Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 25 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 24

 

Todos dirigiam sua atenção a Moisés. Ele havia escrito a história do Pentateuco em que Jeovah seria o criador de tudo, há menos de dez milênios, aparentemente. Moisés, visivelmente entediado de tudo que ocorria:

- Por que estão espantados? Não perceberam ainda que todos os métodos para que se obtenham dízimos são usados habitualmente? Não leram que o deus Baal foi criação de dizimadores? Não perceberam ainda que ser sacerdote é uma profissão reservada aos mais hábeis? Por que não me deixam em paz com suas perguntas ingênuas? Todos querem ser aliviados de seus medos! Pergunto-vos: as ilusões de prêmios e os temores por castigos divinos nunca abandonam os humanos?

Jesus de Nazaré:

- Mateus, era esse o teu objetivo? Pedro: era o dízimo que buscavas? Vocês imitavam os levitas, instituídos os sacerdotes judeus por Moisés, começando pelo seu irmão Aarão?

Mateus nada respondeu. O homem pré-histórico, com oitocentos mil anos de idade, foi por todos absolvido - embora Jeovah mostrasse seu inconformismo batendo os punhos nos braços do seu trono. Jesus de Nazaré ordenou que se trouxesse um dos líderes ebionitas ressuscitado:

- Você é judeu e viveu antes e após minha crucifixão. O que tem a me dizer sobre o que Mateus escreveu?

- Ele escreveu seu Evangelho em hebraico. Esse Evangelho que aqui vejo - constante da Bíblia Sagrada Romana - é resultado de traduções feitas para o idioma grego com modificações em que Jeovah foi jogado para um segundo plano. Com isso todos podiam e podem matar, roubar, cometer adultério, possuir outros deuses. Os novos dizimadores criaram uma mensagem que lhes garantiu milhões de adeptos. Todos ficaram maravilhados: não necessitavam mais submeter-se às severas regras de Jeovah. Bastava-lhes fornecer o dízimo, crer num novo deus, Jesus de Nazaré, e, mais espetacularmente, teriam um prêmio que Jeovah não lhes dava: a ressurreição dos mortos e vida eterna num lugar situado vagamente como sendo nas nuvens.

Jesus de Nazaré:

- Mas o texto de Mateus promete a vinda do Reino de Jeovah logo, quando muitos de vocês ebionitas ainda estivessem vivos. As modificações, ou interpolações, de que falas são perfeitamente visíveis: na segunda parte dos Evangelhos usados pelos romanos não mais se busca libertar Israel do jugo romano, mas, sim, uma dita salvação de toda a humanidade.

- Sim - respondeu o ebionita – os tradutores, copistas e contratados pelos romanos, esqueceram-se de modificar a primeira metade dos evangelhos. Aí os evangelistas prometem a vinda do Reino de Jeovah para logo, com a consequente libertação de Israel do jugo romano. Nós, ebionitas, tínhamos nosso sacerdote Ebion e outros que eram seguidores de Jesus de Nazaré de acordo com os escritos de Mateus e de Moisés e tínhamos que ser todos circuncidados. Obviamente nossos rabinos pastores não aceitavam as equivocadas mensagens de Paulo de Tarso.

Jesus de Nazaré:

- Está ficando claro: todos querem dizimar. Todos querem viver à custa dos dizimados. E todos os dizimados se sentem felizes em doar seus bens: afinal, recebem a promessa de vida eterna no céu e uma vida terrena próspera.

O ebionita:

- Sim. Cada sacerdote quer encontrar o melhor meio de ser o melhor dizimador. Paulo de Tarso percebeu isso. Parou de matar cristãos. Nem sequer foi a julgamento pela morte de Estêvão, onde foi coautor confesso. Passou a ser um eficiente dizimador, tal como Pedro, Moisés e os sacerdotes levitas.

Uma inesperada visita aconteceu então. Jesus Celestial chegara do alto. Era o filho de Jeovah, cuja existência foi noticiada por Mateus e demais apóstolos de forma oblíqua. Jesus de Nazaré ergueu-se e convidou seu homônimo para sentar-se no trono, o que não foi aceito. Mateus, o ressuscitado ofereceu seu trono. Sentaram-se frente a frente.

- Alegra-me ver-te. Como tens resistido à baixa temperatura aí no alto do céu? - indagou Jesus de Nazaré.

- Estamos atualmente habitando as nuvens, com temperaturas próximas a zero graus Celsius. O problema maior é a chuva.

