Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 49
O helicóptero que havia partido da frente dos tronos, retornou. Postou-se mais ao alto. Dele pendia um contêiner e de um lado se podia ver o que estava no seu interior, pois era feito de grades de madeira. O piloto informou pelo megafone:
- Senhor - recebi ordens do comando das Nações Unidas para lhe trazer esta carga. São ossos de braços e pernas humanos encontrados nas catacumbas de Paris.
Um novo helicóptero se aproximou e, da mesma forma, exibiu um carregamento de crânios humanos. Pelo megafone uma voz disse:
- Mestre - esses humanos não ressuscitaram e rogamos para que seja cumprida a promessa. São ordens contidas em liminar dos juízes de Paris, atendendo a processos instaurados contra este Tribunal do Juízo Final por parentes desses ossos e que desejam rever seus entes queridos devidamente revividos, como prometido na Bíblia.
Um terceiro helicóptero chegou e dele desceu um fidalgo elegantemente vestido:
- Mestre: sou o francês conhecido como Rei Luiz XVI. Não posso me conformar que não tenha ressuscitado minha amada rainha Maria Antonieta. Seus ossos foram depositados, de acordo com os registros, nas catacumbas de Paris e lá, como sabes certamente, ficam empilhados os crânios separadamente dos demais ossos. Entre milhares de crânios está o de minha amada, decapitada pelos nossos súditos revolucionários.
Jesus de Nazaré - Yeshua dirigiu-se a Mateus para que solucionasse o problema. Diz Mateus:
- Foi escrito em 22,30: "Na ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu".
Luiz XVI sacou de sua espada e investiu contra Mateus evangelista. Foi contido por arcanjos e querubins. Mas conseguiu desvencilhar-se e desferiu um golpe contra o escritor bíblico. A espada fez saltar uma lasca de madeira coberta de uma camada de ouro do trono. Isso salvou a vida do sacerdote. Teve tempo de sacar sua própria espada e uma luta inusitada passou a ser vista no mundo.
Os golpes de parte a parte eram aparados. Um ferimento no braço esquerdo de Mateus, no entanto, fez jorrar sangue sobre Jesus de Nazaré que se interpôs entre os dois. Imortal que Mateus era agora, seu ferimento sarou instantaneamente. Serenados os ânimos, Jesus de Nazaré mandou recolher todas as espadas que havia no Tribunal, inclusive as portadas pelos apóstolos e sentenciou:
- Este Tribunal do Juízo Final determina que os evangelistas e Paulo de Tarso providenciem imediatamente na correta ressurreição desses ossos aqui presentes.
Nisso chegam por outro helicóptero vários malotes com mensagens escritas. As cartas são lidas. Trazem notícias de que, no planeta, milhões de mortos deixaram de ser ressuscitados. Do mar da Galiléia um pedido dizia que vários cadáveres que estavam no fundo do lago haviam ressuscitado, mas tornaram a morrer afogados, pois não conseguiram nadar até as margens alguns, e não saberem nadar outros. Os parentes desses mortos reclamavam e exigiam que todos fossem ressuscitados novamente e trazidos para as margens.
Os parentes das vítimas de Hiroshima e Nagasaki, desintegradas pelas bombas atômicas na segunda guerra mundial, se mostravam revoltados porque seus entes queridos não apareciam.
Jesus de Nazaré:
- E você - Paulo de Tarso, o que tem a dizer ao Tribunal do Juízo Final?
- Escrevi em I-Coríntios 50: "Nem a carne nem o sangue podem participar do Reino de Deus". E o que está escrito na Bíblia Sagrada não pode ser contestado, mais ainda porque eu o escrevi. Sou o maior de todos os sacerdotes. Possuo – repito - mais de um bilhão de adeptos.
Paulo de Tarso foi até o Rei Luiz XVI:
- Eu escrevi e repito: Nem a carne nem o sangue podem ingressar no Reino de Jeovah. E muito menos os ossos. Sugiro que retornes a Paris e não mais venhas fazer petições descabidas e agressões físicas aos autores desse Juízo Final. Aqui, no céu, nas nuvens, somente espíritos existem, embora me contestem sobre o que eu sempre disse e continuo afirmando.
