Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 34 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 33

 

Um exército de centenas de milhares de ressuscitados se formou. Os serafins organizaram uma grande fila que se perdia no horizonte. As vítimas de afogamento do dilúvio passaram a ser interrogadas. Eram centenas de milhares, talvez milhões. Praticamente todas as legiões de anjos foram requisitadas para a descomunal tarefa. O primeiro a ser julgado era o pai de Noé.

- Que tens a dizer em tua defesa?

- Jeovah somente admitiu na arca ao meu filho Noé, sua mulher e os três filhos desse casal, meus netos, e suas esposas. Eu, a mãe de Noé, seus irmãos, seus avós, todos tivemos que morrer afogados.

Jesus de Nazaré:

- Os sacerdotes bíblicos escreveram que Jeovah foi o autor da morte por afogamento e que assim agia porque observara que os humanos o teriam decepcionado. Eles teriam se transformado em pessoas más. Todos os parentes de Noé eram pessoas más?

- Certamente que não, Jesus de Nazaré. A mãe e as irmãs de Noé eram pessoas boníssimas. Já existiam sacerdotes judeus, todos merecedores do direito de viver.

Jesus de Nazaré apontou para Jeovah, no trono ao lado:

- Jeovah, diga-me porque ordenaste a morte dessas pessoas. Nem mesmo a mãe de Noé perdoaste. Não a admitiste na arca. Nem teus sacerdotes foram poupados!

Jeovah:

- Eu sou Jeovah e tudo posso. Se estava irado, fiz o que bem me aprouve.

Jesus de Nazaré:

- O mandamento – não matarás – não se aplica a ti? Não tiveste misericórdia nem mesmo com a mãe, a avó, as irmãs de Noé? Não tiveste piedade nem mesmo de milhões de crianças de poucos dias de vida? Que espécie de mandamento criaste, se tu mesmo não o cumpres?

Jeovah:

- Leia a Bíblia, leia o que escreveram a meu respeito. Tens alguma dúvida do meu poder? Destruo a todos e a ninguém devo explicações. E quem assim me descreveu foram Moisés e demais sacerdotes bíblicos. Perguntem a eles.

Jesus de Nazaré:

- Tragam-me as crianças que morreram afogadas no dilúvio - ordenou ao chefe dos anjos conhecidos por Potestades.

Imediatamente centenas de milhares de crianças cercaram os vinte e oito tronos de humanos e os dos anjos Juízes Separadores e Juízes Ceifadores. Continuou o grande judeu da cidade de Nazaré:

- Vou proferir minha sentença imediatamente. Todas as crianças mortas no dilúvio, com menos de quatorze anos de idade, são agora por mim declaradas absolvidas. Isso tem fundamento no texto bíblico que declara: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino do Céu”.

Os vinte e seis apóstolos concordaram meneando as cabeças. Mas Matias levantou-se:

- Devemos conceder o ingresso no céu, concordo, mas somente as crianças judias. Devo alertar ao Tribunal: não se sabe como, mas surgiram os gentios, após o dilúvio. As crianças filhas de gentios, os goin, não podem ser admitidas. Está escrito que não se darão pérolas nem migalhas aos gentios, aos não-judeus.

Imediatamente uma grande discussão se estabeleceu no Juízo Final. Jeovah bradava:

- Mandei essas crianças à morte e não as admitirei no céu. Nem as judias nem as gentias que apareceram séculos após Noé. Eu as condenei ao afogamento porque vi que os humanos eram maus e as crianças estavam incluídas. Como posso agora admitir o contrário?

Jesus de Nazaré pediu que os vinte e seis apóstolos votassem e, depois, que assim o fizessem os cento e oito anjos julgadores. Pedro foi o primeiro a votar:

- Jeovah: primeiramente se constata que não havia gentios, quando provocaste o dilúvio. Todos eram descendentes de Adão e Eva. Seu voto deve ser mudado. E você mandou à morte por afogamento também os seus descendentes celestiais! A sua justificativa de que os humanos eram maus não pode prosperar nem ser aceita. Os humanos são, em grande número, teus parentes! São sucessores dos teus filhos que desceram para casar com as mulheres belas da Terra! Portanto, Jeovah, você matou seus descendentes!

