Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 3 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 2

 

Pedro previra o fim de tudo. Mas novamente a sabedoria do Mestre encontrou a solução. Foi até Jeovah e chamou Moisés. Ambos estavam aturdidos com os rumos do julgamento final bíblico. Com serenidade e autoridade falou o Nazareno:

- Essa profecia de Pedro não pode se concretizar da forma em que está escrita. Façamos a interpretação correta para a ocasião. Estão de acordo?

Sem aguardar resposta:

- O próprio Pedro confessa que existem falsas profecias. Escreveu ele em II-Pedro 1,20 e seguintes: “Antes de tudo sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal”. Mas diz em seguida, em 2,1: “Assim como houve entre o povo falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos doutores, que introduzirão disfarçadamente seitas perniciosas”. Mas ele próprio, Pedro, juntamente com seus colegas apóstolos, não tiveram cumpridas suas profecias constantes de Mateus 10,23: “Não acabareis de percorrer as cidades de Israel antes que volte o Filho do Homem”. Ele voltou dois mil anos após.

Entreolharam-se com aparente alívio. O Mestre prosseguiu:

- Interpretando o texto de Pedro, declaro que a sua profecia sobre a destruição do céu e da Terra no Juízo Final, constante de sua Carta II-Pedro 3,10-12 é incorreta. Ela não é de inspiração divina. Além disso, ela se choca frontalmente com as demais profecias sobre o Juízo Final. Ela não se realizará. Pedro- lembras quando enfrentaste os soldados romanos, decepando impiedosa e perfidamente a orelha de um escravo do Sumo Sacerdote? Lembra-se de anos de perigos e sofrimentos que passamos juntos? Recordas das perseguições que sofremos por parte dos soldados romanos? Pois estou muito triste com o que fizeste após a minha morte. E ainda mais grave é o que escreveste em II-Pedro 3,10-12, resumidamente: “Os céus acabarão com grande estrondo, os elementos em chama se dissolverão; tudo vai desintegrar-se: o céu em fogo se dissolverá e os elementos em chama se derreterão”. Isso já foi referido antes, mas cabe concluir que essas ameaças visam atemorizar os dizimistas. Pedro - lamento dizê-lo: és um falso profeta.

- Errei, sim, Mestre. Mas isso é razão para que tanto te entristeças?

- Sim. Além disso, não percebes que te uniste a nossos inimigos? Não te dás conta que foste a Roma e te tornaste aliado desses nossos algozes? Como pudeste unir-te a esses romanos que tantos irmãos judeus crucificaram e torturaram em nossa amada Israel? Esqueceste o que Pôncio Pilatos perpetrou contra mim? Não te lembraste das dores lancinantes por que passei na cruz? Não soubeste o que fizeram com Estêvão e Tiago, mortos covardemente após eu já ter morrido? Te esqueceste dos estupros, das torturas, das cruzes que pintavam o horizonte com os cadáveres de nossos heróis? E te deslembraste dos cordeiros e do vinho que os invasores nos roubaram?

Pedro estava lívido.

- Nunca pensei que pudesses ver assim minhas conquistas – respondeu. Transformei os romanos em teus seguidores. Isso não é uma grande vitória?

- Não, Pedro. O que fizeste foi aceitar ser o primeiro Bispo e, depois, o primeiro Papa. Não te recordas que eu teria ordenado que não se dessem pérolas aos porcos, aos cachorros e que os dizimistas deveriam ser israelenses?

- Foi Paulo de Tarso que decidiu apascentar os não judeus, os goin, os gentios.

- Sim, mas não podias permanecer pastorejando somente nosso povo? Te esqueceste de tudo que nos fizeram - das mortes, das escravidões, dos raptos de nossas filhas, da destruição do nosso templo majestoso de Jerusalém?

- Voltemos ao nosso problema maior – continuou. Mais tarde iremos esclarecer tudo.

O jornal The New York Times escreveu em sua primeira página: Fogo de Pedro Não Virá.

De um dos helicópteros que chegara ao Tribunal aéreo foi descarregada a Máquina – Die Maschiene, um supercomputador vindo de Los Angeles e fabricado com a colaboração de um grupo de indústrias alemãs, inglesas, francesas, japonesas e chinesas. Serviria para traduzir instantaneamente o que diriam em suas defesas os mais de cem bilhões de humanos a serem julgados. Eram mais de mil idiomas com línguas vivas e mortas, central de telefones via satélite e um poderoso banco de dados sobre a história da humanidade.

