíblicos. Não conseguiram perceber o que o Juízo Final revelou já claramente: todos os escritos são obra de sacerdotes em busca de dízimos, poder e glória.

- Muito bem analisado. Agora, senhor Paulo, ou senhor Saulo, da cidade de Tarso: olhe para baixo e me diga o que vê.

- Entre nuvens vejo Jerusalém e algumas outras cidades.

- Essa é a mesma visão que terá Jeovah, deste Terceiro Céu. Mas ele costuma ficar escondido em nuvens mais baixas. Mesmo de lá nós não conseguimos ouvir o que falam os milhões de humanos. Não conseguimos reconhecer a ninguém, já que são pontos minúsculos em nosso campo visual, obscurecidos pelas nuvens. Pelo que dizes, Jeovah teria que, ao mesmo tempo e durante vinte e quatro horas por dia, ver e ouvir a esses milhões de seres humanos que habitam essa parte de Israel. Nas outras partes do globo terrestre, com bilhões de ressuscitados e vivos, não verá nem ouvirá nada, como é óbvio. Você não quer reformular seus escritos a respeito?

Paulo de Tarso esfregava as mãos nervosamente. Voltou a olhar pela beirada do tablado e ficou imaginando Jeovah a observar os rebanhos dos sacerdotes.

- Realmente. Para um ser de carne e ossos, é impossível ver pessoas, muito menos dentro de suas casas, em florestas, em minas ou postadas abaixo de nuvens.

A Deusa Oculta:

- Como explicas, então, o que escreveste?

Paulo de Tarso:

- Eu estabeleci que carne e ossos são inúteis no céu. Disse aos meus adeptos que no céu somente espíritos existem. Anjos e demais personagens são também, obviamente, espíritos.

A Deusa Oculta:

- De onde obtiveste tal doutrina? Não poderias saber disso, já que jamais tinhas subido até as nuvens. E, ainda assim, como poderias pretender que Jeovah, sendo um mero espírito, tivesse olhos para ver o que se passa com milhões de israelenses, lá longe, no solo terrestre? Penso que essa versão é muito mais absurda que a primeira.

Paulo de Tarso:

- Agora que aqui estou ressuscitado e saído de meu túmulo em Roma - vejo que as duas versões são esquálidas.

- Pois, senhor Paulo – respondeu a recém-revelada mãe dos filhos de Jeovah – não creio que algum dos que forem salvos, permaneçam nas nuvens, no Reino de Jeovah, do Deus de Israel. Descer, retornar para suas vidas na Terra, será certamente uma constante. Veja o frio de vinte graus negativos que nos castiga aqui. A total falta de alimentos e água. É absolutamente lógico o que dizem: o Reino de Jeovah é inútil e impossível é a vida nele, nas nuvens.

Suspirou a Deusa Oculta, apertou seu casaco de peles, e arrematou:

- E não me venha com a história espiritual.

A um sinal da deusa, mais de cem mil anjos tocaram suas trombetas. Uma sinfonia digna de Orff. Os metais eram ouvidos em Damasco, no Egito, em Cafarnaum, Jericó, no Rio Jordão, em Massada, na Babilônia. Foi servido vinho em taças de estanho e ela continuou:

- Vês? Algum espírito tem a faculdade de segurar a trombeta, de assoprar nela e, ainda, bater asas? Não te esqueças que os tronos são ocupados pelos dois deuses judaicos, Jeovah e Jesus de Nazaré, pelos treze apóstolos, pelos Anjos Separadores, pelos Anjos Ceifadores, sem falar nos profetas, nos convidados, testemunhas e réus. E temos agora, senhor Paulo de Tarso, a pergunta que o senhor deveria ter feito no Tribunal do Juízo Final e não fez: De que se alimentam os milhões de anjos e os demais ocupantes do Reino de Jeovah?

Paulo de Tarso:

- Peço a permissão de formular essa pergunta agora, Altíssima Deusa.

A Deusa Oculta:

- Pois eu não tenho nenhum receio em responder. Não sou sacerdotisa e não dependo de nenhum dizimador ou dizimista. No céu, no Reino de Jeovah, ninguém se alimenta. Aqui nós somente temos o agradável costume de provar vinhos, como acertadamente sugerem os narradores bíblicos em duzentas e cinquenta e três passagens daquele livro. Lemos em Marcos 14,25: “Em verdade vos digo: já não beberei do fruto da videira, até aquele dia em que o beberei de novo no reino de Jeovah”.

Paulo de Tarso:

- Sim, já conheço esse texto escrito pelo evangelista Marcos. Os ressuscitados e os vivos que já foram julgados e enviados para cima permanecem, em geral, se forem apreciadores de vinho ou alcoólatras. Mas vale lembrar mais uma vez: o texto de Marcos prova que no Reino de Jeovah, no céu, nas nuvens, somos todos de carne e ossos.

Com muita elegância e charme a Deusa Oculta ajeitou seus longos cabelos e prosseguiu:

- Preciso lhe dizer - senhor Paulo de Tarso: reprovo seus dizeres sobre as mulheres e os escravos. Suas palavras foram responsáveis por grande parte da discriminação contra as mulheres, contra os homossexuais e as vítimas da escravidão e pelas aterradoras mortandades cometidas pelos Inquisidores com o uso cruel e bárbaro do fogo. Mas quero lhe formular uma última pergunta.

