Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 19 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 19

 

Sem surpreender ninguém, as plantas não chegaram dentro da uma hora prometida e sim perto de duas horas depois, de modo que não faltavam nem noventa minutos para o pôr do sol quando Clark, Stanley e Chavez desenrolaram as plantas do complexo e deram sua primeira olhada no que os esperava mais adiante.

— Puta merda — resmungou Stanley.

As plantas não eram o conjunto original dos arquitetos e sim uma fotocópia emendada de outra fotocópia. Muitas das anotações estavam tão borradas que não eram decifráveis.

— Ah, Jesus... — disse Richards, olhando por cima do ombro deles. — Sinto muito, eles disseram...

— Não é culpa sua — respondeu Clark calmamente. — Mais jogadas. Vamos nos virar com isso. — Era outra coisa que a Rainbow fazia muito bem: adaptar e improvisar. Plantas ruins eram apenas outra forma de inteligência deficiente, e a Rainbow tinha lidado bastante com isso. Pior ainda, os serviços de inteligência do bom coronel se recusaram a dar aos suecos plantas de seu próprio edifício, de modo que estavam com azar ali também.

A boa notícia era que a embaixada não tinha porão, e a planta do andar era relativamente aberta. Nada de corredores improvisados e espaços reservados, o que tornava a ocupação do andar tediosa e exigia muito tempo. E havia um balcão no segundo andar com vista para um largo espaço aberto, ao lado de uma parede de pequenas salas no lado oeste.

— Doze por quinze metros — observou Chavez. — O que acha? Área principal de trabalho?

Clark assentiu.

— E essas salas do lado oeste devem ser os escritórios executivos.

Do lado oposto, logo abaixo de um pequeno saguão que virava à direita no pé da escada, havia o que parecia ser uma área de cozinha/refeitório, um banheiro e mais quatro salas sem identificação na planta. Talvez depósitos, considerou Clark, a julgar pelo tamanho. Uma delas provavelmente era o escritório da segurança. No final do corredor havia uma porta que se abria para o exterior.

— As plantas não marcam os pontos de eletricidade e água — disse Chavez.

— Se você está atrás do esgoto para entrar, pode esquecer — respondeu Richards. — Esse é um dos bairros mais antigos de Trípoli. O sistema de esgotos é uma merda...

— Engraçadinho.

— Os canos não deixam passar nem uma bola de vôlei, e se rompem com apenas um olhar. Só nesta semana tive que fazer dois desvios quando voltava do trabalho para evitar buracos de esgotos.

— Muito bem — disse Clark, voltando ao assunto principal. — Richards, você fala com Masudi para ter certeza de que eles cortarão a eletricidade quando fizermos o sinal. — Eles decidiram deixar água e luz ligadas por enquanto para não agitar os bandidos tão perto do momento em que Chavez e suas equipes invadiriam.

— Certo.

— Ding, checagem de armas.

— Feita e refeita.

Como sempre, as equipes de assalto estariam armadas com uma Heckler & Koch MP5SD3, com silenciador, carregadas com balas de 9 milímetros e capacidade de setecentos tiros por minuto.

Juntamente com o carregamento padrão de granadas de fragmentação e de luz e som, cada homem estaria também armado com uma pistola Colt automática MK23, de 45 milímetros. Ela possui um silenciador KAC e um módulo de pontaria a laser — LAM — com quatro modos de seleção: apenas laser visível, laser visível/lanterna, apenas laser infravermelho e laser infravermelho/iluminador. Preferida das equipes de comandos da Marinha e do SBS — Serviço de Navegação Especial dos ingleses —, a MK23 era uma maravilha de durabilidade, tendo sido exaustivamente testada tanto pelos SEAL quanto pelo SBS em temperaturas extremas, submersão em água salgada, impacto de disparo a seco e contra o mais mortal dos inimigos das armas: a sujeira. Como um bom relógio Timex, a MK23 podia levar uma pancada e continuar tiquetaqueando — neste caso, disparando.

Johnston e Loiselle também possuíam brinquedinhos novos à sua disposição, tendo em vista que a Rainbow recentemente havia trocado o rifle de precisão M24 pelo Knights Armament M110 Sniper System, equipado com uma luneta Leopold para condições diurnas e o testado e aprovado visor noturno AN/PVS-14. Ao contrário do M24, um rifle de culatra móvel, o M110 era semiautomático. Para equipes de assalto, ou seja, Johnston e Loiselle, os tiros de cobertura podiam disparar mais balas na metade do tempo.

Seguindo instruções de Clark, cada um dos dois franco-atiradores havia percorrido a área, circunavegando os quarteirões ao redor do complexo da embaixada, escolhendo possíveis poleiros e esboçando seus campos de tiro. A partir dos pontos que Chavez e Weber escolhessem como pontos de penetração, Johnston e Loiselle seriam capazes de oferecer cobertura total — até as equipes entrarem propriamente no edifício, pelo menos. Uma vez lá dentro, as equipes de assalto estariam por conta própria.

 

Cinquenta minutos depois do pôr do sol, a equipe se acocorou no seu posto de comando improvisado, luzes apagadas, esperando. Clark podia observar, com os binóculos, um fraco brilho de luz escapando pelas janelas. As luzes externas também tinham acendido, quatro postes de 6 metros de altura, um em cada canto do complexo e cada um com uma lâmpada de vapor de sódio apontada na direção do edifício.

