Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 55
Chegou uma legião de anjos. Traziam milhares de crianças sem as suas mães, com uma mensagem escrita em hebraico. Leu o anjo da ordem dos Principados:
- As mães destas crianças pedem que elas sejam declaradas salvas e admitidas no Reino de Jeovah, tudo de acordo com o que consta em Mateus 18,10: "Guardai-vos de menosprezar um só desses pequenos, porque eu vos digo que seus anjos no céu contemplam sem cessar a face de meu Pai que está nos céus".
Jesus de Nazaré voltou-se para Paulo de Tarso:
- Observe que está escrito: Jeovah possui face. Os anjos possuem olhos para contemplar sem cessar a face do deus judaico. Não se tratam de espíritos, pois. E veja - Paulo de Tarso: essas crianças estão todas salvas. Os Anjos Separadores as trouxeram, já que não podem ser condenadas às fornalhas da Geena, pois está escrito em Mateus 19,14: “Disse-lhes Jesus: Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham”.
Jesus de Nazaré alisou com a mão direita o seu longo cabelo. Apesar de passados já dois mil anos - continuava sem ter se tornado grisalho. E prosseguiu:
- O texto diz que as crianças possuem seu anjo, cada qual. Agora, dois mil anos após, existindo em torno de dez bilhões de crianças vivas e mais umas três dezenas de bilhões de crianças que já morreram e agora ressuscitaram, os anjos devem ter se multiplicado de forma muito grande. Há, pois, uma gigantesca reprodução de anjos. Existem anjos machos e anjas fêmeas. Não se tratam de espíritos, pois. Ou espíritos copulam e se reproduzem - Paulo de Tarso?
As crianças choravam muito. Era um coro de milhares de pequenos seres humanos, muitos deles necessitando do leite materno. Jesus chamou o líder dos Anjos Separadores, um robusto anjo macho, aparentemente:
- Como vocês ousaram separar essas crianças das suas mães? A mensagem que supostamente elas escreveram me parece absolutamente falsa. Nenhuma mãe se separa de seus filhos pequenos.
Respondeu o Anjo Separador:
- Examinamos cada caso. Muitas das mães eram presidiárias, prostitutas, adoradoras do deus Baal, da deusa Artemis, da deusa Ada, do deus Moloch, fariseias, saduceias e feiticeiras queimadas pela Santa Inquisição. Pelos crimes cometidos por elas, não serão admitidas no céu. Assim, não podemos aceitar que as inocentes crianças acompanhem suas mães para as fornalhas da Geena ou do Inferno.
Jesus de Nazaré:
- E quem condenou essas mulheres? Elas não devem ser devidamente julgadas neste Tribunal do Juízo Final? Quem autorizou a vocês, Anjos Separadores, decidir sobre o destino das mulheres mães?
O Anjo Separador:
- Está prevista nossa autoridade no Juízo Final, como lemos em Mateus 13,41: “O Filho do Homem enviará seus anjos, que retirarão de seu Reino todos os escândalos e todos os que fazem o mal”; em Mateus 13,49: “Assim será o fim do mundo: os anjos virão separar os maus do meio dos justos”; Mateus 16,27: “Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai com seus anjos, e então recompensará a cada um segundo suas obras”.
- Não está claro que nós, anjos, temos a competência e a autoridade de separar os maus do meio dos justos? Pois exercemos essa nossa autoridade e separamos as mulheres más das justas. Serão levadas às fornalhas da Geena. As crianças ficarão muito tristes, sabemos. Mas nada podemos fazer.
Jesus de Nazaré:
- Está escrito que eu não vim para salvar os justos, mas, sim, os ímpios e pecadores. Tragam imediatamente as mulheres para este Juízo Final.
- Sinto muito, Mestre, mas já exercemos nossas atribuições. As mulheres estão queimando nas fornalhas do Inferno e da Geena. Foram, algumas, jogadas no vulcão que está em franca atividade no nordeste da África. Outras - as de maior peso - foram introduzidas nas fornalhas da Geena.
Jesus de Nazaré:
- Vocês extrapolaram de suas atribuições. Não leram, em 16,27, de Mateus, que é Jesus de Nazaré que "recompensará a cada um segundo suas obras"? Se essas mulheres são realmente ímpias e pecadoras, devem ser salvas por mim. Ordeno que retornem ao vulcão e à Geena e tragam urgentemente de volta essas mulheres.
Mas os anjos não alçaram voo. Alegaram que estavam exaustos e, lentamente foram ocupar, os que eram integrantes do Tribunal, seus respectivos tronos, dizendo um deles:
- Mateus nos deu poderes. Leiam! Está em 13,39-43: "No fim do mundo, os ceifadores são os anjos. Assim como se recolhe o joio para jogá-lo no fogo, assim será no fim do mundo. O Filho do Homem enviará seus anjos, que retirarão do seu reino todos os escândalos e todos os que fazem o mal e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes. Então, no Reino de seu Pai, os justos resplandecerão como o Sol".