Jesus de Nazaré:
- Paulo de Tarso - reconhecemos todos que você tem uma grande importância histórica no mundo dos sacerdotes. Você é talvez o mais hábil de todos os pastores já surgidos. E você se autonomeou o sacerdote dos gentios. Mas, vou repetir: todos os textos bíblicos indicam que os personagens celestiais possuem matéria, carne, ossos, sangue. Mas persistes em tuas regras sacerdotais. Queres que nem carne nem sangue possam participar do Reino do deus judeu Jeovah.
- Oportuno é lembrar – prosseguiu - que fui rodeado de anjos, no relato de Mateus 3,8-11: “O diabo levou Jesus de Nazaré a um monte muito alto e lhe prometeu as riquezas que diz ter visto. Sem obter sucesso, esse anjo, aqui rotulado de diabo, partiu e logo chegaram outros anjos para servir a Jesus de Nazaré". Vemos que o anjo rebelde tem o poder de conduzir a Jesus de Nazaré até o alto de um monte! Possui, portanto, braços, pernas e potentes asas!
- E vemos que anjos desceram das nuvens para servi-lo! Isso são espíritos? São mitos, como alguns rotulam o livro de Gênesis e os demais da Torá? Nesse caso, todos os anjos, inclusive o Anjo-Diabo, são mitos? E o pior, toda a Bíblia seria produto de mitos? Inclusive eu? A dita vida espiritual celestial não prevalecia. Era impossível sua existência. E mais: ora o indispensável personagem do Grujuem era descrito como o Anjo Caído, ora como um ser horrendo e assustador, ora como Lúcifer, o Anjo-Luz. A contaminação dos relatos bíblicos é inevitável. Tudo não parece ruir no mundo dos sacerdotes? Voltariam estes a cultivar a terra, como os dizimados dizimistas? Realmente crês na existência dessas criaturas ditas angelicais? Batendo asas eternamente?
Obviamente esse raciocínio provocou nova estupefação entre os dizimados do mundo. Era de uma lógica absolutamente irrespondível. Mais um grande buraco narrativo - comentou a jornalista Sara Moshê para seus ouvintes.
Paulo de Tarso:
- Pois vou demonstrar que até tu, Jesus de Nazaré, afirmaste que no céu não há senão espíritos. Vou ler João, 6,62-63: "Que será, quando virdes subir o Filho do homem para onde ele estava antes? O espírito é que vivifica, a carne de nada serve".
Jesus de Nazaré apanhou a Bíblia e, aparentemente surpreso, conferiu o texto recém-lido. Foi até o evangelista João:
- Não afirmei isso. O que queres dizer com esse texto, João? Dizes que meu corpo, minha carne ressuscitada, de nada serviram? Afirma que eu subi deixando na Terra essa carne?
João não pareceu perturbado com as perguntas:
- É exatamente isso o que eu e Paulo de Tarso afirmamos. A carne e seus ossos não têm como sobreviver nas nuvens. Não há comida. Cordeiros, pastagens, trigais, vertentes de água, parreirais. Nada. Subiste, foste arrebatado na forma de espírito, permita que eu insista.
- E os buracos das minhas mãos e o corte no meu lado? Espíritos possuem tais carnes?
- Não sei responder a isso. Mas é assim que me relataram os sacerdotes cristãos. Sei que o teu corpo ressuscitado no terceiro dia, representou o milagre. Onde e se teu corpo foi oculto, não me foi informado.
- Mas isso não é tão simples, João. Como poderia eu subir, em forma de espírito, quarenta e três dias após minha crucifixão, se esse dito espírito subiu no exato momento da minha morte na cruz, como claramente consta de Lucas 23,46: "Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito?”. E no mesmo dia esse espírito de Jesus de Nazaré não teria subido - como diz o mesmo Lucas em 23,43: "Te digo, malfeitor, hoje estarás comigo no Paraíso?" Subiriam dois espíritos? Isso é um absurdo e produto claro de um buraco narrativo cometido pelos que escreveram os textos.