Jeovah:

- Eu posso fazer o que bem desejar. Mas volto a dizer: Não vou admitir crianças goin comigo no céu.

Pedro:

- Pois eu voto no sentido de que sejam admitidas as crianças goin. A Bíblia não faz distinções.

Matias ressuscitado:

- Meu voto é no sentido de que sejam pesquisadas todas as crianças. Todas as que forem descendentes de Jeovah não podem ser enviadas ao Inferno ou às fornalhas da Geena. Como vamos admitir que netos, bisnetos e demais descendentes de Jeovah venham a habitar o Inferno ou a fornalha da lixeira de Jerusalém? Requeiro seja determinada uma perícia e formulo quesito único: “Quais crianças possuem DNA de filhos de Jeovah?”.

O julgamento teve que ser suspenso. Foram nomeados peritos que passaram a coletar sangue de milhares de crianças ressuscitadas, oriundas do grande dilúvio. O especialista prestou o juramento de praxe e requereu que os filhos de Jeovah que haviam descido para a Terra e que haviam coabitado com as mulheres belas descessem do alto do céu e fornecessem sangue para as análises de DNA. Mas Jeovah interveio:

- Meus filhos não descerão. Não pretendo fornecer ajuda aos inimigos de meu povo.

Jesus de Nazaré:

- O Juízo Final necessita de provas. Não posso admitir que elas sejam negadas aos juízes. Por isso ordeno que sejam requisitadas forças para fazer cumprir a ordem. Que compareça o Comandante das Forças Armadas e o Presidente da Organização das Nações Unidas.

Compareceram e Jesus de Nazaré logo interrogou:

- Peço que informem que meios possuem para que se cumpram as ordens do Tribunal do Juízo Final.

- Nossos helicópteros podem sobrevoar as nuvens e capturar os filhos de Jeovah de forma fácil e segura. Basta que nos seja ordenada a missão.

Jesus de Nazaré concordou e logo mais de dez helicópteros partiram em direção às nuvens mais altas. Viram os filhos de Jeovah sentados em tronos secundários. Eram corpos humanos. Exatamente como os que desceram e casaram com as mulheres belas e com elas tiveram filhos, netos de Jeovah.

- Viemos coletar seu sangue, filho de Jeovah - disse o perito enquanto avançava com uma seringa.

- Não! Vocês não sabem que aqui nas nuvens somos todos espíritos e, portanto, não possuímos sangue? - exclamou desesperadamente um dos filhos de Jeovah que havia estado na Terra coabitando com uma terráquea e com ela tendo filhos.

O perito:

- Não é verdade. Você forneceu espermatozoides para mulheres, na Terra, que engravidaram e procriaram. Logo, você possui testículos e tecidos e, logicamente, sangue.

O perito fez sinal para os soldados dos helicópteros e o filho de Jeovah foi amarrado no pequeno trono enquanto ordenava aos anjos para que atacassem os peritos. Os anjos foram alvejados com dardos munidos de soníferos e logo caíam até a Terra, aos milhares.

Incontáveis amostras de sangue dos filhos de Jeovah desceram com os helicópteros. Nos laboratórios compareciam crianças. Eram escolhidas as que tinham morrido afogadas no dilúvio ordenado por Jeovah.

As primeiras mil crianças em que foi encontrado DNA similar ao dos filhos de Jeovah foram trazidas para o Tribunal do Juízo Final. Dos helicópteros essas crianças eram levadas pelos anjos e postadas em frente aos julgadores. Jesus de Nazaré:

- Vejo que possuis o DNA dos filhos de Jeovah. És, portanto, neta ou descendente de Jeovah, aqui presente.

Jeovah olhou para Mateus e para Moisés. Parecia indignado com tudo aquilo:

- Não reconheço nessas crianças qualquer parentesco. Ordeno que se prossiga com o julgamento.

Jesus de Nazaré:

- Pois eu estou convencido que o teste de DNA é válido e eu, Jesus de Nazaré, sou obrigado a reconhecer que essas crianças são também meus parentes. Não dizem os evangelistas que eu seria filho de Jeovah? Obviamente que os outros filhos de Jeovah, aqueles que desceram para casar, fecundar e ter filhos com as mulheres belas, como está claramente escrito no livro Gênesis 6,1, são meus irmãos. Todos somos, assim, filhos de Jeovah, embora os que desceram do céu já houvessem sido gerados há séculos ou milênios.

