Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 78
Jesus de Nazaré convocou o Tribunal do Juízo Final para uma vistoria na Basílica de São Pedro, em Roma. Viajaram durante sete dias e sete noites. Ingressaram pela Praça do apóstolo. O Papa rezava uma missa. Jesus de Nazaré ficou feliz por ver-se retratado em uma cruz de madeira, embora Jeovah tenha proibido, segundo narrativas de Moisés, o uso de idolatria, ou seja - figuras humanas ou de astros em suas sinagogas e no meio do povo judeu. Mas sempre se lembrava com tristeza: seu pai José, irmãos e irmãs, não compareceram ao ato da crucificação. Viu Jeovah num trono magnífico, em escultura que o deixou fascinado por sua grande beleza.
O deus dos romanos, tomado por empréstimo, era venerado com termos elogiosos. Seria misericordioso, piedoso, justo e deus de todos os humanos, inclusive agora dos povos que haviam escravizado os israelenses.
Jeovah e Jesus de Nazaré se deslocaram até a Capela Sistina. Estavam sós. Somente os microfones transmitiriam tudo que eles viessem examinar em virtude do Juízo Final.
- Estranha sinagoga, eu diria. Estamos em Roma! Capital daqueles mesmos romanos que escravizaram Israel. E o que vemos neste templo? Deuses romanos, como Invictus, o Deus-Sol? Não! Aqui estão pinturas dos vinte e dois judeus que servem para a prática religiosa desses gentios! E me contradizem. Seria eu um deus piedoso! Eu que eliminei a milhares de judeus. Eu que ordenei a morte de tribos e reinos inteiros de nossos inimigos! Eu que provoquei o maior dos holocaustos de que se têm notícias, ou seja, o afogamento de praticamente toda a humanidade! Eu, bondoso? Fosse eu piedoso, Israel estaria invadida e dominada por centenas de outros deuses - tal como Roma com seu deus Invictus, deus Mercúrio e tantos outros!
Havia quadros em que se viam os seguintes judeus: Maria, José, Jesus de Nazaré, Jeovah, os doze apóstolos ou sós ou reunidos em uma mesa, os quatro evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João, o anjo Gabriel, o Anjo Caído e Paulo de Tarso.
- Não é tudo isso fantástico? - exclamou Jesus de Nazaré. Nós, judeus, somos usados pelos sacerdotes romanos! Somos tomados por empréstimo para que eles nos utilizem em seus atos de busca por adeptos e dizimistas!
Jeovah continuava em silêncio. Examinava as obras de arte, o ouro, as esculturas de mármore. Estava fascinado. Como jamais descera das nuvens de Israel, não conhecera essas riquezas de valor incalculável. Por fim quebrou o silêncio:
- Jovem judeu: em Israel jamais consegui que meus sacerdotes construíssem sinagogas tão faustosas como esta edificação que os romanos chamam de igreja.
Estavam sentados a um canto, atrás de uma coluna. Por isso não foram percebidos por centenas de adeptos que ingressaram e vários sacerdotes, ricamente vestidos. O órgão e um coral executavam tristes e hipnotizantes melodias.
Jeovah:
- Veja jovem judeu: eles me chamam de seu deus! E dizem que eu sou misericordioso! Dizem que sou piedoso! Dizem que eu e você ressuscitaremos os gentios! Jamais me invocam como Senhor dos Exércitos!
Jesus de Nazaré:
- Os sacerdotes deste templo fazem sermões e se dirigem a rebanhos onde somente existem gentios. Só fazem uso do grupo de judeus, o Grujuem, para justificar e dar credibilidade às promessas de ressurreição após a morte! Nós somos as ferramentas com que esses sacerdotes trabalham! Agem como os saduceus, fariseus, escribas e Sumo Sacerdotes dos meus tempos de vida.
Jeovah:
- E os ídolos? Como se atrevem a usar meu nome em sinagogas de gentios e, pior, exibir ídolos! Eu proibi ídolos de qualquer espécie! Aqui temos esculturas de toda tua família terráquea e retratos de meus profetas do Velho Testamento!
O Papa surgiu. O romano e os israelitas trocaram saudações. Mantiveram as cabeças erguidas. A imprensa lotou a imponente ekklesia. O Papa levou seus ilustres visitantes até os túmulos vazios. Jeovah reconheceu praticamente todo o Grujuem nos quadros e nos ídolos da basílica. Sara Moshê noticiou na TV: O Papa percebeu logo o desagrado que isso causou. Bem sabia que o deus judeu punia severamente aos israelitas que adorassem ídolos fabricados por mãos humanas ou astros do céu.
