Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 13 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 12

 

Agora os serafins apresentaram um grupo de ressuscitados muito estranhos para os julgadores. Estavam completamente nus, possuíam grandes barbas e cabelos longos sobre os ombros. Não falavam hebraico, grego, aramaico, inglês ou qualquer outra língua viva ou morta conhecida. Die Maschiene informou que não tinha em seus registros quaisquer dados daquele idioma.

Um dos arcanjos chegou com um grupo de cientistas. Examinaram e explicaram ao Tribunal celestial:

- Trata-se, o primeiro, de um homo erectus do sexo masculino. Deve ter vivido há um milhão e oitocentos mil anos na África. Seu cérebro tem o volume equivalente a dois terços do nosso. O segundo é um homo heidelbergensis que viveu há seiscentos mil anos e é descendente do homo erectus e tinha um cérebro um pouco maior.

- Um momento! - exclamou Jeovah. O primeiro homem foi Adão e a primeira mulher foi Eva. Eu pessoalmente os criei, já adultos, há menos de seis mil anos e já falavam hebraico comigo. Essas criaturas não são humanas, pois o Velho Testamento não mente.

Mateus interrompeu:

- Eles devem ser julgados. Está escrito no Novo Testamento que todos ressuscitarão. E esse Testamento igualmente não mente.

- Prossigam - ordenou Jesus de Nazaré. Todos são iguais e todos merecem a oportunidade de ingressarem no céu.

Os cientistas examinaram o terceiro:

- É um australopithecus afarensis, um macaco que desceu das árvores há três milhões de anos e que deu origem aos demais aqui presentes. Esses bípedes passaram a viver nas savanas africanas que se formavam nessa época.

- Quanto ao quarto hominídeo: trata-se de um homo sapiens, surgido há duzentos mil anos e já tinha a nossa aparência atual. A sua coluna vertebral tem origem no primeiro peixe, o Picaya Gracilens, surgido há seiscentos milhões de anos. Todos herdamos os genes dessa coluna vertebral do grande herói que venceu a todos os rivais predadores.

Pesquisado o quinto, informaram:

- Esse ressuscitado é um homo neanderthalensis que viveu há duzentos mil anos e desapareceu há vinte e oito mil anos. Podem ver que ele tem a aparência de um urso peludo e tinha resistência para viver em temperaturas de até trinta graus Celsius negativos. Desapareceu esse grupo de humanos porque tiveram menores habilidades do que seus concorrentes homo sapiens. Advirto que eles não compreenderão absolutamente nada do que lhes for perguntado.

Jeovah virou-se para Mateus:

- O que faremos agora? Vocês relataram que todos seriam ressuscitados para serem julgados no Dia do Juízo Final. Cabe-lhes criar uma solução para o dilema.

Mateus:

- Certamente. Está escrito por mim e por outros. E, se me permitem, quero dizer que eles devem ser condenados às fornalhas infernais. É evidente que não tiveram fé em Jesus de Nazaré. Sem isso, não podem ser admitidos no céu. Certamente não se arrependeram de seus pecados, já que os dez mandamentos somente vieram a ser publicados por Moisés há meros três mil anos. Com isso também não cumprem com mais esse pressuposto que possibilita o ingresso no céu. Não foram certamente justos, já que as leis escritas e as morais inexistiam então. Não foram ímpios nem pecadores. Não foram ricos e não falaram contra o Espírito Santo. Não são crianças. Não tiveram a oportunidade de obedecer a Jeovah. Voto no sentido de serem enviados ao Inferno. Não falam o idioma hebraico ou qualquer outra língua conhecida. Não se pode conceber uma convivência com estes hominídeos no céu. Seria o caos.

Jesus de Nazaré:

- Meu voto é no sentido de que sejam absolvidos. Jeovah não os pode castigar. Não creram em mim porque não tiveram chance para isso. Logo há para eles a presunção de que teriam fé, tanto em mim como em Jeovah, caso houvesse algum sacerdote nosso vivendo naqueles tempos longínquos. Se pecaram- devem ser absolvidos. Não escreveram os evangelistas que Jesus de Nazaré veio para salvar os ímpios e pecadores? E se justos não foram, isso se deveu ao singelo fato de que viviam como feras e tinham que simplesmente tentar sobreviver o maior tempo possível.

