Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 8
Rezar não salvaria a ninguém! Os jornalistas agora estavam aparvalhados. Os repórteres perplexos. O mundo atônito. A Máquina foi acionada e informou : Na Bíblia não existe promessa de ressurreição para quem se limita a rezar. Confessar, água benta, hóstia, cantorias nas ekklesias, caridades, nada disso seria de utilidade no Juízo Final. As ovelhas deverão crer nos sacerdotes. Somente isso. Era a regra criada por Paulo de Tarso. Esse é o pressuposto primeiro e não pode ser superado por qualquer outro.
Freneticamente o Novo Testamento foi lido em toda parte. Mas nada que garantisse a absolvição por simples rezas foi encontrado. Os ricos não se salvam com orações. Nem os pobres, principalmente caso tenham blasfemado contra o Espírito Santo. Sobre hóstias nada havia. Nem sinos, confessionários, cantos gregorianos hipnóticos, torres, cruzes, Bispos, beatificações, santos e rogos por parte da idolatrada Maria junto aos deuses judeus. Esses comentários jornalísticos chegaram pela Maschiene.
A Máquina voltou a informar: havia na Bíblia Sagrada uma possibilidade a ser examinada: a penitência! Estava escrito em Mateus 3,1-17, resumidamente: “Apareceu no deserto João Batista; saiu fogo da água e batizou Jesus de Nazaré; as pessoas confessavam seus pecados e eram também batizadas nas águas do Jordão com a ordem de fazerem penitência porque está próximo o Reino dos céus”.
Jesus de Nazaré:
- Mateus escreveu tudo isso. Fazer penitência, antes mesmo de minhas pregações e morte na cruz, salvaria os adeptos de João Batista? Ou se trata de uma interpolação dos copistas romanos, já que confessar pecados e penitências não eram previstos nem por Jeovah nem por Jesus de Nazaré?
Moisés interveio:
- Jeovah tudo via e tudo sabia. Não necessitava de confissões. Penitências também não eram previstas pelos meus sacerdotes. Havendo pecados, fatalmente haveria o castigo de Jeovah, salvo os casos em que o sacerdote recebesse pagamentos para isentar sua ovelha ou cliente de castigos divinos.
O tema das penitências, trazido à tona pela Máquina, foi rechaçado. Não se tratava de pressuposto bíblico apto a absolver.
Mas novamente a Máquina pesquisou a Bíblia e apresentou ao Juízo Final um tema nunca antes examinado : “O que os apóstolos prometiam aos judeus que visitavam, enquanto Jesus de Nazaré ainda vivia normalmente como ser humano? Eles nada sabiam sobre a ressurreição que algum dia haveria de ocorrer. Prometiam aos candidatos a hospedeiros, quando chegavam às casas, que o Reino dos Céus estava próximo, tal como João Batista? O que era exatamente o evangelho, nesses dias? Os visitados deveriam confessar pecados aos andrajosos pescadores descalços e, ainda, fazer penitências? Os visitados deveriam fazer entrar em seus lares pessoas completamente desconhecidas, simplesmente porque estas se diziam partidárias de um judeu que se dizia filho do deus israelense Jeovah e que não estava presente ao ato da chegada às casas”?
Mateus manuseou a Bíblia e, com ar vitorioso:
- Escrevi em 4,12-25, resumidamente também: “Jesus foi morar em Cafarnaum, à beira do lago e passou a pregar: Fazei penitência, pois o Reino dos céus está próximo. Ensinava nas sinagogas da Galiléia e fazia curas para multidões da Decápole, de Jerusalém, da Judéia e dos países do outro lado do Jordão”. Vemos que, embora rabino, mandava fazer penitências em virtude de estar próximo o Reino dos Céus. Obviamente o prêmio da penitência seria participar desse Reino dos Céus que estaria chegando com grande brevidade! E fazia essas pregações em sinagogas! Ensinava os judeus frequentadores desses templos judaicos, lendo os textos do Velho Testamento! O reino seria messiânico, terrestre – a salvação de Israel do jugo romano.
Jesus de Nazaré:
- Este Tribunal do Juízo Final deverá realizar um concílio para decidir sobre o assunto. Quem fez penitências deverá ser salvo, subir para os céus? Mesmo que tenha descumprido com os demais pressupostos bíblicos? Um assassino confesso poderá ser salvo se fizer uma só penitência?
