Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 20 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 20

 

Chavez esperou os quatro minutos necessários, depois conduziu sua equipe pelos degraus até a saída do beco. Como Clark havia requisitado, os líbios desligaram as luzes da rua no quarteirão ao redor da embaixada, algo que todos esperavam que os bandidos não notassem, pois as luzes do complexo ainda estavam acesas e dirigidas para o interior. Também a pedido, o trio de caminhões do Exército tinha sido estacionado em fila no meio da rua entre o apartamento do posto de comando e o lado leste do complexo.

Através de sinais de mão, mandou cada homem pela calçada, fazendo uso das sombras e dos caminhões como cobertura até alcançarem o beco seguinte, onde uma linha de sebes passava em frente ao edifício seguinte, uma clínica médica particular, segundo disseram a Ding, de onde os civis foram evacuados mais cedo naquele dia.

Quando a equipe estava abrigada atrás das sebes, ele os seguiu caminhando, meio agachado, a MP5 engatilhada, os olhos esquadrinhando a frente, a direita e o alto do muro do complexo da embaixada. Nenhum movimento. Ótimo, nada de olhar para cá, cara.

Chavez alcançou a sebe e se acocorou. Pelo fone de ouvido escutou a voz de Weber.

— Comando, Vermelho Vivo, câmbio.

— Adiante, Vermelho Vivo.

— Posicionado. Preparando Gatecrasher.

Chavez meio que desejou estar no lugar de Weber. Apesar de já ter usado o novo brinquedinho da Rainbow nos treinamentos, ainda não havia observado em ação real.

Desenvolvido pela Alford Technologies na Inglaterra, o Gatecrasher — que Loiselle apelidara de “fazedor mágico de portas” — lembrava a Ding um desses escudos retangulares arredondados que os espartanos usavam no filme 300, porém uma analogia mais precisa seria a de um bote de borracha com um quarto do tamanho. Em vez de ar no anel externo dos tubos, havia água, e do lado oposto, no lado vazio do Gatecrasher, uma fita embutida dentro da qual estavam acomodados cordões detonadores de PETN. Os cordões detonadores, protegidos pela camada de água, criavam o que se chamava de efeito socador, basicamente transformando o cordão detonador numa carga explosiva moldada — um anel explosivo que podia cortar uma parede de 35 centímetros de tijolos sólidos.

O Gatecrasher resolvia um número de problemas que havia muito incomodava as forças especiais e os grupos de resgate. Número um: armadilhas em pontos de entrada; e número dois: o “funil fatal”. Os terroristas, sabendo que os mocinhos tinham que entrar pelas portas ou pelas janelas, montavam explosivos nelas — como fizeram no massacre da escola em Breslan, na Rússia —, e/ou concentravam seu poder de fogo e sua atenção nos prováveis pontos de entrada.

Com o Gatecrasher, Weber e sua equipe entrariam pela parede frontal ocidental do edifício cerca de três segundos depois da detonação.

— Entendido — respondeu Clark a Weber. — Azul Vivo?

— Três minutos até o muro — relatou Chavez.

Ele esquadrinhou o complexo mais uma vez com sua visão noturna, não viu nada e avançou.

Para passar por cima do muro, escolheram um método de baixa tecnologia: uma escada de 1 metro de altura, com quatro degraus e uma jaqueta Kevlar à prova de balas. Entre os muitos axiomas que informavam a vida das forças especiais, KISS era uma das mais importantes: keep it simple, stupid, ou torne as coisas simples, estúpido, ou, como Clark sempre dizia: “Não se usa uma escopeta para matar uma barata.” Nesse caso, a escada os colocaria na altura do topo do muro; a jaqueta à prova de balas, jogada por cima dos cacos de vidro que saíam do alto do muro, evitaria que Chavez e sua equipe perdessem fluidos ao passarem por ele.

Chavez deslizou para fora da sebe, deu uma corrida até o muro e se agachou. Apertou o botão do fone de ouvido:

— Comando, Azul Vivo. No muro.

— Entendido. — A voz de Stanley.

Alguns segundos depois, um ponto de laser apareceu no muro, a cerca de 1 metro de onde Chavez estava. Tendo mapeado os pontos cegos das câmaras de vigilância, Alistair usava a LAM da sua MK23 para mostrar o caminho para Ding.

Chavez deslizou de lado até que o ponto do laser pousasse em seu peito. O ponto desapareceu. Rápida e silenciosamente ele abriu a escada, e em seguida fez o sinal para sua equipe avançar.