Sobre o púlpito Jesus de Nazaré encontrou um livro com seu nome. Já tivera notícia dele pela Máquina e já o lera com muita atenção.
- Vejo pelos teus comentários – disse Jesus para o sacerdote mais importante dos gentios – que dizes ao teu imenso rebanho que Jeovah é um deus misericordioso, bondoso e que teria passado a proteger também os goin, ou seja, os não-judeus, os gentios.
O Papa:
- Certamente. Nós não invocamos Jeovah, como os judeus. Nós o chamamos simplesmente de Deus. Evidentemente que as crueldades cometidas por Jeovah durante milênios não são informadas abertamente aos nossos fiéis. Nos púlpitos invocamos a virgem Maria para que interceda por nós junto ao deus filho dela e ao deus Jeovah, adotado pelo imperador Constantino no ano 325 desta Era.
Jesus de Nazaré:
- Você propala a todo momento que as ovelhas de seu rebanho devem ler a Bíblia. Após constatarem que Jeovah, o deus dos judeus, eliminava seres humanos com o uso de meios radicais com o uso de afogamento, fogo, enxofre, carnificinas por espadas flamejantes manejadas por anjos, chagas, tumores, lepra, hemorroidas, granizo, epidemias, febres - seus fiéis não se revoltam contra tal divindade?
O Papa:
- Certamente que não. Eles querem uma religião. Eles querem um apoio, uma promessa de vida eterna. Não é esse o anseio de todos? Até mesmo rabinos modernos admitem que Jeovah venha ressuscitar os judeus, se e quando ele o decidir! Se o deus é emprestado de Israel, isso não importa.
Jesus de Nazaré:
- Escreves que seu deus é Jesus de Nazaré, na página 65 do teu livro. E relatas que “o homem purifica-se do componente material, torna-se espírito e, por conseguinte, puro”. Reconheces, com visível cautela, a possibilidade de Jesus de Nazaré vir a se metamorfosear em tal coisa e, depois, a sentar em um trono, à direita de Jeovah, que chamas de Deus. Obviamente que o buraco narrativo não é ocultável: espírito não possui matéria que possa ser usada para assentar-se ou para tomar vinho.
Prosseguiu o Mestre de Nazaré:
- Durante vários séculos Torquemada e seus sacerdotes, orientados pelos escritores bíblicos, queimaram em fogueiras adolescentes e mulheres acusadas de feitiçarias após purificá-las através do estupro. Os historiadores informam - como vi na Máquina - que os pastores de tua organização religiosa estupravam as donzelas com o objetivo de, repito, purificá-las, antes de serem amarradas ao poste rodeado de madeira e palha. Seria essa a pureza buscada em teu livro? O estupro seguido de fogo?
O Papa não perdeu a serenidade:
- Tomás de Torquemada foi um religioso cruel - temos que reconhecer. Os estupradores sempre existiram, em todos os tempos e classes sociais. Da mesma forma que atualmente milhares de padres praticam a pedofilia. É a fraqueza da carne. Para nossos dizimistas, no entanto, isso não importa. Eles querem pertencer a uma seita religiosa rica e poderosa. Isso lhes dá mais confiança. A Inquisiçao é ignorada.
Jesus de Nazaré:
- Após minha morte, proliferaram sacerdotes e seitas religiosas. Todos tinham a garantia do dízimo em dobro, tal como os rabinos levitas. Isso se observa pela leitura dos dois Testamentos. E estou informado que tua organização religiosa chegou a possuir um terço ou até a metade de todas as terras da Europa. As seitas evangélicas, atualmente, enriquecem cada vez mais, junto com seus sacerdotes.
O Papa:
- O dízimo, pequeno ou grande, é garantido pela Bíblia. Aliás, Torquemada também se valeu, em seu livro sobre a forma de bem torturar os hereges e as feiticeiras, do texto de Moisés: Não deixarás viva uma feiticeira. E o fogo usado em fogueiras para essas mulheres tem sua origem de Deus.
Jeovah interferiu:
- Refere-se a mim certamente, romano. O fogo é fascinante. Ele está presente até mesmo no carro que elevou Elias para o céu. O fogo está presente em Sodoma e Gomorra e no batismo feito por João Batista desse israelita aqui presente, Jesus, da cidade de Nazaré. Por que não se recusaram a obedecer a esses escritos? Não perceberam que eram produtos de sacerdotes doentes, sádicos, infames e não de qualquer divindade? Não se deram conta do Mandamento que proíbe os assassinatos?