Uma hora antes, os chamados do muezim para o salah ecoaram por toda Trípoli, mas agora as ruas estavam desertas e calmas, salvo pelos latidos distante de cães, a buzinada ocasional e as vozes abafadas dos guardas da Milícia Popular no perímetro estabelecido ao redor da embaixada. A temperatura havia descido apenas um pouco, mantendo-se acima dos 30 graus. Entre aquela hora e o nascer do sol, quando o calor se dissipasse no ar sem nuvens do deserto, a temperatura cairia pela metade ou mais, porém Clark tinha certeza de que até então a embaixada estaria segura e a Rainbow estaria empacotando suas coisas. Tinha esperança de que não houvesse baixas entre os seus e que sobrassem alguns bandidos vivos para entregar para... seja lá quem fosse. Quem iria supervisionar a limpeza pós-missão e a subsequente investigação provavelmente ainda estaria sendo discutido.

Em algum lugar na escuridão um celular tocou suavemente, e momentos depois Richards apareceu ao lado do ombro de Clark e sussurrou:

— Os suecos já pousaram no aeroporto.

O Serviço de Segurança Sueco, a Säkerhetspolisen, ocupava-se da divisão antiterrorista do país, enquanto a Rikskriminalpolisen, ou Departamento de Investigações Criminais, era sua versão do FBI. Uma vez que a Rainbow capturasse a embaixada, o local seria entregue a eles.

— Ótimo, obrigado. Acho que isso responde à questão. Diga a eles para ficarem lá a postos. Logo que terminarmos aqui eles podem vir. Mas nada sobre nosso cronograma. Não quero que isso se espalhe.

— Você acha que os suecos...

— Não, não intencionalmente, mas sabe lá com quem estão falando. — Apesar de Clark achar isso improvável, não podia descartar a possibilidade de os líbios jogarem uma chave para engatar o mecanismo: os americanos vieram para cá, falharam na missão e agora temos pessoas mortas. Um golpe de publicidade para o coronel.

Já haviam se passado quase 24 horas desde que a embaixada fora invadida, e ainda não havia sinal de vida vindo lá de dentro. Clark tinha escolhido as duas e quinze da madrugada como hora do ataque, raciocinando que os terroristas supunham que qualquer assalto viria ao cair do sol. Clark esperava que o atraso os fizesse relaxar, mesmo que só um pouco. Mais ainda, entre as duas e as quatro da madrugada era o momento em que a mente humana perdia sua agudez — especialmente mentes humanas assoberbadas com os dois demônios do estresse e da incerteza pelas últimas 28 horas.

 

À uma e meia Clark disse a Johnston e Loiselle que se preparassem, e depois acenou para Richards, que por sua vez acionou o tenente Masudi. Cinco minutos e uma comprida discussão por walkie-talkies mais tarde, o líbio se apresentou de volta: os guardas do perímetro estavam prontos. Clark não queria nenhum recruta nervoso tentando atingir seus franco-atiradores quando estes fossem para suas posições. Da mesma maneira, colocou Stanley e Chavez a postos com os binóculos, observando atentamente. Apesar de improvável, sempre existia a possibilidade de que alguém — um simpatizante ou simplesmente algum babaca que odiasse os americanos — tentasse sinalizar para os terroristas que o jogo já ia começar. Se isso acontecesse, não havia muito que Clark pudesse fazer, salvo chamar Johnston e Loiselle de volta e tentar mais tarde.

Com os franco-atiradores equipados, os M110 nos ombros, Clark esperou cinco minutos e depois sussurrou para Stanley e Chavez:

— Como está a situação?

— Sem mudanças — relatou Ding. — Um pouco de ação nos walkie-talkies, mas isso provavelmente é o aviso sendo repassado.

À uma e quarenta, Clark se voltou para Johnston e Loiselle e acenou. Os dois atiradores deslizaram pela porta e desapareceram na escuridão. Clark colocou o fone de ouvido.

Passaram-se cinco minutos. Dez minutos.

A voz de Loiselle chegou pelo rádio:

— Ômega Um, em posição.

Seguido dez segundos depois por Johnston.

— Ômega Dois, em posição.

— Entendido — respondeu Clark, verificando o relógio. — Aguardem. Equipes de assalto se movimentando em dez minutos.

Escutou as respostas: um par de cliques duplos significando “entendido”.

— Alistair... Ding?

— Nenhum movimento. Tudo quieto.

— Por aqui também, chefe.

— Ok, preparem-se.

Chavez entregou seus binóculos a Clark e se reuniu com sua equipe na porta. Weber e sua equipe, encarregados da invasão do canto ocidental da frente do prédio, tinham mais terreno para cobrir para chegar na sua posição, de modo que sairiam na frente, seguidos quatro minutos depois por Chavez e seus atiradores.

Clark examinou mais uma vez o complexo da embaixada, procurando movimento, mudanças — qualquer coisa que não passasse por sua verificação cinestésica. Quando se faz esse tipo de coisa há muito tempo, aprendeu Clark, você desenvolve algo parecido com um sexto sentido. Você acha que tudo está certo? Nenhuma voz chamando do fundo da sua mente? Alguma coisa não verificada ou detalhes esquecidos? Clark já vira muitos operadores bastante bons esquecerem a verificação cinestésica, geralmente para prejuízo próprio.

Clark abaixou os binóculos e se voltou para suas equipes, preparadas perto da porta.

— Vão — sussurrou.