O hebraico era a língua do deus israelita - posteriormente tomado emprestado pelos romanos. Ele já falava com Adão e Eva e nos séculos seguintes dialogava nessa língua com Moisés e milhares de personagens bíblicos do Velho Testamento. Adão e Eva ensinaram o idioma para seus três filhos que, por sua vez, o transmitiram aos seus descendentes. Mais tarde, o aramaico e o grego também foram introduzidos entre os judeus e outros povos da região. Os rabinos ensinaram o Mestre a falar corretamente o hebraico - que era a língua celestial. Era o que informava o computador, em suas imensas telas coloridas.

Os milhares de seitas religiosas com seus ritos, procedimentos, lucros mensais e descrição detalhada da vida de seus sacerdotes e líderes atuais estavam catalogados na Maschiene. Com ele veio uma plataforma de aço de doze metros quadrados com oito alças de cabos que se unem doze metros ao alto, o que facilitava o trabalho dos anjos – ou de helicópteros e balões, em caso de emergência - para manter Die Maschiene sem cair.

Os fabricantes forneceram garantias contra quedas e descargas elétricas. Mas recomendaram que fosse usado no solo, o que não foi aceito porque não havia previsão bíblica para que o Juízo Final descesse até a crosta terrestre.

Cem bilhões de ressuscitados. Esse era o número aproximado de humanos que já haviam existido e morrido - segundo opinava Die Maschiene. Observou esta que alguns estudiosos estimavam que o número dos que já nasceram e morreram seria de quarenta bilhões. Excluíam os seres com certo grau de aparência de macacos. Estimava-se que existiam entre sete e dez bilhões de humanos vivos. E esses números cresciam diariamente. Havia partos tanto de mulheres vivas como de ressuscitadas.

Grassava a fome e a sede em todo o planeta. Enquanto isso, as Mulheres Queimadas pela Inquisição ingressaram com uma ação judicial contra o Vaticano junto ao Tribunal Internacional de Haia. Pediam uma indenização por suas mortes prematuras e uma reparação por danos morais pelas queimaduras e suplícios que lhes foram impostos. Fora contratado o advogado Pierre, de Paris. O Tribunal foi instalado no Olympia Stadiom, de Berlim e quarenta mil Mulheres Queimadas pela Inquisição e ressuscitadas foram admitidas a assistir e participar do julgamento. Várias centenas de milhares delas tiveram que se contentar com telões instalados do lado de fora do estádio de futebol em que se jogara a final do Campeonato Mundial de 2006. Pierre arguiu aos juízes que menores e deficientes mentais constavam como vítimas no processo. Não ocorre prescrição contra eles e esse fato beneficia às demais autoras da ação judicial.

Os jornais diziam: Em Jerusalém, os doze apóstolos, assentados nos doze tronos, passaram a ordenar aos anjos para que fossem buscar os titulares das Doze Tribos de Israel. Está na Bíblia que assim deveria ocorrer. A Bíblia Sagrada não comete inverdades, propalam os principais líderes do mundo. O chefe religioso dos romanos recomenda com grande ênfase sua leitura pelo seu grande rebanho de humanos fiéis.

Nenhum dos líderes do Estado de Israel aceitou o convite dos anjos para os acompanharem ao alto. Alegaram que não mais existiam tribos há muitos séculos e que somente tinham um deus - Jeovah.

Finalmente um querubim, de duas caras – uma de leão e outra de humano, como descrito pelo sacerdote Ezequiel em 41,20, irradiando uma luz muito intensa, retornou com uma ré, muito assustada e gritando desesperadamente. Era do grupo dos ressuscitados e filha de judeu com uma mulher que havia sido doutrinada por sacerdotes romanos no século quinto da Era atual. Os anjos transportadores não tiveram acesso aos documentos pessoais da jovem, deteriorados após os séculos transcorridos desde sua morte.

- De que tribo és e como é teu nome? - indagou Pedro, um dos doze juízes apóstolos.

