Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 51 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 50

 

Uma sucessão de relâmpagos fez tremer tronos e helicópteros. Pelo megafone uma voz bradou em hebraico:

- Um tornado se aproxima. Devemos descer imediatamente.

A grande maioria sofria do mal das alturas. Todo o Tribunal do Juízo Final desceu em Jerusalém na ala cristã da cidade, que havia sido evacuada para uma emergência como essa. Os tronos foram postados em círculo no centro da praça. Chovia e ventos de mais de cem quilômetros por hora fustigavam a todos.

Mas a horda não pôde ser contida. Vários milhões de ressuscitados após milhares de anos de espera, famintos e nus, lançaram-se sobre os integrantes do Juízo Final. Jeovah e Jesus de Nazaré foram rapidamente alçados ao ar enquanto uma chuva de flechas tirou penas das asas dos assustados serafins.

Também os Anjos Separadores conseguiram escapar da barbárie. Pedro estava prestes a ser apunhalado pelas costas quando foi salvo por Ananias e sua mulher Safira. Pedro sacou de seu punhal e de sua espada, como já o haviam feito os demais apóstolos. A espada que cortara a orelha de um dos enviados para prender Jesus de Nazaré em vida, o escravo do Sumo Sacerdote, reluzia enquanto se chocava com cabeças dilaceradas e braços decepados. O sangue dos ressuscitados era tão rubro quanto o dos vivos. Mas a luta era desigual. Logo foram dominados e amarrados nas cercas de metal que ordenavam o trânsito ao redor da praça.

Lá do alto chegou ajuda. Era Jesus Celestial, aquele que já fazia companhia a Jeovah, quando este criou todas as coisas, há quinze bilhões de anos, ou na Criação bíblica, como consta dos escritos do evangelista João. Ele comandava incontáveis legiões de anjos. Brandiam suas espadas de fogo e logo conseguiram expulsar os ressuscitados famintos do centro da praça. A borrasca aumentava de intensidade e os aprisionados foram libertados.

Jesus de Nazaré atendeu rapidamente a um apelo que lhe fora feito pelo presidente da França. Realizou mais uma vez o milagre da multiplicação dos peixes, do pão e do vinho. Milhões de toneladas de alimentos surgiam por toda parte, desde os Urais até as ilhas do Havaí, desde a Patagônia até o Amazonas, desde a Índia, até a África, desde os Bálcãs até as Estepes, desde as pradarias dos Apaches até os Andes, desde Madagascar até os desertos da Austrália, desde o Alasca até as cataratas do Rio Iguaçu. Os lamentos da turba logo silenciaram. A fome e a sede lhes eram insuportáveis, embora tenham sido declarados possuidores da vida eterna pelos apóstolos e pelos evangelistas.

Em Manaus, nos desertos do Saara e da Austrália, no entanto, apodreciam os peixes por falta de consumidores e o vinho escorria por toda parte. “Os oceanos, o mar Morto, o lago Titicaca e o Rio Mississipi refletiam a cor rubi do vinho israelita derramado pelo novo milagre, exibindo o poder bíblico criado pela pena dos evangelistas” – noticiavam os jornais de todo o planeta.

O vento amainara e o Tribunal do Juízo Final definitivamente não tinha condições de continuar seus trabalhos no solo por falta de segurança. Todos voltaram a subir para uma altura segura em que nem flechas nem tiros disparados por armas convencionais pudessem alcançar os juízes celestiais.

No trono continuava o crânio de Maria Antonieta. O Rei Luiz XVI foi até lá e, apanhando-o com todo o cuidado, dirigiu-se a Jesus de Nazaré:

- Ressuscitei de acordo com os preceitos de Mateus. Subi para estas nuvens exatamente como você o fez, Mestre, com carne, ossos e sangue. Mas, por falhas dos responsáveis, minha amada Maria Antonieta não teve a mesma ressurreição. Ela não ressuscitou como Lázaro ou como você, ou, ainda como os que saíram dos sepulcros por ocasião da tua crucifixão. Por quê? Por que sou separado de minha amada rainha da França?

Jesus de Nazaré:

- Penso que deves requerer a este Tribunal do Juízo Final três coisas: Primeiro, que a ressurreição de Maria Antonieta seja declarada nula, já que o crânio dela continua em tuas mãos; segundo, que seja ordenada urgente ressurreição dela com o uso dos meios indicados por Mateus, ou seja, recupere todos os seus órgãos vitais, exatamente como ocorreu com Jesus de Nazaré; e, terceiro, seja declarada contrária às leis de Jeovah e dos demais juízes, a transformação de homem e mulher, em ressuscitados sem sexo, como o quer Mateus.

