Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 84
- Pedro - sente-se no trono que está à minha frente – ordenou Jesus de Nazaré. Temos que esclarecer vários pontos a este Tribunal do Juízo Final.
Mostrou-se surpreso o primeiro Papa da ekklesia romana. Tomou assento num trono em que podia igualmente fitar Jesus de Nazaré e Jeovah, que lhe lançava sempre um olhar severo. Os repórteres não podiam estar mais curiosos. O mundo observava extasiado aquele embate entre o judeu que jamais havia escrito uma só linha e o pescador judeu pobre de Cafarnaum que virara Papa do poderoso Império Romano.
O Messias morrera crucificado sem vitória alguma – pensava o Mestre com seus botões. Obtivera somente o escárnio dos romanos e dos sacerdotes do grande Jeovah, o Altíssimo, Deus dos judeus. Não libertara o seu povo, como se esperava desse Salvador, ou seja, o grande judeu que haveria de expulsar os ocupantes romanos de Israel. Pelo contrário - foi humilhado ao extremo pelo Sumo Sacerdote, seus subordinados judeus e pelos invasores romanos, sem que os anjos tão poderosos de Jeovah viessem em seu socorro. Atribuiram-lhe uma subida até as nuvens que teria sido vista por doze testemunhas, seus discípulos. Além da testemunha, Paulo de Tarso, décadas depois, como se lê da interpolação ocorrida em I-Coríntios 15,6: "Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive (e alguns já são mortos)", na carta com evidente prova plantada de Paulo de Tarso aos seus dizimistas da cidade de Corinto. Não foi abraçar a adorada mãe Maria!
- Estamos próximos do Yom Kipur – Dia da Expiação do povo judeu. Certamente que ainda respeitas essa data junto com tua esposa e filho ressuscitados, meu caríssimo Pedro.
- Com certeza, embora eu seja o primeiro Papa e essa data não seja comemorada pelos gentios. Yom Kipur é o dia mais importante dos israelitas. Se o fizesse abertamente, eu seria hostilizado pelos romanos. O seu deus não é mais Jeovah. É Deus, simplesmente. Confesso que jamais esqueço do Rosh ha-Shanah, o grande dia de Ano Novo judaico.
- E lembras também do juramento que todos fizemos de confissão de fé quando íamos às nossas sinagogas, eu ensinando e você rezando para Jeovah? Recordas dessa aliança perpétua por ordem expressa de Deuteronômio 6,2 do Velho Testamento? Pois vou repeti-la: “Assim temerás o Senhor teu Deus e observarás durante toda a vida todas as leis e mandamentos que te ordeno a ti como a teus filhos e netos, para que vivas muitos anos”.
- Juramos e não houve promessa alguma de ressurreição, mas, sim de vida longa. Quero relembrar, Pedro, os tempos em que unidos enfrentamos perigos, tristezas e alegrias juntamente com os demais discípulos.
- Agora pergunto: como pudeste abandonar teu povo e te juntar aos nossos inimigos? És agora um romano! Esqueceste que pertences ao povo de Elias, Moisés e seu deus Jeovah? Te uniste a esse soldado Paulo de Tarso, coautor da morte de Estêvão, e com ele te tornaste um deles? Te esqueceste que cravos de ferro e coroa de espinhos me torturaram até a morte pelas mãos sanguinárias desse povo que nos oprimia e crucificava nossos irmãos?
Pedro:
- Mestre, eu fui obrigado a isso. Não era teu desejo salvar os seres humanos que viessem a crer no que eu e Paulo disséssemos a teu respeito? Não tenho a menor culpa se nossos inimigos me elegeram seu primeiro Papa, numa nova religião em que Jeovah não mais importava, mas, sim, a mensagem de Paulo e o interesse por uma divindade monoteísta.
- Volto a dizer - quantas vezes necessário for: essa ida em busca de adeptos não-judeus foi por mim proibida. Só na parte final dos Evangelhos consta a interpolação feita pelos romanos - décadas ou séculos após a minha morte. O texto foi mudado para que Paulo e outros dizimadores pudessem justificar seu rebanho de pagãos e gentios, não-judeus. E tu te unes a esse soldado romano! E vais a Roma, logo a Roma, capital do império que nos trouxe morte e destruição! E te unes a Paulo para dizimar, como o fizeste com Ananias, Safira e tantos outros.
