Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 37 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 36

 

Decidiram que Paulo de Tarso havia contribuído bastante para o julgamento do Juízo Final. Pelo telefone celular Jesus de Nazaré recebeu o pedido de novos alimentos. Cem bilhões de ressuscitados e mais os vivos estavam já cometendo canibalismo. Jesus de Nazaré pediu que lhe trouxessem um cesto com pães e uma garrafa de vinho. Estendeu os braços e o globo terrestre foi coberto com esses alimentos. Peixes não os havia mais.

Recebeu também uma comitiva das Mulheres Queimadas:

- Mestre - nosso processo com pedido de indenização contra a Inquisição e seus responsáveis romanos está prestes a terminar. Nós queremos formular uma postulação bastante simples.

Jesus de Nazaré:

- Certamente que ouvirei com muito prazer. Sempre defendi as mulheres, enquanto vivia e antes de ressuscitar.

A líder das Mulheres Queimadas:

- Todos sabemos disso. Foste o primeiro a considerar as mulheres iguais aos homens. Combateste o apedrejamento de mulheres adúlteras e a morte das filhas que não tenham gritado quando supostamente estupradas (muitas morreram porque o agressor tapou a boca da pobre adolescente), bem como o divórcio como exclusividade de iniciativa dos homens. Combateste a escravidão de mulheres, embora isso não tenha sido escrito na Bíblia Sagrada. Nela consta que Paulo de Tarso, no entanto, manda que os escravos – que chama de servos – sejam obedientes aos seus senhores. Ordenou isso na sua Carta aos rebanhos de Éfesos, em 6,5: “Servos, obedecei a vossos senhores temporais, com temor e solicitude, de coração sincero, como a Cristo”.

Jesus de Nazaré interrompeu:

- Um minuto, por favor. Vejo que conheces profundamente a Bíblia. E percebo que novamente Paulo de Tarso determina que os oprimidos, as mulheres e os escravos sejam dóceis e tenham medo dos escravagistas. Só agora me dei conta desses escritos dirigidos aos Efésios por Paulo.

O Mestre mostrava-se indignado:

- Esse soldado romano - além de combater os homossexuais, tratar as mulheres com profundo desrespeito, preconizar o uso do fogo para os que rotula de apóstatas, usar do nome de Jesus de Nazaré para obter ovelhas gentias sob ameaças de fogo - defendia a escravatura?

O Nazareno pediu desculpas às mulheres e continuou:

- O que posso fazer por vocês?

- Queremos de volta nossa aparência de antes da fogueira - falou a líder das Mulheres Queimadas.

Jesus de Nazaré e todos observavam, horrorizados, o aspecto que as queimaduras haviam provocado nas vítimas dos agentes romanos, os Inquisidores, os líderes religiosos encarregados da grande bestialidade que levou à morte mais de quinhentas mil Mulheres Queimadas vivas em fogueiras.

- Quando o fogo foi ateado, estando eu amarrada no poste, no centro da praça pública, meus pés começaram a retorcer-se. A pele foi queimando lentamente enquanto as labaredas cresciam. Os ossos das pernas apareceram. A dor foi terrível. As chamas logo atingiram meus órgãos genitais.

Chorava copiosamente a mulher ressuscitada. Mas prosseguiu:

- Eu estava grávida de oito meses e sentia meu filho movimentando-se desesperadamente enquanto começou a ferver o líquido da bolsa. Eu lembro que urrava enquanto os padres inquisidores gargalhavam em frente à fogueira. Lembro que diziam : purifica-te, pecadora. As chamas chegaram até os mamilos. O cheiro de minhas carnes queimando se misturava ao dos meus longos cabelos. Senti minha mandíbula e meu nariz desaparecerem, expondo os ossos e dentes, como agora me vês Mestre. Meu coração deve ter parado de bater logo depois que meus olhos começaram a queimar.

O mundo estava sem respirar. Durante dois mil anos os utilizadores do Grujuem haviam cometido essas horrendas práticas. Era o fogo ordenado por Jeovah contra as feiticeiras e o fogo de Paulo de Tarso contra os apóstatas, aos rebeldes.

