Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 64 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 63

 

Enquanto isso, estavam sendo julgados os anjos que pecaram - mencionados por Pedro. Jeovah:

- O que têm a dizer em sua defesa?

- Nós somos anjos. Rebelamo-nos e, juntamente com nosso líder, fomos expulsos do céu. Chamam-nos de Anjos Caídos. Teríamos caído, mas isso não aconteceu: nós temos asas e descemos das nuvens para a Terra, voando.

Jeovah:

- O seu líder passou a ser conhecido por Satanás, Diabo, Serpente e até de Dragão, no Apocalipse. Nesse livro escreveu Pedro que vocês teriam um julgamento. Digam algo em sua defesa.

O anjo líder:

- Não há previsão bíblica para que sejamos submetidos ao Juízo Final. Anjos não podem ser julgados, somente os humanos ressuscitados e os vivos quando da instauração do Juízo Final.

Jesus de Nazaré:

- Queres dizer que o apóstolo Pedro mentiu? A Bíblia mente? Pedro, que tens a dizer ao Tribunal do Juízo Final? Quem te informou que os anjos pecaram? Quem te disse que eles foram precipitados em abismos? Quem te relatou que Jeovah não os poupou? Quem te informou que esses anjos foram reservados para um julgamento? Que julgamento, o Juízo Final? Os anjos, segundo Paulo de Tarso, não deveriam ser invisíveis, já que seriam meros espíritos?

Pedro:

- Escrevi isso para meus adeptos. Confesso que somente consta do Velho Testamento que os anjos caíram após uma rebelião contra Jeovah. E realmente João afirma, no livro Apocalipse, que havia um dragão, lá no ambiente em que vive Jeovah e demais habitantes celestiais.

Jesus de Nazaré:

- Ou seja, você inventou essa precipitação de anjos em abismos. Você inventou que eles seriam julgados. Obviamente que você não recebeu essas informações de Jeovah. Você criou esse relato, em sua carta aos dizimistas, para, novamente, os atemorizar. Anjos não podem ser julgados. Isso nem eu nem Jeovah previmos.

Jesus de Nazaré para Jeovah:

- Os seus anjos pecam?

Jeovah:

- Pelo que escreveram os sacerdotes bíblicos, eles parecem pecar, tanto que teriam sido expulsos por mim do céu.

Jesus de Nazaré:

- Não se pode confiar neles, portanto?

Jeovah:

- Não. Se o Anjo Caído e seus aliados, conhecido por Satanás, Diabo, Lúcifer ou Demônio, pecou a ponto de se transformar no maior inimigo que é usado pelos sacerdotes, por que não admitir que outros anjos pequem?

Jesus de Nazaré:

- E que pecado cometeram Lúcifer e seus anjos adeptos? A propósito, Paulo de Tarso: os anjos caíram para a Terra. Logo, tinham peso e massa corporal. Uma coisa que não possui matéria, como os ditos espíritos, obviamente que não cai. Não tem peso, não possui nada que possa ser atraído pela força da gravidade.

Jeovah:

- Eles se rebelaram contra mim, como está escrito na Bíblia.

Jesus de Nazaré:

- E se rebelaram por qual motivo? O dragão, descrito por João no Apocalipse, vivia nas nuvens. Ele se alimentava com o quê? Ele nasceu nas nuvens, ou ele foi arrebatado ao céu? Seria ele da família dos dinossauros, ou, então, um dos dragões de Comodo?

Jeovah:

- Isso não está explicado pelos sacerdotes que escreveram os dois Testamentos. Pergunte a eles.

Jesus de Nazaré para Moisés:

- Você e seus colegas sacerdotes escreveram que houve uma rebelião no céu. Explique no que consistiu tal rebelião.