- Certamente não puderam blasfemar contra o Espírito Santo, por motivos óbvios, já que, naquele tempo sequer existia esse personagem que surgiu somente no tempo do Imperador Constantino, no ano 325 da Era atual, quando os copistas criaram e introduziram nos textos a figura da Trindade. Também não foram batizados porque não havia sacerdotes judeus ou romanos para isso.

Levantou-se Tomé:

- Esses homens podem ter sido ricos, ou até muito ricos. Nesse caso eles não deveriam ter acesso ao céu. Requeiro, com todo o respeito ao voto dos demais, que eles sejam submetidos a uma perícia.

Concordaram todos, menos Jeovah. Os ancestrais humanos foram levados para a sede da Universidade da Sorbonne onde uma equipe passou a tentar manter diálogos com esses ressuscitados humanos e semi-humanos.

Jeovah estava bastante contrariado. Moisés havia escrito que ele, Jeovah, havia criado Adão e Eva há menos de dez milênios e com eles falava no idioma hebraico. Como podiam afirmar que isso teria ocorrido há milhões de anos? Mas ele nada podia fazer. O Tribunal Celestial decidira.

Voltaram todos em poucas horas. Os cientistas usaram a Máquina que facilitou muito as conversações.

- Descobrimos que o homo neanderthalensis aqui presente era o grande líder de seu grupo. Era riquíssimo, nos termos daquela época. Foi um grande guerreiro e se defrontou com este outro, Homo Sapiens, há cem mil anos, na região atualmente ocupada pelo povo de Israel. Também o homo sapiens era o líder poderoso do seu grupo. E queremos informar a este Tribunal que existem, nesta data, sítios arqueológicos com grutas desses dois grupos separados por poucos metros. Seria interessante que se determinasse a ressurreição de todas as ossadas ali existentes e mais as que se encontram ainda ocultas sob o solo israelense e países adjacentes.

Jesus de Nazaré dirigiu-se aos quatro evangelistas:

- Vocês escreveram que todos ressuscitariam. Isso não está acontecendo. Quem é o responsável por essa clamorosa falha bíblica?

Entreolhavam-se Mateus, Marcos, Lucas e João. Fitaram Paulo de Tarso. Finalmente Mateus criou coragem:

- Está escrito em meu Evangelho, em 16,27, que tu, grande Mestre, é que serás o responsável pelas ressurreições de todos os seres humanos, no Dia do Juízo Final.

Jesus de Nazaré fechou os olhos. Seus punhos cerrados indicavam uma grande luta interna para manter a calma. Mateus continuou:

- Em 16,27 está escrito: “Disse Jesus: Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai com seus anjos, e então recompensará cada um segundo suas obras”. Ora, Mestre, agora que retornaste das nuvens mais altas na glória de Jeovah, não tens como recompensar a cada ser humano se não ressuscitares a todos.

Jesus de Nazaré estava perplexo.

- Como poderia eu cumprir com o texto bíblico? Que mecanismos haveria eu de usar para encontrar cem bilhões de seres humanos que haviam morrido nas centenas de milhares de anos que se passaram desde que surgira o homo sapiens, por exemplo? Corpos que desapareceram devorados por predadores e por antropófagos em terras, mares, florestas de todo o planeta? Corpos que se decompuseram e serviram para formar flores, novos tecidos de animais, aves e peixes? Trilhões de trilhões de atos praticados na Austrália, na América, na África, como poderiam ser recompensados?

Jesus de Nazaré refletia. Lágrimas surgiram em seus olhos:

- E tu, Mateus, tiveste ainda a ousadia de escrever que eu voltaria na glória de Jeovah para recompensar aos humanos ressuscitados e aos vivos? Recompensar com o quê? E para quê? Dar-lhes cem casas, cem terrenos, com que recursos? E foste tu, Marcos, que prometeste que os que dessem dízimos em forma de casas e terras receberiam como recompensa cem vezes mais casas e terras e a vida eterna no Século Segundo, da Era atual, como se lê em teu texto de 10,30?