Concordaram todos e em breve o Concílio Celestial do Juízo Final seria realizado. Jesus de Nazaré:
- O texto de Mateus contém ameaças de novo, de João Batista e de Jesus de Nazaré: ou fazes a penitência, ou o castigo virá – está próxima a vinda do Reino. A promessa da penalização está novamente presente, implícita. Lamentável. Triste forma de obter ovelhas, pobres ovinos. E dízimos. E glória bíblica. Rezar e penitências: astúcia de sacerdotes.
Ordenou Jesus de Nazaré então que lhe trouxessem os principais dizimadores daqueles dias do Juízo Final. Chegaram carregando o Bispo mais bem sucedido das igrejas chamadas evangélicas.
- Bispo, vamos julgar-te. Mas, antes, quero que me expliques como age a tua organização religiosa.
- Usamos a televisão. Nossos programas atraem os adeptos para as nossas igrejas. Deixam o dízimo nos templos e em contas bancárias. Depois partem contentes. É que nós lhes damos o que eles precisam: a promessa da vida eterna - exatamente como sempre o fizeram os apóstolos judeus e romanos. E lhes damos conforto, fazemos curas milagrosas, como o faziam os apóstolos e os incontáveis milagreiros bíblicos. Os ensinamos a se tornarem bem sucedidos em seus negócios, bem como felizes em seus casamentos. Ensinamos a temer a Jeovah e obedecer a seus dez mandamentos. Fazemos com que trabalhem em campanhas beneficentes e busquem novos adeptos.
Jesus de Nazaré:
- Acabo de receber a notícia de que a tua organização arrecada milhões em forma de contribuições das tuas ovelhas. Relatam-me que sacos de dinheiro são transportados para tuas organizações e as contas bancárias crescem extraordinariamente. Isso não te repugna, tomar dinheiro de pessoas pobres, contrariando frontalmente meus ensinamentos? Tornas mais pobres os já pobres? Não ensinei que são os ricos os que devem se tornar pobres?
O Bispo:
- Não, certamente que não. Está escrito na Bíblia que todos devem dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Essa frase Mateus e seus colegas atribuíram a você. Logo, receber dádivas foi recomendado por você e, como não podemos enviá-las para Jeovah ou para você, postados nas nuvens como bem o explica a Bíblia, nós ficamos guardando e aplicando esse dinheiro, sobre o qual não há imposto algum, nem em favor de César, nem para o Governo. Aliás, os relatos sobre as doações de terras e casas são perfeitamente claros: são ajudas bíblicas para que Deus possa se alegrar e para que o rebanho aumente sem cessar.
Jesus de Nazaré parecia espantado. Continuou:
- Vejo que todos são dizimadores. Os romanos, pelo que ouvi, chamam isso de decimare, ou seja, tomar a décima parte em forma de doações. Vocês não sentem remorsos por tomar o dinheiro de seus fiéis, tirando alimentos de seus filhos?
O Bispo:
- Não. Eles precisam de nossas mensagens de fé em uma vida após a morte. Recebem bengalas emocionais e pagam por isso. Já os apóstolos faziam isso. Paulo, como vimos pela leitura dos textos bíblicos que ele próprio escreveu, tornou-se dizimador. Ele trouxe aos gentios, aos não-judeus, promessas de vida após a morte, não importando se tivessem pecado ou não. Isso foi muito melhor para os dizimados do que continuar com Jeovah, que não fazia tais promessas e somente se preocupava em castigar com chagas, hemorroidas, úlceras, gafanhotos e assim por diante. Os rabinos possuem clientes, como se lê no Velho Testamento, em II-Reis 12,5 e 12,7. Nós possuímos ovelhas. Possuímos rebanhos bíblicos. O dinheiro arrecadado é destinado a Deus.
- E Jeovah o vem buscar?
Ouviram-se gargalhadas em todo o globo terrestre. Mas, sério, Jesus de Nazaré continuou:
- Muito bem. Aqui estamos prontos para o julgamento. Pressuposto absolutório bíblico número um: você acreditava em mim?
- Obviamente.
Jesus de Nazaré:
- Você foi justo e pobre?