- Fomos martirizados, Mestre! Os romanos me crucificaram de cabeça para baixo, porque eu o pedi, em respeito ao teu calvário! Paulo sofreu várias vezes nas mãos deles, acabando por ser morto.
- Isso não importa. Nada tinhas a fazer em Roma. Paulo cansou-se de somente dizimar, decidiu-se pela glorificação. Em suas epístolas refere que até mesmo um espinho cravou em uma das mãos para lembrar que não deveria ser tentado pela vanglória em frente aos milhares de cordeiros dizimistas conquistados, a maioria Am ha-Arez, ou seja, ignaros agricultores e criadores de gado. Por estar aparentemente auto-iludido, isso não dizia respeito nem a ti nem à minha memória. Não se dizia que eu era o Messias, portanto Salvador unicamente de Israel? Não disse eu que não se devem dar pérolas aos porcos?
Pedro nada respondeu e Jesus de Nazaré prosseguiu:
- Te esqueceste do teu juramento da Shema – confissão judaica de fé, contida no Deuteronômio? Te esqueceste que eu ensinava nas sinagogas e usava o Siddu – nosso livro de rezas? Não podias ficar sem dizimar após te abandonarem os judeus? Dizimar é ato da lei de Moisés, perfeitamente admissível. Mas dizimar os gentios não te era permitido. Além disso, os dízimos trienais tinham que ser levados aos templos de Jeovah, destinados ao sacerdote, órfãos, estrangeiros e viúvas? Como poderias levar para esse lugar sagrado os dinheiros de outros povos, dos gentios, dos goin? Passaste a tomar dízimos não mais para Jeovah e os sacerdotes judeus da Tribo de Levi, mas para os romanos?
- Veja o que aconteceu após minha morte, Pedro. O antagonismo entre as duas religiões, a nossa, judaica, e a de Paulo, nova, foi incontornável. Não percebeste que nossos sacerdotes de sinagogas não podiam aceitar outro deus? E que a nova seita criada pelo pagão Paulo, nascido na capital da Sicília, romano, pois, jamais poderia aceitar que Jesus de Nazaré não seria Deus? Por que te uniste a Paulo e sua mensagem de que por ser Jesus de Nazaré seu Deus, o judaísmo obrigatoriamente era falso? Eu, Jesus de Nazaré, um deus? Não vês que aceitando isso estaríamos quebrando o juramento ordenado pelo livro Deuteronômio? E tu o fizeste, Pedro. Te uniste a Paulo de Tarso, quebrando a confissão de fé em Jeovah. Lembras que em Deuteronômio 14,2 está dito que “O Senhor teu Deus te escolheu (Israel) para seres seu povo particular entre todos os povos que há na face da terra”? Lamento dizê-lo, mas esta é a realidade.
Pedro:
- Pois eu julguei que tu combatias o judaísmo tradicional embora sempre repetisses que Jeovah seria teu pai. Ao mesmo tempo combatias os sacerdotes de Jeovah. Talvez por isso também eu os abandonei. A teu pedido. Afinal, eu era um Am ha-Arez, ignorante pessoa da terra, um reles pescador. Os cristãos judeus, seguidores e dizimistas do israelita Ebião, passaram a me ignorar, pois não descias. Passava o tempo e tu não retornavas do céu. Fiquei só. O que me restava?
Pedro estava agitado, ansioso e ousou indagar:
- Eu tenho agora a oportunidade de te perguntar algo que naqueles tempos não fiz: Por que combatias os sacerdotes de Jeovah, se eras o filho do deus judaico? Não te cabia justamente zelar pelos religiosos de Jeovah? Não tinhas feito, nas sinagogas, o juramento de Deuteronômio também? Querias um rebanho só para ti, como todos os sacerdotes? Não eras rabino, sacerdote judeu, ou rabi, professor religioso? E usaste dos doze Am ha-Arez, rústicos discípulos para isso! E dizias que Jeovah seria teu pai?
Jesus de Nazaré:
- É bastante razoável o que dizes. Mas eu escrevi isso? Jamais redigi palavra nenhuma e nem mandei que alguém o fizesse, usando meu nome! Sabemos que todos os pastores, rabinos e sacerdotes necessitam de rebanhos. Caso não os consigam, deixam de poder exercer a profissão. Podias voltar a pescar, em Cafarnaum, com teu filho e tua abastada mulher, após minha morte na cruz. Mas estou inclinado a crer que foram a dizimação e a glorificação os fatores que te empurraram para Paulo de Tarso que era sustentado generosamente por suas ovelhas no Mediterrâneo e na Ásia. Os judeus não mais te interessavam nem estes te admitiam. O Messias não voltara. Mas ir a Roma! A Roma, Pedro? Foste ao ninho das víboras - por quê?