Jesus de Nazaré:
- Em teu livro, na página 250, perguntas: “Como teria conseguido a fé cristã persistir, depois que a expectativa imediata não se cumpriu”? Os evangelistas afirmam que o retorno de Jesus se daria naquela geração, quando muitos ainda estariam vivos. Obviamente que eu não escrevi nada disso. Quem o fez, foram sacerdotes da época, sequiosos por dízimos. Mas houve o reconhecimento - por parte do meu povo de Israel, liderado pelo pastor Ebion - que tinha ocorrido uma inverdade. Com isso os apóstolos sacerdotes, desmoralizados, perderam seus dizimistas judeus e foram buscá-los, junto com o soldado romano Paulo, entre os gentios.
O Mestre aproximou-se de uma belíssima escultura de sua amada mãe Maria. Joias riquíssimas adornavam suas vestes faustosas. Parecia usar a moderna maquilagem. Seus cabelos eram de uma rainha. Não tinha mais o aspecto pobre de Nazaré e suas quinze choupanas. Passou carinhosamente a mão direita sobre seus pés e prosseguiu:
- Vou responder à pergunta formulada em seu livro. A fé cristã não persistiu, já que abandonada pelos judeus, pelos ebionitas. Novos sacerdotes entraram em cena. Paulo de Tarso e outros passaram a fazer a maior de todas as promessas: a ressurreição e a vida eterna para os não-judeus, os gentios, os goin. Para receberem seus dízimos e a glória de serem altamente considerados, facilitaram a vida dos dizimistas: podiam pecar e delinquir à vontade. Bastaria crer no que diziam esses sacerdotes. Logo milhares de presbíteros, bispos e outros líderes inteligentes proliferaram. O ignaro ser humano de então se sentia salvo da morte! Jeovah agora não seria mais Jeovah: seria Deus! O Deus dos inimigos de Israel! O Deus dos romanos, esses terríveis verdugos do povo de Jeovah! Esses bárbaros que destruíram Jerusalém e a grande sinagoga, o grande templo, no ano 70 desta Era. Esses mesmos romanos que agora falam latim em suntuosas ekklesias espalhadas por toda parte e dominam o mundo novamente, sem armas.
O Papa:
- Eu devo concordar em parte. Mas lembre-se que o sucesso, o crescimento de qualquer religião, depende da dualidade: castigo e prêmio. Jeovah não mantinha uma guerra permanente com o deus Baal? Os romanos não tiveram que alijar de Roma seu deus Sol, Invictus?
Jesus de Nazaré:
- Na página 220 há um grande esforço retórico – aliás, muito inteligente – em que dizes que Jesus não voltou à vida humana normal, após a crucifixão. E tentas explicar, adiante, os aparecimentos e desaparecimentos, durante quarenta dias, do corpo ressuscitado de Jesus de Nazaré. Tomé põe o dedo no furo das mãos de Jesus de Nazaré: é um homem, de carne e ossos, como o relata o evangelista Mateus. Em seguida desaparece o visitante do quarto fechado: um fantasma que tem a capacidade de tornar invisíveis também a capa, a túnica, o manto e as sandálias usados pelo corpo que apareceu na sala? Mas, dois mil anos após esse relato, tu dizes, por tua conta, que esse homem tem poderes que lhe teriam sido dados pela vastidão de Deus. Qual deus? Jeovah, aqui presente, ou outro deus, romano ou de outros povos? O termo vastidão nada diz. É vago e ambíguo.
Todos olharam para Jeovah e este sem titubear:
- Eu somente dei poderes para Elias subir até as nuvens num carro de fogo. Aliás, foi Moisés que o disse. Jamais eu daria poderes para esse jovem Jesus de Nazaré que teria almejado ser um novo deus, contrariando meu principal mandamento: Não terás outros deuses diante de mim.
O Papa sorriu:
- Durante dois milênios nossos sacerdotes tiveram que sustentar, com relativo sucesso, que Jesus de Nazaré ressuscitou e subiu para o céu, com o seu corpo humano. Corpo normal. Atualmente isso não está mais sendo tão facilmente aceito. Um corpo, como sempre defendeu muito sabiamente Paulo de Tarso, congelaria no alto. Faltar-lhe-ia oxigênio e alimentos. Quem hoje pode crer que o judeu Elias tenha subido em um carro de fogo? E isso sem ter que primeiramente morrer como foi o seu caso, prezado Jesus de Nazaré. Parece ser Elias o único ser bíblico que teve esse privilégio. Pode parecer estranho que diga isso, mas os fatos revelados neste Juízo Final me obrigam a ser coerente.
Sentaram-se todos e o Papa continuou:
- Escrevi no livro que Jesus não voltou para uma vida normal deste mundo, o que sucedera com Lázaro. Ele saiu para uma vida diversa, nova: saiu para a vastidão de Deus.