Era o Pedro, que descera do alto do céu com seu trono, juntamente com os demais onze apóstolos. O outro Pedro – o primeiro Papa - o que ressuscitara e saíra de seu majestoso túmulo no Vaticano, não estava visível nas imediações. Nem o santo, romano, o que controlaria a chuva e estaria de posse da chave do céu.

- Judith, da tribo de Benjamim – respondeu a jovem a ser julgada. Mas invoco meus direitos israelenses e arguo a incompetência deste Tribunal que declaro ser de exceção e sem qualquer legitimidade.

Jesus de Nazaré inicialmente julgara ser uma Shiksa – jovem gentia. Decretou imediatamente, sem titubear:

- Sou israelense, da tribo de Davi. Jeovah é o deus dos judeus. Os doze apóstolos que aqui estão em seus tronos também são todos judeus. Devo ser absolutamente justo e aqui nós buscamos a verdade. Assim sendo, a metade dessa mulher que aqui está não pode ser julgada pelas regras cristãs, já que os judeus não possuem outro deus, por imposição dos mandamentos trazidos de Jeovah por Moisés, do Monte Sinai.

De posse da Bíblia Sagrada, continuou:

- No Velho Testamento, está escrito em Deuteronômio 5,7 e seguintes: “Eu sou teu Deus. Não terás outro deus diante de mim”. E Moisés, autor desse texto, escreveu: “No monte, no meio do fogo, face a face comigo, me entregou Jeovah as duas tábuas de pedra com os dez mandamentos”. Face a face, escreve. E junto ao fogo. Sempre fogo. O fogo é usado por todos os sacerdotes. Fornalhas e fogo. E enxofre. As tábuas continham dizeres em hebraico, língua conhecida por Moisés. E as tábuas de pedra vieram do céu, dos ares, das nuvens. Existem pedras no céu? E cinzel e martelo para nelas escrever? Em hebraico, obviamente. Jeovah é hebreu, pois fala a língua de Moisés, Adão, Eva, Noé, Jó, Abel, Caim, Set, Elias?

- Mas ela ressuscitou! - exclamou Mateus do trono em que se encontrava. Logo, ela é cristã e deve submeter-se ao julgamento do Dia do Juízo Final, como está escrito na Bíblia.

- Sim, mas se ela é cristã e, por isso teve que ressuscitar – falou o evangelista Lucas – deve ser julgada pelo menos a parte cristã dela, como está escrito no livro sagrado!

Jeovah, visivelmente irritado:

- Não posso admitir que a metade dessa mulher sofra qualquer perseguição por parte dos romanos. Ela é judia e eu, somente eu, posso julgá-la.

Avocou Jeovah então o julgamento dela. E perguntou à atônita mulher:

- Você sempre obedeceu às regras que eu e Moisés estatuímos para meu povo, Israel?

- Sim, grande Avinu Malkenu. Eu frequentava as sinagogas e pagava os dízimos aos teus sacerdotes.

Jeovah:

- Nunca adoraste Baal, Azot, Asserá, Artemis e outros deuses e deusas de povos mencionados no Velho Testamento? Cumpriste sempre os mandamentos que Moisés trouxe do Monte Sinai, a ele transmitidos por mim nas duas pedras talhadas que lhe dei?

A ré estava visivelmente confusa, mas confessou:

- Não, magnífico Elohei Avraham, Elohei Yitzchak ve Elohei Ya`aqov. “Não terás outros deuses diante de mim”, esse mandamento eu não pude cumprir, pois minha mãe é cristã e goin, e me obrigava a ter também um segundo deus, Jesus de Nazaré, aqui presente.

Jeovah:

- Isso foi muito grave. Não cumpriste as minhas leis, portanto. Além disso, foram desrespeitados o segundo e o quinto Princípios da Torá, de acordo com seu grande estudioso israelense, o rabino Maimônides: “Só Jeovah é nosso Deus e somente a ele se deve rezar”. Minha sentença: morrerás após um ataque de hemorroidas e de tumores, exatamente como aconteceu àqueles que sentenciei no Velho Testamento em I-Samuel 5,12: “Reinava na cidade um pavor mortal, e a mão de Deus fazia-se sentir rudemente. Aqueles que escapavam à morte eram feridos de hemorroidas, e da cidade subia até ao céu um clamor angustiado”.

Ela altivamente continuou com sua defesa:

- Tefila lemoshe ish haelohim, Adonai, maon ata hayita lanu bedor vador.