- Fui levar para eles a mensagem salvadora.
- Isso não me convence - Pedro. Lamento dizê-lo. Os lucros que obtinhas de pessoas como Ananias e sua mulher podem ter te levado ao que historiadores chamam de auto-ilusão. Serias um grande nome, um líder com grandes poderes e riquezas, um dizimador de sucesso, não importando os riscos que corrias. Não te posso censurar, apesar de tudo, meu caro Pedro. Mas devo lembrar que Tácito deixou escritos relatando que em torno de um milhão e oitocentos mil judeus foram mortos ou vendidos como escravos pelos romanos somente durante as guerras de 66-70 da atual Era. Já tinhas sido crucificado no ano de 67 desta Era, em Roma, como o primeiro Bispo e após, primeiro Papa! Casado, com filho e judeu! Embora digam historiadores que foi o imperador Constantino o primeiro a nomear papas. Ele teria convocado trezentos Bispos para o Concílio de Nicéia, em Istambul, no ano 325, da atual Era, onde os quatro Evangelhos teriam sido sorteados entre mais de três dezenas existentes.
Die Maschiene:
“Os evangelhos que não entraram no cânone foram omitidos por aqueles eclestiásticos provavelmente porque incluíam histórias que eram ainda mais embaraçosamente implausíveis que aqueles dos quatro canônicos” - Richard Dawkins - Deus Um Delírio.
- Estou convicto – continuou o Mestre - que o Grujuem foi e é permanentemente usado pelos que desejam ser dizimadores. As disputas são constantes. Vale lembrar que Bispos travavam sangrentas batalhas pelas mais rendosas dioceses, como já vimos. “Não se veem Bispos desejando ser transferidos de uma grande sede episcopal para outra menor: todos estão em chamas com o fogo da cobiça e são escravos da ambição”. Esse registro é feito no livro de Paul Johnson, na obra já citada antes, nas páginas 64 e 95 e seguintes. E devemos avaliar mais detalhadamente: o dinheiro que obtiveste de Ananias e Safira poderia te incluir na terceira hipótese? Ou seja, evidentemente não agias nem por inspiração nem por estar auto-iludido. Ou Jeovah te inspiraria a executar esses atos contrários aos mandamentos de não matar e de não se apropriar dos bens de outros? Tua mulher e filho, residentes em Cafarnaum, eram presenteadas também com o vil metal que astuciosamente obtinhas?
Sara Moshê comentava assim para as redes de televisão:
“Pedro, reverenciado agora pelos romanos como Sua Santidade, não se parecia mais com o humilde pescador judeu casado Am ha-Arez de Cafarnaum. Tinha cabelos bem cuidados, pele sem muitas rugas, olhar penetrante e roupas ricamente ornadas. Os poucos ossos encontrados em um pobre túmulo na Colina do Vaticano tinham sido sepultados na basílica envoltos em roupas dignas de um Papa. Incrivelmente intactas, exalavam o mofo de dois mil anos e lembravam o fausto que já imperava entre os novos dizimistas do Grujuem. Estavam a tudo observando os dois outros Pedros, o que descera em um dos doze tronos (Evangelho de Mateus, em 19,28: "Respondeu Jesus de Nazaré: no dia da renovação do mundo, quando o Filho do Homem estiver sentado no trono da glória, vós, que me haveis seguido, estareis sentados em doze tronos para julgar as Doze Tribos de Israel") e o São Pedro, aquele que já subira por decreto de santificação dos romanos e seria o encarregado de mandar que se formem nuvens e chuvas para os terráqueos e para chavear o céu. O Pedro Papa foi obrigado a reconhecer: realmente a Bíblia relata claramente a existência de dois Pedros e os sacerdotes da ekklesia romana de mais um terceiro. Três Pedros, portanto”.
