Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 45 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 44

 

Voltemos aos estranhos relatos dos aparecimentos de Jesus de Nazaré, nos quarenta dias em que teria permanecido na Terra, após sua ressurreição. Você escreveu, em 28,16: "Aparição na Galiléia - Os onze discípulos foram para a Galiléia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado. Quando o viram, adoraram-no; entretanto, alguns hesitavam ainda". Pergunto - Mateus: quando Jesus de Nazaré designou a montanha? Não foi nela a primeira vez que os apóstolos o viram, portanto. E por que essas aparições aconteceram sem outras pessoas presentes?

O Mestre, impaciente:

- O grande acontecimento da humanidade, ficou restrito a vocês? Não teria sido espetacular que Jesus de Nazaré, após a ressurreição, tivesse ido até a praça onde fora julgado por Pilatos? Por que ele não foi até as sinagogas e se apresentou ao Sumo Sacerdote, dizendo: Não acreditas em ressurreição? Pois aqui estou! Converte-te e podes ainda ingressar no Reino do Céu. Eu não ensinei que devemos amar nossos inimigos?

Jesus de Nazaré leu em João, 21:

- "Depois disso, tornou Jesus a manifestar-se aos seus discípulos junto ao lago de Tiberíades. Era a terceira vez que Jesus se manifestava aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado". Tenho que perguntar a Mateus, Marcos, Lucas e João: Vocês escrevem que Jesus de Nazaré se manifesta e aparece. Vocês estão obviamente fazendo um relato confuso e contraditório. Se o ressuscitado, com sua carne e ossos aparece - obviamente ele também desaparece. Vocês estão descrevendo algo que poderia ser o que chamam na Bíblia de espírito? Ou seria uma alma?

Nada responderam. Voltou-se o Mestre para Paulo de Tarso:

- Como você explica - Paulo, esses desaparecimentos, você que escreveu que os anjos são espíritos?

- Parece que – replicou Paulo de Tarso - esses desaparecimentos descritos pelos evangelistas evidenciam que Jesus de Nazaré, antes de ser arrebatado para as nuvens, durante quarenta dias em que permaneceu na Terra após sua ressurreição, era um espírito.

Jesus de Nazaré:

- E o corpo de Jesus de Nazaré, nesse caso, onde ficou?

Paulo de Tarso:

- Deve ter sido oculto pelos apóstolos - tal como disseram os sacerdotes concorrentes, os que ocupavam as sinagogas então. Não há outra explicação.

Essas declarações caíram como uma bomba. Freneticamente se analisava essa surpreendente conclusão no mundo. Na igreja romana se reuniram às pressas os cardeais para deliberar sobre o assunto.

Jesus de Nazaré:

- Vou reler João 20,27: "Jesus de Nazaré disse a Tomé: introduz aqui teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado. Creste porque me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!". Crer, por quê? Só porque um pastor escreve esse texto? Afinal, quem é João para escrever isso? Ninguém sabe de onde veio! Para obter dízimos se cria a necessidade de que o receptor da mensagem acredite no que um desconhecido diz? O buraco nas mãos revela uma ressurreição defeituosa? Narrada para que se crie uma prova? E, além disso, o ressuscitado não seria um espírito? Espíritos possuem mãos humanas normais? E se alimenta para não perecer? Sou Jesus de Nazaré, o humano que pregou o amor e a igualdade das mulheres. Por que me usam, juntamente com os demais integrantes do Grujuem?

- Mas vamos ler Lucas, teu aluno – continuou - em 24,39: “Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo; apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho. E mostrou-lhes as mãos e os pés".

Jesus de Nazaré:

- Eu jamais escrevi qualquer texto religioso. Mas, para bem julgar no Juízo Final, como me compete, estudei detalhadamente os textos dos evangelistas. E o que eu vejo? Histórias diferentes e contraditórias. E li atentamente as tuas cartas, Paulo de Tarso. E o que vi? Um relato que se choca com os demais. Você e seus dizimistas dizem que todos os habitantes das nuvens são espíritos.

Paulo de Tarso:

- E eu continuo a afirmar isso. Nas nuvens não existem peixes, pão, vinho, olivas, cordeiros, pombas rolas, unguentos, fogo. Bem a propósito: o enxofre de Sodoma e Gomorra não pode ter caído do céu.

Jesus de Nazaré:

- Como já constatamos inequivocamente: Lucas, teu aluno, afirmou que Jesus de Nazaré teria dito: “Vede, tenho carne e ossos, coisa que espíritos não possuem”. Concluo que tu, Paulo de Tarso, tinhas que dizer algo aos teus dizimistas. Uma história.

Paulo de Tarso:

- Volto a dizer: minha versão se impôs e eu e meus aliados de Roma conquistamos mais de um ou até dois bilhões de adeptos que acreditam no que eu disse. Não retiro uma vírgula de tudo que escrevi, portanto. Quem escreveu esse texto abandonou a verdade. Foi um judeu. Um pastor concorrente. Todos têm o direito de dizer e escrever o que melhor for para reunir um rebanho de dizimistas. Não existem atualmente centenas de deusas de madeira da mesma pessoa, ou seja, imagens supostas de tua mãe, Maria, com nomes e cores da pele diferentes? Por que os que inventaram essas Marias têm menos direito de criar do que Moisés, Isaías, Ezequiel, Jó ou Paulo de Tarso?