Jesus de Nazaré foi até Jeovah:

- És o avô, bisavô, tataravô dessas crianças. Tendo em conta que negas esse parentesco, ordeno que os peritos colham teu sangue para o teste do DNA.

Os peritos se aproximaram. Jeovah gesticulava e, aos brados, chamava o arcanjo Gabriel, ordenando que trouxesse todas as legiões de anjos para impedir a coleta da amostra de sangue. Eles esvoaçavam, aos milhares, ao redor do trono de Jeovah, mas Jesus de Nazaré os afastou com um gesto da mão direita.

O mundo observava perplexo. O poderoso deus judaico estava obedecendo às ordens do Tribunal bíblico criado no Novo Testamento. Mas ele, em uma última tentativa, bradou:

- Eu vou feri-los com hemorroidas, com chagas, com tumores, com lepra, com tísica, com estrume no rosto, com úlceras! Não percebem que eu não possuo sangue? Não vêm que sou um espírito?

Jesus de Nazaré:

- Isso não é verdadeiro. Eu não seria teu filho? E não diz Mateus que eu fui arrebatado ao céu, após ressuscitar? E os meus irmãos celestiais, não possuíam olhos para ver que as terráqueas eram belas? E se desceram para coabitar com elas, não possuem sangue e espermatozoides? E se são também teus filhos, tu não tens que ter órgãos genitais e produzir espermatozoides? E uma mulher? Quando davas ordens a Moisés, face a face, não tinhas que possuir boca, pulmões, língua, para poder falar? E trouxeste as duas pedras com os mandamentos do alto das nuvens. Se usas um trono para sentar, não és um espírito. O espírito não possui átomos, logo não pode sentar-se ou sequer ser visto. Nem engravidar companheiras ou esposas.

O perito não tardou em trazer o resultado dos exames laboratoriais. Jeovah possuía o DNA encontrado nos filhos antigos e no filho mais recente. Os cientistas de todo o mundo não reconheceram validade a esse teste. Era impossível que Jeovah possuísse genes que somente se formaram em uma evolução de seiscentos milhões de anos, desde o Picaya Gracilens. Afinal, Jeovah já teria existido há quinze bilhões de anos.

Jesus de Nazaré foi até as centenas de crianças e as abraçou uma a uma.

- Vocês aparentemente são todos meus irmãos e minhas irmãs.

Jesus de Nazaré foi até Jeovah e lhe estendeu a mão, apertando-a fortemente:

- Vês como todos nós somos feitos de carne e ossos? Todos podem ver a Jeovah, a mim e a todos os anjos. Teus filhos, Jeovah, que desceram para coabitar com as mulheres belas, todos os habitantes do céu, não são espíritos.

Paulo de Tarso parecia entediado. Uma lufada de vento jogou ao ar o trono do apóstolo Simão. Logo um batalhão de serafins se lançou atrás dele e do trono. Eram muito hábeis as aves humanas e sua força surpreendia o mundo que a tudo observava pelos canais de televisão e pela Internet.

Jesus de Nazaré:

- Quero que me tragam todo o laboratório de DNA e sua equipe médica. Temos que averiguar a correção desses exames. Jeovah não poderia possuir o DNA compatível com os humanos. Ele, Jeovah, já existia antes da criação, há cerca de quinze bilhões de anos. E o DNA dos humanos somente se formou após seiscentos milhões de anos de evolução. A coluna dorsal dos humanos é o resultado das mutações que surgiram com o primeiro peixe, o Picaya Gracilens, no período Cambriano, ocorrido a meros seiscentos milhões de anos, repito.

Mateus e alguns dos apóstolos protestaram. Jesus de Nazaré foi até Paulo de Tarso:

- Como insistes em dizer que somos espíritos? Mateus escreveu em 26,29: “Digo-vos: doravante não beberei mais desse fruto da vinha até o dia em que o beberei de novo convosco no Reino de meu Pai”. Um espírito não pode beber vinho nem sentar-se em tronos, como é evidente.