- Os auto-iludidos - os sacerdotes que se martirizavam, viviam a glória da pobreza, se açoitavam - serviam para atrair mais e mais cordeiros para os astutos. Eram iludidos úteis. Triste conclusão a que chego ao obter todas essas informações neste Juízo Final. Mas assisti do meu trono os terríveis massacres de judeus pelos romanos em Massada e na destruição do templo em 70 da Era atual. Lutaram bravamente e Jeovah nada fez para defender nosso povo. Não enviou um só anjo com sua poderosa espada fulgurante.
- O imperador romano Constantino se converteu – sem abandonar secretamente seu Deus-Sol, Invictus - e adotou a religião de Paulo de Tarso, no ano 325 da Era atual. Era mais fácil e simples dominar e dizimar com o monoteísmo criado por Moisés e aperfeiçoado pelos apóstolos. E um ano antes o Bispo Alexandre de Alexandria, dirigiu uma carta aos demais Bispos onde dizia que “movidos pela avareza e ambição, esses tratantes estão constantemente conspirando para apropriar-se das dioceses mais ricas” – op. cit.
- As epístolas bíblicas mostram que, após a minha morte na cruz e elevação aos céus em Betânia, você e Paulo de Tarso passaram a se digladiar em busca de ovelhas para seus rebanhos. E os registros históricos me informam que as ekklesias com os gentios continuaram com essas práticas em todos os tempos e em toda parte. Agora que ressuscitaste - Pedro, deves visitar demoradamente o túmulo de que saíste, sob o belíssimo Baldaquino do mestre italiano Gian Lorenzo Bernini, na basílica que leva teu nome, no Vaticano! De lá ressuscitaste teu corpo e saíste com tanta pressa a meu chamado, que certamente não pudeste te deleitar com a magnífica obra humana. De qualquer forma, parabéns pelo teu sucesso. Alcançaste a glória. E o desprezo dos sacerdotes, príncipes, escribas e demais agentes de Jeovah na Jerusalém da quarta década desta Era. O que não importa. Eu perdoo tudo e a todos.
- Quero lembrar – disse Pedro - que o texto de Mateus traz a mais clara descrição de corpos – não espíritos - vivendo no céu, nas nuvens. Moisés e Elias descem e conversam com Jesus de Nazaré e eu os ouvi e vi falando, oferecendo a eles três tendas para lá se hospedarem! Sou mais uma testemunha. Ouço a voz de Jeovah que chegou ao solo oculto numa nuvem, pois não deseja ser visto jamais. Por quê? Essa visita ao solo terrestre me faz crer que Jeovah, caso falasse lá do alto, do céu, não seria ouvido e por isso se vê obrigado a abandonar as alturas. Isso evidencia que a voz dos humanos também não pode ser ouvida no céu. Nem as rezas.
Jesus de Nazaré:
- E não esqueçamos que Elias jamais morreu, tanto que voltou até Israel com Moisés. Subiu vivo, com seu corpo, na primeira vez e agora novamente. Além disso, não tinha a capacidade de se valer do paradoxo, exclusividade minha, segundo escreveu o Papa antes de abdicar, em seu recente livro Jesus de Nazaré - como me informa Die Maschiene!
Paulo de Tarso nada quis dizer. Estava cansado e prestes a dormir em seu trono.
Um pedido do Vaticano acabara de chegar pela Maschiene. Exigiam alguns cardeais jesuítas que Pedro, embora judeu, fosse tratado com as honrarias devidas a um Papa, embora fosse casado e tivesse filho. Suas roupas estavam em péssimo estado após dois mil anos. Enviaram um helicóptero com o traje solene, usado para missas importantes e beatificações. A bata branca fica oculta embaixo da casula, que é um manto longo e dourado com uma grande cruz bordada nas costas. Possui uma estola branca com símbolos litúrgicos, um cajado, o báculo, que simboliza o cajado de um pastor que guia seus fiéis e um chapéu conhecido como mitra, que é o símbolo maior do poder papal. A mitra aponta para seu deus: é pontudo e bordado com fios de ouro.
O pescador entrou no helicóptero, trocou de vestes e dele voltou com a glória romana que conquistara há dois mil anos com sua crucifixão. Não mais era Simão Pedro, ignaro Am ha-Arez pescador de Cafarnaum. Agora era Sua Santidade Petrus.