Levantou-se de seu trono um enorme querubim. Seus quatro rostos sempre voltavam a impressionar os ocupantes dos helicópteros. Falou a face humana:
- As mulheres foram corretamente julgadas! Está escrito! São os anjos os únicos a decidirem quem deve ser lançado na fornalha! E mais: todos os que fazem o mal devem assim ser castigados! Está escrito!
- Um momento! - exclamou Jesus de Nazaré. O texto escrito por Mateus diz que esses anjos ceifadores são anjos de Jesus de Nazaré e está claro que eles somente podem agir após seu chefe haver decidido sobre a sorte dos humanos. Além disso, essas mulheres devem todas ser absolvidas! Não são elas ímpias e pecadoras? E Jesus de Nazaré não veio para salvar justamente esse tipo de seres humanos?
De nada adiantou. Os Anjos Separadores não se moviam. Jesus de Nazaré convocou o anjo Gabriel. Este reuniu uma legião de anjos e partiu. As asas batiam e, como sempre, se produzia um espetáculo que extasiava os ressuscitados e os vivos. Voltaram do vulcão africano com as mulheres condenadas. Estavam com aspecto deplorável. Seu cabelo havia desaparecido e queimaduras dos vulcões as desfiguraram; as roupas queimaram; estavam nuas e lhes foram alcançadas mantas para se cobrirem.
- Vocês estão retornando do Inferno para serem julgadas corretamente. Não tiveram a sorte de serem levadas para os fornos da Geena de Jerusalém, bem menos danosas que os vulcões. Informaram-me que todas vocês foram pecadoras. O que têm a dizer em sua defesa?
As mulheres não conseguiam falar. A lava colara seus lábios e bocas. A líder recebeu papel e caneta, escrevendo:
- Nós pecamos. Mas nos arrependemos. Todas passamos a te adorar, pois vieste para salvar os ímpios e os pecadores. Ingressamos em seitas várias e essa salvação nos foi prometido pelos sacerdotes.
Jesus de Nazaré:
- Mas vocês abandonaram seus filhos pequenos. Isso são o crime denominados abandono material, abandono de menores, de incapazes. Como ousaram cometer tais pecados e tais delitos?
Subitamente uma das ex-visitantes do Inferno conseguiu falar:
- Porque você, Jesus de Nazaré, ordenou que assim agíssemos.
Jesus de Nazaré mostrou-se surpreso:
- Eu teria cometido tal iniquidade? Como ousam afirmar isso?
A mulher apanhou a Bíblia e, com um largo sorriso, leu:
- “Todo aquele que, por minha causa, deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casas, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna”. Isso escreveu Mateus, em 19,29. Abandonamos nossos filhos e não nos deram o cêntuplo dos bens que possuíamos antes de partir, como haviam prometido.
Jesus apanhou a Bíblia Sagrada, leu o texto e foi até o evangelista Mateus:
- Como ousaste me atribuir tal infâmia? Eu, o defensor do amor, da fraternidade, das criancinhas, ordenar que sejam abandonados os filhos pequenos? Eu teria cometido o ilícito de apologia ao crime e de produzir os hediondos abandonos de filhos, de crianças, de idosos enfermos?
Mateus:
- Escrevi o que me relataram.
Jesus de Nazaré:
- E, além de mandar abandonar as crianças, os filhos e todos os familiares, escreveste que um prêmio de vida eterna terá o praticante dos vários delitos.
A habitual serenidade de Jesus de Nazaré parecia estar dando lugar àquela ira tão comum em Jeovah. Mateus foi seguro pelo braço direito e levado até o local onde choravam centenas de crianças:
- Você considera esse choro justo? Você julga que essas mulheres podiam cometer o opróbrio que estamos observando? E você teve ainda a coragem, a temeridade, de afirmar que as pessoas que assim agissem receberiam cem vezes mais do valor das casas e terras que tivessem abandonado? Abandonado para quem? Para os sacerdotes, como no Velho Testamento? Ou como as terras que Ananias e Safira venderam para entregar o dinheiro para o apóstolo Pedro e seus colegas de sacerdócio?
Jesus de Nazaré apanhou uma das meninas. Parecia ter dois anos de idade. Enxugou suas lágrimas e afagou seus negros cabelos. Mostrou a menina a Mateus:
- Abandonar. É isso que eu teria dito. Abandonar uma indefesa criatura humana. E ainda prometeria dar à mãe cem vezes o valor da sua casa abandonada. Bem vejo que escreveste esse texto cinquenta e sete anos após a minha morte na cruz. Eras mais um sacerdote a prometer. E não economizaste: a vida eterna e cem vezes o valor da casa e das terras.
