Morto ou Vivo
Capítulo 10
— Filho da mãe! — resmungou o ex-presidente dos Estados Unidos, John Patrick Ryan, durante o café da manhã.
— O que é isso agora, Jack? — perguntou Cathy, apesar de saber perfeitamente o que era “isso”. Ela amava profundamente o marido, mas, quando um assunto atraía sua atenção, ele ficava como o proverbial cachorro com um osso, um traço que fez dele um bom espião e melhor presidente, mas nem sempre a melhor das almas com quem se estar junto.
— Esse idiota do Kealty não sabe o que faz. E o que é pior, não se importa. Matou 12 marines ontem em Bagdá. E sabe por quê? — Cathy Ryan não respondeu, pois sabia que a pergunta era retórica. — Porque alguém da equipe dele decidiu que, se os marines estivessem com os rifles carregados, isso poderia enviar uma mensagem equivocada. Droga, não se mandam mensagens para pessoas que apontam armas para você. E olhe só isso: o comandante da companhia foi atrás dos inimigos e liquidou cerca de seis deles antes que lhe ordenassem recuar.
— Quem?
— O comandante do batalhão, que provavelmente recebeu instruções da brigada, que recebeu a sua de algum advogado que os capangas de Kealty meteram no meio da linha de comando. O pior de tudo é que ele não se importa. Afinal, o orçamento está em discussão, e também tem aquela agitação sobre a porra daquelas árvores no Oregon que captam totalmente a atenção dele.
— Bem, para o bem ou para o mal, muitas pessoas ficam ouriçadas com a questão do meio ambiente, Jack — disse a professora Ryan ao marido.
Kealty, Jack ficou fervendo de raiva. Ele havia planejado tudo. Robby teria sido um grande presidente, mas ele não levou em conta a mente distorcida daquele velho filho da mãe da Ku Klux Klan que ainda estava esperando a hora de morrer no corredor da morte do Mississippi. Jack ficou no Salão Oval naquele dia — qual tinha sido mesmo? Seis dias antes da eleição, com Robby confortavelmente na frente das pesquisas. Não houve tempo para colocar as coisas de volta aos trilhos, a eleição foi um caos, Kealty como o único dos candidatos de peso que continuava concorrendo, e todos os votos dados a Robby anulados pelas circunstâncias. E tantos eleitores que simplesmente ficaram em casa confusos. Kealty, presidente por omissão, uma eleição confiscada.
O período de transição foi ainda pior, se é que fosse possível. O funeral, na igreja batista do pai de Jackson no Mississippi, era uma das piores lembranças de Jack. A mídia zombara da exibição de sua dor. Afinal, supunha-se que os presidentes deveriam ser robôs, mas Ryan nunca fora um desses.
E com uma puta razão, pensou.
Bem ali, bem naquela sala, Robby salvara a sua vida, a de sua mulher, a de suas filhas e a do seu filho ainda não nascido. Jack raramente experimentava raiva na vida, mas esse era um assunto que o fazia entrar em erupção como o Vesúvio num dia especialmente ruim. Até mesmo o pai de Robby fizera um sermão pregando o perdão, prova positiva de que o reverendo Hosiah Jackson era um homem melhor do que ele jamais seria. E qual seria o destino mais adequado para o assassino de Robby? Um tiro de pistola no fígado, talvez... poderia levar cinco ou dez minutos para o filho da mãe sangrar até morrer, gritando por todo o caminho até o inferno...
Pior ainda, corria o rumor de que o atual presidente contemplava a possibilidade de uma comutação generalizada de todas as sentenças de morte nos Estados Unidos. Seus aliados políticos já pressionavam na imprensa, planejando uma demonstração pública de clemência no Washington Mall. Clemência para as vítimas dos assassinos e sequestradores era algo sobre o qual jamais pensavam, é claro, mas, como para todos eles isso representava um princípio profundamente prezado, Ryan na verdade os respeitava.