Jeovah resmungava e acabou dizendo:

- Nunca eu e Moisés dissemos que haveria um Juízo Final, uma ressurreição e um filho criado pelos narradores do Novo Testamento, livro dos goin, dos não-judeus.

Jesus de Nazaré ouviu atentamente e voltou-se para Paulo de Tarso:

- Vejo que persistes em tuas versões. E vejo que o Grujuem com a ideia adicional de que tudo no céu e nas nuvens são espíritos também foi adotada por milhares de seitas evangélicas e protestantes do mundo. Dizem que vivem num mundo espiritual. Desprezaram os relatos de seres providos de corpos, como os anjos, suas asas, suas espadas, suas trombetas e os muitos filhos de Jeovah que desceram das nuvens para engravidar mulheres no solo da Terra, como está fartamente descrito na Bíblia Sagrada. Aliás, até Jesus de Nazaré - criação dos narradores contidos no Novo Testamento - teria sido enviado com seu corpo para o solo terrestre, não se sabe como. E que acabou pregado numa cruz de madeira pelos inimigos romanos, justamente os que se apossaram do Grujuem com tanto sucesso posteriormente.

- E, espanto! - prosseguiu o Mestre. Ninguém se dá conta de que o corpo de Jesus de Nazaré subiu, foi arrebatado para as nuvens, em Betânia, sob os supostos olhares dos apóstolos? E que ele voltaria, descendo das nuvens, sentado em trono, com trombetas, anjos esvoaçantes e acompanhado de um grande séquito? E me informa a Máquina que os dirigentes romanos e seu Papa afirmam categoricamente que o corpo de Jesus de Nazaré ressuscitou e subiu - o corpo, sim - para o céu, através do arrebatamento, em Betânia? E que, caso isso não sustentassem, forçados seriam a admitir que o corpo teria ficado na Terra, oculto vergonhosamente pelos apóstolos após retirá-lo, à noite, do jazigo de José da Arimatéia?

Fortes ventos fizeram esvoaçar os longos cabelos do Nazareno. Era um homem jovem, apesar de possuir mais de dois mil anos humanos. Seu rosto sereno subitamente pareceu lembrar-se de algo importante:

- Mateus - escreveste em 27,35: “Depois de o haverem crucificado, dividiram suas vestes entre si, tirando a sorte”. E em 28,9-10, resumidamente: “Ressuscitado Jesus, disse para a outra Maria e Maria Madalena: Salve! Elas beijaram-lhe os pés”.

Olhando agora novamente para Paulo de Tarso:

- O ressuscitado não era um espírito! Tinha pés beijáveis, de carne e ossos! E mais importante -Mateus! Ele estava nu! Suas vestes foram sorteadas pelos romanos! João escreveu em 19,23: “Tomaram suas vestes, inclusive a túnica”; e em 20,5: “Viu os panos e o sudário no chão”; e em 20,17: “Disse Jesus de Nazaré: Não me toques, não me retenhas” . Onde conseguiu ele novas vestes? Ou continuou aparecendo nu? Ou era um espírito, que não usa vestes? Nesse caso, para quê o corpo? E mais, seu espírito não tinha já subido na sexta-feira, como se lê em Lucas 23,43-46: “Hoje estarás comigo no paraíso; Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito”? Não poderia ser um espírito, uma vez que este já teria subido na sexta-feira! Maria não poderia nem tocar, nem ver, nem falar com Jesus de Nazaré caso fosse um espírito!

A Bíblia foi aberta pelo Mestre:

- Paulo de Tarso, tu que desdenhas o Velho Testamento e dizes aos teus rebanhos que é a tua Boa Nova que deve imperar; tu que afirmas que os humanos deixam seus ossos, carne, músculos, massa encefálica – tudo – na Terra e que desses corpos ressuscitam e sobem somente espíritos; nunca leste Gênesis 6,3: “E Jeovah disse: meu espírito não ficará para sempre com os seres humanos, porque eles são apenas carne”. Veja que teria Jeovah dito que os humanos não possuem espírito. Moisés é o autor desse escrito. Logo, Jesus de Nazaré subiu somente com corpo, em Betânia, devidamente vestido. Ou o Papa estaria certo ao afirmar que, graças ao paradoxo, Jesus de Nazaré se livra do seu corpo logo que ingressa nas nuvens, para talvez evitar o colapso desse corpo no frio e total falta de alimentos?

Paulo permaneceu silente e o Mestre continuou:

- Você disse que eu, Jesus de Nazaré, teria entrado em constato com você, próximo a Damasco. Essa narrativa não tem lógica nem verossimilhança. Eu subi em Betânia, com corpo e vestimentas, segundo o testemunho dos doze apóstolos. Pergunto a todos: você diz que no céu não podem sobreviver carne e ossos. Logo, usando do paradoxo de que fala o Papa, me transformei em espírito para não congelar. Espíritos não falam, não comem e não bebem água. Não pensam, pois não possuem cérebro e os trilhões de neurônios necessários para isso ficaram no corpo desprezado. Como poderias ter falado comigo? Se corpo eu tivesse em uso, teria que falar contigo face a face. Se estivesse no estado de espirito, nada poderia falar ou sequer descer. Descer o que? Falar com que boca, cordas vocais, pulmão, órgãos que espíritos evidentemente não possuem, já que os teriam deixado nos corpos?