Mateus:

- Mas está escrito por João que Jeovah nunca foi visto. E está escrito que tu disseste ao morrer na cruz: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”.

Jesus de Nazaré:

- Como poderia eu entregar algo chamado espírito - se fui ressuscitado e arrebatado para o céu, quarenta dias depois? Meu corpo teria ficado na Terra, e o dito espírito teria subido? Vejo que cada dizimador conta histórias as mais conflitantes.

Mateus calou-se.

- E vocês, dizimadores, escreveram que Jeovah falava de dentro das nuvens. Por quê? Ele tinha medo de aparecer aos humanos? Ou isso é outro relato inventado pelos dizimadores? Uma prova plantada?

Mateus:

- Não sei responder a isso. Escrevi o que me informaram.

Jesus de Nazaré:

- Percebes Mateus, que Jeovah, caso espírito fosse, não teria a menor necessidade de ocultar-se em nuvens? Ocultar o que, se não possuísse matéria, nem, carne nem ossos, nem voz?

E para Jeovah:

- A propósito Jeovah: como tu te ocultavas quando as nuvens se dissipavam?

Jeovah:

- Por que não perguntas aos que escreveram os textos bíblicos?

Jesus de Nazaré:

- Quero que expliquem sobre isso - apóstolos e evangelistas. Lembro que neste momento estamos sem nuvens e devemos estar sendo observados claramente pelos humanos que estão no solo terrestre.

Matias:

- Já está claro que todos os personagens agiam como sempre agiram e ainda o fazem os sacerdotes, pastores ou qualquer outro nome que se dê aos que recebem dízimos: tinham que relatar histórias. Não sei explicar porque nos tornamos visíveis quando as nuvens desaparecem.

Jesus de Nazaré:

- Não importava que se contradissessem? Afinal, Jeovah e os demais habitantes do céu, são espíritos ou são seres com carne e ossos?

Mateus:

- Já está na hora de dizer: tudo que trouxer alento às miseráveis vidas dos humanos é válido. Todos querem uma esperança. Faz parte da índole dos seres vivos acreditarem que jamais se extinguirão suas existências. Há uma variada gama de mensagens. Fala-se que no céu somente existem espíritos, almas e também seres humanos de carne e ossos, como Elias. Este nunca morreu! Embarcou no carro e partiu para cima! Os filhos de Jeovah não teriam descido para fecundar as mulheres belas, como consta do Velho Testamento, em Gênesis 6,1? Ora, para fecundar, há que se fornecer espermatozoides e, para isso, há necessidade de testículos, ou seja, tecidos.

Jesus de Nazaré:

- E os sacerdotes se aproveitam disso para viverem à custa dos que lhes trazem os dízimos?

Mateus:

- Disso não se pode ter mais a menor dúvida. Mas a Bíblia o explica claramente. Ninguém deve trabalhar sem uma retribuição. Os sacerdotes do Velho Testamento recebiam dízimos, primogênitos a serem resgatados pelos pais, alimentos e terras em troca de súplicas atendidas de judeus que cometeram desvios de comportamento graves contra as regras criadas por Moisés.

O Mestre:

- Realmente. Nunca se viu um sacerdote romano, rabino ou seguidor de Baal, de enxada na mão. Cada pedra usada para edificar os milhares de castelos dos religiosos romanos foi paga com o dízimo. Nenhuma galinha criaram os dizimadores. Nunca colheram um barril de trigo. Nunca deram rações para engordar um só leitão. Nunca retiraram da terra uma só batata. Tudo lhes foi entregue pelos campônios Am ha-Arez goin e pelos israelitas, sempre atemorizados pelo fogo sinistro da Inquisição, do Inferno e da Geena. E as cascas eram jogadas de volta pelo alçapão dos fundos das abadias, dos mosteiros. Nem aos porcos se dispensa esse nauseante tratamento. Com essas esmolas eram alimentadas as adolescentes que logo seriam buscadas para serem estupradas nos mosteiros. O livro O Nome da Rosa, de Humberto Echo bem ilustrou a barbárie.