Mateus voltou para seu trono sem nada dizer. Mas Jesus de Nazaré não estava satisfeito:
- Um momento, Mateus. Quem pagaria o valor de cem vezes? E quando isso se daria? E todos os demais, pais, irmãos, maridos, todos iriam receber cem vezes o valor do imóvel abandonado pela família que seguisse a Jesus de Nazaré? Uma família composta por dez membros, assim, teria que receber mil vezes o valor do que fora abandonado? São lobos famintos, não meros dizimadores. Agem como alguns sacerdotes do Velho Testamento. Agem como aves de rapina. Como o fazem sacerdotes das seitas de agora. Onde o amor, a fraternidade e tudo o mais que eu ensinei? Escrevem essas promessas e tomam os bens abandonados. Tal como fazem alguns sacerdotes - raríssimos é verdade - que atualmente são processados por crimes de extorsão. Obviamente que existe uma grande maioria de inspirados e de auto-iludidos, como constatei pelas pesquisas que fiz.
O choro das crianças aumentava. Jesus de Nazaré ordenou que fossem alimentadas com leite em pó que acabara de chegar por um helicóptero enviado pelas Nações Unidas. As mães tentaram cada qual segurar seu pequeno filho. Mas seu aspecto assustava as crianças, tentando fugir das figuras monstruosas que haviam retornado do tremendo calor do vulcão africano.
Jesus de Nazaré acionou o controle remoto da Máquina e repetiu o texto que ela noticiara dias antes, da autoria do renomado historiador Paul Johnson: “Era sempre difícil distinguir entre os verdadeiramente inspirados, os auto-iludidos e os meros criminosos”.
O Mestre tocou nas faces das mulheres vitimadas pela lava vulcânica. A cura aconteceu instantaneamente, tal qual havia ocorrido com a orelha decepada pela espada do apóstolo Pedro quando da prisão do Mestre em Jerusalém, no início do seu calvário.
- Evangelistas! Como ousam escrever que eu, o misericordioso, o piedoso, aquele que perdoa seus inimigos, aquele que manda fazer ao seu próximo o que desejas para ti – pudesse conviver com alguém que usa espada e ataca escravo de outrem? Mateus - escreveste em 16,51 que alguém que estava comigo (um companheiro, ou Pedro, segundo várias traduções e interpolações), puxou da espada, atacou e cortou a orelha de um escravo desarmado? Como têm a coragem de escrever tal coisa? Teria eu discípulos facínoras? E atacam um humano, um irmão judeu? E que me obrigaria a cometer um ato de feitiçaria, colando (sem costuras!) a orelha decepada pelo meu piedoso discípulo Pedro, o único judeu admitido como seu sacerdote pelos dizimistas romanos? Por que não escreveram que eu era contrário à prática da escravidão? Como poderia eu sequer dormir uma só noite sabendo que seres humanos eram tratados como animais? Eu teria açoitado meros comerciantes que atuavam nas sinagogas. Como poderia deixar de combater escravocratas?
Novamente um grande alvoroço se estabeleceu. Repórteres dos helicópteros transmitiam a posição de Jesus de Nazaré no sentido de eliminar textos que o ilustravam como malfeitor.
- Escreveram que Pedro usava espada. E os demais certamente utilizavam essa terrível arma de matar? Meus discípulos? Evangelistas - não se deram conta da contradição e do absurdo que mais uma vez redigiram? Não perceberam que descrevem Pedro - pescador, futuro Bispo e Papa - como um facínora que ataca um pobre escravo? E não se deram conta que o golpe poderia ter partido a cabeça dessa vítima da escravatura? Ou poderia a arma ter continuado seu caminho até ferir gravemente o pescoço ou o ombro da vítima? Não se deram conta da infâmia que criaram contra os arautos do perdão, do amor ao próximo, da regra que estabeleci claramente: se te baterem numa face, dai-lhes também a outra para ser espancada? Não se deram conta que seu relato abominável descreve tristemente uma tentativa de homicídio?
O Mestre apontou o dedo para os evangelistas:
- E vocês, sem minha autorização, escreveram - muitos anos após minha morte - que eu estava permitindo o uso de armas aos apóstolos. Não viram que isso se choca com a bondade que o mestre apregoa para seus seguidores?
- E depois – prosseguiu - criam mais uma clara prova plantada: dizem que Jesus de Nazaré teria colado a orelha. Atribuem-me claramente um ato de feitiçaria. Ou pretendem que isso seja um ato milagroso? Para as fogueiras foram levadas milhares e milhares de mulheres acusadas pelos romanos de colagens de orelhas? Não! Os delitos dessas pobres vítimas da Inquisição eram o de serem mulheres, como Eva, minha amada Maria Madalena e tantas adolescentes apedrejadas pelos varões de todos os tempos.
Sara Moshê em seu artigo para o jornal articulava: “Pedro, acusado de tentativa de homicídio”.