Jeovah mostrou-se, espantado:
- Vastidão de Deus? Minha vastidão teria criado um ser que é e não é - ao mesmo tempo? Ora tal homem teria sido visto pelos apóstolos na sala, ora ele se teria tornado invisível?
Jeovah cofiou suas bilionárias barbas, olhou fundo nos olhos do mais importante sacerdote dos gentios, segurou suas delicadas mãos e disse:
- Romano, eu Jeovah, o Elohin, o Altíssimo Deus do Povo de Israel, Jeovah-Raha – Pastor de Israel, Jeovah Nissi – Bandeira de Israel, Jeovah-Jiré – O Senhor que Provê, Jeovah Tsdekeneu – Jeovah da Justiça de Israel, Eloeka – O Senhor Teu Deus, Jeovah Shalom – O Senhor é a Paz de Israel, Adonai, O Senhor dos Exércitos, Javé, constato que, sem a menor dúvida, queres consolar teus rebanhos. O paradoxo que descreves não pode existir logicamente, sinto muito em dizê-lo.
O Papa pareceu agora muito surpreso e intrigado.
Jeovah apertou-lhe as mãos e completou:
- É simples, grande sacerdote do povo romano, desse povo poderoso que dominou o mundo e a Israel pela força das armas. O corpo de Jesus de Nazaré foi visto subindo para as nuvens! Nesse momento, no ato mesmo dessa espetacular subida, Jesus de Nazaré não estava invisível e, por consequência claríssima, estava no estado de carne e ossos, usando túnica, capa, manto e sandálias. Logo congelaria nas alturas de menos de dez quilômetros em que o frio chega a mais de trinta graus negativos Celsius e o ar rarefeito não daria aos seres vivos a menor chance de sobrevivência! Obviamente que os sacerdotes narradores evangelistas não tinham o menor conhecimento disso!
A imprensa registrava todo o desenrolar da reunião. No planeta ninguém parecia respirar. E Jeovah arrematou:
- Segundo tua tese, criada agora - dois mil anos após aqueles fatos, Jesus de Nazaré não subiu de forma invisível. Ele não se encontrava no estado idêntico ao que se valia supostamente para evadir-se da sala fechada onde entrara transpondo paredes e porta! E roupas, túnica, capa, sandálias! E, assim estando agora seguramente estabelecido por meu divino e superior raciocínio, temos que concluir que o corpo subiu, sim, com seus oitenta quilos de ossos, carnes e sangue – e vestimentas! Ninguém viu um fantasma subir. Os apóstolos dizem claramente que viram – vestido! - Jesus de Nazaré subir e ser arrebatado até desaparecer, ao ingressar nas nuvens! Não há, pois, qualquer dúvida de que nas nuvens ingressaram túnica, capa, manto e sandálias! Um espírito sequer poderia ser visto - muito menos vestido!
Sara Moshê que a tudo acompanhava, comentou para seus telespectadores:
- O deus judaico está dando uma aula de raciocínios lógicos. Logo certamente deveremos observar que ele requisitará um exemplar da Bíblia Sagrada.
De fato, assim agiu o deus judaico. Abriu o Livro e prosseguiu:
- Escreveu o israelita Marcos em 16,19: “Depois que o Senhor Jesus lhes falou, foi levado ao céu e está sentado à direita de Deus”. Pela sua novíssima tese - Supremo Sacerdote dos gentios - Jesus de Nazaré teria subido naquele outro estado, supostamente fornecido por Jeovah, ou seja, no estado da invisibilidade. Naquele estado utilizado pelo ressuscitado para poder ingressar na sala e se transformar, então, em carne e ossos para que Tomé pudesse colocar o dedo no furo das suas mãos. E para que possa assentar-se, já que espíritos não possuem matéria que possa usar um trono, uma cadeira ou uma cama.
- Onde ficariam depositadas as roupas? Quem as introduziria na sala para que o dito paradoxo se produzisse e houvesse roupas ou vestimentas de couro para que Jesus de Nazaré não fosse visto nu pelos apóstolos? E, ao ausentar-se, pouco depois, o espírito deixaria na cadeira ou no chão as roupas? Obviamente que estas não poderiam ser observadas caso Jesus de Nazaré transitasse no estado paradoxal de espírito, estado esse atualmente criado e difundido pela mente inteligente do grande líder dos romanos! Ou esse espírito teria que retornar ao local onde deixara túnica, capa e sandálias para, então, voltar ao estado humano normal e, por estar nu ter que vestir essas roupas rapidamente? E se alguém, enquanto isso - se apropriasse dessas roupas, onde obteria o espírito novas vestimentas? Teria que comprá-las, em estado de nudez, sem portar dinheiro? Ou iria até a casa de Maria e José, para lá vestir outra muda de roupas que certamente remanesciam ou emprestá-las de seu amado pai José?