Jesus de Nazaré olhava para o fausto das vestimentas de seu amigo pescador e passou a sorrir. Aquele chapéu, mitra, até que lhe caía bem e, com raro bom humor disse:
- Não gostarias de voltar para nossa amada Cafarnaum e pescar? Certamente que alguém nos cederá uma rede e eu a encherei de peixes, como outrora! Livrar-te-ás – perdoe se uso o estilo literário dos sacerdotes bíblicos - dessas roupas opressivas e te banharás no lago. Levarias tua mulher – se ainda não tiver sido julgada, subido ao céu ou levada à Geena - e teus familiares ressuscitados. Teu filho gerou netos para ti. E bisnetos. E muitos devem ser teus sucessores. É claro que teremos que conviver com barcos e seus motores barulhentos, coisas que ainda não pudeste conhecer. O outro Pedro já viu essas novas embarcações lá das nuvens em Israel. O Pedro romano, o da chave, o santo, também já conhece tais barcos, visíveis em profusão nos Rio Timbres, Pó e Arno, em Roma. A propósito, Pedro – não gostarias de trazer todos teus familiares para serem julgados? Talvez os encontres nos arredores de Cafarnaum. Oxalá tenham vivido de modo a não serem queimados após o julgamento neste Tribunal.
Pedro:
- Nunca mais tive notícias deles. Alerto: deves me tratar com a expressão Sua Santidade, querido Mestre. Sou o único judeu de todos os tempos que mereceu essa honraria. Recomendo que falemos em latim. Agradeço o convite, mas prefiro voltar logo para Roma onde os vinhos são absolutamente maravilhosos, o Banco do Vaticano nos é generoso e a cada dia mais e mais dízimos nos são trazidos. A propósito: todos os narradores bíblicos te atribuem ameaças. E eu declaro que tu fizeste ameaças, sim.
- Não sei o que são santos – Pedro. E ninguém aqui é tratado senão pelos mais humildes títulos. Dos pobres é a salvação. Não era isso o que eu ensinava?
Pedro defendia Mateus e enfrentava abertamente seu Mestre:
- Discediti a me, maledicti, in ignem aeternum, qui paratus est.
Yeshua convivera com os invasores romanos durante três décadas e a língua latina não lhe era estranha:
- Não posso acreditar no que ouço Pedro, meu grande apóstolo. Usas o latim, como eles! Repito o que eu disse: não é da minha natureza ameaçar a ninguém. E o Reino de Deus deve ser pregado exclusivamente a judeus, conforme se lê nos evangelhos em Mateus 15,24-26: “Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas de Israel”; em 10,5-6: “Não ireis pelos caminhos dos gentios”; e Marcos 7,27: “Não convém tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”.
Sara Moshê comentou pela Internet:
“No Juízo Final Hoje: Paulo de Tarso fez menção de intervir, mas calou-se. Certamente iria trazer à tona o texto contido no final do evangelho em que o escrito diz que os discípulos devem salvar os gentios também. O tema já fora discutido e parecia já evidente que se tratava da mais grave interpolação havida no texto bíblico.
Do helicóptero trouxeram um grand cru e três cálices de ouro que foram servidos para Jeovah, o Mestre e para o agora São Pedro. Mas Jeovah declinou do vinho e retirou-se do Juízo Final. O Mestre ergueu-se do seu trono, montou no seu querubim de quatro faces e partiu para lugar ignorado. Não era assim que estavam previstos pelas Escrituras os reencontros com seus doze apóstolos. Não era o Papa que deveria beber com Jesus de Nazaré no céu. E Pedro, o agora Papa dos romanos, não mais podia ser visto como o fiel discípulo. Estava do outro lado, do lado dos goin – os não judeus -falando não mais o hebraico ou aramaico, mas a língua dos que ocuparam as terras do povo de Jeovah, o latim.
Pedro voltou para Roma, junto ao seu túmulo, de onde havia emergido. O Baldaquino de Bernini tornou a abrigar sob sua majestosa cadeira, o judeu Papa. As lajes partidas no dia da eclosão do Juízo Final já tinham sido objeto de conserto por parte dos funcionários do Vaticano. Os demais pontífices, ressuscitados, estavam reunidos no palácio de Sant’Angelo. Decidiam a data para a realização de um concilio que elegesse o Sumo-Papa em que não votariam os Cardeais. Estava em jogo o grande dízimo, ou seja, os cinco bilhões de euros estocados no Banco do Vaticano e que lá chegaram como saldo após séculos de dizimação. O Papa que havia abdicado era consultado por seus adeptos cardeais. Não lhe fora proibido o uso do telefone ou da Internet”.