Moisés, dirigindo-se a Jeovah:

- Nosso amado Melech ha-Melachim, Jeovah, Rei dos Reis. Não há escrito bíblico explicando isso. Mas vejo que Pedro, no Novo Testamento, possui uma informação nova: um grande número deles teria pecado. E se os anjos podem pecar, devem todos ser julgados por Jeovah e devidamente castigados com as penas habituais: lepra, hemorroidas, chagas, úlceras, tumores, tísica, granizo, estrume no rosto, fogo, espadas.

Jesus de Nazaré:

- Não concordo com isso. O Juízo Final não prevê essas torturas. Ou sobe, ou desce. Se forem absolvidos, voltam para o convívio com Jeovah. Se forem condenados, irão queimar eternamente nas fornalhas da Geena, esse forno que queima o lixo de Jerusalém, castigo que eu abomino e não aplico jamais nem ao maior dos meus inimigos, mesmo que fosse Pôncio Pilatos.

Jeovah:

- Peço que leiam o texto contido na carta de Pedro: Jeovah é que julgará. Não há previsão para julgamento em Juízo Final, embora ele fale em um Juízo. Adianto que não vou admitir a absolvição desses anjos rebeldes. É inaceitável que volte para o céu o Anjo Caído, Satanás, o Anjo Rebelde. Ele deve ser condenado a voltar para os precipícios de que fala Pedro.

Jesus de Nazaré:

- Me perdoe - Jeovah, Elohei Avraham, Elohei Yitzchak vê Elohei Ya `aqov, Deus do Patriarca, deus de Isaac, deus de Jacó, mas vou proferir meu voto: está escrito que eu não vim para salvar os justos, mas os ímpios e pecadores. Os anjos rebeldes pecaram? Sim, ninguém discorda. Eu os declaro salvos e ordeno que subam e voltem para suas nuvens. Quero registrar que esses relatos não tiveram testemunhas. Algum humano simplesmente escreveu sobre coisas que obviamente não poderia ter presenciado.

O impasse estava criado. Satanás, o anjo de luz, iria subir para seu lar original.

Um helicóptero acabara de chegar. Desceu uma mulher:

- Ó misericordioso Deus. Ó bondoso Pai. Ó infinitamente piedoso Deus!

Ajoelhou-se diante de Jeovah. Chorava copiosamente e trazia um rosário em sua mão esquerda. Beijou os pés de Jeovah, fez o sinal da cruz e desmaiou. Um dos anjos sentou-a em um trono de madeira e lhe passou sais sob o nariz. Voltou a si. Acalmou-se, olhou em roda, sorriu para Jesus de Nazaré, foi até ele e o beijou ternamente na face. Voltou para Jeovah:

- Ouvi todo o julgamento. Não posso admitir que tu, nosso deus, tu que estás retratado em todas as igrejas, tu que és idolatrado por tua infinita bondade, sejas neste Tribunal descrito tão barbaramente. Quero que te façam justiça.

Jeovah:

- Pois não me agradam as coisas que os sacerdotes judeus partidários desses apóstolos escreveram a meu respeito. Descrevem-me como o mais cruel dos deuses já criados pelos dizimadores humanos. Mas me surpreendem os elogios que me fazem nas igrejas romanas e nas igrejas evangélicas. E me envaideço, ao mesmo tempo, por me terem buscado das sinagogas para ser adorado por pessoas que não são israelitas. Mas há que se respeitar o que está escrito: Jeovah é deus exclusivo do seu povo, Israel. Como eu poderia ser deus dos egípcios, por exemplo, inimigos que escravizaram meu povo? Iria eu expulsar do Egito os seus deuses? Ou poderia ser eu um deus de um povo que, como o rei Nabucodonosor, escravizou os israelitas durante décadas? Não combati os seus deuses e seus faraós, enviando contra eles as mais terríveis pragas, matando a centenas de milhares de seus primogênitos? Como posso ser deus desses inimigos de Israel?

Paulo de Tarso interveio:

- Jesus de Nazaré é o deus dos gentios. E tu és seu pai. Eu te declarei o deus de todos os seres humanos, sejam judeus, sejam não-judeus – gentios.