Mas Jeovah, El ha-Gibbor – D-us Forte mostrava porque era temido:

- Vechará af Adonai bachém veatsár et hashamayim veló yihiê matar! Levem-na! - ordenou Jeovah ao seu fiel e milenar arcanjo Gabriel, com um gesto que não parecia admitir qualquer discussão.

- Um momento! - falou Jesus de Nazaré. Essa ré me pertence e não permitirei que seja levada ao terrível castigo que está impondo a ela. Além disso, essas mortes hediondas e inaceitáveis sequer podem ter ocorrido, já que produto de escritores humanos. Alerto que até você, Jeovah, talvez não exista no mundo real.

Jeovah, Dados Yisrael - Santo de Israel - elevou-se de seu trono. Estava furioso, como tantas vezes estivera e se podia ler no Velho Testamento.

Moisés intercedeu rapidamente:

- Permitam lembrar: escrevemos em vários livros do Velho Testamento sobre isso. Leio em Deuteronômio 28,27: “Jeovah te ferirá da úlcera do Egito, de hemorroidas, de sarna e de dartros incuráveis”; em I-Samuel 5,6: “A mão do Jeovah pesava sobre os habitantes de Azot; ele os devastou e os feriu de hemorroidas na cidade e no seu território”; e em I-Samuel 5,9: “Logo que o fizeram, a mão do Jeovah foi contra a cidade, causando nela um grande terror. Feriu os habitantes desde o menor até ao maior com muitos tumores e hemorroidas”.

Comentou o Le Figaro: Moisés tinha a mais imponente das figuras bíblicas. Era o grande responsável pela existência de Jeovah. Ele instituiu seu irmão Aarão como supremo sacerdote. Ele estabeleceu que a Tribo de Levi indicaria perpetuamente os sacerdotes. Ele falava com Jeovah rotineiramente, face a face, e descreveu isso nos cinco Livros por ele escritos. Ele ordenou que seus sacerdotes não pronunciassem o nome de Jeovah, em sinal do mais absoluto respeito e veneração. Até para escrever a palavra Jeovah tinham que usar a expressão suprimindo uma letra e colocando em seu lugr um hífen, ou seja D-us. Havia centenas de outros deuses, por vezes adotados pelo povo de Israel e seus vizinhos.

- Todos esses rituais ajudam a obter a dominação e os dízimos – explicou Moisés. Dízimo é a designação do valor que o fiel, a ovelha humana, o cliente dos sacerdotes, tinha que fornecer. Dez por cento de tudo que amealhassem representava essa obrigação. São obrigados a doar ao sacerdote os seus filhos primogênitos, e, também, dos seus bovinos e ovinos.

Moisés voltou ao assunto em debate:

- Jeovah – Adonai - sempre foi severo, irado, vingativo e impiedoso. Em Deuteronômio 28,22 consta da Bíblia Sagrada: “Jeovah te ferirá de fraqueza, febre e inflamação, febre ardente e secura, carbúnculo e mangra, flagelos que te perseguirão até que pereças”.

Jesus de Nazaré:

Um acesso de tosse interrompeu o julgamento. Usando um fino lenço de seda o Mestre assuou o nariz e continuou:

- Desde já devo lembrar que os filhos de Jeovah, que desceram para coabitar e dar filhos às mulheres belas de Israel, falavam o idioma hebraico, como seu pai celestial. O hebraico, portanto, é a língua que já existia antes mesmo da criação do Éden ou de todas as coisas, ou do Big Bang, fenômeno criativo que se propala entre os sábios atuais.

Yeshua - Jesus de Nazaré:

- Voltemos ao julgamento. Esta mulher teve fé na mensagem que apresentaram à sua mãe os apóstolos, os evangelistas e os romanos. Ela acreditou que eu sou um deus também. Declaro-a absolvida.

João interferiu:

- Escrevi no meu Evangelho, em 3,18: “Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado; por que não crê no nome do filho único de Jeovah”. E escrevi ainda em 5,29: “Os que praticaram o bem irão para a ressurreição da vida, e aqueles que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados”. Opino também pela salvação desta mulher.

Os doze apóstolos decidiram pela absolvição. Os Anjos Ceifadores e os Separadores acompanharam esse voto.