Luiz XVI:

- Muito sábios teus conselhos, como sempre, nobre Mestre! Assim sendo, formulo desde já todos os três pedidos a este Tribunal. E se me permitem, quero fundamentar meus apelos da seguinte forma: todos os habitantes do céu possuem sexo, tanto nas igrejas de Paris, Chartres, Florença, Veneza ou da Capela Sistina. Os anjinhos novos estão retratados em todas as partes, logo, estão se desenvolvendo após terem sido gestados pelas respectivas anjas. Jeovah possui órgãos sexuais, já que semelhante a Adão. E a maioria dos povos venera anjos há milênios, muito antes de ter início a Era Bíblica.

Todos os julgadores acolheram os pedidos e Maria Antonieta surgiu na frente de Jesus de Nazaré, enquanto seu crânio desaparecia. Suas vestes também ressuscitaram - tal qual ocorrera com Jesus de Nazaré junto a Tomé, em Emaús, no lago e em Betânia, quando subira, devidamente vestido e bem observado pelos doze apóstolos. Eram extraordinárias as roupagens da rainha, dignas da grande realeza dos gauleses. De seu rosto resplandeciam ondas de encantamento e de uma beleza invulgar. Não se podia dizer que a cabeça viera das catacumbas de Paris, onde permaneceu durante mais de um século misturada aos crânios dos plebeus e talvez do carrasco que a havia decapitado – suprema iniquidade para os fidalgos da velha Europa –, estampava Le Figaro. O responsável pela ressuscitação fizera um trabalho digno de Pitangui.

O Rei Luiz XVI foi até ela, sacou elegantemente o seu chapéu emplumado e se prostrou diante dela, beijando-lhe as delicadas mãos. Abraçou-a ternamente e fez com que ocupasse o trono onde supostamente estaria o Espírito Santo. Sentou sua majestade sem notar a presença de qualquer coisa estranha.

Jesus de Nazaré:

- O casal creu nas mensagens dos meus apóstolos. E escreveram que, quem crer será salvo. O casal transgrediu constantemente os mandamentos de Jeovah. Pecou. Mas deve ser absolvido porque creu que eu seria o filho de Jeovah. Voto pela imediata remessa do casal para as nuvens superiores, para o céu acima deste Tribunal. Como votam os demais juízes?

Todos concordaram menos Jeovah, que foi voto vencido. Jesus ordenou que os anjos chamados Príncipes conduzissem o casal para o alto do céu. Mas, para surpresa geral, Luiz XVI disse:

- Monsieur. Peço que nos dispensem dessa subida. Já estamos salvos. Já fomos declarados eternos após nossa ressurreição. Não nos adaptamos à umidade das nuvens, o ar rarefeito que observamos nos Alpes, o frio, a chuva, os terríveis relâmpagos e o Sol causticante em minha delicada pele. Agradam-nos festas e a vida que pretendemos levar em Versailles, nossa casa.

Jesus de Nazaré:

- Essa possibilidade não está prevista na Bíblia Sagrada. Ou sobe ou desce.

Maria Antonieta falou pela primeira vez. Sua voz era encantadora e o francês soava como poesia declamada entre montanhas de flores:

- Monsieur Jesus. Receba meu abraço carinhoso. Você, que há dois mil anos defendeu os direitos das mulheres pela primeira vez, você que ama seus inimigos, você que oferece a face direita quando é agredido na face esquerda, você que perdoa sempre, certamente não nos imporá esse terrível castigo. Meus guarda-roupas, minhas joias, meus sapatos, onde os teria em segurança lá no alto, entre a umidade das nuvens, das chuvas, dos temporais? E a falta de brioches – horror!

Jesus de Nazaré estava encantado com a graça da mulher gaulesa. E não teve dúvidas em conceder o pedido da grande rainha:

- Tua capacidade em crer no que te dizem venceu, nobre rainha. Embora eu julgue temerário crer sem provas razoáveis e sem examinar tudo. Não tenha fé em tudo que te relatam, principalmente de dizimadores. Acolho teu pedido. Vejo que subir não seria para o casal real um prêmio, mas, sim, um terrível castigo. Aliás, parece que a ninguém está mais atraindo a ideia de subir. Realmente a temperatura pode ser muito desagradável. A Nebulosa de Bumerangue, por exemplo, registra a temperatura de 272 graus Celsius negativa, ou seja, um Kelvin, e, ainda, um grau acima do zero absoluto, o lugar mais frio do Universo. Se Vossas Majestades se decidissem a viver na Lua, lá encontrariam a temperatura, à noite, de-150 graus Celsius. Vivam, pois, felizes no solo do planeta, com a minha bênção.