Respirou fundo e prosseguiu ante o olhar aturdido dos humanos-ovelhas:
- E Elias foi admitido no céu com suas roupas, uma vez que jamais foi morto? E Jesus Celestial, seu pai Jeovah e demais familiares, andavam nus, já que por ocasião do Big Bang ainda não existiam tecidos ou couros? E os filhos de Deus, relatados em Gênesis 6,1-2 e no livro de Jó, desceram nus para se apresentarem às donzelas da Terra e pedi-las em casamento? Ou esses filhos de Jeovah já tinham descido outras vezes e se munido de túnicas e capas compradas ou tomadas de humanos? E o amigo em Cristo de Paulo de Tarso, aquele que teria subido para o Terceiro Céu, vestia túnica e capa? Paulo escreve que não sabe se ele subiu em forma de corpo ou de espírito. Caso tivesse realmente visto subir esse amigo, este teria que possuir vestimentas!
Ninguém ousava interromper o Deus judeu, Jeovah, Adonai, Elohim, que, ao mesmo tempo, era o Deus tomado emprestado pelos gentios, pelos romanos.
Sara Moshê voltou a comentar para seus ouvintes:
“Na minha avaliação, de todos os vinte e dois integrantes do Grujuem - judeus tomados emprestados - Jesus de Nazaré é o mais proeminente, seguindo-se, para os romanos, Maria, a mãe do judeu de Nazaré. Para os evangélicos, no entanto, a segunda mais importante personalidade bíblica é Jeovah”.
Jeovah havia se levantado, caminhou por toda a imponente basílica à procura de algo, aparentemente. Em um dos quadros pensou ter visto a figura de seu criador, Moisés. Folheou uma Bíblia escrita em latim, com letras douradas e desenhos onde apareciam seus fiéis Jacó, Isaac, o Patriarca, Moisés e seus prestativos anjos e os profetas. Efetivamente o Velho Testamento, a Torá e demais livros de seu povo, estavam sendo usados pelos povos gentios. Viu estampada com grande relevo a figura do centurião Saulo de Tarso, soldado a serviço de Roma - primeiro, e sacerdote a serviço de Roma, - após. Retornou à mesa e disse:
- Seu templo é realmente muito rico. Impressiona certamente os seus fiéis. O que vou dizer agora não tem a intenção de afastar esses seus dizimistas. Eles não me fazem nenhuma falta, já que o deus Baal, a deusa Asserá e outros foram banidos de Israel - meu povo - como bem sabes.
O Papa parecia bastante apreensivo com o que viria. Mas dois mil anos de papados tinham sido uma escola eficiente. Prosseguiu Jeovah olhando fixamente para o maior sacerdote dos gentios:
- Seu livro tentou corrigir um buraco narrativo evangélico. Mas criou outro, ainda maior.
O Papa estava lívido. Mas mantinha sua permanente serenidade, como convinha a todos os sacerdotes diante de seus dizimistas.
- Na tua tese, Jesus de Nazaré possuiria poderes únicos nunca descritos na Bíblia. Aparece seu corpo, com oitenta quilos de ossos, carne, sangue e cérebro, e desaparece quando isso for do desejo desse corpo. É isso que dizes, na página 241, do teu livro Jesus de Nazaré: “Jesus tomou lugar à mesa com os discípulos; depois desapareceu da presença deles”. E escreves na página 237 que Jesus de Nazaré, após crucificado e ressuscitado, deixa suas chagas serem tocadas por Tomé e aceita uma porção de peixe que lhe oferecem para comer.
Jeovah parecia cansado. Folheou novamente a Bíblia e prosseguiu:
- O corpo recebe a comida que deve ser digerida. Ele é visto subindo para as nuvens, carregando roupas, evidentemente. Deduz-se que esse personagem subiu preferindo permanecer assim, com seus ossos, roupas e comida no estômago.
- Em dois mil anos, prezado Papa, sua seita religiosa vem afirmando isso – continuou Jeovah. Mas agora, surpreendentemente, escreves que o Nazareno volta a subir com o mesmo corpo, embora tenha este, segundo a nova tese, a capacidade de escolher entre subir com o corpo ou sem ele!
- E sabes por que assim dizes - prezadíssimo sacerdote? – continua o deus de Israel. Porque está escrito assim! Porque não podes afirmar que ele teria subido sem o corpo, pois, nesse caso, não poderia ser visto pelas testemunhas! Como iriam elas atestar ter visto algo invisível, tal como na sala fechada? Ter visto o tal paradoxo?