Mateus interrompeu:

- Jamais alguém escreveu que houvesse dois Jesuses. Isso que vejo é um engano e um grande disparate.

Jesus de Nazaré:

- Certamente pode ser sim - Mateus. Mas você mesmo escreveu que dois são os Jesuses. Abra a Bíblia e leia o que tu escreveste em 18-10: “Os anjos no céu contemplam sem cessar a face de meu pai que está nos céus”. E escreveste em 26-53: “Posso invocar meu pai e ele me enviará imediatamente doze legiões de anjos”. E escreveu o evangelista João, em 17,24: “Pai, me amaste antes da criação do mundo”.

Dito isso, Jesus de Nazaré dirigiu-se até Mateus, segurou-o pelos ombros e desferiu:

- Esse Jesus Celestial, segundo teus escritos, já existia antes mesmo de Jeovah criar tudo! Logo -eu que nasci do ventre da amada Maria - não posso ser a mesma pessoa. Não se esqueça de que vocês escreveram que teria sido um espírito o que deu origem à gestação de nove meses da qual eu nasci. E sem espermatozoide? Ou o espírito possui corpo e, então, espermatozoides? E o terceiro Jesus, aquele que vocês evangelistas descrevem como ter subido para as nuvens, em forma de espírito, no momento da morte na cruz? Três Jesuses!

Mateus empalidecera. Como pudera escrever tudo isso? E como pudera João escrever que Jesus já existia antes que Jeovah criasse todas as coisas? Como explicar que Jesus nascera do ventre da amada Maria? Isso não poderia ser justificado para os dizimadores que a tudo ouviam pelas televisões.

Jesus Celestial sorria. Aparentemente era tão ou mais bondoso do que o Jesus de Nazaré, que nascera do ventre de Maria. Com a elegância própria dos deuses, apanhou um dos muitos exemplares da Bíblia que estavam presos nas laterais dos tronos, sobre os leões esculpidos:

- Veja, meu querido meio irmão Jesus de Nazaré: João descreveu claramente que eu, Jesus Celestial, efetivamente já vivia com Jeovah desde antes da criação do mundo. Leio em João 17,24: “Pai, me amaste antes da criação do mundo”. Obviamente que, antes da criação de tudo, Jeovah não poderia amar um filho que já não estivesse com ele.

Jesus Celestial fechou a Bíblia e, com largo gesto dirigido a Jeovah:

- Se você diz que anjos olham para a face de Jeovah, conclui-se que Jeovah não é um espírito, já que possui rosto visível, o que os personagens bíblicos certamente não têm, já que não são perceptíveis aos nossos sentidos.

Jesus de Nazaré:

- Mas Mateus e os outros escreveram que tu foste enviado para a Terra por Jeovah. Nesse caso tu não és eu? Veja o que o evangelista João escreveu em 6,38: “Jesus de Nazaré: eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”. Ou seja, um de nós desceu do céu. Disso não podemos duvidar. Mas, se eu nasci depois de nove meses de gestação da amada Maria, como poderia eu existir antes do parto e, então, descer?

Jesus Celestial sorriu afavelmente. Nem parecia ser filho de Jeovah, o Senhor dos Exércitos de Israel que eliminara milhares de judeus e de gentios e que possuía tantos rancores e um grande mau humor. Disse:

- Sou eterno. Sou filho de Jeovah. Não posso ser morto. Como poderia eu ser morto e penetrar em um óvulo no útero da amada Maria ao mesmo tempo? Seria simples se Mateus houvesse escrito que Jeovah me enviou diretamente para Israel, sem ter que passar – absurdo dos absurdos - pelo útero de uma mulher judia. E se lê em Mateus 1,18: “Maria, sua mãe, desposada com José, antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo”. E escreve o evangelista grego Lucas, conhecido por Lucarno, o médico, em 1,35: “Respondeu-lhe o anjo: O Espírito de Jeovah descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra”.

Jesus de Nazaré, voltando para o trono, segurou as mãos de Jesus Celestial:

- Você é filho legítimo de Jeovah e já vivia e era amado por ele antes do Big Bang, ou, da criação bíblica contida no Pentateuco. Não há como negar isso. Está claramente escrito nesse Livro. Diga-me: somos personagens em histórias que dizimadores criaram para obter adeptos?