O ex-presidente respirou fundo para se acalmar. Tinha trabalho a fazer. Havia dois anos trabalhava em suas memórias e estava na etapa final. O trabalho avançou mais rapidamente do que ele pensava, tanto que escreveu um anexo confidencial à sua biografia, que não veria a luz do dia até vinte anos depois de sua morte.
— Em que parte você está? — perguntou Cathy, pensando em seus compromissos do dia. Tinha quatro procedimentos a laser agendados. A equipe do Serviço Secreto que a protegia já verificara todos os pacientes, com receio de que um deles aparecesse na sala de cirurgia com uma pistola ou faca, um acontecimento tão improvável de acontecer que ela parara de se preocupar com isso. Ou talvez tivesse parado de pensar no assunto porque sabia que sua equipe sempre se preocupava com isso.
— Hein?
— No livro — esclareceu a esposa.
— Nos últimos meses. — Sua política fiscal e financeira, que na verdade funcionou até Kealty disparar um lança-chamas contra ela.
E agora os Estados Unidos da América andavam desnorteados sob a presidência — ou reinado — de Edward Jonathan Kealty, um membro da aristocracia alimentado com colherzinha de prata. Com o passar do tempo isso seria consertado, de uma maneira ou de outra, o povo providenciaria isso. Mas a diferença entre a ralé e a horda era que a ralé tinha um líder. O povo realmente não precisava disso. O povo podia passar sem um líder, porque um líder acabava aparecendo de um jeito ou de outro. Mas quem escolhia o líder? Era o povo. Mas o povo escolhia um líder a partir de uma lista de candidatos, e esses tinham que se autosselecionar.
O telefone tocou. Jack atendeu.
— Alô?
— Olá, Jack. — A voz era bem familiar. O olhar de Ryan se acendeu.
— Olá, Arnie. Como anda a vida na academia?
— Como é de se esperar. Viu as notícias de hoje?
— Sobre os marines?
— O que você acha? — perguntou Arnie van Damm.
— Não parece coisa boa.
— Acho que é ainda pior do que parece. Os repórteres não estão contando toda a história.
— E alguma vez fizeram isso? — refletiu Jack azedo.
— Não, não quando não gostam, mas alguns deles são íntegros. Bob Holtzman do Post está tendo um ataque de consciência. Ligou para mim. Quer conversar com você sobre suas opiniões, por fora, é claro.
Robert Holtzman do The Washington Post era um dos poucos repórteres em quem Ryan quase confiava, em parte porque sempre fora correto com ele e em parte porque era um ex-oficial da Marinha — um 1630, o código que a Marinha usava para designar um oficial da inteligência. Apesar de ter diferenças com Ryan sobre a maioria dos assuntos políticos, também era um homem íntegro. Holtzman conhecia coisas sobre Ryan que nunca publicara, apesar de serem histórias deliciosas, talvez até histórias que fizessem sua carreira. Mas, quem sabe, talvez apenas as tivesse guardando para um livro. Holtzman já havia escrito vários, um deles best seller, e ele ganhara um bom dinheiro por esse empreendimento.
— O que você disse a ele? — perguntou Jack a Arnie.
— Disse que perguntaria, mas que você, provavelmente, não apenas se negaria, como seria categórico em dizer não.
— Arnie, eu gosto do sujeito, mas um ex-presidente não pode ficar falando mal de seu sucessor...
— Mesmo se ele for um merda inútil?
— Mesmo assim — confirmou Jack, amargurado. — Talvez especialmente por isso. Mas espere aí. Eu pensei que você gostava dele. O que aconteceu?
— Talvez eu conviva demais com você. Agora ando com essa ideia maluca de que o caráter vale alguma coisa. Que nem tudo é manobra política.
— E ele é muito bom nisso, Arnie. Até eu reconheço. Arnie, quer vir aqui para conversarmos um pouco? — perguntou Ryan. Para que mais ele telefonaria numa sexta-feira de manhã?