O Bispo estava atento às perguntas. Percebeu que algo não ia bem, pois eram admitidos no céu os que acreditaram em Jesus de Nazaré. Lembrou Tiago 5,1: “Vós, ricos, chorai e gemei por causa das desgraças que sobre vós virão”. Pensou mais por longos minutos e respondeu:
- Não penso ter sido justo. Eu recebia os dízimos, sim, mas ao mesmo tempo eu me condoía com as mães pobres que vinham aos nossos templos deixar seu dinheiro, com prejuízo do alimento destinado aos filhos. Elas insistiam em deixar dinheiro nas sacolas e levar a cabo depósitos bancários.
- Não temes ser condenado por afirmar isso?
O Bispo:
- Não. Mateus e seus colegas escreveram que você teria dito que não tinha vindo salvar os justos, mas, sim, os ímpios e pecadores.
Jesus de Nazaré:
- Não é bem assim. Também está escrito que os que forem justos herdarão o reino de Jeovah. Logo, os que não forem justos, irão para o Inferno ou para as fornalhas supostamente eternas da Geena, em Jerusalém.
O Bispo:
- Isso não me parece provável. Você não teria vindo suicidar-se na cruz para salvar Israel e demais nações, com o que os pecados estariam perdoados?
- Você foi ou é rico?
O Bispo:
- Todo o dinheiro é usado para construirmos novas igrejas. Temos muitos milhões, mas o dinheiro pertence à Jeovah e os dizimadores são autorizados a administrá-lo.
Die Maschiene apresentou o seguinte texto:
“A Igreja Evangélica foi condenada a pagar indenização de R$ 20 mil por ter coagido fiel a doar seus bens em troca de bênçãos. A decisão é da 9ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, que confirmou decisão de primeiro Grau.
A mulher e seu companheiro ajuizaram ação na Comarca da cidade de Lajeado, no Brasil, afirmando terem sido enganados e iludidos. A mulher narrou que o casal vinha passando por problemas financeiros, razão que a levou a procurar a Igreja. Contou que, ao final de cada culto, os pastores recolhiam certa quantia em dinheiro e afirmavam que, quanto mais dinheiro fosse doado, mais Jesus daria em troca.
Salientou que, em função da promessa de soluções de seus problemas, realizou diversas doações: vendeu o veículo que possuía, entregou joias, eletrodomésticos, aparelho celular e uma impressora. Os autores pediram indenização por danos morais.
No primeiro Grau, a juíza condenou a ré a restituir os celulares e fax, dois aparelhos de ar-condicionado e uma impressora. Também determinou o pagamento de indenização por dano moral em vinte mil reais, ou seja, dez mil dólares.
A Igreja recorreu da sentença. Alegou que não constrange seus fiéis a entregar dízimos ou doações e que não há nenhuma prova de que a mulher estivesse privada de discernimento durante o período no qual frequentou a igreja. Salientou que ela passou a frequentar o local por vontade própria. Apelação. Inicialmente, o relator da apelação salientou que, uma vez que o dízimo e a oferta, em regra, são atos de disposição voluntária voltados à colaboração com o templo religioso, podem ser classificados como doação. Mas destacou que a doação pode ser anulada quando a pessoa é coagida a doar, sob pena de sofrimento ou penalidades. Nesses casos, a violência psicológica é tão ampla e profunda que anula, por completo, a sensatez e a manifestação da vontade, salientou. Citando decisão da magistrada da cidade de Lajeado, observou que as testemunhas ouvidas – dentre elas o pastor da igreja – confirmaram que a mulher, que era empresária, vinha passando por dificuldades financeiras. Alguns dias depois de começar a frequentar o local, ela teria dado um testemunho na igreja de que conseguira um bom contrato. Os relatos de pessoas que frequentam a igreja explicaram como funciona a oferta, momento em que o pastor passa um envelope para os presentes realizarem doações. Uma delas contou que já entregou em torno de R$ 5 mil e um carro. Contaram também a respeito do voto quebrado. O fiel se compromete a uma determinada doação e recebe uma carta que, baseada em trecho da bíblia, traz as penalidades sofridas por quem não cumpre suas promessas. A Juíza de primeiro Grau apontou que a partir da prova testemunhal produzida, verifica-se que a instigação maior ao ato de doar é realizada nos dias da Fogueira Santa, ocasião em que os fiéis são desafiados a realizarem donativos superiores, restando evidente que, apesar do consentimento externado pela doação, foi ele deturpado pela coação moral e psicológica exercida pela requerida, Igreja Evangélica. Enfatizou que os depoimentos demonstram que a autora, juntamente com os demais fiéis, foi desafiada a fazer donativos, inclusive superiores a sua capacidade financeira, com o objetivo de provar a fé e sob ameaça de não ser abençoada. Danos materiais e morais. As testemunhas e documentos apresentados pela autora atestaram a entrega de dois aparelhos de ar-condicionado, um fax, uma impressora e uma cozinha. Parte desses bens foi devolvida aos autores, portanto foi determinada a restituição dos bens, conforme determinado na sentença. Quanto às doações que não foram comprovadas, não foi determinada sua devolução. O dano moral foi mantido em R$ 20 mil, a fim de compensar a autora pelos danos sofridos e, ainda, inibir a condenada de praticar novos atos lesivos semelhantes. A quantificação do dano material (referente aos bens doados) será fixada na fase de liquidação de sentença. A decisão é do dia 28/11/2012. Apelação Cível RS nº 70051621894”.