Jesus de Nazaré:

- Moisés criou as regras? Não foi Jeovah que o fez, entregando a ele, face a face, as duas tábuas de pedras onde estavam escritos os dez mandamentos? E para gravar sobre as pedras esse escritos, Jeovah não poderia ser mero espírito, mas, sim, possuir mãos capazes de buscar na terra as pedras e fazer a gravação? No céu existem pedras, cinzéis, martelos?

Matias:

- Como vê Mestre, cada sacerdote cria histórias para poder fazer jus ao dízimo e a glória. Moisés e seus sacerdotes levitas já possuíam essa tecnologia de dizimação, como bem já se comprovou.

Jesus de Nazaré:

- Combati escribas, fariseus e saduceus por suas ganâncias. Agora vejo que qualquer pessoa se pode transformar em dizimador. Basta que use o meu nome e do grupo de judeus que está na Bíblia. Os pastores usam vários nomes. Intitulam-se bispos, apóstolos, frades, evangelistas, missionários, freis, abades, cardeais.

- Obviamente todos são profissionais - respondeu Mateus. Ser pastor é uma profissão e deve ser muito bem remunerada. Está escrito na Bíblia.

Apresentou-se para ser julgado um pastor originário da França:

- Mestre - possuímos mais de um milhão de adeptos. Nossa seita surgiu no Oriente e nossa história afirma que tu já terias retornado do céu há dois séculos. Terias voltado a pregar, peregrinando pela Terra.

Jesus de Nazaré parecia não mais se espantar com os relatos dos dizimadores. Indagou do pastor:

- Vejo que esse relato produziu o efeito buscado pelos que se valem do Grujuem. Seu rebanho também é atemorizado pelos dizimadores?

- Não entendi sua pergunta - respondeu o pastor.

- Escreveram - respondeu o Mestre - que eu teria dito: “Quem crer em mim será salvo e quem não crer será condenado; quem der testemunho de mim eu darei testemunho diante de meu pai, mas se não der testemunho de mim, eu não o ajudarei junto ao meu pai”. Quem autorizou que essas terríveis ameaças fossem usadas? Como poderia eu, com minhas mensagens de amor, fraternidade, perdão aos inimigos, dizer coisas tão cruéis? E se o dizimador, o pastor profissional, fosse um criminoso, um quadrilheiro como tantos mencionados na Bíblia, um pedófilo?

Jesus de Nazaré olhou para Mateus, o narrador bíblico que escrevera o texto mencionado. O evangelista ergueu-se de seu trono, respondendo:

- Os recolhedores de dízimos, ou seja, os pastores necessitam implantar o medo entre os dizimados. Sem isso eles não seriam arrebanhados, tudo como já instituído por Moisés.

Jesus de Nazaré levantou-se encolerizado, foi até Mateus e, olhando no fundo dos olhos deste:

- Ousaste dizer que eu sou vingativo? Ousaste dizer que eu condenaria ao Inferno, às fornalhas ardentes da Geena e a outros males terríveis a quaisquer seres humanos? Eu, o que perdoa a todos, inclusive aos inimigos?

Mateus não se mostrou perturbado:

- Lembras que tu ensinavas nas sinagogas, lendo o Velho Testamento? E não te lembras de quantos milhares de judeus foram mortos e feridos por Jeovah porque escolheram como deus a Baal, por exemplo? Lembras que Jeovah, aqui presente, teria castigado aos que não o seguissem, com males como hemorroidas, chagas, tumores, lepra, granizo, pragas e morte através dos anjos que teria enviado para castigar os humanos? Veja - caro Mestre, sem ameaças de flagelos os líderes, os pastores, não conseguem manter seus rebanhos.

Mateus:

- Constatas agora que as ameaças fazem parte da dizimação? O Diabo - todos sabemos - está escrito na Bíblia, é um dos anjos de Jeovah. E não é o Diabo usado para amedrontar aos humanos, aos dizimados? Ou o anjo de Jeovah é mero produto do relato de pastores? De anjo se transforma em um abominável inimigo de todos? Qualquer anjo pode vir a ser um rebelde? Não é o Diabo o permanente personagem assustador que surge nos sermões da TV?