Foram interrompidos pelo evangelista Marcos:

- Olhem o que escreveu meu colega evangelista João, no capítulo 6,38: “Pois desci do céu não para fazer minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”. Isso teria sido dito por Jesus de Nazaré. Fica claro, portanto, que o Jesus nascido de Maria desceu do céu.

Jesus de Nazaré voltou a fitar Jesus Celestial:

- Por que o evangelista João escreveu isso? Como poderia eu ter descido do céu, se nasci do ventre da amada Maria? E, se tivesse descido do céu, eu teria já existido antes da criação do universo, como está escrito? Ou eu vivia em companhia dos filhos de Jeovah noticiados por Moisés?

- Está claro que nasci do ventre de Maria. Nesse caso, você, Jesus Celestial, é necessariamente aquele que já vivia com Jeovah antes da criação do universo. Vou convocar o evangelista João e Moisés para explicarem várias coisas.

Vieram os dois convocados. Jesus de Nazaré perguntou ao evangelista João:

- Escreveste em João, 1,18 que “ninguém jamais viu a Deus; o Filho único, que é Deus e está na intimidade do Pai, foi quem o deu a conhecer”. Pois Moisés escreveu que ele falava e recebeu as duas tábuas com os dez mandamentos face a face com Jeovah! Isso está em Deuteronômio 5,4: “Jeovah falou-nos sobre a montanha, face a face, do meio do fogo”. Como explicas tudo isso?

João empalidecera. Mas permanecia mudo.

- E escreveste que Jesus de Nazaré é filho único de Jeovah também nos capítulos 1,14, 3,16 e 3,18. Como explicas que Jeovah possui vários filhos no céu, como o escreveu Moisés no Gênesis 6,1 e está relatado detalhadamente em Jó 1,6 e 2,1?

Ante o silêncio de João, Moisés disse:

- Jeovah, deus dos israelitas, o Senhor dos Exércitos, Javé, possuiu muitos filhos no céu. Está isso comprovado também no livro de Gênesis 6,4: “Os filhos de Deus se uniam às filhas dos homens e elas geravam filhos”. E, no mesmo livro, em 6,2, está claramente dito que os filhos de Deus casaram com as filhas belas dos humanos.

Moisés abriu o Velho Testamento:

- Jó 38,7 dá conta: “Sob os alegres concertos dos astros da manhã, sob as aclamações de todos os filhos de Deus”.

Voltou a manusear a Bíblia Sagrada e leu:

- Leio em Deuteronômio 32,8: “Quando o Altíssimo dividia os povos e dispersava os filhos dos homens, fixou limites aos povos, segundo o número dos filhos de Deus”.

Voltou Moisés a folhear no Velho Testamento:

- Observa-se no livro Sabedorias 5,5: “Como, pois, é ele do número dos filhos de Deus, e como está seu lugar entre os santos?”. E em Sabedorias 12,7: “Para que esta Terra, estimais entre todas, recebesse uma digna colônia de filhos de Deus”. Como se pode bem observar, são vários os sacerdotes que relatam claramente a existência de colônias desses filhos de Jeovah. Negar esses fatos seria confessar a falsidade do Livro o que evidentemente não pode interessar aos dizimadores. Dizer que eram mitos seria confessar que todos os anjos são mitos. Toda a Bíblia ruiria como castelo de areia na maré alta.

Moisés:

- Jeovah não possui somente filho único. Há milênios possuiu ele inúmeras colônias de filhos e deles obteve, na Terra, netos, bisnetos e assim por diante, resultado da vinda deles do céu e sua união com esposas descendentes de Adão, Eva e de Noé. O Velho Testamento não falha jamais, mesmo que escrito por rabinos. Isso quem afirma é o Papa que abdicou de seu reinado. E os rabinos. E o grande filósofo israelita Rabi Moshê Ben Maimon, nascido no ano judaico de 4895 na cidade de Córdova, na Espanha. Declarou em seus conhecidos Princípios 6 e 7: “Creio plenamente que todas as palavras dos profetas são verdadeiras e que a profecia de Moshê Rabeinu é verídica, e que ele foi o pai dos profetas, tanto dos que o precederam como dos que o sucederam”.