- João: como poderia ser arrebatado um espírito que já havia subido para o Paraíso quarenta e três dias antes, saindo da cruz, junto com o malfeitor também crucificado, ao lado? - continuou Jesus de Nazaré após observar uma grande movimentação de helicópteros ao longe.
- São meros detalhes – respondeu João. A verdade é que tu tinhas que subir, seja em forma de espírito, seja com a companhia de suas carnes, ossos, sangue e completamente vestido. E isso é o que importa para os que desejam esperanças e é o que importa para os sacerdotes. Estes necessitam de dízimos. Aqueles necessitam de bengalas para poder sobreviver um pouco mais antes de serem jogados numa cova.
Jesus de Nazaré ordenou que lhe trouxessem todos os crânios que estavam no contêiner. Eles foram dispostos nos ventres de quatrocentos e noventa anjos que estavam com suas costas dirigidas para a Terra, dificultando, de certa forma, o bater das asas. Cada anjo conseguia segurar cerca de sete crânios.
- Um destes crânios - continuou o Mestre - é o de Maria Antonieta, a grande rainha da França. Ela foi decapitada e a cabeça sepultada separadamente de seu corpo pelos revolucionários - como sabemos. Pelo menos é isso o que dizem os registros das catacumbas de Paris. Mateus, eu te ordeno: cumpra com o que escreveste e promova, agora, a ressurreição de Maria Antonieta.
- Está escrito no meu evangelho, em 5,28-29: "Vem a hora em que todos os que se acham nos sepulcros sairão deles ao som da voz do Filho, Jesus de Nazaré; os que praticaram o bem irão para a ressurreição da vida, e aqueles que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados". É o som da sua voz, Jesus de Nazaré, que faz os túmulos se abrir e ressuscitar os mortos. Estarão nus, é verdade, decompostas as vestimentas após séculos ou milênios. Não tenho poderes para usurpar suas atribuições -grande Mestre.
Yeshua parecia perplexo. Mas logo recuperou o controle do julgamento e ordenou:
- Levem daqui esses crânios. Minha voz somente pode ressuscitar os que se encontram em sepulcros.
- Um momento! - exclamou o Rei Luiz XVI. Está escrito em João 6,47: "Quem crê em mim tem a vida eterna". Tanto eu como minha amada Maria Josefa Joana Von Habsburgo-Lorena cremos em Jesus de Nazaré. Ela tem o direito de ressuscitar, portanto.
Jesus de Nazaré:
- Mas vocês eram extremamente ricos. E os ricos não podem ingressar no Reino dos Céus, como está escrito em várias passagens bíblicas.
O Rei Luiz XVI:
- Não! Todo o planeta já percebeu que os sacerdotes buscam dizimar. E os que possuem campos, como no caso de Ananias, Safira, Barnabé e outros, são até mesmo levados à morte pelo teu apóstolo Pedro, por terem trazido aos seus pés um dízimo parcial. Ser rico é bom. As riquezas produzem empregadores e empregados. Veja a opulência atual de teu país, Israel, nobre Jesus de Nazaré. Os dizimadores querem gordas contribuições dos ricos. E é por isso que os atemorizam!
Tomou ar o rei e continuou:
- Veja o que escreveu o sacerdote Malaquias 2: "Disse Jeovah: sacerdotes, se não escutardes, vou cortar o vosso braço, jogar esterco em vossos rostos. Me enganais com o dízimo e a contribuição. Vem o dia que queima como o forno os arrogantes e os que praticam o mal queimarão como palha. Mas para os que temem o meu nome, brilhará o Sol da justiça e saltareis como os bezerros da engorda".
Yeshua:
- Estou convencido. Os textos bíblicos indicam que tanto para o céu como para a Geena devem todos ser ressuscitados. Mateus! Promova a imediata ressurreição da grande rainha Maria Antonieta.
Mateus foi até Paulo de Tarso. Confabularam durante dez minutos. E Mateus dirigiu-se então para os treze apóstolos ressuscitados e os outros treze que haviam descido das nuvens em seus tronos para julgarem as Doze Tribos de Israel, como estava escrito:
- Irmãos judeus. Estamos sendo acusados de sermos sacerdotes profissionais e que criamos estórias com o objetivo de obter dízimos. Isso é verdadeiro, não temos como negar. Agimos tal como os sacerdotes levitas, afilhados do grande Moisés. Pedro deixou confessado, por escrito, que os apóstolos recebiam grandes somas de seus clientes. Mas agora estamos em um grande impasse.