Jeovah:

- Mas não me pediste autorização para isso, Paulo de Tarso. Eu sou o deus dos judeus. Eu os castigo, pelos seus pecados, que é aplicado na Terra, no solo, enquanto vivos os merecedores das reprimendas. Eu protejo o meu povo, Israel. Eu elimino os inimigos de meu povo. Eu envio meus anjos para matar, pela espada, os inimigos dos judeus. Eliminei impiedosamente os egípcios com moscas venenosas, úlceras, granizo, pragas de rãs. Eu disse aos egípcios e seu faraó: “Deixa partir o meu povo”, como está escrito em Êxodo 7,26. Não posso ser, portanto, o deus dos inimigos de Israel. Meu povo, assim está escrito. Israel é meu único povo. Não posso ser o deus do Faraó e seus descendentes nem dos romanos que mataram mais de um milhão de judeus e destruíram Jerusalém lá na oitava década da Era atual. Não posso ser o deus dos nazistas e fascistas, que queimaram em fornos mais de seis milhões de judeus. Não posso ser o deus dos vizinhos de Israel, povos que atacam o povo judeu há milênios, e nem eles me aceitam, pois possuem seu próprio e respeitável deus e seus dignos sacerdotes. Como pode Paulo de Tarso me colocar no altar dos gentios, em templos que não sejam sinagogas, onde cantam e falam latim, língua dos nossos opressores romanos que não consegui expulsar com meus anjos?

Jeovah ergueu-se de seu trono:

- Pois vou ler uma passagem do livro de práticas na sinagoga conhecido como Shabat Shalom: “Ata bechartanu micol haamin, ahatva otánu veratsita banu, veromantánu micolhaleshonot, vekidashtánu bemitsvotêcha, vekeravtánu malkênu laavodatêcha, veshimchá hagadol vehacadosh alênu carata”.

Altivamente Jeovah olhava para todos os lados. E prosseguiu:

- Ou seja: “Tu nos escolheste entre todos os povos, nos amaste, nos quiseste e nos destacaste entre todas as línguas, e nos santificaste com os Teus mandamentos e nos aproximaste de Teu serviço e nos identificaste com o Teu grande e santo nome”.

Jesus de Nazaré:

- Eu volto a insistir: não posso ter um pai tão cruel, impiedoso e vingativo como você é descrito pelos narradores bíblicos. Foram os sacerdotes judeus que criaram e escreveram sobre tua suposta falta de escrúpulos e tua terrível crueldade - imagino. Tu não podes ser um assassino de mulheres, crianças e escravos, como a Bíblia Sagrada te descreve.

Jeovah, voltando-se para a mulher:

- Veja – senhora: em sua bondade costumeira, esse jovem judeu tenta desculpar as crueldades que eu teria cometido. Lamento que haja um bilhão de adeptos dos romanos, como a senhora, que me adotem e me chamem de misericordioso. A Bíblia é sagrada. Ela não pode ser rotulada de mentirosa, segundo se propala. Nunca prometi ressuscitar os meus fiéis israelitas ou a quem quer que seja. Nunca lhes prometi a vida eterna. Existem alguns rabinos que dizem que Jeovah poderá promover a ressurreição dos israelitas, quando e se assim lhe aprouver. Este Juízo Final é criação dos apóstolos e evangelistas para impor o temor às suas ovelhas e delas obter as primícias, tal como já o faziam os sacerdotes levitas, afilhados de Moisés.

Jeovah parecia hesitar, mas prosseguiu:

- Diz a Bíblia que eu teria provocado, no dilúvio a mim atribuído, a morte de milhões de crianças, mulheres grávidas, idosos, judeus e todos os outros povos que inexplicavelmente existiriam então. De onde surgiram - quem os criou? A morte por afogamento é cruel. Os pulmões se enchem d'água. O desespero das mães vendo seus filhos sendo engolidos pelo mar. Isso mostra a bondade, a piedade, a misericórdia que me atribuem nas igrejas romanas e evangélicas?