- Está escrito por Marcos em 16,19: “Depois que o Senhor Jesus lhes falou, foi levado ao céu e está sentado à direita de Deus”. O corpo tinha que subir! E foi levado por quem? E para sentar, há necessidade de um corpo! E para poder subir Jesus de Nazaré teve que obter o auxílio de terceiros, já que ele foi elevado, como consta da Sagrada Bíblia - esse livro que não mente - como dizes sempre aos teus fiéis! Ou Jesus de Nazaré teria optado por levar seu corpo, vestido, por algum capricho não explicado? E o que faria com ele lá nas nuvens? O jovem judeu ressuscitado necessitaria dele para poder sentar-se no trono e numa mesa para tomar vinho, não é verdade?
O Papa continuava lívido e seus lábios tremiam levemente. Serviram-lhe um cálice de licor enquanto ofereceram vinho tinto com mel para os israelitas Jeovah e Jesus de Nazaré. Jeovah voltou a folhear a Bíblia Sagrada:
- O evangelista grego Lucarno, conhecido por Lucas, escreveu em 24,50-51: “Jesus depois os levou para Betânia e, levantando as mãos, os abençoou, separou-se deles e foi arrebatado ao céu”. Certamente foram usados anjos para a elevação do corpo de Jesus de Nazaré até as nuvens, ao céu. Não havia, naqueles tempos, nenhuma aeronave ou balões. Para ser arrebatado, absolutamente necessário seria o uso dos únicos seres inteligentes portadores de asas, ou seja, anjos. E estes, obviamente possuíam corpos, com músculos nos seus braços humanóides. Não possuíssem corpos, inúteis seriam suas asas, então. Deixariam de ser anjos. Somente existiriam na imaginação humana, o que é o mais evidente.
O Papa:
- Tenho que reconhecer - Deus Jeovah: tuas análises foram divinas, como não poderia deixar de ser. E peço para ler o que disse Pedro em Atos dos Apóstolos 1,9: “Dizendo isso, elevou-se da Terra à vista deles, e uma nuvem o ocultou aos seus olhos. Enquanto o acompanhavam com os seus olhares, vendo-o afastar-se para o céu, eis que lhe apareceram dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: Homens da Galiléia, por que ficais aí a olhar para o céu? Esse Jesus que acaba de vos ser arrebatado para o céu voltará do mesmo modo que o vistes subir para o céu”. Claríssimo que ele terá que voltar com o seu corpo! Foi visto subindo o seu corpo. Logo, para que volte do mesmo modo, terá que possuir esse mesmo corpo! Talvez com novas vestimentas, já que se passaram vinte séculos desde a suposta subida em Betânia. Suposta, digo, porque eu não estava lá para ver, tenho que convir aqui e agora. A tua análise crítica sobre meu livro recebe do apóstolo Pedro, efetivamente, um apoio indiscutível.
Jesus de Nazaré parecia impaciente com aquele longo diálogo, e interferiu:
- Segundo as narrativas bíblicas, sem sombras de dúvidas, é claro, evidente, que o corpo de Jesus de Nazaré teria subido ao céu. Pedro relata que esse corpo voltará do mesmo modo que os apóstolos o teriam visto subir. Esse corpo é necessário para poder ser ocupado o trono, à direita de Jeovah e para que possa se deliciar ao comer a páscoa e beber os vinhos junto com os apóstolos, como se lê em Lucas 22,16: "Não tornarei a comer a páscoa até que seja realizada no Reino de Deus" e em Marcos 14,25: “Em verdade vos digo: já não beberei do fruto da videira, até aquele dia em que o beberei de novo no reino de Jeovah”.
- E estarão todos vestidos! – prosseguiu. E da Terra ninguém os verá? Interessante é que também Jesus de Nazaré ingressa em nuvens, tal qual Jeovah. Não estivesse nublado nesse dia, a subida teria que ser adiada, ultrapassando os quarenta dias sempre usados na Bíblia para os acontecimentos mais importantes? E se as nuvens desaparecessem subitamente? Ou o vento as afastasse? E os dois homens de branco? Testemunhas plantadas novamente!
Respirou fundo o Mestre e prosseguiu:
- Outra circunstancia importante e crucial: Após a ressurreição, Jesus de Nazaré já era o novo Deus! O fato de se demorar para subir não altera essa verdade. Para se tornar o Segundo Deus, bastaria ressuscitar! No exato instante em que saiu caminhando do túmulo, transformou-se nesse grande Segundo Deus! Esse é o pensamento lógico e irrefutável que escapou ao Papa Emérito! Não necessitaria de paradoxo ou quaisquer outras explicações elaboradas, complicadas, inverossímeis e com o maior de todos os buracos narrativos produzidos na Bíblia!