Jesus de Nazaré sentou-se em seu trono. Soluçava copiosamente. Seus seguidores, após sua morte na cruz, juntavam adeptos com promessas de recompensas mirabolantes. Tomavam-lhes as casas, as terras, sob a promessa de uma devolução cem vezes maior.

Após acalmar-se, o mundo respirava aliviado. Mas o que se seguiria? Finalmente falou o Mestre:

- E isso tudo está provado. Está escrito na Bíblia Sagrada. Não é uma linguagem simbólica. É uma clara confissão. E o que deveria pagar a recompensa cêntupla seria nada mais e nada menos do que ele, Jesus de Nazaré!

- Sacerdotes – balbuciou com ar triste e desconsolado.

Aproximou-se o arcanjo Miguel, sussurrou algo ao ouvido esquerdo do Mestre e se afastou voando elegantemente. O Nazareno meditou por longo tempo.

- Os anjos acabam de me pedir por alimentos. Estão exaustos e há notícias de várias legiões que teriam descido para saciar sua fome. Podem desmaiar ou morrer de inanição. Ou desertar até. Ou unir-se aos Anjos Caídos, o que seria muito perigoso para a segurança do céu.

Jeovah:

- Concordo plenamente. Não comem há milhares de anos.

- Pois determino – respondeu o Nazareno – que os Anjos Ceifadores desçam até a Galiléia onde encontrarão terras férteis com figueiras, cevada, trigo, maçãs, romãs, azeitonas, lentilhas e belíssimos parreirais. Também deverão receber carne de ovelhas e cabritos e, se houver, carne de gado. Peixe e vinho serão pratos obrigatórios, como era no tempo em que eu ainda vivia no solo terrestre. Após seu retorno, descerão os Anjos Separadores. Os anjos judaicos não estão incluídos nesta missão.

As aves desceram como relâmpagos. Mas não demorou e estavam de volta, cansadas e abatidas. Não havia alimento algum no solo. Tudo fora devorado pelos humanos ressuscitados.

Os anjos rabínicos, judaicos, desobedecendo à ordem do Messias Nazareno, lhe trouxeram, no entanto, um farnel com pães de cevada. Eram os pães dos pobres de Israel. Farinha de trigo era destinada para os mais abastados. Vieram também figos secos, uvas, tâmaras e romãs. Um pernil de cordeiro defumado, facas ricamente trabalhadas com rubis e uma salada de ervilhas com alface, peixes fritos e uma jarra de vinho tinto com mel, água e condimentos.

Surpreso e agradecido sorriu para os anjos. Recusou, contudo, o presente. Elevou suas mãos em direção à Lua que já despontava no horizonte e novo ato de feitiçaria encantou o mundo. Todos os anjos e demais habitantes do céu festejaram as iguarias vindas da Terra e agora multiplicadas. Havia finalmente uma grande festa nas nuvens e ao Mestre não restou alternativa. Saciou sua fome milenar enquanto observava Jeovah e os profetas engordurando suas longas barbas com o manjar.

- Trazemos a homenagem dos sacerdotes judeus de Jeovah – falou o anjo Alef de nome Aura. Declaram os rabinos que desde Moisés recebem os dízimos por ordem de Jeovah e desejam fraternidade com os irmãos seguidores do rabino Jesus de Nazaré, propugnando enfaticamente pela liberdade religiosa e total autonomia para que os pastores exerçam seus misteres sacerdotais.

Partiram em seguida. Die Maschiene registrou a vinda dos seguintes quarenta anjos judaicos, de um total de seiscentos existentes com nomes conhecidos segundo o Cafetorah: Orna, Aziel, Evra, Aminuel, Astirof, Armod, Arizona, Bovokoc, Gadiel, Dimtamar, Hudiel, Hazael, Tariel, Lelal, Crital, Daniel, Marinum, Magdiel, Naiel, Azmal, Parochet, Tzacmih, Friel, Ralachh, Tanisk, Toksirm, Tiniel, Stifiel, Ali, Frazirum, Faaor, Fruel, Kaniel, Tzstf, Shmshial, Krocnm, Sosriel, Petza’el, Zvakb e Faaor.

Le Figaro publicou: Os anjos de Jeovah dos israelitas eram diferente e muito mais numerosos do que os anjos do deus Jeovah adotado pelos romanos.