Jesus de Nazaré, após ler o texto em voz alta:
- Bispo - vou reler parte da decisão do Tribunal de Justiça do Brasil: “Os pastores recolhiam certa quantia em dinheiro e afirmavam que, quanto mais dinheiro fosse doado, mais Jesus daria em troca”. Consta da decisão judicial, ainda: “Sob ameaça de não serem abençoados!” Eu, o paladino dos pobres e desvalidos, estaria sendo usado para que a dizimista doasse quantias tão grandes? Eu jamais ensinei isso! Afinal, quem eram esses quatro escritores, apelidados de evangelistas? Ninguém sabe. E nunca me coheceram pessoalmente! Somente Marcos seria identificado - um médico, aluno de Paulo de Tarso.
O Bispo:
- Esqueces que Pedro, o teu apóstolo preferido, tomou o dinheiro da venda de propriedades imóveis de Ananias e sua mulher? E que Paulo de Tarso ia pessoalmente receber o dinheiro de suas ovelhas se valesse a pena? Esqueces que Moisés ordenou ao povo judeu para que as primícias fossem dadas aos sacerdotes levitas, onde seu irmão Aarão foi o primeiro aquinhoado? E que esses sacerdotes tinham o poder de trocar o perdão por terras que lhes fossem dadas pelos seus dizimistas pecadores? E que esses precursores dos rabinos recebiam como ofertas o filho primogênito do dizimista judeu, que depois poderia ser resgatado mediante pagamento? E os primogênitos do gado? E o dízimo trienal? E que tudo isso está perfeitamente dentro das leis religiosas e das leis dos povos e seus soberanos? Além disso, escreveram que dizias que todos devem se tornar pobres!
Jesus de Nazaré estava prostrado. A Bíblia Sagrada se revelava a brutal lei da atividade predatória pastoral, criada pelos próprios pastores narradores dos livros contidos na Bíblia Sagrada.
Nada havia a fazer. Dirigiu-se ao Bispo, fitando-o com um olhar que parecia uma mescla de desprezo e de compaixão:
- Você e seus associados tornaram-se muito abastados, tal como já ocorreu com os romanos. Tomou dízimos dos pobres e dos desesperados por enfermidades. Você não é pobre. E, possuindo muitos bens, por consequência, eu te condeno às fornalhas da Geena, pois está escrito que os ricos não irão ao céu. Levem-no - ordenou.
O Bispo evangélico:
- Permita-me recorrer ao Tribunal - disse dirigindo-se agora a Jeovah. Meus dizimados nunca adoraram outros deuses, nem ídolos, nem imagens. Em troca dos dízimos eu e meus colegas dizimadores ensinávamos os nossos rebanhos a respeitarem os dez mandamentos, exatamente como você ordenou a Moisés. Isso cumpre com tuas leis e, assim, recorro a ti para que me absolvas.
Jeovah:
- Vejo que ficaste rico, mas, ao mesmo tempo, combateste o mal. Com isso estarias absolvido. Ocorre que nem Moisés nem qualquer judeu que escreveu o texto do Velho Testamento afirmaram que haveria ressurreição para quem quer que seja.
O Bispo evangélico:
- Sim, Jeovah. Mas os fatos mostram que estamos aqui, no Juízo Final, como está escrito no Novo Testamento.
