Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 74 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 74

 

Hendley, Granger e Rick Bell passaram parte da tarde e o começo da noite interrogando Dominic na sala de conferências. Jack Jr. e John Clark sentaram em cadeiras perto da parede e escutaram. Jack era da família e um bom amigo, e, apesar de Dominic parecer estar lidando bem com a situação, Hendley pensou que a presença de Jack poderia ser útil. Quanto a Clark, Hendley queria seu olhar profissional.

Jack observou cuidadosamente o primo enquanto ele levava Hendley e os demais pela missão em Trípoli: o encontro inicial com Archie, a entrada dos dois em Medina para pegar Bari, a viagem até a casa de Almasi, e finalmente a morte de Brian. A cada passo Dominic respondia as perguntas de modo sintético, mas completo, jamais perdendo a paciência e nunca hesitando. E sem mostrar nenhum traço de emoção, percebeu Jack. Seu primo não mostrava afeição nem no rosto nem na linguagem corporal. Estava completamente sem emoção.

— Fale novamente sobre Fakhoury — disse Sam Granger.

— Segundo Bari, era de nível inferior, simplesmente um executor. Decidimos que Almasi era um alvo melhor. Não queríamos nenhuma testemunha do desaparecimento de Bari, então conversamos sobre o que fazer com ele.

— E a decisão foi matá-lo?

— Ambos decidimos. Eu não tinha tanta certeza, mas Brian... Os argumentos dele faziam sentido.

— Foi você quem executou?

Dominic meneou a cabeça.

— Brian.

— Contando com Fakhoury, quantos mortos? — perguntou Bell.

— Seis. Quatro por nós.

— Vamos avançar até a casa de Almasi — disse Hendley.

Dominic repassou tudo novamente: estacionando na pedreira... infiltrando na casa de Almasi... o computador e o cofre... Brian atingido... O tiroteio e a retirada deles. Aí Dominic vacilou.

— O resto vocês sabem.

— Contagem de corpos — solicitou Granger.

— Cinco.

— Algum ferido?

Dominic sacudiu os ombros.

— Não quando deixamos a casa.

— O que isso quer dizer? — perguntou Rick Bell.

— Quer dizer que nos asseguramos de não deixar testemunhas. Não há como o CRO saber quem ou como aconteceu. Isso é uma das coisas importantes no que fazemos, certo?

Hendley assentiu.

— Certo. — Olhou para Bell e Granger. — Algo mais? Os dois homens fizeram que não com a cabeça. — Muito bem, Dom, obrigado.

Dominic se levantou para sair.

— Dom, sentimos muito por Brian — disse Hendley.

Dominic simplesmente assentiu.

— Vou mandar um carro levar você em casa.

— Não, vou achar um sofá e desabar.

— Se quiser, fazemos os arranjos para Brian... — falou Granger.

— Eu farei isso.

Dominic saiu, fechando a porta atrás de si. Hendley disse:

— Jack?

— É difícil dizer. Nunca o vi assim, mas a verdade é que não é exatamente uma situação comum. Para ninguém. Acho que ele está simplesmente atordoado. Exausto. Viu o irmão morrer no seu colo; e, certo ou errado, deve se sentir terrivelmente culpado por isso. Quando a ficha cair, ele vai desabar, e depois se recompor.

— Você concorda, John?

Clark levou um tempo para responder.

— Com a maior parte, sim, mas é um homem diferente, com certeza. Algum interruptor mudou de posição.

— Explique — pediu Bell.

— Ele estava em cima do muro quanto a liquidar Fakhoury. Brian teve que convencê-lo disso, e provavelmente fez ele mesmo o serviço porque sabia que Dom não estava preparado. Três horas depois, na casa de Almasi, Brian leva um tiro e Dom liquida homens feridos antes de sair da casa. Isso é passar do dia para a noite muito rapidamente.

— Então vamos supor que você esteja certo sobre esse interruptor — disse Hendley. — É algo ruim?

— Não sei. Depende de como, ou se, ele se restabelecerá. Nesse instante está com aquele olhar no nada. É aí que os operadores tomam um de dois caminhos: aprendem a lidar com o trabalho e colocam a coisa em perspectiva ou deixam que ela os devore.

— Ele vai estar bem para o trabalho de campo?

— Isso não é uma ciência exata, Gerry. Todo mundo é diferente.

— Na sua opinião. Ele estará bem para o campo?

Clark pensou no assunto.

— Não por conta própria.

 

— O que sabemos sobre o que Dom trouxe para casa? — perguntou Hendley a Rick Bell.