Já estava ela a mais de cem metros acima do Tribunal aéreo do Juízo Final quando Jeovah levantou-se de seu trono e, possesso, ordenou:

- Arcanjo Miguel! Traga-me de volta essa ré. Minha sentença foi exarada e não permitirei que ela seja descumprida. Essa mulher deverá ser conduzida a Israel e, por haver adorado a outros deuses, sofrerá também de carbúnculo e mangra, exatamente como já ordenei no Velho Testamento, em Deuteronômio 28,22, segundo escreveram Moisés e outros sacerdotes.

Os noticiários do mundo explodiam em manchetes. Estava conflagrada a primeira grande disputa no Juízo Final. Seria esse Jeovah o mesmo deus bondoso que adorna com sua figura os quadros e estatuetas das edificações religiosas romanas? Era esse o mesmo deus descrito como misericordioso pelos sacerdotes subordinados ao Vaticano e seitas dele derivadas?

A mulher retornou e apelou da decisão:

- Quero apresentar meu formal e mais veemente recurso dessa decisão. Lembro que Jeovah endossou o segundo deus, Jesus, natural de Nazaré. Está escrito no Novo Testamento por Mateus em 3,16: “No batismo de Jesus de Nazaré, os céus se abriram e o espírito de Deus, em forma de pomba, disse: Eis meu filho muito amado em quem ponho minha afeição”. Está claro, pois, que Jeovah reconheceu a paternidade sobre Jesus de Nazaré, embora isso não tenha sido escrito por seus sacerdotes. De qualquer forma, no entanto, mesmo sendo de autoria de adversários, adorar e rezar para o filho de Jeovah está autorizado pelo Novo Testamento, embora rezar não dê qualquer garantia de admissão no céu sacerdotal.

- Digo com e repito: não aceito escritos que não estejam no Velho Testamento – disse Jeovah – Melech ha-Melachim – o Rei dos Reis do povo de Israel. Os relatos dos apóstolos e evangelistas jamais foram reconhecidos pelos meus sacerdotes, Sumo Sacerdotes, escribas, fariseus, saduceus e todo meu povo de Israel, tanto que determinaram o julgamento de Jesus de Nazaré pelos invasores de nosso território, através do romano Pôncio Pilatos. Ordeno novamente: levem a ré para o solo onde cumprirá minha sentença.

No Tribunal do Juízo Final se estabeleceu o caos. As discussões culminaram em agressões verbais acaloradas. Com muita dificuldade Jesus de Nazaré conseguiu serenar os ânimos e então suspendeu a sessão.

Enquanto isso a Máquina informava: o número de ressuscitados, junto com filhos agora deles nascidos, já era estimado em mais de cento e três bilhões.

Jesus de Nazaré – Yeshua - ao retornar:

- Lembro que este Juízo Final quer exclusivamente a verdade. E repito, o principal princípio bíblico está no Novo Testamento: o amor aos amigos e aos inimigos. Todas as interpretações, portanto, devem se curvar a esse supremo preceito. Alerto que o uso da tortura pelo fogo está disseminado pelos sacerdotes narradores bíblicos e muitos de seus seguidores. E sempre que o uso do suplício e de ameaças pelo fogo se apresentar, alerto: esses relatos devem ser considerados como não escritos. Eles contrariam o princípio fundamental da prática do amor ao próximo.

Pela expressão do rosto, nem todos pareciam concordar.

- As ameaças são fundamentais para o processo que cria rebanhos! – ouviu-se uma voz vinda de onde estavam os tronos dos apóstolos. Percebeu o Mestre que se tratava de Pedro, seu apóstolo fiel nos tempos em que conviveram. Aquele Pedro que profetizou a destruição total, no dia em que a Terra será consumida com todas as obras que ela contém, falou para si mesmo o Mestre.

Noticiou o Le Figaro: Bandos de Anjos Ceifadores partiam e voltavam. Estavam com grandes dificuldades para exercer sua função de ceifar. Legiões de Anjos Separadores partiam e retornavam sem sucesso. A escolha entre justos e injustos se mostrava impossível. Não tinham como estabelecer quem havia cumprido ou não com os pressupostos bíblicos para a salvação: crer na divindade de Jesus de Nazaré; arrepender-se de pecados; ter sido justo; nunca haver criticado o Espírito Santo; ter sido batizado; não ter proferido palavras vãs.