- Essa nebulosa – continuou Jesus de Nazaré, agora se dirigindo a Jeovah -fica na Constelação de Centauro, na Via Láctea, no hemisfério sudeste do céu, a cinco mil anos-luz da Terra. Certamente você conhece tudo isso, não é mesmo? Pelo menos é o que se deduz das narrativas de Moisés, que afirma que tudo foi criado por você. O que me diz? Sabes o que é Kelvin? Não, não sabes, já que Moisés te descreveu como administrador de sacrifícios de bovinos, ovelhas, pombinhas e de atividades bélicas dos seguidores de Moisés. Não podes negar nada disso a este Tribunal e ao mundo que nos assiste. E não o digo com qualquer propósito de te desagradar ou melindrar teus seguidores a quem devemos nosso mais elevado respeito. Nós aqui buscamos a verdade, somente a mais pura verdade.

Jeovah estava mudo. Mateus interrompeu seu silêncio:

- Nobre Mestre - vou repetir: está escrito em Mateus 22,30 que marido e mulher viverão como anjos, após sua salvação, no Juízo Final. Permitir que seja descumprido esse preceito bíblico, com o casal real francês vivendo no solo do planeta, se abrirá um precedente que poderá esvaziar o céu. Na Terra a população, com a fornicação - como o escrevem os sacerdotes bíblicos - crescerá de tal forma que logo centenas de bilhões de seres humanos eternos surgiriam.

Jesus de Nazaré:

- Temos que examinar bem esse texto bíblico. Primeiramente: os anjos não copulam? Se a resposta for negativa, como se explica que existem anjos bebê e anjos de provectas idades e anjas com seios generosos, aptos a amamentar bebês? Jeovah: sabes nos informar sobre isso?

Jeovah bocejou e nada respondeu. Jesus de Nazaré:

- Pensando bem, Mateus, a superpopulação no céu seria ainda pior. Os casais ressuscitados obviamente não perderam sua capacidade de gerar filhos.

Mas Mateus não se deu por achado:

- Os filhos dos humanos admitidos e salvos por este Juízo Final, nascidos após o julgamento, certamente não iriam adquirir esse prêmio. Todos teriam que ser julgados - tenham vivido no céu ou tenham permanecido seus pais no solo. A eternidade só se pode adquirir após passar pelo crivo do Juízo Final, com exceção de Elias e os profetas de Jeovah. Será eterno no céu ou nos fornos da Geena. Não se pode viver para sempre na Terra, portanto.

Jesus de Nazaré:

- Teriam que haver muitos outros Juízos Finais. Mas isso não está previsto nos escritos dos sacerdotes bíblicos. Mas eu decreto: está escrito que devemos fazer para o próximo o que gostaríamos que ele fizesse conosco. Está registrado que devemos amar nossos irmãos. Assim, cumprindo com esses princípios basilares da Bíblia Sagrada, ordeno que o casal de reis Luiz XVI e Maria Antonieta sejam conduzidos para a Terra.

Imediatamente um séquito de mais de mil anjos, das nove ordens, partiu com os reis da França. O farfalhar das asas era um espetáculo jamais visto na rica história do povo gaulês. Em Versailles aguardavam vários milhões de súditos fidalgos e plebeus ressuscitados e outros tantos vivos. O casal foi largado nas escadarias do imponente jardim do palácio. Foi ovacionado até mesmo por revolucionários como Robespierre que se encontrava aguardando no primeiro degrau da escadaria. O presidente da república chegou a seguir. Seu helicóptero fascinou a Luiz XVI. O presidente beijou a mão de Maria Antonieta.

Jesus de Nazaré acompanhou tudo pela televisão de outro helicóptero francês estacionado em frente ao seu trono. Parecia que os julgamentos poderiam prosseguir finalmente. Mas ainda havia grandes problemas a serem resolvidos.