Mateus parecia buscar forças para continuar, e prosseguiu:
- Três versões bíblicas aí estão para nos atormentar, nós os sacerdotes mais bem sucedidos de todos os tempos. São elas, como vimos: primeiro, para o céu subiram seres humanos com seus corpos, com carne, ossos e sangue, tal qual Jesus de Nazaré. Segundo, para lá sobem e vivem somente espíritos, sendo os anjos também espíritos, segundo Paulo de Tarso. E terceiro - nenhuma dessas versões poderia ocorrer, motivo pelo qual o bravo povo judeu não se filiou a qualquer das duas correntes sacerdotais anteriores. Permaneceram fiéis aos seus rabinos e a Jeovah, ignorando Jesus de Nazaré e crucificando-o porque violou o mandamento divino. A pergunta é: o que fazer? Seremos expulsos deste Tribunal pelo nosso amado Mestre Jesus de Nazaré, aquele que nos ensinou a amar nossos inimigos?
Uma grande expectativa havia em todo o planeta. O que aconteceria agora? Falou então Matias, o apóstolo substituto:
- Sugiro que, antes de tudo, promova o Rei Luiz XVI escolha do crânio de sua amada rainha Maria Josefa Joana Von Habsburgo-Lorena. Após, deliberaremos.
Jesus de Nazaré acenou afirmativamente e o Rei Luiz XVI iniciou o exame dos mais de dois mil e quinhentos crânios postados no ventre dos anjos. Foi carregado por sete querubins. Suas asas se chocavam umas nas outras, numa sinfonia espetacular. Examinava cuidadosamente a arcada dentária de cada caveira. Já estava quase terminando quando reconheceu o crânio de Maria Antonieta. Exultante, exibiu-o a Jesus de Nazaré. Ela possuía toda a arcada dentária inferior reparada com finos fios de prata e o molar esquerdo fora substituído por um implante de ouro. Era ela, sem dúvidas. Essa constituição dentária era inconfundível.
- Prossigam - ordenou Jesus de Nazaré para os apóstolos e para os evangelistas.
Matias, outro rude campesino apóstolo, apanhou o crânio delicadamente e o depositou no trono em que estava Paulo de Tarso e lhe disse:
- És o único que podes nos salvar a todos da ira de Jeovah e de Jesus de Nazaré. Sugiro que fales com o Espírito Santo.
Paulo de Tarso foi até o trono onde deveria estar o Espírito Santo:
- Eu te ordeno que ressuscites Maria Antonieta, em forma de espírito – assim como eu escrevi nas minhas epístolas.
Mateus soltou uma sonora gargalhada. Parecia haver perdido a razão. Os demais evangelistas se entreolharam e Matias disse para Felipe: um espírito demoníaco tomou conta dele.
Paulo de Tarso:
- Pronto. Maria Antonieta está ressuscitada. Ela não pode ser vista - tal qual o Espírito Santo.
- Mas o crânio dela continua aqui! O evangelista João escreveu em 5,37: "E o pai que me enviou, ele mesmo deu testemunho de mim. Vós nunca ouvistes a sua voz e nem vistes a sua face". Ou seja, Jeovah possui uma face e voz. E João também escreveu em 6,45: "Todo aquele que ouviu o Pai e foi por ele instruído, vem a mim. Não que alguém tenha visto o Pai, pois só aquele que vem de Deus, esse é que viu o Pai". Ora ele diz que Jeovah nunca foi ouvido ou visto. Ora diz o contrário. Tem voz, possui cordas vocais, olhos e ouvidos.
- "Vem a hora em que os que se acham nos sepulcros sairão deles ao som de sua voz (de Jeovah)", escreveu João em 5,28. Nova clara evidência de que os ressuscitados ouviram a voz de Jeovah. Possui ele carne e ossos, pulmões, cordas vocais, portanto. E os mortos ouvirão. Com que órgãos? Somente lhes restam ossos. Ossos ouvem?