A mulher estava lívida. Era esse o deus de sua Igreja? - parecia perguntar. Subitamente foi até Jesus de Nazaré:

- Seu pai é um impiedoso matador. E ele confessa que cometeu esse holocausto por afogamento porque estava contrariado com o comportamento das criaturas que ele mesmo teria criado. Isso é abominável. Por que meus sacerdotes, romanos, nunca me alertaram sobre essa extrema crueldade do deus que me ofereciam? Por que me ocultavam que ele era o deus dos judeus e defendia esse seu povo de seus agressores, matando-os?

Jesus de Nazaré:

- Eu lia o Velho Testamento nas sinagogas, templos sagrados do meu povo, Israel. Nunca me ocorreu que o deus dos judeus fosse declaradamente um autor de holocausto diluviano. Agora percebo que tudo é obra de relatos de sacerdotes.

- Jeovah é uma criação dos sacerdotes? - exclamou olhando para ele. Não foi Moisés que escreveu, relatando fatos que ele não poderia ter visto e nem a ti atribuídos?

Abriu Jesus de Nazaré a Bíblia Sagrada e leu:

- “Disse o rei Saul: tu morrerás, Aquimelec, tu e toda tua família. Ordenou e Doeg matou os oitenta e cinco sacerdotes, todos vestindo o éfod de linho, porque teriam sido cúmplices de Davi", como consta de I-Samuel 22,16 e seguintes, resumidamente. Sempre os sacerdotes. Escrevem sobre coisas que podem atemorizar os seus rebanhos, seus dizimistas.

Jeovah levantou-se subitamente. Estendeu sua mão esquerda apontando-a para a mulher e bradou:

- Proíbo-te, mulher, de me dizer que sou um deus misericordioso. Isso é criação dos teus sacerdotes, que necessitam de teus dízimos! Sempre tive que governar meu povo, Israel, com mão-de-ferro. Destruí os inimigos dos judeus pela força de minhas pragas e pela espada de meus anjos. Devastei o deus Dagon e seus sacerdotes me temem até hoje eis que feri a todos os habitantes de Azot com hemorroidas, como podem ler em I-Samuel 5,1-6. Com bondade, meus sacerdotes passariam a perecer de fome. Perderiam seus clientes e seus pagamentos por pecados e por delitos. O que ocorreu seguidas vezes, durante séculos. Foram vendidas cadeiras no céu. Tudo isso criou poderosas e ricas organizações religiosas.

A mulher, perplexa com o que ouvia nada respondeu, mas dirigiu-se a Jesus de Nazaré:

- A propósito, amado Mestre: diz o evangelista João em seus escritos que já existia um filho ao lado de Jeovah quando o universo teria sido criado pelo deus judaico e que era muito amado pelo pai. E todos afirmam que esse filho és tu. Eu te pergunto: por que não impediste que Jeovah afogasse a milhões de seres humanos ao provocar o dilúvio? Por que deixaste que ele matasse tantas pessoas, enviando terríveis enfermidades e anjos espadachins? Você lá estava, no céu, e poderia ter impedido a mortandade.

Jesus de Nazaré:

- Um momento, senhora. Mateus, João e os outros sacerdotes escreveram efetivamente que havia um filho de Jeovah, pelo menos, já na hora da criação do mundo. Mas não era Jesus de Nazaré, evidentemente, embora Mateus e seus colegas tenham descrito o contrário em inúmeras vezes. E no Velho Testamento, no livro do Gênesis 6,1-4, escreveram que havia outros filhos de Jeovah, aqueles que desceram para desposar as mulheres da Terra e com elas tiveram filhos, netos efetivos de Jeovah, sem asas, portanto não eram anjos como querem alguns sacerdotes que interpretam.