Jesus de Nazaré convocou Paulo de Tarso:

- Fomos interrompidos, mas agora temos que deixar definitivamente posto se espíritos realmente existem - como tu insistes em afirmar. Vamos examinar os teus textos sacerdotais e os que te acompanham. João, na sua primeira epístola, em 4,1 escreve: "Caríssimos, não acrediteis em qualquer espírito. Examinai primeiro se os espíritos são de Deus, porque muitos falsos profetas surgiram no mundo". João, eu te pergunto: de que forma se examinam espíritos? E eles falam, já que os teus adeptos não devem acreditar em certo tipo de espírito? Eles são visíveis e possuem matéria, portanto? Como teus dizimados saberão, primeiramente, se o cidadão é um profeta, e, segundo, se é falso? Falsos não podem ser também teus dizimadores? Relatas novamente a existência de acirradas disputas entre sacerdotes!

João:

- Nada disso importa! Os dizimistas crêm em tudo. Basta que recebam a promessa de vida eterna. Não está já incontroverso neste Tribunal, que todos os sacerdotes - mesmo os ingênuos inocentes úteis -são profissionais que trocam as esperanças e perdão de pecados e crimes os mais bárbaros por dinheiro, comida ou terras, para si ou para suas organizações? Que mais há a investigar? Não está tudo escrito na Bíblia, em centenas de passagens?

Jesus de Nazaré:

- Tu afirmas que não tens qualquer explicação para o que escreveste, ou seja, não pode o candidato a fornecedor de dízimos saber se o dito espírito é de Jeovah ou não? Você admite que falseou a verdade ao escrever esse texto?

Sem esperar resposta Jesus de Nazaré concluiu:

- E logo você é o que ousa dizer que existem concorrentes, que chamas de falsos profetas. Por que você não era rotulado de falso profeta?

- Porque eu não sou tal coisa - respondeu João. E eu tinha que alertar ao meu rebanho para que permanecesse comigo e não com sacerdotes concorrentes. Não era essa a luta constante dos pastores do Velho Testamento, quando em uma só oportunidade quatrocentos e cinquenta deles foram mortos? E no Novo, lembremos Atos 12,23, quando nossos sacerdotes escreveram: "No mesmo instante, o anjo de Jeovah o feriu (Herodes), por não haver dado honra a Jeovah. E (Herodes), roído de vermes, expirou".

Jesus de Nazaré:

- Sim, percebo a mesma técnica do terror. O adepto, o candidato a crente, é duplamente atacado: lhe é prometida a vida eterna, se crer; e lhe é imposto o relato assustador no qual o grande Herodes é morto por vermes por não ter se curvado às mensagens cristãs. Isso nos lembra Pedro, que, ao perceber que não lhe traziam todo o dinheiro, produto da venda das terras, Ananias e sua mulher Safira caíram mortos na frente do bondoso sacerdote Pedro, apóstolo de Jesus de Nazaré. Essa é a história que os evangelistas escreveram e que teria causado grande repercussão aos atemorizados candidatos a ovelhas de rebanho religioso.

João:

- Não vejo porque isso tudo possa ser objeto de críticas, grande Mestre. Todos os sacerdotes, em toda a história de Israel, e, ainda todos os sacerdotes dos demais povos, usam da mesma técnica. Quem crer será salvo, quem não crer será condenado ao fogo das fornalhas infernais ou da Geena, terráqueas. A única diferença entre nossos colegas do Velho Testamento é a de que eles não davam promessas de vida eterna, não davam esperanças e o fogo era prometido para os pecadores judeus e deveria ser infligido na vida terrena. Veja que Jeovah - não é demais lembrar, querido Mestre - castigava os judeus com vermes, chagas, úlceras, tumores, tísica, hemorroidas, granizo, gafanhotos, fome, esterco no rosto, lepra, epidemias, febres.

Jesus de Nazaré:

- Já sabe este Tribunal que a Bíblia manda dizimar e ordena proferir ameaças com graves males, como escreveu Paulo de Tarso. Mas precisamos esclarecer: afinal, os seres humanos, neste Juízo Final ou nos dois milênios que já transcorreram, se transformam em algo que rotulas de espíritos, ou todos permanecem com seus respectivos corpos, como aconteceu comigo?

João:

- Volto a dizer: os apóstolos dizem que viram o corpo de Jesus de Nazaré ser arrebatado para as nuvens. E garantem que ele desapareceu do seu túmulo. E juram que viram Tomé colocar o dedo nos furos das mãos e do lado de Jesus ressuscitado.