João interrompeu:
- Mestre - escrevi também em 8,38: "Eu falo tudo que eu vi junto de meu Pai". E em 8,28: "Falo do modo como o Pai me ensinou". Escrevi o que me foi transmitido pelos sacerdotes cristãos. Mas está claro que, ao ver e ouvir Jeovah, Jesus de Nazaré confirma, uma vez mais, que Jeovah possui carne e ossos.
- E escreveste - disse Jesus de Nazaré - em 12,28: "Nisto veio do céu uma voz: Já o glorifiquei e torno a glorificá-lo". Ou seja, novamente você informa que Jeovah possui ouvidos, pulmões, cordas vocais e demais órgãos necessários para se poder falar. E estranhamente só pronuncia ele uma frase, ou seja, um testemunho plantado. Plantaste – ou um tradutor o interpolou –, algo que Jeovah jamais faria, ou seja, dizer que ele aceitaria a concorrência de outro deus. Que acabou morto pelos sacerdotes de Jeovah. É a busca dos dizimadores pela notoriedade. Querem ser glorificados.
Interveio Lucas:
- Perceberam? O Espírito Santo volta. Lembram que eu escrevi em 3,22: "E o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como uma pomba, e veio do céu uma voz: Tu és o meu filho bem amado; em ti ponho minha afeição"?
- Esse texto sacerdotal, Lucas - mostra que eras mesmo aluno de Paulo de Tarso. Mas aqui o Espírito Santo desmente o que diz Paulo. Aqui temos o reconhecimento de que no céu existem corpos, mesmo por parte dos adeptos de Paulo de Tarso e de Lucas, o médico, seu fiel aluno.
O vento soprava cada vez mais impetuosamente. Jesus de Nazaré teve que elevar sua voz:
- E aqui esses sacerdotes, Lucas e seu mestre Paulo de Tarso, escrevem algo verdadeiramente inusitado. O personagem Espírito Santo passa a criar animais! Do nada é criada uma pomba!
Escurecia e relâmpagos riscavam o horizonte. O Mestre continuou:
- “Assumiu a forma corpórea”, escreveu Lucas. Ou seja, deixa claro que os espíritos em geral não possuem corpos! Não possuem matéria, nem ossos, nem sangue, nem carne. Existem somente na imaginação dos narradores ligados a Paulo de Tarso e Lucas. Assumem formas! Isso parece com o paradoxo citado no livro Jesus de Nazaré, do Papa Emérito! Há um detalhe: esse paradoxo seria único. Ninguém mais além de Jesus de Nazaré seria agraciado (por quem?) com ele.
Respirou fundo o Mestre e prosseguiu:
- Temos uma agravante, contudo. O paradoxo do Papa Emérito somente serve para transformações de homem para espírito e vice-versa. Não existem paradoxos de espíritos para pombas. Que fim teria levado aquela ave? Foi morar no mato, acasalar, criar pombinhas ou acabou sendo caçada e alimentou um predador qualquer?
Antes de serem encerrados os trabalhos do dia, disse Jesus de Nazaré:
- Quero lembrar que Lucas, em seus Atos dos Apóstolos, escreveu em 5,29: “Pedro e os apóstolos replicaram: importa obedecer antes a Jeovah do que aos homens. O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, que vós matastes, suspendendo-o num madeiro. O Deus Jeovah elevou-o pela mão direita como Príncipe e Salvador, a fim de dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados”.
Jeovah interrompeu:
- No Velho Testamento eu jamais prometi a ressurreição dos clientes de meus sacerdotes. Nem eles o fizeram. Como ousa esse grego, Lucas, ou Lucarno, escrever que teria sido eu o ressuscitador desse jovem judeu Jesus de Nazaré? Quem lhe deu essa permissão? De onde obtiveram, ele e o outro judeu, Pedro, autorização para falar em meu nome? Não foram os discípulos de Jesus de Nazaré declarados blasfemadores, inimigos dos Sumo Sacerdotes, príncipes, escribas e demais líderes de Israel? Escreve esse Lucas que os judeus mataram Jesus de Nazaré. Esses judeus são meus sacerdotes. E defenderam minhas leis, meus mandamentos e merecem meus aplausos.