Jesus de Nazaré:

- Constato que eu pregava nas sinagogas para meu povo, meus irmãos judeus, o povo de minha amada mãe Maria e de meu pai José. E vejo agora que eu não havia percebido ou não havia lido devidamente o texto escrito por Moisés. As mortandades e as torturas impostas aos humanos por Jeovah, segundo esse Moisés, me passaram desapercebidas.

Mateus continuou:

- A dizimação é perfeitamente normal, Mestre. Para isso as ameaças são necessárias. Está tudo previsto pelos que escreveram a Bíblia.

Jesus de Nazaré:

- Não há na Bíblia registro de que eu tenha autorizado à dizimação. Está escrito que eu teria enviado os meus apóstolos para irem formar rebanhos de judeus, visitando as cidades que não os repelissem. Eu teria dito que eu era o Messias, como está escrito em Lucas 23,2: “E puseram-se a acusá-lo: temos encontrado este homem excitando o povo à revolta, proibindo pagar imposto ao imperador e dizendo-se Messias e rei”; em João 1,41: “Foi ele então logo à procura de seu irmão e disse-lhe: Achamos o Messias (que quer dizer o Cristo)”; em João 4,25: “Respondeu a mulher: Sei que deve vir o Messias (que se chama Cristo); quando, pois, vier, ele nos fará conhecer todas as coisas”; em Atos dos Apóstolos 18,5: “Quando Silas e Timóteo chegaram da Macedônia, Paulo dedicou-se inteiramente à pregação da palavra, dando aos judeus testemunho de que Jesus era o Messias”; em Atos dos Apóstolos 18,28: “Pois com grande veemência refutava publicamente os judeus, provando, pelas Escrituras, que Jesus era o Messias”.

Mateus:

- Os sacerdotes nomeados por Moisés dizimavam - inclusive seu irmão Aarão - lembra? Os pastores recebiam terras das suas ovelhas humanas, ou seja, dos judeus, quando estes necessitavam de perdão por atos pecaminosos graves.

Jesus de Nazaré:

- Eu ensinei a perdoar aos inimigos e amar a todos. Eu ensinei que os ricos dificilmente ingressariam no céu, no Juízo Final. E agora vejo que riquíssimos são os pastores e as seitas que se formaram com o uso do Grujuem. Eu, ao invés de perdoar a todos, estaria ameaçando os humanos com castigos terríveis em fornalhas, na Geena, no Inferno, em fogos eternos. Não consigo entender tamanhas iniquidades.

Mateus:

- Você jamais escreveu nada, Jesus de Nazaré. Os pastores, entre eles nós, apóstolos, escrevemos e criamos as ameaças. Ou o ouvinte de nossas pregações se transforma em nossa ovelha, ou ele se atemorizará a tal ponto que irá preferir não arriscar. Exatamente como os sacerdotes levitas faziam com os judeus. Nós aumentamos o número de fornecedores de dízimos, incluindo os gentios em nosso rebanho. As sinagogas não nos interessam mais, Mestre. As sinagogas ficam com os rabinos e os judeus, em torno de algumas dezenas de milhões. E os pastores romanos dizimam em torno de um bilhão de ovelhas, todos não-judeus.

Jesus de Nazaré:

- Ainda não estou convencido que a totalidade dos personagens bíblicos sejam pastores ou ovelhas, dizimadores e dizimados. Mas já está estabelecido por este Juízo Final que estarrecedoras contradições foram produzidas pelos que escreveram e reescreveram a Bíblia.

O celular do Mestre emitiu sinais. Atendeu, um pouco sem jeito. Colocou em ação o viva voz para que houvesse total transparência no julgamento do Juízo Final:

- Prezado Mestre Jesus de Nazaré: fala-lhe o presidente da Organização das Nações Unidas. Estou lhe comunicando que esse Tribunal aéreo do Juízo Final corre grande risco. Várias organizações terroristas estão prestes a atacar. A Força Aérea do Estado de Israel está em estado de alerta máximo e proibiu o voo de quaisquer aeronaves não autorizadas em um raio de quinhentos quilômetros, tendo como centro Jerusalém. Existe a possibilidade de serem lançados foguetes terra/ar por inimigos de Jeovah. Sugerimos que ordene a elevação do Tribunal para acima do Terceiro Céu, saindo do alcance desses mísseis.