Jeovah:
- Voltemos ao assunto de que tratávamos. Tens razão nesse ponto. Sem minhas divinas ordens ocorrem ressurreições. Mas quem escreveu que haveria a ressurreição? Acaso fui eu? Não. Quem escreveu isso foram dizimadores novos que surgiram e que foram combatidos pelos meus sacerdotes, Sumo Sacerdotes, príncipes e escribas, igualmente dizimadores. E você, Bispo evangélico, nada mais fez do que usar do Grujuem.
O Bispo, mostrando que conhecia muito bem o texto bíblico:
- Perdoe se vou comentar e discordar. Está escrito que você, Jeovah, levaria a cabo ressurreições. Vou ler em Pedro 1,3: “Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Na sua grande misericórdia ele nos fez renascer pela ressurreição de Jesus Cristo”. Lembro que o Grujuem pode ser utilizado por qualquer candidato a dizimista.
Jeovah:
- Sim. Grujuem - o Grupo de Judeus Emprestados. São vinte e dois ou vinte e três judeus que são usados pelos romanos, por milhares de seitas, igrejas e dizimadores em todos os tempos. Você também se valeu dele. Eu, contudo, não autorizei esses escritos do Novo Testamento.
O Bispo pareceu muito espantado. E Jeovah continuou:
- Você usa a Bíblia em seus discursos para os seus rebanhos. Você lê passagens que lhe convém desse livro e relata as obras de Moisés e seu deus israelense, Jeovah. Você fala às suas ovelhas das vantagens em crer no judeu Jesus de Nazaré. Você ovelhiza tal como se fazia após minha morte na cruz.
O Bispo:
- Me perdoe - Jeovah. Não são doze os apóstolos? E o Anjo Caído não é o Diabo?
Jeovah:
- Judas Iscariotes, após sua morte, foi substituído por Matias, por sorteio. Todos estão aí ao lado, como previsto na Bíblia. O Anjo Caído está descrito pelos dizimadores bíblicos como sendo um anjo que provocou uma revolta no céu. Repito Bispo - você agiu exatamente como todos os demais dizimadores. Valeu-se do Grujuem para conseguir seu rebanho. Posso culpá-lo por isso? Não creio. Está tudo permitido nas leis humanas e nos dois Testamentos!
Jesus de Nazaré:
- Vou tornar mais claro. O Grujuem me foi revelado neste Tribunal do Juízo Final. Constatei que o mais desprezível dos seres humanos pode organizar um grupo de pessoas interessadas em dízimos, enriquecer sem grande esforço. Basta que crie uma ekklesia e transmita aos seus dizimistas os nomes e histórias de vinte e dois israelitas. O Anjo Caído é de grande utilidade. Com ele os pastores criam grandes temores para suas ovelhas e tentam explicar a origem de críticas que possam lhes fazer.
Jesus de Nazaré viu que não entendiam o que dizia. E completou:
- Ekklesia é o termo grego usado por Paulo de Tarso para poder transformar-se de reles soldado em um grande e glorioso sacerdote. Como ele fez isso? Exatamente como o fazem os dizimadores que seguiram seus passos até a data deste Juízo Final. Ekklesia significa Igreja. É a tradução de uma palavra grega – ekklesia - que ocorre oitenta e cinco vezes na Bíblia, e todas no Novo Testamento. O seu significado é assembleia, congregação, ajuntamento ou reunião de pessoas. Indica um grupo de humanos que está junto porque foi convocado, porque alguém os chamou para aquela reunião. Pode ser uma congregação ou uma assembleia. Lembra a expressão da língua grega sunagoge – sinagoga - que indica uma junção de pessoas, igualmente. No Velho Testamento as sinagogas também foram chamadas de tendas de reunião.
Jesus de Nazaré viu que dos helicópteros se faziam comentários. Prosseguiu:
- Observamos que Paulo de Tarso abandonou minhas sinagogas e adotou as ekklesias, as igrejas. As torres já eram usadas por pagãos. Paulo, seus presbíteros e os seguidores dizimadores romanos, colocaram essas torres e sinos sobre essas edificações, copiadas dessas seitas pagãs. E dentro dessas ekklesias fez exatamente o que fazem atualmente quaisquer pessoas que desejam transformar-se em pastores: usou os nomes dos seguintes vinte e dois ou vinte e três israelitas: Jesus de Nazaré, Maria, José, Jeovah, Paulo de Tarso, Mateus, Marcos, João, Lucas (o único que dizem ser grego), os treze apóstolos e Lúcifer, o Anjo Caído. Em seguida basta prometer a ressurreição para quem crer e fornecer ajuda financeira para manter as igrejas e doar dízimos para Jeovah - e anunciar castigos eternos e cruéis para quem não cumprir com o primeiro requisito. O Diabo! Em inúmeras igrejas edificadas no século treze na Europa, observamos no alto das edificações esculturas de monstros assemelhados com hienas. Os ignaros e os cultos temem essas representações de diabos.