— Um pen drive cheio com os arquivos do computador de Almasi e um CD-ROM. Vamos levar algum tempo para filtrar os arquivos. O CD-ROM é uma mina de ouro: 365 imagens em JPEG de tabelas de uso único, grades 9x9 com os caracteres alfanuméricos de substituição. Não sei exatamente a matemática disso, mas estamos falando de cerca de milhões de combinações diferentes.

— Cerca de um ano de permutações — disse Hendley. — Uma para cada maldito dia. Por favor, me diga que estão datadas.

Bell sorriu.

— Pode apostar seu rabo. Vão até uns dez meses atrás, o que quer dizer que, a menos que puxem a tomada, temos ainda dois meses de futuras tabelas em nossas mãos.

— Então é assim que eles estão fazendo — murmurou Jack.

— O quê? — perguntou Clark.

— Estão duplicando tudo. Usam a esteganografia para embutir as tabelas em imagens do site. Os receptores baixam a imagem do site, usam um programa para descascar a camada esteganografada, e conseguem a tabela diária. Depois disso, são só números: vá até um fórum em um site do CRO, ache a postagem com uma fila de um par de centenas de combinações letras-números, passe pela tabela e você sai com as ordens do comando em mãos.

— Acompanhei a maior parte do seu raciocínio — disse Granger —, mas não a ideia do fórum. Não acho que o CRO iria disparar uma mensagem como essa. Querem que a mensagem alcance apenas os receptores que desejam. Sabemos que não é por e-mail, certo?

— Duvidoso. O tráfego do CRO está praticamente morto.

— E que tal e-mail on-line? — sugeriu Bell. — Google, Yahoo!... Agong Nayoan tinha uma conta do Google, não é, John?

— Sim, mas os nerds da tecnologia da informação peneiraram isso. Nada por ali. Meu palpite é: se o CRO entrou em silêncio de rádio em suas contas normais de e-mail, provavelmente baniram também as contas on-line.

— Então, o que eles precisariam ter — disse Hendley — é um hub. Algum lugar que alguém pode verificar todos os dias e ver se há mensagens só para ele.

— Puta merda — disse Jack. — É isso. — E começou a digitar em seu laptop. — Armazenamento de arquivos on-line.

— O que é isso mesmo? — perguntou Clark.

— São sites que oferecem backup para armazenamento de arquivos. Digamos que você tem um monte de músicas em MP3 e se preocupa em perdê-las caso seu computador dê pau. Você faz uma assinatura em um desses sites, sobe os arquivos, e eles ficam lá nos servidores.

— E quantos sites desse tipo existem por aí?

— Centenas. Em alguns é preciso pagar, mas a maioria é grátis se você lida com arquivos pequenos, qualquer coisa com menos de 1 gigabyte de dados.

— Que significa quanto?

Jack pensou por um instante.

— Digamos um arquivo padrão do Microsoft Word... Um gigabyte pode conter meio milhão de páginas.

— Droga.

— Mas aí está a beleza da coisa. Algum cara do CRO em Tanger faz o login em um desses sites, sobe um documento de texto com uma cadeia de algumas centenas de números, e então outro sujeito no Japão faz o login, baixa o arquivo, apaga do site, depois enfia os números numa tabela de uso único esteganográfica que recebeu do site do CRO e pronto, recebeu sua mensagem.

— E o que é preciso para assinar um desses sites? — indagou Hendley.

— Os que são grátis... um endereço de e-mail, e isso é a coisa mais fácil. Droga, existem lugares na internet que fornecem um endereço de e-mail que se autodestrói depois de 15 minutos.

— Isso é que é anonimato — disse Rick Bell. — Escutem, aceito isso tudo. Faz sentido, mas o que podemos fazer a respeito?

A porta da sala de conferências abriu e Chavez entrou.

— Tem algo que vocês vão querer ver. — Pegou o controle remoto da televisão, ligou a tela plana de LCD e colocou na CNN. O âncora estava no meio da frase.

— ... novamente, este é um sinal de televisão vindo do Brasil, através do helicóptero da Record News. A conflagração começou logo depois das oito da noite, hora local...

Jack se inclinou na cadeira.

— Deus do céu.

O helicóptero parecia estar filmando a uma distância de mais de 8 quilômetros, mas dois terços da tela estavam ocupados por chamas flamejando e grossos rolos de fumaça preta. Através da fumaça era possível ver algumas estruturas verticais e alguns dutos entrecruzados, além de tanques de armazenamento redondos.

— É uma refinaria — disse John Clark.

O âncora falava novamente:

— Segundo a Record News, o local do incêndio é uma refinaria da Petrobras conhecida como Replan de Paulínia. Paulínia é uma cidade de 60 mil habitantes, localizada cerca de 128 quilômetros ao norte de São Paulo.