Voltou a provar do vinho e desfechou:

- Qual foi a verdadeira causa que levou a esse jovem judeu, Jesus de Nazaré, procurar e conseguir ser crucificado?

Paulo de Tarso:

- Porque ele tinha planejado salvar o povo judeu como sendo o Messias. Depois salvaria o mundo todo.

- Tenho acompanhado os noticiários televisivos. Nos Estados Unidos há um best-seller de um pesquisador bíblico que chega à conclusão que Jesus de Nazaré teria sido portador de esquizofrenia e, em seus delírios, se dizia ser filho de Jeovah e que ressuscitaria para provar isso. Desejaria fundar uma seita, como a dos fariseus, saduceus, em que ele seria o grande líder, juntamente com sua família e Maria Madalena. O que me dizes a respeito?

Paulo de Tarso:

- Lembra - grande Deusa, que eu disse aos meus adeptos, que se ele não tivesse ressuscitado, seriam vãs nossas esperanças? Como poderia eu fazer tal pergunta se não estivesse correta a minha afirmativa anterior de que eu teria recebido uma visita do Mestre de Nazaré, no caminho de Damasco? Ora, sendo verdadeiro esse contato, não teria eu que falar jamais em esperanças, mas, sim, na mais absoluta certeza. Fui muito infeliz nesses escritos. Foi um ato falho, devo confessar.

- Não respondeu à minha pergunta.

- Fá-lo-ei agora, Altíssima. Eu não vi Jesus de Nazaré vivo. Logo, tenho que formar minha opinião analisando os relatos que me chegavam dos seguidores dos apóstolos. Eles inventaram o arrebatamento de Jesus de Nazaré para as nuvens? Eles ocultaram o corpo dele?

- Continua sem responder – replicou a deusa. Não quero perguntas, quero esclarecimentos cabais.

- Devo ser coerente. Eu tive uma visão no caminho para Damasco, foi isso um delírio, ou foi tudo inventado para que eu me tornasse um sacerdote muito bem sucedido?

Paulo de Tarso, embora as palavras duras que ouvira logo que chegara ao Terceiro Céu, sentia simpatia pela mãe de um dos Jesuses descritos na Bíblia. E continuou:

- Eu concluo que esse jovem judeu foi muito feliz ao pregar o amor, a fraternidade, o perdão e a igualdade entre homens e mulheres. Mas, sendo ele filho de Jeovah, não tinha a menor necessidade de expor-se à humilhação do chicote, da cruz e do escárnio por que passou. Não bastaria convocar as legiões de anjos para liquidar com o exército romano que tantos sofrimentos traziam ao seu povo cativo? Não está claramente escrito que bastou somente um anjo de Jeovah para aniquilar, numa só noite, a cento e oitenta e cinco mil soldados assírios?

A Deusa Oculta:

- Tenho que reconhecer a sua argúcia, israelita da cidade de Tarso e soldado a serviço dos inimigos romanos. Bastariam uns dez anjos desses para varrer da Palestina os invasores. Por que não o fez?

Paulo de Tarso:

- Porque talvez estejam certos os sacerdotes saduceus, também adeptos de Jeovah: não existem anjos nem ressurreições, nem espíritos. E o fato de Jesus de Nazaré deixar de invocar esses poderosos anjos a serviço de Jeovah, seu suposto pai, é um indício de que ele poderia, sim, sofrer de delírios e esquizofrenia de que fala o livro best-seller a que a Altíssima Deusa se referiu.

Paulo de Tarso, embora o frio - suava muito no rosto. Enxugou-o e, olhando para os lados:

- Obviamente que tudo que estamos falando ficará entre nós. Para meus dizimistas nada disso pode ser revelado. Quero, no entanto, esclarecer: os dízimos vinham em profusão, sim. Tanto que não fiz disso nenhum segredo em minhas epístolas. Mas, o que me trazia grande prazer era ser respeitado, venerado e sabedor de que até inimigos de Israel - como era o caso de Roma e vizinhos dos judeus - se submeteram diante de palavras da minha boca de humilde soldado. O poder sacerdotal é inebriante. O pastor acaba por acreditar nas suas inteligentes mensagens. Ele passa a ter o mesmo prazer dos dizimistas! Ele passa a crer que realmente irá ressuscitar e subir até aqui onde agora estou! Ele é chamado para atos importantes, funerais, casamentos de reis e de pobres mediante pagamentos, extremas-unções, inaugurações, batizados e nos confessionários até altas autoridades lhe contam seus segredos. Tudo isso é para ele muitíssimo melhor do que amainar a terra, de sol a sol, para obter seu sustento.

Respondeu a Deusa Oculta:

- Estou admirada pela sua sabedoria. Vejo que me confidencia a realidade e não as cantigas que faz aos gentios que buscam alívio para suas miseráveis vidas. Mas, diga-me: se ninguém ressuscitou, como o senhor admite em suas cartas, não seria o caso de aceitarmos, também, que essa reunião, aqui neste Terceiro Céu por ti anunciado, é meramente um delírio?