Jesus Celestial olhou significativamente para Jeovah:

- Todos os dizimadores usam de nossos nomes. Moisés usou o de Jeovah e instituiu por esse meio os sacerdotes levitas, da tribo de Levi. No Novo Testamento, Mateus e seus colegas usam do teu nome, Jesus de Nazaré. Os romanos se valem o que está sendo chamado de Grujuem, ou seja, Grupo de Judeus Emprestados - vinte e poucos israelitas utilizados pelos dizimadores de Roma e das seitas derivadas: Jeovah, Jesus de Nazaré, Maria e José, os doze apóstolos, os quatro evangelistas, o Anjo Caído e Paulo de Tarso. Tudo isso está evidente e não sei por que te causa ainda espanto. É que eles se contradizem e não tomam cuidado ao criar seus relatos. Sabem que aos dizimados nada importa: estes desejam ser aliviados de seus medos e pagam por isso com impressionante alegria. Doam dízimos e bens para os sacerdotes por medo, por riquezas futuras e por vida eterna que lhes é prometida. Querem religiões. Os deuses são secundários.

Jesus de Nazaré:

- Pois a propósito – lembro-me dos dizimadores que eram meus adversários: os saduceus, fariseus e vários outros. Estes possuíam sacerdotes profissionais e que buscavam fiéis que lhes fornecessem dízimos e glórias. Mas eu não os detratava - no que está incorreto Mateus ao escrever no Capítulo 20: “Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do Inferno? Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Sois semelhantes a sepulcros caiados”. Eu sou a mensagem do amor, da fraternidade, do perdão.

- Como faziam os levitas, nomeados por Moisés. Eram-lhes entregues as partes mais valiosas dos carneiros e os melhores vinhos, as primícias. Seriam doações destinadas a Jeovah, mas, como não descia das nuvens o deus judeu, quem se regalava eram os sacerdotes. E isso se repete até hoje - prosseguiu Jesus Celestial, aparentando estar muito bem informado. O dinheiro é ofertado sobre o altar. Para onde vai? Quanto é coletado?

Jesus de Nazaré:

- São todos sacerdotes profissionais? Vivem à custa dos fiéis? Confirmas isso?

Jesus de Nazaré respondeu à própria pergunta:

- Disso não se pode ter dúvida alguma. A Bíblia deixa claro que os doutrinadores devem receber seu sustento por pagamento dos fiéis. Chamam esses pagamentos de doações ou dízimos. Trata-se de profissão devidamente regulamentada pelos narradores bíblicos. Nas epístolas escrevem que devem receber salário dobrado os pastores de fiéis. No Velho Testamento os rabinos possuíam clientes que lhes pagavam para serem perdoados de graves faltas. Em Números 18,14 e seguintes Jeovah ordenou que “tudo o que for votado ao interdito em Israel será do sacerdote, bem como todo o primogênito de toda a criatura, homem ou animal e para o seu resgate receberão os rabinos à razão de cinco ciclos de prata”.

Ninguém contestava. Jesus de Nazaré prossegue:

- Isso me faz lembrar os sacerdotes que agiam profissionalmente e eram meus adversários! Os saduceus, os fariseus. Os seus sacerdotes mantinham uma grande rivalidade na busca de seus dizimados e de suas glórias! E os meus apóstolos aprenderam a dizimar com eles, certamente.

- Atualmente os pastores pedem dízimos nos programas de televisão. Indicam números de contas bancárias. Dizem que necessitam desse dinheiro para poderem custear os programas. Ameaçam com a palavra Diabo! E vendem livros aos fiéis, na grande Indústria da Fé. Outros vendem medalhas, chaveiros, compact discs – CDs - e viagens turísticas santas. Vendem fitas gravadas com vozes de pessoas famosas. Promovem viagens até Israel e lugares onde teriam ocorrido milagres.

- Vendem aos frequentadores dos seus templos frascos com azeite de soja, girassol ou de oliva, dizendo que esses óleos provinham de Israel - com grandes lucros! Vendem águas milagrosas! Promovem dias de milagres! Dias das rosas! Terapias do amor! Afirmam que Jeovah criará um paraíso restaurado na Terra, e não nas nuvens! Cantores profissionais são pagos para atuar nos cultos! Promovem Shows da Fé! Publicam jornais com propaganda de pessoas que teriam sido escravas de Satanás e possessões demoníacas! Depoimentos de pessoas que teriam se libertado de espíritos! E o mais curioso é que os promotores públicos não pediam o encarceramento de ninguém. Muitos são os pastores que agem honestamente. São auto-iludidos, muitos deles – manipulados pelos seus líderes.

