Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 93 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 93

 

Esbravejando surgiu, carregado por serafins, um personagem visivelmente contrariado. Livrou-se dos braços das aves humanóides e, com a voz rouca desferiu:

- Isto aqui não é um Tribunal! Aqui só vejo um bando de sacerdotes interesseiros aos quais não me submeto!

- Acalme-se – interrompeu Jesus de Nazaré. Identifique-se e será julgado com toda a imparcialidade celestial.

- Meu nome é Friedrich Nietzsche. Chamam-me de anticristo.

A Máquina imediatamente informou: esse réu era um ressuscitado de origem alemã e criara obras filosóficas importantes. Em uma delas se apresentou como o anticristo.

- Interessante – disse o Mestre. Por que te rotulaste de anticristo? O que tens a dizer em tua defesa?

Nietzsche havia sido acomodado em um trono confortável feito de couro de cordeiros originários de Cafarnaum. Ao alto uma coroa de prata abrigava safiras e opalas.

- Não tenho que me defender de nada. Este Tribunal é uma ficção criada por judeus apóstolos e sacerdotes que renegaram seu deus Jeovah com o uso de três astúcias conhecidas por fé, esperança e amor. Como já afirmei, a esperança é um estímulo de grande poder. Os humanos sofrem e as fantasias que lhes apresentam os sacerdotes lhes trazem felicidades futuras que a realidade geralmente não consegue desmentir.

Jesus de Nazaré não se escandalizou com essa defesa catastrófica.

- Prossiga e esclareça a este Juízo Final por que hostilizas essa religião que tomou conta de um terço da população do mundo.

- Não hostilizo o personagem Jesus de Nazaré. Eu combato a prática sacerdotal. Pelo que ouvi neste julgamento, os sacerdotes estão todos legitimados para a prática da dizimação, em qualquer grau ou lugar. Eles escreveram os textos bíblicos e garantiram sua fome de glórias, poder e dízimos infinitos. Criaram leis civis com essa garantia de dizimação e isenção de impostos.

Jesus de Nazaré acenou com a cabeça.

- Não posso concordar com o que escreves no teu livro sobre mim. Dizes: "Esse santo anarquista que incitou ao povo mais baixo, aos párias e aos pecadores, aos tshandala no seio mesmo do povo judeu, a rebelar-se contra a ordem imperante, e se valeu de uma linguagem, sempre que se possa fiar-se dos Evangelhos, que, em nossos tempos significaria a deportação para a Sibéria. Sem dúvida foi um delinquente político, se é que naquela comunidade absurdamente política, era possível falar de delinquentes políticos”. Eu repilo essas acusações. Elas revelam que és realmente o esperado anticristo.

- Pois sou, sim, o anticristo. No livro eu reafirmo: “Por causa dessa atitude ele foi parar na cruz. Morreu por sua própria culpa. Falta todo motivo para crer, como tantas vezes se afirmou, que morreu por culpa de outros”.

- O que tu não podias saber, Nietzsche, é que nos tempos em que vivias, há poucas dezenas de anos, não haviam os pesquisadores descoberto milhares de interpolações feitas nos Evangelhos. Estavas perto da verdade quando disseste que não se poderia fiar nos Evangelhos.

- Certamente – respondeu Nietzsche. Talvez hoje eu devesse te engrandecer, já que foram os evangelistas que te descrevem como um segundo deus judeu. E te descreveram como um ser terrível. Foram eles que estabeleceram as novas regras sacerdotais, ou seja, eles passaram a poder redimir os dizimistas. Eles deixaram a elite judaica com seu Jeovah e, unidos com Paulo de Tarso, passaram a formar rebanhos de possuidores de fé, de amor e de esperanças em vidas após a morte. Jeovah passou a ser simplesmente Deus. Em Roma o nome Jeovah foi ignorado. Esse era o deus israelita.

O filósofo alemão ressuscitado levantou-se do trono, fez menção de despedir-se, mas pareceu lembrar-se de algo e disse:

- Não me considero mais o anticristo a partir deste momento. Mas volto a enfatizar o que escrevi e vou aqui repetir. Criaram os sacerdotes judeus a fórmula: obediência ou desobediência a Deus. Melhor devemos aqui dizer: Jeovah. Os sacerdotes, por ordem de Moisés, devem comer a melhor carne. Era a vontade de Jeovah – Moisés. Eles passam a ser imprescindíveis em todas as partes: nascimentos, casamentos, enfermidades e sepultamentos e se apresentam como os santos parasitas para desnaturar, ou seja, para santificar. Eles criam a submissão. Eles criam os pecados, absolutamente necessários para que eles mantenham seu poder dizimador. Dizem que o novo deus perdoa aos que fazem penitência e se submetem aos sacerdotes. Recebem os primogênitos. E terras com rebanhos dos criminosos ricos que negociam o perdão.

- Fico feliz que me redimiste. Eu realmente propaguei: igualdade entre homens e mulheres. Pedi que se perdoassem os amigos e os inimigos. Mas todas as ameaças relatadas pelos evangelistas e a mim atribuídas não são verdadeiras. Acusam-me de não haver combatido a escravidão. Não é verdade: eu disse que todos devem amar-se mutuamente. Não condenei jamais o homossexualismo, como o fizeram Paulo de Tarso e os autores do Velho Testamento.

Nietzsche - já montado num querubim:

- Por que não voltaste para salvar Jerusalém da fúria romana, no ano 70? Segundo os evangelistas tinhas sempre à tua disposição legiões de anjos.

- Sim. O anjo que matou sozinho cento e oitenta e cinco mil soldados assírios seria suficiente para que se evitasse mais essa grande atrocidade do povo romano contra Israel.

