Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 56
Um e-mail chegou ao notebook que havia sido instalado no braço direito do trono ocupado por Jesus de Nazaré. Eram os sacerdotes evangélicos que protestavam e exigiam que fosse feita uma ressalva ao que se dizia no julgamento. Jesus de Nazaré foi até uma das câmaras de televisão:
- Quero comunicar aos líderes religiosos cristãos do mundo: não tenho como avaliar a mais de cinco milhões de sacerdotes que se estima estarem ressuscitados ou que não tenham morrido ainda. Estou lendo o texto bíblico. Estou me atendo unicamente ao que está escrito. As notícias que tenho é que todos os sacerdotes cristãos usam o Grujuem para realizar suas atividades. Mas me informam que são poucos os sacerdotes que cobram mais de dez por cento, como dízimo.
Suspirou fundo o Mestre e continuou:
- E, com tristeza, fui informado que alguns sacerdotes foram processados ante Juízes de Estado por terem recebido o valor da venda de habitações feitas pelos seus seguidores. Tal como ocorreu com o apóstolo Pedro, tendo como vítimas Ananias e Safira e está descrito detalhadamente em Atos 5,1-11. Como também se passou com o dizimista José, rotulado de Barnabé. Este também vendeu o seu campo e o depositou aos pés dos apóstolos, como se lê em Atos 4,36-37: “José, levita natural de Chipre vendeu um terreno e foi depositar o dinheiro aos pés dos apóstolos”. Em 4,34: “Os proprietários de campos ou casas vendiam tudo e iam depositar o preço da venda aos pés dos apóstolos”. Deveria ser dado em ajuda aos necessitados.
Um grande tumulto ocorreu. As mães, desesperadas, se dirigiam a Jesus de Nazaré:
- Faça algo, Mestre! Um milagre! Nossos filhos merecem um milagre!
Jesus de Nazaré:
- Vejo que os Anjos Separadores cometeram uma grave injustiça. Usurparam deste Tribunal do Juízo Final a competência para julgar e executar a sentença a que cada uma de vocês têm indiscutível direito. Diante disso, invocando o que está escrito em Mateus 5,10: "Bem-aventurados os que são perseguidos pela justiça, porque deles é o Reino dos céus!", devo beneficiar a estas mulheres. Elas são ex-presidiárias e praticantes da prostituição, assassinas, uxoricidas, ladras, segundo informaram os Anjos Separadores. Sendo elas assim perseguidas pela justiça, delas deve ser o Reino dos céus. Ou seja, a justiça é injusta. Os criminosos devem ser levados para as nuvens e conviver com Jeovah. Há apologia ao crime e eu seria o delinquente a praticar os ilícitos penais.
As crianças choravam novamente. Eram lamentos lancinantes e comoviam a todo o planeta. Jesus de Nazaré apanhou a Bíblia e leu:
- "Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino dos céus" - escreveu Mateus em 19,14. Mas ele escreveu também em 24,19-22: "Ai das mulheres que estiverem grávidas ou amamentarem naqueles dias do fim. A tribulação será tão grande como nunca foi vista". Nem mesmo as crianças que estão sendo amamentadas escapam das ameaças feitas pelos narradores bíblicos. Essa crueldade eu rejeito e descarto. Por isso, Mateus, pobre Mateus: mais este texto deve ser apagado, pois é indigno da minha infinita bondade.
Falou Jesus de Nazaré para as Mulheres Queimadas pelos Anjos Separadores no Inferno:
- Está escrito em Mateus 12,13: "Homem, estende a mão. Ele a estendeu diante de Jesus e a mão tornou-se sã como a outra". Assim, digo-vos, Mulheres Queimadas nas fornalhas da Geena, situada nos limites de Jerusalém: estendam seus braços.
E todas, assim tendo feito, tornaram-se sãs.
Abraçaram seus filhos, que as reconheceram imediatamente. E o julgamento coletivo teve início.
Jesus de Nazaré:
- Quero que levantem a mão para responder: quem creu em Jesus de Nazaré?
Todas as mãos se ergueram.
- Quem se arrependeu de seus pecados?
Todas menos uma delas levantaram suas mãos. Jesus de Nazaré ordenou que se aproximasse:
- Por que você não se arrependeu?
- Porque nunca cometi pecados.
Espanto geral.
- Em que época você viveu e onde?
- Sou da tribo de Davi. Sempre honrei ao nosso deus, o Senhor dos Exércitos, Jeovah, e obedeci a todos os seus mandamentos.