Sara Moshê noticiou aos seus leitores: “No mundo todo são agora bem observados os pastores que usam de canais de televisão para o seu trabalho de juntar sempre mais ovelhas para seus rebanhos. Podiam ver como as mesmas mensagens de Pedro, Paulo de Tarso, Mateus, Timóteo e tantos outros escritores bíblicos eram usadas. O Grujuem está presente em todas as seitas romanas e suas derivadas”.

O resultado, agora, no Juízo Final, era ainda mais profícuo. O rosto dos pastores era agora bem examinado pelos telespectadores. O personagem Diabo, o fogo das fornalhas eternas, tudo estava claro agora. E os rebanhos aumentavam ainda mais extraordinariamente.

A Máquina, acionada pelo Mestre, informou:

- Os monges de Qumran como o evangelista João: os judeus que se opõem às doutrinas de Jesus de Nazaré são descendentes do Diabo. Paul Johnson identifica uma poderosa máquina de ódio, resultante de antissemitismo pagão. As ekklesias venceram e as sinagogas por sua vez expulsaram judeus cristãos. No século II da era Atual judeus mataram cristãos. A Torá venceu e os sacerdotes israelitas converteram para o judaísmo muitas pessoas dos demais segmentos da sociedade. O dízimo era, como sempre fora, o grande objetivo. As desavenças entre os sacerdotes eram as mesmas dos tempos de Levi, de Aarão, irmão de Moises, de Elias e as quadrilhas de sacerdotes que se digladiavam pelo dinheiro, ouro e das primícias das colheitas de pobres Am ha-Arez.

Fora elaborada uma lista de pessoas ressuscitadas que deveriam ser localizadas pelos anjos oficiais. Nenhum dos seiscentos anjos judaicos foi admitido para esse trabalho. Chegou Agostinho o grande dizimador romano. Saudou a todos altaneiramente e respondeu à primeira pergunta do Mestre que versava sobre Inferno.

- O Inferno é habitado por animais ferozes. Comem carne e despedaçam os seres humanos lentamente.

Sobre o tema respondeu o mago inglês Richard Rolle:

- Escrevi que os condenados ao Inferno dormiam em camas com vermes venenosos; eram obrigados a beber venenos de marimbondos e se alimentavam sugando cabeças de serpentes e de pedaços de suas próprias carnes.

Die Maschiene estampou: “Segundo a obra já citada do renomado escritor Paul Johnson: Adam Scotus afirmava que no Inferno os praticantes da usura seriam fervidos em ouro derretido”.

Jesus de Nazaré acionou Die Maschiene.

- Agostinho. Preciso que me confirmes o que está escrito em um dos teus livros e que o computador está reproduzindo:

“Conheço muitas virgens consagradas, que são tagarelas, curiosas, ébrias, rixentas, avaras, orgulhosas, coisas que são contra os mandamentos ultrapassando Eva no pecado da desobediência. Consequentemete, não só a obediente deve ser preferida à desobediente, mas a casada mais obediente é preferível a uma virgem menos obediente – VIII; 8.XXIII, 30”.

- Certamente que se trata de escrito de minha autoria.

Jesus de Nazaré, ante o espanto geral que o tema provocara:

- Dizes essas coisas como se as ideias fossem obtidas de minhas pregações. Quero dizer-te que os ultrajes que cometes contra as mulheres bem se harmoniza com a mortandade de mulheres cometida por teus associados Tomás de Torquemada e tantos outros autores de ignóbeis crimes. Como podes dizer que Eva sequer existiu, da forma relatada na Torá? Como podes daí concluir que as mulheres devem obediência aos homens? Como podes tolher a liberdade das mulheres em satisfazer seus anseios sexuais? Quem te autoriza a dizer que a virgindade das mulheres pode ser gerenciada por um sacerdote que se diz superior por viver sem o que rotulas beociamente de fornicar? Saiba que uma mulher te gestou, Agostinho, por que ela fornicou. Saiba que o desprezo por tua mãe é mais abjeto do que o comportamento dos canibais. Sim, tua mãe é mulher, o ser sublime que tornou possível a existência da humanidade. Não as queres nos mosteiros porque a pedofilia é a atividade secreta dos seres que lá vivem sem trabalhar, no ócio, às custas dos cordeiros, batatas, oliveiras, tomados de camponeses?

O Mestre perdera sua habitual serenidade. Logo se tranquilizou, no entanto, ordenando que os recém-chegados fossem assentados em cadeiras laterais. Talvez tivessem que ser inquiridos mais tarde.