- Repito – disse - para que todos os dotados de inteligência mediana compreendam: segundo os abstrusos relatos, logo após a ressuscitação - ou dois mil anos depois, tanto faz - o poder do Segundo Deus deve ser o mesmo! Ele já é o Deus. Ele não seria mais o humano e é simplesmente ridículo que tenham escrito que o agora poderoso personagem teria que se esgueirar e promover esquálidos aparecimentos e indo comer peixe na beira do lago! Ele deixara de ser o humilde filho de um carpinteiro ou de outra pessoa não identificada claramente, para ser igual ao pai. Pai tão poderoso que teria criado Sol, Terra, Via Láctea e bilhões de outras galáxias há outros quinze bilhões de anos. Pobre narrador bíblico.
Jesus de Nazaré para o Papa:
- Continumos com teu livro, prezado Sumo Sacerdote. Vastidão de Deus - mencionas como algo que teria feito surgir os aparecimentos e os absurdos desaparecimentos. O que poderia significar isso? Não creio que o conserto buscado seja eficiente para convencer aos teus dizimistas. Atualmente o ser humano não é mais aquele pobre ignaro escravo, pastor de ovelhas ou fácil vítima de dizimadores dos tempos bíblicos. A tua tentativa, pelo contrário – permita que eu o diga –, mostra aos humanos atuais o grande buraco narrativo que deixaram os evangelistas, apóstolos e demais credores de dízimos.
- O teu livro – prosseguiu o Mestre e rabino israelita - exibe um desejo muito grande de remediar o que remediado não pode ser. Com que conhecimentos, in loco –, que obviamente não tens - te seria possível afirmar que Jesus de Nazaré praticaria prestidigitações como as que tentaste fazer em duzentas e cinquenta páginas do teu livro? O esforço retórico e o uso de ambiguidades mostram e escancaram as falaciosas tentativas de tentar provar que as centenas de buracos narrativos produzidos pelos evangelistas não devam persistir. Pelo contrário: o livro mostra que o Grujuem é amplamente usado e que os sacerdotes - como no caso – têm a obrigação de explicar e de acalmar seus fiéis. Onde deixar o corpo? Na Terra ou nas nuvens?
O Papa:
- Tenho que respeitar tuas observações.
Jesus de Nazaré:
- Paulo de Tarso foi soldado de Roma. Foi coautor confesso da morte do israelita Estêvão. No entanto não foi julgado por isso. Jeovah, aqui presente e criação de Moisés, também não foi julgado pelos holocaustos que cometeu. Isso basta para mim: todos buscam o dízimo ou a glória sacerdotal. Ser camponês e pobre não é vida que agrade os sacerdotes, embora existam os donos de rebanhos humanos que usam sandálias e se flagelam com açoites esquizofrênicos. Contentam-se com a glória. Melhor pobre e famoso do que um remediado obscuro e desconhecido. Temos que respeitar a todos, até aos que tomam deuses emprestados. Se quiserem tua capa, dai-lhes também a túnica. Foi isso que escreveram como sendo de minha autoria. É algo covarde e não praticado no mundo animal do qual viemos. Já fomos macacos que se defendiam e a sua prole até à morte. Morriam por sua família e para tentar salvar suas vidas.
Jesus de Nazaré levantou-se, acompanhado por Jeovah:
- Sinto muito – Papa - que a tese principal do teu magnífico livro tenha sido contestada. Sabemos que os fiéis terão que aumentar o grau da sua fé, se quiserem alimentar suas esperanças em ressurreições. Tudo isso já foi amplamente discutido e analisado na sede do julgamento do Juízo Final, como bem já constataste. Não esqueça que esses textos são retalhos de milhares de interpolações. Os aparecimentos e os arrebatamentos foram criados por sacerdotes e seus copistas bíblicos interpoladores.
- Mas vieram sem qualquer serventia – interferiu Adonai, o Deus de Israel: se o corpo sobe, congela e morre por inanição e por falta de oxigênio em pontos mais elevados. E se o que sobe for uma coisa rotulada de espírito, estará contrariada toda a santa e infalível Bíblia Sagrada e se terá que reconhecer que o corpo de Jesus de Nazaré, ao não subir, teve que ser enterrado ocultamente em algum lugar nos arredores de Jerusalém. Enterro desonroso, vergonhoso para os apóstolos e indigno para a estatura moral, intelectual e filosófica de Jesus de Nazaré, esse nobre cidadão de meu povo. Tenho que ser justo agora: morreu como um soldado, sem esboçar covardia. E morreu enfrentando o mais poderoso exército que já se conhecera até então.