— Está bem, ok, não sou lá muito sutil.
— Voe até aqui. Você é sempre bem-vindo em minha casa, sabe disso.
Cathy perguntou em voz baixa:
— Que tal jantar na terça-feira?
— Que tal vir jantar na terça-feira? — perguntou Jack a Arnie. — Pode passar a noite aqui. Vou avisar Andrea para esperar você.
— Faça isso. Sempre fico um pouco preocupado que essa mulher vá me dar um tiro, e, boa como ela é, duvido que será só uma feridinha. Então vejo você pelas dez da manhã.
— Ótimo, Arnie, até logo. — Jack desligou o telefone e se levantou para acompanhar Cathy até a garagem. Agora ela dirigia um Mercedes de dois lugares, apesar de recentemente admitir que sentia falta do helicóptero para voar até o John Hopkins. O bom da história é que agora ela brincava de motorista de corrida com seu agente do Serviço Secreto, o ex-capitão do 82º Aerotransportado, que se segurava morrendo de medo no assento de passageiro. Um sujeito sério. Estava de pé ao lado do carro, paletó desabotoado, o coldre de presilha visível.
— Bom dia, Dra. Ryan — cumprimentou.
— Olá, Roy. Como estão as crianças?
— Vão bem, obrigado, senhora. — Abriu a porta do carro.
— Tenha um bom dia de trabalho, Jack. — E o beijo matinal habitual.
Cathy se ajeitou, prendeu o cinto de segurança e ligou a besta de 12 cilindros que morava sob o capô. Acenou e disparou. Jack a observou desaparecer pela entrada para carros, na direção onde os veículos de ponta e de proteção esperavam, e depois voltou pela porta da cozinha.
— Bom dia, Sra. O’Day — saudou.
— Para o senhor também, presidente — disse a agente especial Andrea Price-O’Day, a agente principal de Jack. Ela também tinha um garotinho de pouco mais de 2 anos, chamado Conor, que era uma coisinha levada, Jack sabia. O pai de Conor era Patrick O’Day, inspetor de casos especiais do diretor Dan Murray do FBI, outra das nomeações de Jack com a qual Kealty não podia se meter, afinal não se permitia que o FBI virasse bola de futebol política — pelo menos, supunha-se que isso não podia acontecer.
— Como vai o pequeno?
— Muito bem. Mas ainda não sabe usar bem o pinico. Chora quando o vê.
Jack riu.
— Jack era assim também — disse ele. — Arnie vem aqui na terça-feira, por volta das dez da manhã. Jantar, e vai passar a noite aqui.
— Bem, não temos que investigar com muita profundidade — respondeu Andrea. Mas ainda verificariam sua posição no computador da Informação Criminal Nacional, só para ter certeza. O Serviço Secreto confiava em poucos, mesmo das suas próprias fileiras, desde que Aref Raman se revelara um inimigo. Aquilo tinha provocado a maior dor de cabeça no Serviço. Porém seu próprio marido havia ajudado a prender aquele sujeito, e Raman permaneceria na prisão federal de Florence, no Colorado, por muito, muito tempo. A mais rígida de todas as penitenciárias federais, Florence era tão segurança máxima quanto a mais máxima das seguranças poderia ser, enfiada na rocha e totalmente no subsolo. Os hóspedes de Florence só viam o sol na televisão preto e branco.
Ryan entrou na cozinha. Ele poderia ter perguntado mais. O Serviço mantinha um monte de segredos. Poderia conseguir uma resposta porque ele, também, fora presidente em exercício, mas isso era algo que simplesmente não queria fazer.
E ainda havia trabalho a ser feito. Assim, serviu-se de mais uma xícara de café e se dirigiu à sua biblioteca para trabalhar no capítulo 48, versão 2. George Winston e o sistema de impostos. Tinha funcionado bem, até Kealty decidir que algumas pessoas não estavam pagando “sua parcela justa”. Kealty, é claro, era o árbitro único e final do que era “justo”.