Hendley se virou para Jack:

— Você pode...

Jack já estava com o laptop aberto.

— Já estou procurando.

— ... A Replan é a maior refinaria do Brasil, cobrindo cerca de 7 quilômetros quadrados e com uma produção de quase 400 mil barris por dia...

— Acidente? — sugeriu Rick Bell.

— Acho que não — respondeu Clark. — Sete quilômetros quadrados equivalem a cerca de três milhas e meia quadradas. O complexo está quase totalmente envolvido pelas chamas. Olhem, quando eu ainda estava aprendendo as coisas, fazíamos jogos de guerra desse tipo o tempo todo. As refinarias são alvos saborosos, mas são necessárias praticamente uma meia dúzia de bombas guiadas a laser para incendiar todo o complexo. Droga, nossas refinarias têm quase 35 anos e você pode contar em uma só mão o número de acidentes ocorridos. São muitos sistemas de emergência e backup.

Digitando no laptop, Jack disse:

— Paulínia é bem nova. Menos de 10 anos.

— Quantos trabalhadores?

— Pode chegar a mil. Talvez 1.200. É o turno noturno, de modo que há menos pessoal na administração, mas provavelmente estamos falando de pelo menos quatrocentas pessoas presentes.

— Ali — disse Clark. — Bem ali... — Ele levantou e foi até a televisão, apontando para uma área dentro do complexo da refinaria. — Essas chamas estão se movendo: isso é líquido, e a quantidade é grande.

Enquanto observavam, o helicóptero da Record News se aproximou das chamas, girando ao redor da refinaria até o lado norte aparecer.

— Muito bem, já saquei. Paulínia também é o terminal para um oleoduto de etanol. Vem do norte — falou Jack.

— Sim, estou vendo — disse Rick Bell. Foi até a televisão e apontou para um ponto no perímetro norte do complexo. Logo antes da cerca, o oleoduto estava aberto, emitindo um gêiser de etanol incendiado.

— Sim — concordou Clark. — E tiveram que liquidar alguns dispositivos de segurança... — Traçou com o dedo para o norte ao longo do oleoduto até chegar a um ponto de chamas isolado. — Aqui está um.

— E mais três linha abaixo — acrescentou Granger. — Quanto de oleoduto temos aí?

— Mais ou menos 800 metros — respondeu Clark.

— Algo em torno de 10 mil galões — disse Jack, levantando o olhar do laptop.

— O quê? — disse Chavez.

— Esse oleoduto transporta uns 3 bilhões de galões por ano. Faça as contas e essa seção provavelmente continha cerca de 10 mil galões, digamos o suficiente para encher um caminhão-tanque. Um tanto disso encharca o chão, mas é preciso calcular que uns 7, talvez 8 mil galões foram jogados no complexo.

— A coisa toda vai pelos ares — disse Clark. — Os tanques de mistura e armazenamento... as torres. Vão começar a cozinhar.

Enquanto Clark dizia essas palavras, a câmera do helicóptero captou um trio de explosões, cada uma mandando uma nuvem em forma de cogumelo de chamas e fumaça negra a 1.600 metros pelo ar.

— Terão que evacuar toda essa maldita região — disse Sam Granger. — Então concordamos: isso não foi um acidente.

— Não há como. Foi preciso muito planejamento para isso. Um bocado de serviço na área e muita informação — replicou Clark.

— CRO? — especulou Chavez.

— E por que no Brasil? — perguntou Hendley.

— Acho que não tem nada a ver com o Brasil — disse Jack. — Isso está dirigido a nós. Kealty acabou de assinar um acordo com a Petrobras. Petróleo brasileiro com preços abaixo dos da OPEP. Eles estão com petróleo saindo pelo ladrão: os campos Lara e Tupi sozinhos podem colocar as reservas do Brasil por volta de 25 bilhões de barris. Isso é parte da equação. A outra parte é o quanto a Petrobras está atrasada na construção de refinarias. Paulínia era o carro-chefe. O novo complexo no Maranhão vai processar 60 mil barris, mas não entra em operação em menos de um ano.

— Então o Brasil tem petróleo mas não tem como processá-lo — declarou Hendley. — O que significa que o nosso negócio entra pelo cano.

— Pelo menos por um ano. Talvez dois.

O e-mail de Jack tocou o aviso de mensagem recebida. Ele olhou-a.

— Biery conseguiu marcas de reconhecimento de rosto em algumas fotos de passaporte de Sinaga. Dois são indonésios que entraram por Norfolk há duas semanas: Citra e Purnoma Salim.