Prosseguiu:

- Os escritores judeus assim relatam em Gênesis: “Quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a Terra, e deles nasceram filhas, os filhos de Jeovah, vendo que as filhas dos homens eram belas, escolheram entre elas as que bem quiseram para mulheres e delas tiveram filhos”. Ao provocar o dilúvio, Jeovah, premeditadamente matou seus netos, bisnetos e demais descendentes! Os filhos de Jeovah, que haviam descido, viram morrer essa sua descendência toda. E esses filhos de Jeovah, certamente voltaram para as nuvens, para o céu, já que são eternos e não há notícia de que tenham permanecido em algum barco ou montanha durante os quarenta dias do dilúvio.

A mulher:

- Mas está escrito por Mateus e os outros evangelistas que tu te referias a Jeovah como tendo estado a viver com ele no céu e que serias seu filho.

Jesus de Nazaré:

- Sim, mas está escrito também que eu nasci após uma gestação de nove meses de minha amada mãe Maria. Não há dúvidas que temos pelo menos três Jesuses descritos pelos evangelistas. Evidentemente que o Jesus Celestial, aquele que já vivia e era amado por Jeovah antes que este promovesse a criação de tudo, por ser eterno, jamais poderia ser morto. Logo, a Bíblia informa, de forma indubitável, que dois Jesuses existem, mais o espiritual, que teria subido no momento de sua morte.

Jesus de Nazaré voltou-se para o Jesus Celestial:

- Tu não podes ser eu. E sabes por quê? Porque não podes morrer nem ser morto! És eterno, como todos no céu. Como irias ingressar – absurdo! – em um útero? A gestação - como narrado no Livro, teria começado com a fecundação de um óvulo da amada Maria através de uma sombra.

Jesus de Nazaré dirigiu-se novamente a Jesus Celestial, após sentar-se no trono e meditar por alguns instantes:

- Diga para o Juízo Final e para esta mulher: por que tu não impediste que teu pai Jeovah matasse por afogamento a milhões de pessoas no Dilúvio? Afinal, tu estavas no céu desde que ele criou o mundo. Ou o dilúvio também poderia ser um mito - mais um?

Jesus Celestial:

- O assassinato em massa de seres que descenderam de macacos não me podia preocupar. Acompanhei a evolução dos macacos e humanos durante seiscentos milhões de anos, desde o Período Cambriano. Não me parecia importante interferir junto ao meu pai. Até o mais ignorante dos terráqueos sabe que os humanos evoluíram de um peixe e que os seiscentos milhões de anos foram necessários para que surgissem os macacos e, deles o homo sapiens, os humanos.

A mulher:

- Vejo que tu não és piedoso como teu meio-irmão Jesus de Nazaré. Estivesse ele no teu lugar, certamente que lutaria para salvar os humanos do cruel afogamento pelo dilúvio. Ou das chagas, dos tumores, das hemorroidas, da tísica, da lepra, do granizo, do fogo, do estrume no rosto, da peste, do fio das espadas. O Nazareno é bondoso, misericordioso e defensor das mulheres e das crianças.

Jeovah:

- Mulher! Eu sou o produto dos escritos de sacerdotes. Não consegues perceber isso? Estou cogitando de imitar Jesus de Nazaré: contestar todas as iniquidades que Moisés e os demais disseram de mim.

Um silêncio constrangedor tinha se estabelecido no Juízo Final. Mas, com essas palavras, Jeovah trouxe certo alívio a todos. A mulher, no entanto, continuou:

- Vejo que tu, Jesus Celestial, não aceitas a história de Moisés. Ignoras o relato de Adão e Eva e dás teu testemunho sobre a evolução humana.

Jesus de Nazaré:

- Constatamos que Jesus Celestial, aquele que já existia no escuro e frio Kelvin - segundo diz João - quando Jeovah teria tudo criado, há catorze ou quinze bilhões de anos, não participou do afogamento de milhões de humanos. Mas ele aparentemente também nada fez para evitar o holocausto aquático nem as demais mortandades provocadas supostamente por Jeovah.