Paulo de Tarso, sem titubear:

- Obviamente! Já vimos que existem duas hipóteses para as divindades e os ressuscitados nas nuvens. Na primeira haveria um céu repleto de seres com carne, ossos, sangue, cérebros e vinho, tronos, trombetas e asas para que as aves humanas possam voar. A segunda, por mim adotada nas mensagens aos adeptos gentios, teria um céu vazio, sem alimentos, sem vinho, sem trombetas, sem asas de anjos, sem tronos. Através desse céu passariam voando normalmente as aeronaves e os pássaros. Essa hipótese, no entanto, se choca frontalmente com a primeira e, embora eu nela insista, não tem a menor chance de subsistir. Seria um Reino de Jeovah imaginário, virtual como se diz atualmente. Seria um Reino de Jeovah em que não poderia subsistir a história dos filhos divinos nem sua descida para o solo terrestre para dar netos ao Senhor dos Exércitos de Israel.

A Deusa Oculta:

- Nessa segunda hipótese, não estaríamos agora conversando, evidentemente. E o pior, senhor Paulo de Tarso: ela liquida com suas histórias epistolares. Essa sua versão é ainda pior do que a primeira, para efeitos dizimadores sacerdotais.

- Sim. Mas continue, por favor.

A Deusa Oculta:

- No seu relato Jesus de Nazaré não poderia ter subido através do arrebatamento descrito pelos evangelistas. Arrebatar o quê, se corpos não seriam admitidos nas nuvens? E o mais grave, senhor Paulo de Tarso: para quê ressuscitar o organismo vivo de Jesus de Nazaré? E que destino teria ele? Se não podia subir, esse corpo continuou vivendo incógnito, em terras longínquas? E quem seriam os arrebatadores, se somente poderiam sobreviver espíritos – que não se alimentam – nas nuvens? E ainda mais grave: ficaria constatado um embuste espetacular, perpetrado por quem tivesse interesse em criar uma seita dizimatória, como é costumeiro?

- E o outro escritor evangelista afirmou que o corpo foi elevado – continuou a Deusa. Por quem? Anjos? Sem músculos e sem asas feitas de penas – afinal não dizes que no céu carne e ossos não existem? Ou há uma exceção para humanóides alados? Só porque assim te apraz afirmar? Teus ouvintes eram pessoas incultas, ignaras, crédulas, talvez parvas?

A Deusa Oculta, majestosa, bela e luzindo como só as deusas resplandecem, voltou a caminhar, imponente. E, frente a frente com sua visita, desfechou:

- Peço que se levante - senhor Saulo da cidade de Tarso.

Um pouco assustado, Paulo de Tarso ergueu-se com dificuldade e encarou a sua anfitriã do Terceiro Céu. Disse ela, quase inaudivelmente:

- A sua hipótese é uma tentativa de melhorar a história criada pelos apóstolos israelitas. Mas as duas versões são delirantes. São impossíveis de se confirmarem. E inúteis. Sugiro que se retire e não mais interfira no julgamento que Jeovah leva a efeito aí abaixo. Permaneça com as glorificações que um bilhão de gentios lhe fazem em suas igrejas. Continue a dar-lhes esperanças. Suas miseráveis vidas o pedem.

Foi Paulo de Tarso conduzido por um anjo Dominação até o local do tablado reservado para as decolagens. Despediu-se também do humano que havia subido sem aguardar o Juízo Final e sem haver ressuscitado, caso bíblico único.

- Que alegria revê-lo – disse o que subira. Relataram-me, Saulo, que somente conseguiste sair de teu túmulo, em Roma, agora, passados dois milênios. Lembras certamente que eu subi no primeiro século.

Paulo de Tarso:

- Pois você somente existe e está aqui porque eu o relatei e criei em minhas cartas aos fiéis de Corinto, em 12,2-4. Como você conseguiu essa proeza? Como você pôde subir sem o julgamento do Juízo Final, dois mil anos antes de mim?

Respondeu o homem:

- Pois subi justamente porque você assim escreveu. Consta na Bíblia, não há como se duvidar. Aliás, fiquei muito surpreso com a existência do Terceiro Céu. Há aqui muito frio, mas, em compensação, estou na morada dos deuses, longe das conturbações dos outros céus abaixo.

Paulo de Tarso despediu-se do felizardo, subiu nas costas do serafim preferido. Lembrou-se de perguntar:

- A propósito, você subiu com o seu corpo ou sem o seu corpo? Continua a ouvir coisas inefáveis ao lado do trono de Jeovah?

O conhecido de Paulo de Tarso ia responder, mas o ser alado bateu asas e alçou voo. Paulo conseguiu ver ainda que o homem fazia sinais para seus olhos, indicando que podia ver.

E caiu céu abaixo o grande sacerdote dos gentios. A magnífica e agora revelada deusa, enquanto isso sorria feliz.Finalmente dissera aos humanos discriminadores de mulheres tudo que sempre quis lhes comunicar.