— Citra é um nome feminino — disse Rick Bell. — Marido e mulher?

— Irmão e irmã. Ele com 19 anos e ela com 20. Segundo os formulários da imigração, estão de férias. O terceiro é nada menos que nosso misterioso mensageiro. Shasif Hadi. Está viajando como Yaseen Qudus. Dois dias depois de o perdermos de vista a caminho de Las Vegas, Hadi pegou um voo da United de São Francisco para São Paulo.

— Puta coincidência — disse Sam Granger.

— Não acredito nisso — respondeu Hendley. — Sr. Chavez, o que acha de uma viagem até lá?

— Por mim, tudo bem.

— Você concorda em levar Dom?

Chavez pensou no assunto. Já vira muitos homens na mesma condição de Dominic: perturbados, culpados, jogando o “O que eu poderia ter feito de diferente?” na cabeça... Sentindo-se culpado pelo outro ter morrido, e culpado por estar contente de estar vivo... Era uma situação de merda, mas Chavez tinha visto o olhar do ex-agente do FBI: Dominic estava ferido e à procura de vingança, mas ainda sob controle.

— Claro — disse Chavez. — Se ele topar, eu topo. Mas há uma questão: o que faremos quando chegarmos lá? O país é grande, e Hadi e seja lá mais quem estiver com ele provavelmente submergiram.

— Ou fugiram do país — acrescentou Clark.

— Vamos supor que ainda estejam lá — respondeu Hendley. — Jack, voltemos à pergunta de Rick: considerando que você esteja certo com essa história de armazenamento on-line, o que faremos com isso?

— Faremos um atalho — respondeu Jack. — Por enquanto, Hadi é o membro mais importante do CRO que temos na nossa mira, correto?

— Sim — respondeu Chavez.

— E sabemos que ele foi de Las Vegas para São Francisco antes de se dirigir para São Paulo, provavelmente para pegar seu passaporte como Qudus de Agong Nayoan, o que significa que os dois provavelmente têm um contato direto; pelo menos de modo que Nayoan pôde lhe dizer onde recolher o passaporte.

— Prossiga — disse Hendley.

— Nayoan é preguiçoso. Quando revistamos seu apartamento, descobrimos que ele nunca limpa o registro de seu navegador. — Jack girou o laptop para que todos pudessem ver. A tela mostrava um arquivo de texto com centenas de linhas de endereços de sites. — Enquanto conversávamos, estive peneirando isso aqui. Desde que o CRO entrou em silêncio de rádio, Nayoan visitou um site de armazenamento todos os dias, três vezes ao dia, e rumou para um site diferente a cada dois dias.

— Puta merda — disse Sam Granger. — Bom trabalho, Jack.

— Obrigado. Até aqui, Nayoan rodou por 13 sites de armazenamento. Dez a um que descobriremos isso no computador de Hadi.

— O que só nos leva até metade do caminho — disse Bell. — Temos que usar seu nome de usuário e senha.

— Estatística — respondeu Jack. — Oitenta e cinco por cento do pessoal que navega na internet usa seu e-mail como nome de usuário ou alguma variação do seu prefixo de e-mail, as coisas que vêm antes do sinal de arroba. Pedimos a Biery que monte um script, verificaremos cada site e tentaremos diferentes permutações do e-mail de Hadi. Quando descobrirmos o certo, arrombamos a senha com força bruta. E, quando estivermos dentro, usaremos as tabelas que Dom descobriu no cofre de Almasi e começaremos a puxar as cordinhas de Hadi.

— Um problema — disse Hendley. — A coisa toda se baseia em que Hadi verifica seu site de armazenamento on-line.

— Então vamos dar um motivo a ele — disse John Clark.

— Em que você está pensando?

— Assustá-lo. Passamos uma dica anônima para a Record News. Uma descrição vaga de Hadi e alguns esboços de detalhes. Ele vê isso, entra em pânico e verifica se há novas ordens. Nós asseguramos que haja algo esperando por ele.

— Tem um problema — disse Rick Bell. — Se os policiais brasileiros puserem as mãos nele antes de nós, ficamos na merda.

Clark sorriu.

— Sem colhões não se ganha o grande prêmio.

Hendley ficou em silêncio por um tempo.

— É um tiro no escuro, mas vale a pena. Jack, ponha Biery para trabalhar nisso.

Jack assentiu.

— E que tal os indonésios de Norfolk?

— Você e John.

— Detesto azarar as coisas, mas estou com uma sensação ruim sobre tudo isso — disse Chavez.

— Como assim? — indagou Granger.

— Essa história da refinaria é só a primeira peça.