Jesus de Nazaré:

- Teria sido arrebatado, ou seja, carregado, certamente por anjos, já que o corpo humano não possui asas, como as têm as aves celestiais hominídeas? Nenhum ser vivo ou aeronave existia capaz de elevar um corpo humano. A única exceção é a do carro de fogo que teria elevado o sacerdote Elias, famoso personagem judeu descrito no Velho Testamento. Teria ele sido elevado pela mesma carroça de fogo usada para levantar Elias? Restaria saber quem seria o cocheiro desse veículo. É evidente que carroças não andam sozinhas, muito menos se os cavalos são substituídos por fogo.

Jesus de Nazaré foi até o seu trono. Abriu a Bíblia e continuou:

- Vejo um novo buraco narrativo. Elias subiu para as nuvens no carro de fogo, como consta do Velho Testamento. E subiu sem ter morrido. Foi levantado com o seu corpo humano. Não morreu e ressuscitou. Nunca morreu. Seu corpo parece que se tornou eterno nas nuvens, não se sabe de que forma, já que a oxidação é um fenômeno permanente nos corpos e que os leva à morte sem dúvidas. Elias não possui a necessidade de um paradoxo, como o que o Papa atribui ao ressuscitado Jesus de Nazaré. Temos, assim, que nas nuvens Jesus de Nazaré, o paradoxo único segundo o Papa, convive com Elias, um ser humano, também judeu, normal, que não pode aparecer ou desaparecer, portanto. Idoso, com mais de dois ou três milênios. Um corpo humano destruído pela oxidação ou portador do mal de Alzheimer? Do que se alimenta Elias? Se adoecer, que médico o irá curar? Onde dorme? Onde exercerá as atividades de quem usa o toilette? Banhos - não os toma? Ou se vale da chuva? Ou o céu bíblico se estende até os polos, onde todos congelam?

- Em três mil anos – prosseguiu Jesus de Nazaré - quantas mudas de roupa teve que mandar buscar no solo terrestre? Quem desceu para se desincumbir dessa tarefa? Foi o anjo Gabriel? Comprou a roupa de alguém? Notem que não estou falando de ninguém ressuscitado. Falo de Elias, o que subiu quando ainda vivo. Nunca morreu, pois. Por que – tantas vezes já indagamos? E destaco o texto de Mateus 17,12-13: “Mas eu (Jesus) vos digo que Elias já veio e não o reconheceram. Ao contrario, fizeram com ele o que quiseram. Do mesmo modo o Filho do Homem vai sofrer nas mãos deles. Os discípulos compreenderam então que lhes falava de João Batista”.

- Por esse texto de Mateus – prosseguiu o Mestre - pretende ele que Elias teria descido depois de transcorridos muitos séculos desde a sua subida relatada no Velho Testamento. Pôs em minha boca essa descida de Elias, já então com vários séculos de vida, das nuvens. Mateus - como poderias saber dessa surpreendente descida? E mais, Mateus, o que queres dizer com a frase “... e fizeram dele o que quiseram – do mesmo modo o Filho do Homem vai sofrer nas mãos deles”? Teria Elias sido chicoteado e morto? Penso que não poderias ter escrito nada disso.

- Primeiro – continuou - porque Elias era um dos heróis do povo de Israel e jamais iria sofrer algum tipo de perseguição por parte dos sacerdotes de Jeovah, de quem era seguidor fiel e não era partidário dos rústicos pescadores que se intitulavam apóstolos de um novo deus. Segundo, porque não havia motivo algum para que ele descesse. Terceiro, porque, de acordo com o Velho Testamento, Messias somente poderia ser um humano que vivesse na Terra, com seu corpo íntegro, de tal modo que pudesse transpor a porta que até hoje existe nos limites de Jerusalém para seu ingresso. Após, expulsaria os inimigos de seu povo.

Interrompeu inesperadamente o evangelista Marcos:

- Um momento! Todos estão aqui esquecendo: permanecer no frio e chuva das nuvens não é agradável a ninguém. Elias tinha receio de cair. Vivia por isso em constante agonia, há séculos, sendo sustentado por anjos. Não era ele o maior interessado em voltar para seus parreirais, seus cordeiros, sua confortável cama?

Do fundo do Tribunal Elias interveio:

- Esse Marcos tem razão! Não sei como não me ocorreu essa ideia. Ela é brilhante! Prezadas divindades – aceitem minha mais calorosa saudação e agradecimentos.

Montado num querubim desceu o profeta acompanhado pelos rugidos da parte leão e os guinchos da parte águia. Foi desembarcado no centro da cidade de Tel Aviv onde causou grande espanto e logo convites para festejar sua nova visita à Terra.