Jesus de Nazaré:

- Sei o que desejas. Queres que a ressurreição para o Juízo Final, prevista pelo Novo Testamento, pelos quatro evangelistas que o escreveram, não se realize assim. Queres que a ressurreição seja levada a cabo para que os corpos de vocês ressuscitem como estiveram nos minutos, horas ou dias logo antes da fogueira ou qualquer das outras formas de tortura utilizadas pelos agentes romanos da Inquisição.

- Exatamente, Mestre. De que vale entrarmos no céu, ou mesmo ficarmos no solo, no estado em que nos encontramos agora? A maioria de nossos órgãos não funciona mais. Muitas estão cegas, pois morreram após as chamas ou os alicates dos Inquisidores terem destruído suas córneas.

Jesus de Nazaré, durante dois mil anos, nunca descera até a Terra. Não tivera oportunidade de ver o estado das Mulheres Queimadas jogadas em seus túmulos. Eram quinhentas mil, diziam os historiadores com quem já falara. Mas poderiam ser milhões.

Jesus de Nazaré abraçou as mutiladas, uma a uma. Chorava copiosamente enquanto seus beijos somente encontravam mandíbulas sem carne, cabeças sem orelhas, sem narizes e sem cabelos.

Jesus de Nazaré foi até Mateus, Marcos, Lucas e João:

- Vocês escreveram sobre este Juízo Final. Esclareçam se os ressuscitados voltam a usar seus corpos exatamente como os possuíam na hora da morte ou se podem ressuscitar mais jovens e ainda não portadores de qualquer enfermidade.

Os quatro evangelistas se entreolharam. Finalmente Mateus:

- Lázaro ressuscitou e ficou com o aspecto exatamente igual ao do momento da sua morte, pelo que se pode depreender dos Evangelhos. E os ressuscitados por ocasião da crucifixão de Jesus de Nazaré, aqueles rotulados de justos e que saíram dos túmulos que se abriram, devem também ter saído das tumbas com o mesmo aspecto que tinham na hora da sua morte. Não julgo que se possa ressuscitar senão com o mesmo aspecto que o morto tinha no exato momento em que seu coração parou de bater.

- O que dizes Jeovah, Senhor dos Exércitos judeus?

- No Velho Testamento não há previsão de ressurreição, como eu já disse tantas vezes aqui. A ressurreição foi criada pelos doze ou treze judeus, conhecidos por apóstolos, que enfrentavam meus rabinos, meus príncipes e Sumo Sacerdotes. Eles é que devem explicar melhor o que escreveram os quatro evangelistas. Repito: eu não deveria estar aqui. Nunca prometi ressurreições e julgamentos em nuvens.

Jesus de Nazaré assentiu com a cabeça e voltou-se para o apóstolo Tomé:

- O que opinas Tomé?

- Parece que há um antecedente para o caso - respondeu o apóstolo mais cético de todos. Lembras- Mestre, que me mostraste os furos das tuas mãos, quando eu não acreditei que havias ressuscitado?

Jesus de Nazaré exibiu ambas as mãos. Lá estavam marcas profundas em que os pregos o haviam sustentado na cruz. Disse:

- Minha ressurreição foi defeituosa ou não? Pelo que vejo a ressurreição é feita de tal forma que o corpo seja exatamente igual àquele existente no momento em que o coração para de bater.

Jesus de Nazaré poderia ter exibido os furos deixados pelos pregos nos pés e o corte que o soldado lhe produzira com a lança no seu lado. Mas não o fez. Disse:

- No meu caso concluo que os narradores bíblicos pretenderam produzir uma evidência para leitores. Se Tomé colocou seu dedo no furo da mão, isso seria uma evidência de que o relato da ressurreição deve ser aceito pelos fornecedores de dízimos. Esqueceram-se, no entanto, que não havia sangue suficiente, já que este escorrera aos pés da cruz.

Em Berlim o Tribunal Internacional de Haia continuava seus trabalhos. Anjos eram requisitados. Peritos eram ouvidos. Mulheres Queimadas e ressuscitadas desfilavam seus terríveis depoimentos. Die Maschiene reproduzia tudo em um dos seus canais de televisão.

No mundo a carnificina continuava. Exércitos antigos se reorganizaram e combatiam contra tudo e contra todos. Os soldados romanos que haviam ocupado Israel eram atacados pelas modernas aeronaves judaicas. A fome e a miséria mais completa se instalaram.