Uma voz feminina interrompeu:
- Quero protestar. Antes não mo permitiram. Não é verdade o que de mim falaram! Inicialmente: eu sou eterna! Você o afirmou, Jeovah!
Era Eva. Jeovah foi tomado de surpresa. Olhou para Moisés como que pedindo ajuda. Moisés dirigiu-se para Eva:
- Como ousas duvidar da Bíblia Sagrada? Como ousas duvidar da Torá?
Eva sorriu. A grande mãe da humanidade resplandecia. Seu olhar era o mesmo de todas as mães de todos os tempos. Era a mulher, sempre relegada a um segundo plano em tudo.
- Moisés, foi você mesmo que escreveu! Quem comesse do fruto da árvore da vida teria a vida eterna – esqueceu? Pois eu comi do fruto! Isso é um mito? Se eu sou produto de um mito, porque em todas as sinagogas e em todos os templos evangélicos sou distinguida com injúrias? Não dizem todos os sacerdotes que Eva é a culpada por todas as desgraças? Não! Não sou mito. Se o for, toda a Torá e todo o Novo Testamento são produto de mitos. Em sã consciência, pode alguém acreditar que seres alados humanos, aves humanas, anjos, existam, por exemplo?
Eva não se revelava a pecadora original, ignara e fútil mulher que se pudesse enganar com o uso de um réptil. Ela mostrava que era mulher, inteligente, combativa e que transmitiria sua carga genética a toda a humanidade. Milhares de anos iriam transcorrer até que as mães dos varões pudessem impor-se. Já nesse estágio da evolução Eva indicava o caminho longo que as mulheres de todo o planeta haveriam de trilhar para se libertarem do jugo impiedoso dos homens.
Die Maschiene noticiou: “Centenas de humanos julgados e absolvidos haviam descido das nuvens. Informavam que o frio, o vento e o sol eram insuportáveis. Não havia comida e água somente da chuva”.
Jesus de Nazaré:
- Quero alertar que nenhum sacerdote vedou a descida das suas ovelhas em quaisquer escritos bíblicos. Além disso, não existem grades que possam impedir suas saídas. Comunicam-me que em Jerusalém existem atualmente as seguintes criaturas, conforme gráfico que farei agora na tela do computador:
I – Humanos vivos que nunca morreram.
II – Humanos ressuscitados por ocasião da instauração do presente Tribunal do Juízo Final e que não foram ainda submetidos ao julgamento.
III – Humanos ressuscitados, julgados, absolvidos e que se jogaram das nuvens devido ao frio. Não morreram novamente – com a queda - porque após a ressurreição todos são eternos. Alguns desceram com a ajuda dos anjos e outros foram apanhados por helicópteros contratados por seus parentes.
IV - Humanos normais – vivos - julgados, condenados à Geena, que se deslocam do local dos fornos devido a total ausência de guardas.
V – Humanos ressuscitados condenados ao Inferno e que de lá se afastaram por inexistência de grades ou guardas.
VI – Humanos ressuscitados séculos antes da existência de Jesus de Nazaré e que tinham subido por ordem de Jeovah. O profeta Habacuc é o mais popular e é visto pelos dizimistas todos os dias junto ao Muro das Lamentações.
VII – Lázaro, duas vezes ressuscitado – uma por Jesus de Nazaré em vida normal de ambos – e outra no Dia do Juízo Final; os judeus que saíram de seus túmulos por ocasião da crucificação de Jesus de Nazaré e novamente ressuscitados no presente Juízo Final.
VIII – Elias, que jamais morreu e subiu com o carro de fogo. Retornou ao solo na companhia de Moisés, como já fizera ao visitar Jesus de Nazaré e Pedro. Elias vivia com muito medo de cair, já que não era eterno, era humano comum. É bem verdade que, se caísse e morresse, seria ressuscitado.
IX – O homem em Cristo, de Paulo de Tarso; muitos profetas e as colônias de filhos de Jeovah.
X – Filhos de Jeovah com suas viúvas - agora ressuscitadas.