Jesus de Nazaré:

- Nós não tememos a ninguém. Nossas legiões de anjos estão plenamente capacitadas a nos defender. E se nos baterem numa face, daremos a outra.

Mal terminara de responder, uma grande explosão ocorreu. Os tronos dos apóstolos foram atingidos. Penas das angelicais aves esvoaçavam enquanto os humanos ressuscitados se agarravam às pernas dos anjos para não caírem.

Uma segunda explosão ocorreu atingindo dois helicópteros que se precipitaram sobre Jerusalém. A uma ordem de Jesus de Nazaré os anjos partiram para o alto com suas preciosas cargas. Era incrível que suas pequenas asinhas pudessem carregar os pesados tronos. Logo estavam um céu acima do Terceiro Céu. Ante uma nova ordem, agora partida de Jeovah, se fechou esse céu, embora continuassem todos bem visíveis, já que porta alguma existia no local.

Segurando seu celular firmemente, continuou Jesus de Nazaré o diálogo interrompido:

- Presidente da ONU: devemos perdoar a esses nossos inimigos. E devemos amar a esses inimigos. Peço que não sejam castigados. Ao amanhecer, ordenarei a descida do Tribunal para a altura anterior, pois está escrito que os humanos, no solo, devem ver os tronos, como consta da Bíblia em Mateus 24,30: “Todas as tribos da Terra baterão no peito e verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu cercado de sua glória e de majestade”.

O Presidente da ONU:

- Certamente. Sabemos o que escreveram os quatro evangelistas e Paulo de Tarso. Mas você não precisa cumprir com tudo o que está manuscrito em rolos ou papiros. Afinal, quando escreveram, há dois mil anos, não poderiam adivinhar que os humanos haveriam de possuir tamanho poder bélico. Os anjos usam espadinhas. Os terráqueos usam mísseis, raios laser, bombas incendiárias, armas atômicas. Temos informações seguras que mulheres-bomba irão subir para aparentemente serem julgadas e detonarão essas armas terríveis que carregam ocultas em seus corpos.

- Nada temo - respondeu o Mestre. Devo amar a meus inimigos.

O presidente da ONU:

- Estamos cientes disso. Boa sorte. Quero aproveitar para lembrar que se estima atualmente uma população global de mais de cento e dez bilhões de humanos, entre vivos e ressuscitados. Queremos sugerir que os julgamentos sejam acelerados. Nossos cálculos indicam que seria necessário sentenciar mais de quarenta mil pessoas por hora. Ainda assim, o Juízo Final deverá durar milhares de anos. Talvez mais, pois a reprodução continua de forma assustadora, embora a falta de comida e água. Sem contar os dias de descanso em sábados, dias em que Jeovah e os israelitas não trabalham sob hipótese alguma. Milhões de testemunhas deveriam ser ouvidas. Quem garante que o réu faça afirmativas que o possam prejudicar? E os réus que perderam suas memórias? Os loucos, os detentores do mal de Alzheimer, os incapazes em geral?

O laboratório chegou carregado em um grande helicóptero com a bandeira da Suíça. Foi logo coletado material de Jeovah, de um dos seus filhos que descera para casar com mulher bela da Terra, de uma irmã de Jesus de Nazaré, de Jesus Celestial e de Noé.

O cientista explicou, a pedido do Mestre:

- O DNA é abreviatura da língua inglesa: deoxiyribonucleic acid. É um composto orgânico cujas moléculas contêm as instruções genéticas que coordenam o desenvolvimento de funcionamento de todos os seres vivos e alguns vírus. O seu papel mais importante é armazenar as informações necessárias para a construção das proteínas de RNA – ribonucleic acid. Os segmentos de DNA que contêm a informação genética são denominados genes.

Jeovah e todos os habitantes do céu, todos os integrantes do Grujuem, ninguém parecia entender nada daquilo. Mas Jesus de Nazaré ordenou que prosseguisse o perito.