O Mestre voltou-se para Mateus:

- Por que esse anjo poderoso não foi enviado para o solo de Israel?

Ante o silêncio do evangelista, partiu o filósofo sem ser julgado. Juntou-se ao grande número de réus que tiveram interrompidos seus julgamentos.

- Também os sacerdotes israelitas agiram com extrema desídia. Não enviaram nem um só dos seiscentos anjos judeus criados por eles. E todos os seis milhões de compatriotas ficaram inermes com a ausência dos querubins e suas espadas flamejantes enquanto os nazistas queimavam nossos irmãos em Auschwitz. Nem os anjos de Jeovah, nem os seiscentos humanóides rabínicos com nomes próprios – ninguém foi defender nossas crianças, idosos e demais descendentes de Isaac, Jacó e Elias. Tal como no grande genocídio do Dilúvio, o Holocausto ceifou com fúria os israelitas, os ciganos, os homens cultos perigosos para aquele regime de terror. Onde estava o anjo do Éden com sua espada fulgurante? Onde estava o anjo que numa noite matou com sua espada a cento e oitenta e cinco mil assírios?

- E onde estavam esses anjos prodigiosos enquanto na Espanha, Portugal, Itália e suas colônias eram queimados vivos, após torturados e seviciados, homens, mulheres até noventa anos, adolescentes, judeus e gentios? Onde estavam as divindades romanas com seu Grujuem? Aplaudiam os confiscos de propriedades de israelitas, mouros e dos falsamente condenados por heresia? Aplaudiam a política inacreditável de limpar o sangue contaminado por ascendentes judeus - dos espanhóis? Festejavam o confisco das propriedades das vítimas da Santa Inquisição?

Indignado, o Mestre respirou fundo e prosseguiu:

- E onde estavam Jeovah e seus anjos quando os sacerdotes calvinistas, presbiterianos, luteranos e protestantes também queimavam judeus e feiticeiras? Onde se ocultaram quando os jesuítas passaram a caçar bruxas e bruxos, queimando milhares de inocentes após torturas para confissão?

- Onde estavam quando os jesuítas defendiam a guerra e os homicídios contra quem estivesse no seu caminho de enriquecimento? Não se via do céu de Jerusalém as tramas para a obtenção de dízimos, confiscos, testamentos forçados, apropriações de bens dos escolhidos para serem obrigados a confessar e após serem levados ao fogo em praça pública? Era muito distante para se observar desde as nuvens que cobrem às vezes o Muro das Lamentações - o cenário obscuro criado pelos romanos e protestantes?

- Onde estavam legiões de anjos mencionadas por Jesus de Nazaré e que poderiam ser convocadas, caso o desejasse – conforme descrito pelos evangelistas?

- Não me dizia respeito nada disso – interrompeu Jeovah.

- Nem mesmo os judeus perseguidos durante séculos? E cabe perguntar aos narradores evangelistas: Onde estava Jesus de Nazaré – o supostamente poderoso Messias - enquanto a barbárie produzia tanto sofrimento?

Jeusus de Nazaré, com a voz embargada:

- Onde estavam todos quando Luther escreveu o livro atacando impiedosamente o povo judeu? Onde estava Jeovah, o deus dos israelitas? Onde estavam os anjos romanos quando o Papa Pio XII ignorou meus irmãos nas mãos do cristão Hitler e seus fornos com seis milhões de mortos?

O Deus emprestado, o principal personagem do Grujuem, o magnânimo e corajoso paladino das mulheres de todos os tempos prosseguiu com a voz embargada:

- Richard Dawkins certamente não se oporá que eu aqui neste Tribunal do Juízo Final reproduza parte do seu notável livro Deus Um Delírio, da Companhia das Letras, p. 410: Jill Mytton foi ensinada a ter pavor do Inferno. Se eu pensar em minha traumatizada infância, ela foi dominada pelo medo do presente e da condenação eterna, com a imagem do fogo do Inferno e do ranger dos dentes. Adulta, liberta já desse terror, ainda tem a religião o poder de me abalar. O Inferno é um lugar apavorante, é a completa rejeição por Deus, é o Juízo Final, há fogo de verdade, há tormentos de verdade, tortura de verdade e isso continua para sempre - portanto não há descanso.

- Dawkins – continuou o Mestre Nazareno - esse brilhante pensador, formado pela Universidade de Oxford, não percebeu, como Russel e eu mesmo, que o sofrimento imposto é resultante dessa brutal tecnologia que se chama evangelização. Neste Juízo Final se vê que há, na realidade, uma rudimentar dominação de verdadeiras organizações mafiosas. A Bíblia, ela própria menciona a existência de quadrilhas de sacerdotes nos dois Testamentos. Os pobres seres humanos ideologizados pelos dizimadores, mesmo libertos depois de grandes esforços, permanecem com traumas, lembrando que Paulo de Tarso escreveu que os rebeldes devem ser queimados. Os apóstatas merecem o fogo eterno, disse. É ele, no entanto, o que se reveste das qualidades brutais de um Anticristo. Na mesma linha estão Agostinho, Torquemada e seus companheiros de fogo. Dízimos ou fogo. Tudo amparado pelas leis e pela Bíblia, como tantas vezes se ouviu neste julgamento.

O evangelista João interrompeu:

- Leiam meu texto, na 1ª Carta 1,22 e seguintes!

Die Maschiene estampou: “Quem é mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Messias? Ele nos prometeu a vida eterna”.

Jeovah nada respondeu. Nietzsche partiu montado num serafim com suas imponentes seis asas. Ainda relutava em acreditar que as reveladas quadrilhas bíblicas seriam indício seguro da prática escravagista de astutos sobre os Am ha-Arez - segundo disse Sara Moshê em sua coluna.