- Esse é o Grujuem – continuou o Mestre. Isso informou a Máquina, como já vimos e agora repito. Qualquer pessoa está fundando atualmente uma nova religião, como observei. Mas o mais grave: uma quadrilha pode fundar também uma nova seita.
No mundo se estabeleceu um grande alvoroço. O próprio Mestre parecia acusar igrejas. Ele prosseguiu:
- E isso não é novidade. Na Bíblia Sagrada isso é constatado, como lemos em Oséias 6,9: “Os bandidos são a força dela, uma quadrilha de sacerdotes; assassinam no caminho de Siquém, porque seu proceder é criminoso”. E os lucros que obtêm essas quadrilhas são todos perfeitamente legais. Há total liberdade religiosa em quase toda parte, pelo que observo. Basta que as ekklesias se digam religiosas e estarão razoavelmente protegidas das garras policiais e dos arrecadadores de impostos. O Grujuem é usado também por quadrilhas. Elas agem, no entanto, dentro da lei: recebem os dízimos e distribuiem esperanças na vida eterna através da ressurreição. Felizmente a maioria dessas organizações são criadas por pessoas dignas e que desejam ajudar. São pessoas que jamais tratariam Ananias e Safira como estes foram tratados pelo apóstolo Pedro.
Chovia muito. Relâmpagos riscavam o céu rente ao tribunal. Mas o Mestre não parecia preocupado e, protegido por uma capa que lhe alcançaram, prosseguiu:
- O termo quadrilha não parece apropriado, já que pode denotar a formação de um grupo de criminosos. O termo é usado também para exprimir a ideia de grupo, simplesmente. Ou seja, se a Constituição não garantisse a liberdade religiosa, poderia alguém identificar quadrilha de sacerdotes, mencionada na Bíblia, como sendo composta por quatro ou mais praticantes de desvios de conduta, puníveis com o encarceramento.
Recostou-se no belíssimo trono e continuou:
- A nova pergunta é: até onde podem agir os que praticam a liberdade religiosa? Ela permite enriquecimento sem causa? Os fiscais da lei têm o direito de permanecer em silêncio quando fatos notórios de acúmulos de grandes fortunas são observados nas muitas seitas que a todo momento se instalam? Ou essas autoridades não têm coragem para enfrentar os dizimadores? Para onde vai o dinheiro arrecadado? Alguém tem o poder de fiscalizar e ordenar lançamentos contábeis, como é feito com os demais cidadãos? Para onde vão os sacos de dinheiro que a cada culto são recolhidos?
O Bispo:
- Vejo que não me admites no céu. Jesus de Nazaré não me aceitou porque sou rico. Invoco meu direito de ser julgado pelos treze apóstolos. Afinal eles foram os responsáveis pela difusão do Cristianismo, sendo Pedro o principal deles – disse enquanto se dirigia até o mais conhecido dos discípulos.
Pedro:
- Seu caso é dos mais complicados, Bispo evangélico. Você foi rico, o que te impediu de ser salvo pelo Mestre Jesus de Nazaré. Mas você se tornou possuidor de tesouros porque obteve muitos dízimos em troca de seus serviços para os seus dizimados, suas ovelhas, seus rebanhos.
O pastor estava agora mais confiante. Sentou-se em frente aos treze apóstolos, sobre as asas de dois querubins que aí estavam para que os réus não caíssem. Tomou muito cuidado para não ficar próximo à face com o leão. E Pedro continuou com seu julgamento:
- Vou ler a passagem bíblica que interessa para o teu julgamento. Na Epístola de Tiago, em seu capítulo cinco está escrito: “Vós, ricos, chorai e gemei por causa das desgraças que sobre vós virão. Vosso ouro e vossa prata enferrujaram e sua ferrugem dará testemunho contra vós e devorará vossas carnes como fogo”.
Olhou para o réu, sorriu e disse Pedro:
- Correto foi o julgamento do Mestre Jesus de Nazaré. Cumpriu com as ordens bíblicas e todos sabemos que ele foi um amigo dos pobres. E o nosso rebanho, na Terra, foram os pobres. Viste o que aconteceu com Ananias e sua mulher Safira? Eram ricos e tentaram enganar-nos. Morreram no ato.
