Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 30
Jesus de Nazaré ordenou que se trouxesse um home theater com monitor, note book, tela de televisão, aparelhos de DVD e videotapes de rezas realizadas em igrejas. No filme apareceu um pastor evangélico muito bem vestido diante de um público de pessoas humildes. Dizia o pastor que o Diabo iria ser vencido pelas rezas e que os fiéis doentes ficariam curados, tal como acontecera com os enfermos que se apresentavam a Jesus de Nazaré, seus apóstolos e, posteriormente Paulo de Tarso. Os adeptos que estavam com dificuldades financeiras logo ficariam livres de dívidas e a abastança se instalaria em seus lares. Mensalmente a Jeovah se arrecadavam em moeda local o equivalente a cem quilos de ouro. Essa igreja possuía dez mil sacerdotes espalhados em mais de cem países. Fora fundada há poucas décadas e possuía igrejas e imóveis de grande valor. E tal descomunal número de pastores não tinham que trabalhar. Não tinham que produzir alimentos no campo ou mourejar em indústrias. Viviam confortavelmente à custa dos dízimos. Eram admirados e aplaudidos pelas ovelhas em seus templos ou em canais de televisão. Eram pessoas importantes. Detinham a cobiçada glória bíblica.
Jesus de Nazaré:
- Esses extraordinários recolhimentos de dízimos espontâneos fizeram com que os Bispos dessa igreja acumulassem grandes fortunas e enviassem o dinheiro para outros países, sendo, após, processados criminalmente por isso. Mas esses dizimadores se defenderam, com sucesso, afirmando aos juízes que os dízimos eram dados espontaneamente, exatamente como acontecera com Paulo de Tarso e Pedro, no seu tempo. Os dizimados, por outro lado, recebiam a contraprestação devida pelos sacerdotes, ou seja, a promessa de vida eterna após a ressurreição.
O Bispo evangélico:
- Grande Mestre. Nada mais fazemos do que cumprir com as regras impostas pela Bíblia Sagrada. Ninguém pode ser forçado a trabalhar gratuitamente.
Jesus de Nazaré:
- Muito bem. Os narradores bíblicos justificam a dizimação. Como se procede para a criação de uma nova seita religiosa? Lembro que Baal e dezenas de outros deuses foram usados para juntar ovelhas dizimistas.
O Bispo:
- Tudo é perfeitamente lícito. Escrevem os novos pastores num papel, as regras da nova religião, juntamente com uma denominação. Após é levado esse documento a um centro de escribas, para o registro. Na própria casa do criador dessa seita pode ser instalado o templo, que passa a ser conhecido como igreja. Logo surgem os dizimistas. O pastor, muitas vezes claudicante conhecedor dos textos bíblicos, passa a pregar a ressurreição dos fiéis e lhes propiciando curas espirituais, como gostam de dizer. Nas prédicas, escolhe trechos bíblicos próprios para seus fins. Esse é o seu trabalho. Aparentemente todos se sentem felizes: os fiéis com a esperança da ressurreição, e o sacerdote com sua renda.
Jesus de Nazaré:
- E os sacerdotes como sempre ocorreu, não trabalham, nada produzem. Não trabalham no campo. Não são camponeses nem artesãos. E vivem das primícias, dos melhores frutos fornecidos pelos seus clientes. Pois eu sempre observei isso: nem os Sumo Sacerdotes, nem os príncipes, nem os rabinos tinham que trabalhar. O máximo que faziam era administrar os sacrifícios de gado em favor de Jeovah, onde ficavam com a parte mais valiosa dos animais imolados pelo fogo.
- Certamente - confirmou novamente o Bispo. Essa é a regra, protegida pela Lei Maior do País. Com a riqueza, novos templos são erguidos e novas rendas surgem. Novos pastores são necessários e as fortunas amealhadas se tornam visíveis com o fausto das novas edificações. Tudo ocorre como aconteceu com a igreja romana. E milhões de adeptos se sentem felizes em rezar para os personagens judeus Jeovah e Jesus de Nazaré. E basta que nas cidades um bairro populoso surja, para que logo se vejam nascendo, como cogumelos, as casas com torres ou os templos em imóveis alugados ou na residência do novo e feliz sacerdote. E os pastores recomendam vidas regradas aos seus rebanhos, tal como fazia Paulo. Mostram-se bons, atenciosos, amáveis, consoladores, tal como Paulo.
Jesus de Nazaré:
- Isso é próprio de todos os sacerdotes. Se não forem melífluos ou não conseguirem sê-lo, perdem seus cargos ou mínguam as oferendas. Onde permanecem e o que fazem, logo que terminam suas pregações?
O Bispo:
- Cada profissão tem sua carga de trabalho própria. O que faziam os apóstolos? Aravam a terra? Não! Abandonaram suas famílias! Eram admitidos nas casas onde viviam por longos períodos, como está escrito. Seu trabalho era o mesmo de todos os pastores. E se não fossem bem recebidos nas cidades, tu terias dito a eles que sacudissem o pó das suas sandálias e que essas cidades arderiam no Inferno. Eram desocupados? Plantaram algum parreiral? Semearam e colheram trigo?
- Escreveram isso – respondeu o Mestre. O que me apresenta como um ser cruel. Novamente rejeito e repilo essas acusações.