- O DNA é responsável pela transmissão das características hereditárias de cada ser vivo. Incumbe-me levar a cabo exames que irão informar, com absoluta segurança, se as pessoas aqui apontadas são parentes. Do ponto de vista químico, o DNA é um longo polímero de unidades simples, ou seja, os monômeros, de nucleotídeos, cuja cadeia principal é formada por moléculas de açúcares e fosfato intercalados unidos por ligações fosfodiéster. Unida à molécula de açúcar está uma de quatro bases nitrogenadas. A sequência de bases ao longo da molécula de DNA constitui a informação genética. A leitura desta sequência é feita através do código genético, que especifica a consequência linear dos aminoácidos das proteínas. A tradução é feita por um RNA mensageiro que copia parte da cadeia de DNA por um processo chamado transcrição e posteriormente a informação contida neste é “traduzida” em proteínas pela tradução.

Pediu que lhe servissem água e continuou:

- Dentro da célula, o DNA pode ser observado numa estrutura chamada cromossoma durante a metáfase. O conjunto de cromossomas de uma célula forma o cariótipo. Antes da divisão celular os cromossomas são duplicados através de um processo chamado replicação. Dentro dos cromossomas, proteínas da cromatina como as histonas compactam e organizam o DNA. Essas estruturas compactas guiam as instruções entre o DNA e outras proteínas, ajudando a controlar que partes do DNA são transcritas.

Jesus de Nazaré, dirigindo-se a Moisés e Jeovah:

- Vocês tinham alguma vaga ideia de tudo isso quando escreveram que Adão foi criado do pó? Leio em Gênesis 1,27 e 2,7 e seguintes: “Então o Senhor Deus formou o ser humano do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e ele tornou-se um ser vivo; tirou-lhe uma das costelas e fechou o lugar com carne e com isso formou a mulher; criou o ser humano à sua imagem, a imagem de Deus o criou, macho e fêmea os criou”. Jeovah era macho, portanto. Quem era a fêmea, tal como Eva? Onde estava?

- Deduz-se – prosseguiu o Mestre - que Moisés foi um sacerdote muito distraído em seus escritos. Pergunto: se já existiam filhos de Jeovah no céu, inclusive antes do Big Bang, porque haveria ele de criar um ser sem DNA, imprescindível para que haja fecundação de mulher? Pergunto ainda: os filhos de Jeovah que depois desceram do céu para casar com as mulheres belas da Terra, possuíam DNA humano, que pudesse servir para fecundar mulheres terráqueas? Nesse caso, seu DNA era o mesmo que Jeovah possuiria em seu corpo divino e que gerou esses filhos nas nuvens celestiais? Pergunto mais: de quem teria Jeovah obtido esse DNA, se os humanos somente surgiram há um ou dois milhões de anos, após as evoluções ocorridas desde o Dryopithecus, primata já existente há mais de vinte milhões de anos? Não é verdade, de outro lado, que filhos de Jeovah tenham descido e gerado filhos engravidando as terráqueas? A Bíblia Sagrada comete inverdades? Foi escrita por primitivos sacerdotes que não tinham a menor ideia da Evolução? Suas narrativas são ingênuas, simplórias, obtusas?

O perito em exames de DNA foi convidado a responder a essas perguntas logo que acabasse com os exames laboratoriais. Pôs-se a trabalhar ali mesmo, no helicóptero, onde obtinha energia elétrica para poder realizar os exames.

Jesus de Nazaré fitou longamente Mateus, Marcos, Lucas, João, Paulo de Tarso e Moisés. Iria dizer algo, mas decidiu calar-se.

Die Maschiene estampou:

“O Dryopithecus foi um gêrero de primatas que viveu há vinte e seis milhões de anos em florestas ao sul da África e gerou tanto hominídeos (ancestrais dos humanos atuais) quanto os macacos. O Australopithecus é considerado o parente mais próximo dos seres humanos da atualidade. Esse gênero de hominídeos englobava várias espécies que viveram entre cinco milhões e dez milhões de anos atrás. O homo sapiens surgiu e foi a única espécie de hominídeos que não se extinguiu. Gerou os humanos atuais que surgiram há trezentos mil anos”.

Moisés resmungava e não parava de alisar sua longa barba. De cabeça baixa, tentava não ser notado quando olhava furtivamente para o deus que criara e adotara no Monte Sinai.