Jesus Celestial:

- Volto a dizer: minha existência somente foi revelada pelos escritos feitos pelos evangelistas. Sou filho de Jeovah com uma mulher celestial, evidentemente, já que não existiam humanos antes da criação de tudo por ele, seja na hipótese científica, seja na hipótese bíblica. E tenho muitos irmãos. Aqueles que desceram, como se lê nos escritos de Moisés, em Gênesis 6,1-4 e devem ter sido gerados depois da Criação. Fico surpreso quando escrevem que esse Jesus, nascido do ventre de uma humana, seja um ser unigênito de Jeovah. Séculos antes já haviam descido os filhos de Jeovah, meus irmãos verdadeiros.

Jesus de Nazaré:

- Sim, você possui irmãos, Jesus Celestial. São os filhos de Jeovah que desceram para coabitar com as mulheres da Terra, como se lê em Genesis 6,1-4. Esses varões, para poderem coabitar com as terráqueas, eram semelhantes obviamente a Adão, que, por sua vez, foi semelhante à Jeovah, como está escrito por Moisés. Só não sabemos realmente se esses seus irmãos nasceram também antes da criação, antes do Big Bang, como você, ou se vieram a nascer somente após Jeovah ter adotado a moradia nas nuvens terrestres, quando a Terra passou de poeira estelar para planeta habitável, passados de treze a quinze bilhões de anos desde a ocorrência do Big Bang.

- Temos, no entanto, um problema a resolver - prosseguiu: a família divina e celestial judaica não poderia possuir a mesma carga genética daquela adquirida pelos humanos durante seiscentos milhões de anos de evolução. Teremos que examinar isso em momento oportuno. E não podemos ter pressa, já que milhões de anos serão necessários para que este Juízo Final julgue a bilhões de ressuscitados e suas novas proles.

A mulher:

- Sendo assim, peço para me retirar e ver minha família. Como irá ela sobreviver após essas terríveis revelações? Nosso deus não é nosso. Ele é emprestado.

Jesus de Nazaré:

- Aumentem muito a sua fé.

- Como e por que farei isso, grande Mestre? – perguntou a mulher.

- Consultem seu sacerdote. Eles sempre têm respostas para tudo. Existem muitas outras religiões no mundo. Talvez se adotares deusas, que encontras nos países orientais, não tenhas que ter tanta fé. Mas até mesmo na Bíblia Sagrada poderá, talvez, surgir uma Deusa muito poderosa em breve. A Deusa Oculta.

Com essas palavras, um olhar enigmático e um gesto de Jesus de Nazaré, a mulher teve seu julgamento adiado e foi novamente levada para o solo de Israel.

A imprensa pulicava: a mãe dos filhos de Jeovah, no céu, iria surgir? Sem ela poderia Jeovah gerar esses filhos, antes e depois do Big Bang? Jeovah poderia gestar filhos? Não o poderia, diziam comentaristas de TVs, já que o deus israelita seria semelhante a Adão o qual, por sua vez, necessitava de Eva para poder ter os seus três filhos, Abel, Caim e Sem. Ninguém era hermafrodita.

Die Maschiene estampou um desenho do instrumento mais temido pelas mulheres. É o Esmaga-peitos, também conhecido por Tarântula ou Aranha Espanhola. Os sacerdotes romanos e outras autoridades despedaçavam com o metal em brasa os seios das meninas-mães e das culpadas de aborto voluntário. As quatro pontas de ferro incandescente eram lentamente introduzidas nos mamilos das meninas e das supostas feiticeiras, sob a acusação de heresia ou, mais amplamente, feitiçaria. Era mais uma das obras de Torquemada. Jesus de Nazaré chorava como uma criança. Abraçou Pedro:

- Eu ensinei isso? Esse é o amor que todos devem cultivar? Torturar mulheres com tamanha crueldade? Para garantir dízimos e empregos rendosos aos sacerdotes? Nem Moisés, com seu Jeovah foi capaz disso.