Pedro estava de pé. Usava uma capa vermelha com uma cruz desenhada com fios dourados.
- Vou ler outro trecho bíblico, Bispo evangélico. Está em I-Coríntios 9: “Se entre vós semeamos bens espirituais, será, porventura, demasiada exigência colhermos de vossos bens materiais? Ordenou o Senhor que os que anunciam o Evangelho, vivam do Evangelho”.
- Exatamente! - exclamou o Bispo, visivelmente contente com o rumo que tomava seu julgamento. Permita-me lembrar - continuou o Bispo: o próprio Jesus de Nazaré, nosso Mestre, disse que se deve dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.
O apóstolo Pedro parecia aborrecido com as interrupções. Continuou:
- Muito bem. Vemos que todos podemos colher dos bens materiais pertencentes aos nossos adeptos. Quaisquer que forem as seitas que utilizem o Grujuem, todas estão autorizadas a dizimar. Por isso, Bispo evangélico, embora abastado, embora enriquecido com o produto dos bens recebidos dos teus adeptos, meu voto é no sentido de tua absolvição.
Pedro olhou para os outros doze apóstolos e todos concordaram com sua decisão. Pedro ordenou que o Bispo evangélico fosse levado imediatamente para o alto do céu, embora chovesse torrencialmente naquele momento. Por precaução partiram dois Serafins, dois Arcanjos, dois Príncipes, duas Potestades, duas Virtudes e dois Querubins com rosto de leão e de pessoa, como descritos estes por Ezequiel em 41,19. Liderando o grupo subiu um Querubim de duas faces – humano e leão. O Bispo era um dos humanos que estavam vivos quando o Dia do Juízo Final foi instaurado. Era magro, não pesava muito. Em poucos minutos desapareceram, envoltos em nuvens cumulus nimbus, onde trovoadas e relâmpagos acompanhavam fortes ventos ascendentes e descendentes, com chuva de granizos, até atingirem em torno de dez quilômetros de altura. Passaram pelo Terceiro Céu, que estava fechado.
Mas, passadas três horas, caíram todos, congelados. O Bispo atingiu o trono de Matias, o apóstolo substituto. Rodopiaram ambos e foram aparados, logo abaixo, por alguns serafins. Matias foi recolocado em seu trono encharcado pela chuva. O Bispo foi depositado no solo onde logo descongelou e foi festejar a vida eterna com seus sacerdotes. As seitas derivadas estavam ultrapassando os romanos em fortuna. E nos salões secretos de seus templos somente eram servidos os mais preciosos vinhos produzidos no mundo terreno. Os Gewurztraminer da Alsácia eram muito apreciados pelas mulheres.
Mas os pátios dos templos estavam repletos de ressuscitados famintos. Os peixes e o pão haviam acabado. Pelas fendas das janelas os sacerdotes perceberam que estavam correndo grande risco. A turba cercava o imponente prédio.
Os olhares eram sanguinários. Muitos deles tinham sido dizimistas, ou, ainda, dizimados. Logo as imponentes portas do templo começaram a tremer. A massa de maltrapilhos irrompeu. Os pastores os receberam exibindo crucifixos ameaçadores. De nada adiantou.
A onda de corpos recompostos pelos responsáveis pela ressurreição bíblica ingressou na dispensa e na adega, situadas no porão. Tudo era devorado. Os preciosos vinhos franceses eram engolidos como água após serem as garrafas golpeadas na parede e decepados os seus gargalos. Os sacerdotes conseguiram fugir por uma porta existente nos fundos do templo.
As sinagogas nada sofreram. Estavam cercadas por soldados do exército de Israel, armados de lança-chamas. Os rabinos rezavam e cantavam: “Zicná beiom din uvacharut beiom kerav, keish milchamót iadáv lo rav”, ou seja, como velho no Dia do Juízo, como jovem no dia da batalha, como um guerreiro com muitos poderes.
Jeovah acompanhava tudo nas telas de TV da Maschiene. Rabinos de Jerusalém cantavam: “Titcabal tselotehon uvautehon dechol bet Yisrael codam avuhon di vishmaiá veimrú Amen” – Que sejam aceitas as súplicas e as preces de todo o povo de Israel.