Jesus de Nazaré:
- Nesse caso você mentiu a este Tribunal do Juízo Final. Você afirmou, com seu braço erguido, que creu em Jesus de Nazaré. Ora, isso é pecado, segundo as leis de Moisés e de Jeovah e como está claramente dito no Velho Testamento: não terás outros deuses além de mim, como estabeleceram Moisés e demais sacerdotes de Jeovah.
- Todos os que creram em você, Mestre, assim, são pecadores? - perguntou a mulher, olhando para Jeovah.
- Diante de Jeovah, sim. Isso está claro nos mandamentos dele. Mas, diante desse impasse, penso que podemos desconsiderar isso como pecado. Afinal, se não tivesses acreditado em Jesus de Nazaré, cometerias outro pecado e serias jogada na Geena. Está escrito em João 16,9: "O paráclito convencerá o mundo a respeito do pecado, que consiste em não crer em mim". Qualquer que seja a tua posição, qualquer que seja o sacerdote a quem obedeces e para ele dizimas, estarás cometendo pecado contra o sacerdote contrário, concorrente. E, se tivesses escolhido seguir o sacerdote de Jeovah, seja o príncipe seja o Sumo Sacerdote, seja o levita ou não, estarias destinada à fornalha da Geena. E se escolheres seguir os sacerdotes que usam o nome de Jesus de Nazaré - serás castigada com os costumeiros danos corporais terrenos enviados por Jeovah: chagas, tumores, tísica, hemorroidas, lepra, esterco no rosto, granizo, golpes de espada de anjos e tantos outros terríveis males relatados pelos sacerdotes autores e narradores do Velho Testamento.
Jesus de Nazaré parecia condoído com os efeitos causados na mulher que se julgara isenta de pecado. Mas decidiu:
- Diante disso tudo, eu te declaro absolvida e salva. Poderás subir ao céu com tua criança.
- Esperem! - ouviu-se o brado vindo do trono ocupado pelo apóstolo Matias. Eu conheci esta mulher e sei que ela cometeu pecado terrível. Ela foi acusada de ter assassinado seu marido, pai desta criança. Essa família morava na mesma cidade em que eu vivi.
- Mentira! Isso não é verdade! Fui acusada falsamente por gentios! - respondeu a mulher.
Novo impasse se estabelecia. Jesus abriu a Bíblia e logo encontrou o texto que procurava:
- "Deus julgará as ações secretas dos homens". Isso está escrito na Bíblia Sagrada por Paulo de Tarso em sua carta aos Romanos, 2,16. Deus é Jeovah, Paulo? Mas você não disse que não importam mais os crimes e pecados cometidos, pois Jeovah e sua leis estavam superados pela Boa Nova, ou, seja, tuas mensagens? Sendo assim, convoco a Jeovah para que execute seu julgamento sobre a secreta ação desta mulher, aqui denunciada pelo apóstolo Matias. Isso mais parece uma nova ameaça, Paulo. Uma forma de garantir o dízimo.
Jeovah pigarreou. Lançou um olhar de desprezo sobre todo o Tribunal:
- Cem bilhões de seres humanos ressuscitados devem ser julgados. Mais cinco ou dez bilhões que estão vivos e não necessitaram dessa ressurreição para se submeter a este Juízo Final. Como poderia eu saber algo sobre uma mulher cuja vida agora é restaurada e que existiu há dois milênios em lugar ignorado?
Jesus de Nazaré:
- Está escrito que tudo sabes - tudo podes e em toda parte estás. Afinal, sabes se esta mulher assassinou seu marido?
Os olhos de Jeovah faiscavam. Ele não sabia responder à pergunta.
- Pois, não estando provado o assassinato, absolvo esta mulher e determino que seja levada ao céu, juntamente com sua pequena filha. Espero que todos os demais julgadores votem nesse sentido. É uma decisão que se harmoniza com as mensagens de Jesus de Nazaré, ou seja, do amor, da fraternidade, da compaixão, do perdão.
A mulher:
- E a minha recompensa? E o cêntuplo dos meus bens, prometidos pelos apóstolos?
Jesus de Nazaré:
- Queres mais, queres recompensas? Como ousas?
A mulher:
- Porque está previsto na Bíblia! Mestre - leio em Mateus 16,27: “Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai com seus anjos, e então recompensará a cada um segundo suas obras”.
Todos emudeceram. O evangelista escrevera para seus dizimados que, se cressem no que diziam, ganhariam recompensas.
Jesus de Nazaré para Mateus:
- A que ponto chegaram os dizimadores. Prometem recompensas, no Juízo Final.