Preparavam-se para partir. Os querubins estavam a postos no alto da bela cúpula da basílica. Parecia finalizar Jesus de Nazaré:
- Talvez seja o caso de reescreveres o livro que leva meu nome. Novas palavras talvez possam substituir a ambígua expressão “vastidão de Deus”, que usaste, en passant, na página 220. De qualquer forma, os fiéis não se interessam muito em pesquisar. Para eles basta uma estatueta de madeira para que as belíssimas procissões dos romanos lotem as ruas, pecando aos olhos de seu próprio novo deus Jeovah, que não admite estatuetas, figuras ou astros.
- Também não lhes interessa saber – prosseguiu - que seu Deus foi tomado por empréstimo e que se chama Jeovah, Adonai, Boreh, El, Jeovah Shalom ou Senhor dos Exércitos de Israel. Com o nome de Jeovah, o deus judaico aparece em 6.437 passagens bíblicas. O Velho Testamento menciona também: Jeovah Hosseus, Jeovah-Jiré, Jeovah Shalon, Jeovah Rafa, Jeovah Eloeka, Jeovah Nissi, Jeovah-Raha, Jeovah-Sama, Jeovah-El, Jeovah Tsdekeneu e Adonai, que provém de Adon, ou seja, Senhor.
- Também não lhes importa – continuou o grande Nazareno - saber que esse deus estranho tenha sido cruel nos tempos do Velho Testamento bíblico e que proibiu o uso de ídolos. E que a Bíblia Sagrada diga que esse deus é um deus que se declara uma divindade exclusiva dos cidadãos que um dia pertenceram a uma das Doze Tribos de Israel, da qual eu provenho, ou seja, da Tribo de Davi. Não lhes interessa que milhares de interpolações foram feitas no Novo Testamento. Todos têm a liberdade de ser ou não ser dizimistas. E todos podem ser sacerdotes e dizimadores. Todos devem receber dízimos: isso é garantia bíblica e legal. E os empréstimos ou adoções de deuses não são proibidos por qualquer lei ou regra ética. Bonecos de madeira – santos - são proibidos por Jeovah, mas os romanos possuem sacerdotes que também podem criar regras. Não foi Moisés quem escreveu os Mandamentos, embora tivesse dito aos seus rebanhos que os recebera, em forma de pedras talhadas com o texto hebraico, nas nuvens que cobriam o monte Sinai?
- Se Moisés escreveu para seus sacerdotes levitas lhes propiciando dízimos, o primogênito de cada família, e do gado, as primícias e o poder, por que não se podem derrogar regras criadas por sacerdotes judeus? Por que não podem padres, Bispos, cardeais, o Papa, criar santas e fazer suas estatuetas desfilarem pelas ruas e pelos altares? Por que não podem Bispos ou apóstolos evangélicos modernos prometer prosperidade e riquezas aos seus dizimistas? Por que não podem novas seitas propor regras que proíbem transfusões de sangue ou que adotem o sábado como dia de descanso? Por que não podem os romanos afirmar que Maria é santa, santíssima e que invocar seu nome produz curas de enfermidades? Se Moisés pôde, se os evangelistas puderam, por que se iria tolher essa atividade dizimista ao mais humilde e inculto dos humanos?
Jesus de Nazaré recebeu de presente o livro que levava seu nome, autografado pelo Sumo Sacerdote dos romanos. Agradeceu, apertou a mão do simpático e cordial Papa, lançou um último olhar para a rica estatueta de sua mãe Maria e chamou as aves humanas para descerem.
Os jornalistas abriram espaço e os querubins baixaram, recolheram suas asas e, de posse de sua preciosa carga celestial, alçaram voo rumo ao Mar Mediterrâneo, rumo à sua amada Jerusalém, cidade reclamada por três povos há séculos, aquela mesma Jerusalém que fora reduzida a escombros pelo poderoso império romano, há dois milênios.
Na Praça de São Pedro milhões de famintos aguardavam por uma solução. Mulheres desesperadas não tinham como alimentar seus filhos. Mais e mais túmulos se abriam em toda a Itália, fazendo brotar os ressuscitados retardatários com seus corpos nus ou vestidos com andrajos que resistiram ao tempo. Milhares de sacerdotes pedófilos ressuscitavam e logo se uniam aos vivos para suas práticas hediondas. Era o caos. Mães procuravam filhos. Não havia registro escrito de ressuscitados condenados à Geena ou que teriam subido até as nuvens.