E dirigindo-se para a mulher:
- Pois, efetivamente, segundo o texto bíblico, tens direito a recompensas. Mas, diga-me - que obras realizaste que sejam merecedoras dessa recompensa bíblica?
- Não abandonei filhos, marido e escravos. A todos dediquei minha vida. Amei a todos. Forneci os dízimos aos sacerdotes, rabinos e escribas.
- Poderíamos verificar tudo isso num videotape - falou Jesus de Nazaré. Levaremos muitas décadas para assistirmos às partes mais importantes. Mas eu acredito no que dizes. Tua recompensa será receberes cem vezes tudo que deixaste e a vida eterna, como está previsto na Bíblia em Mateus 19,29.
Mateus:
- Protesto. Ela não tem direito a um prêmio. Está escrito nesse texto, em 19,29: “Todo aquele que por minha causa deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casas receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna” . Esta mulher fez exatamente o contrário: não abandonou seus parentes nem seus bens materiais.
Jesus de Nazaré voltou a ler, agora mais atentamente, o texto do Novo Testamento da Bíblia Sagrada e concluiu:
- O que escreveste – Mateus - é abominável. Prometes que o dizimista que abandonar suas terras, casas e parentes, terá uma recompensa no valor de cem vezes de tudo que deixou. E atribuis a mim tal apologia! Deixar crianças e idosos ao desamparo é crime! É o delito de abandono material! Como podes escrever que eu, o arauto do amor às crianças e a todos os seres humanos, amigos ou inimigos, tenha prometido prêmios impagáveis justamente a quem contrariasse minhas mensagens?
Jesus de Nazaré estava prestes a perder a habitual serenidade, mas continuou com voz sibilante:
- Mateus! Prometes vida eterna a quem abandona crianças e sua mulher? E prometes prêmios de cem vezes - cêntuplos! Quem pagaria esses valores pelas torpezas que incentivaste? Milhões de pessoas cobrando essa promessa! Onde e de quem iriam cobrar os cêntuplos dos bens perdidos? Dos discípulos já mortos? Fazes novas apologias ao crime?
Mateus nada respondia e mantinha a cabeça baixa. Parecia uma criança apanhada em artes.
A mulher foi levada para cima pelos anjos. Jesus de Nazaré:
- Antes de prosseguirmos com os julgamentos, penso ser indispensável que se abram novas possibilidades de admissão ao céu para os ressuscitados e para os ainda vivos. É o Terceiro Céu e, também, após, o Segundo Céu, para onde serão conduzidos os sofridos leprosos.
Agora o mundo parecia enlouquecer. Novamente os repórteres e comentaristas de televisão procuravam na Bíblia Sagrada, febrilmente, por referências a esses dois céus.
Jesus de Nazaré foi novamente até Paulo de Tarso. O que estava para acontecer? - indagava-se no planeta. Prosseguiu o Mestre:
- Está prevista uma superpopulação no céu. Mas provavelmente não poderemos deixar de absolver a todos os humanos neste Juízo Final. Não posso permitir que este Tribunal Bíblico ordene queimar em fornalhas meus irmãos humanos, a quem amo, e aos anjos reservados para o julgamento por Jeovah.
Respirou fundo e prosseguiu:
- Além disso, teríamos que julgar um réu por segundo para podermos finalizar o Juízo Final em alguns milhões de anos. Minha capacidade de produzir peixes, pão e vinho - está se esgotando. Bilhões de toneladas são necessárias diariamente. E os anjos? São provavelmente já mais de dez milhões. Necessitam de alimentos que lhes forneçam a energia para não deixarem de bater suas asinhas.
Paulo de Tarso voltou a insistir:
- Mestre, não esqueça que no céu temos a vida espiritual. Os anjos não necessitam de alimentos para bater suas asas.
Uma súbita trovoada ecoou. Relâmpagos atingiram os tronos em que estavam Paulo de Tarso e o apóstolo Tadeu. As penas dos anjos Poderes que sustentavam naquele momento os pesados assentos fumegavam. Uma das asas pegara fogo, mas vento e chuva forte sobrevieram. Sara Moshê, bastante assustada, transmitia tudo desde o seu helicóptero: As aves humanóides pareciam estar bem à vontade com essas situações. Durante bilhões de anos, desde o Big Bang, aprenderam a sobreviver às intempéries. Suportaram milhões de graus centígrados na viagem espacial e ao ingressarem na atmosfera terrestre. Sobreviveram ao frio na era glacial. Ou sobreviveram desde a criação bíblica, de poucos milhares de anos terrestres. Os apóstolos Tadeu e Paulo de Tarso nada sofreram.