Showalter passou primeiro. Chavez lhe entregou a jaqueta à prova de balas e ele subiu pela escada. Dez segundos depois já havia pulado o muro e estava fora de vista. Um a um o restante da equipe foi seguindo até chegar a vez de Ding.

 

Uma vez do outro lado, ele se viu parado em um gramado bem-cuidado bordejado por moitas de hibiscos. A conta mensal de água dos suecos deve ser absurda, pensou distraído. À sua direita estava a fachada do edifício, e bem em frente, a 6 metros de distância, a parede leste. Showalter e Bianco haviam tomado posição vigiando cada canto do edifício. Ybarra estava agachado sob o balcão. Ding seguiu em sua direção.

— Espere. — A voz de Loiselle. — Movimento, lado sul.

Ding parou imediatamente.

Dez segundos depois.

— Limpo. Só um gato.

Chavez atravessou até Ybarra, pendurou sua MP5 e depois subiu pelas costas do corpulento espanhol. O parapeito inferior do balcão estava logo acima do alcance de seus dedos. Chavez se esticou. Ybarra se equilibrou e ficou mais ereto. Chavez pegou o parapeito, primeiro com a mão direita, depois com a esquerda, e então subiu. Cinco segundos depois estava agachado no balcão. Soltou uma seção da corda com nós do seu talabarte, prendeu o mosquetão dela no parapeito e jogou a ponta para baixo.

Virou-se para a porta. Tal como a janela, estava com as persianas abaixadas e, é claro, trancada. Ouviu atrás de si um estalo leve quando Ybarra passou pelo parapeito, e em seguida sentiu o tapinha de “estou aqui” no ombro.

Chavez apertou o botão do fone de ouvido.

— Comando, Azul Vivo, na porta.

— Entendido.

Ding tirou uma flexicâmera do bolso da coxa direita de sua calça cargo, ligou-a em seu visor noturno depois deslizou as lentes por baixo da porta, gentilmente, prosseguindo tanto pelo tato quanto pela visão. Como tudo que fazia, cada membro da Rainbow tinha treinado e retreinado, e depois treinado mais um pouco, com cada ferramenta de seu arsenal, incluída ali a flexicâmera. Se houvesse uma armadilha na porta, Chavez provavelmente tanto a veria quanto sentiria.

Primeiro, ele escrutinou a soleira de baixo e depois, não descobrindo nada, moveu para as dobradiças antes de terminar com a maçaneta e a placa da chave. Limpo. Não havia nada. Recolheu a câmera. Atrás dele, Showalter e Bianco já haviam subido pelo parapeito. Ding apontou para Bianco, e depois para a maçaneta. O italiano assentiu e foi trabalhar com sua gazua. Trinta segundos depois a fechadura estalou, aberta.

Usando gestos de mão, Ding passou as instruções finais: ele e Bianco iriam na frente e inspecionariam as salas à direita; Showalter e Ybarra, as da esquerda.

Ding girou suavemente a maçaneta, abriu uma fresta na porta. Esperou dez segundos, depois abriu a porta mais uns 30 centímetros e enfiou a cabeça. O corredor estava vazio. Três portas, duas à direita, uma à esquerda. Ouviu à distância o murmúrio de vozes, depois silêncio. Um espirro. Recuou a cabeça e abriu a porta toda, deixando que Showalter a segurasse e a prendesse depois.

Com a MP5 engatilhada e apontada para baixo, Ding passou para o corredor. Bianco seguia dois passos atrás deles e à sua esquerda, pelo meio do corredor. Na parede sul, Showalter chegou à porta da direita e parou. Ela estava parcialmente fechada.

— Na porta sul do corredor — transmitiu Showalter.

— Observando — respondeu Loiselle. — Sem movimentos.

Showalter se enquadrou na porta, abriu-a subitamente e entrou. Vinte segundos depois saiu e apontou o polegar para cima. Chavez se arrastou pela parede norte.

A voz de Johnston:

— Pare.

Ding ergueu um punho fechado e os outros três pararam, imediatamente se agachando.

— Movimento — disse Johnston. — Parede norte, segunda janela a partir do canto leste.

A próxima sala, pensou Ding. Transcorreram vinte segundos. Tentado como estava a pressionar Johnston por uma atualização, resistiu. O atirador responderia quando tivesse algo.

— A janela é coberta por minipersianas — transmitiu Johnston. Meio aberta. Vejo um corpo se movendo.

— Armado?

— Não sei dizer. Esperem. Avançando para a porta. Três segundos.

Chavez pendurou sua MP5, sacou sua MK23 com silenciador, levantou-se e deslizou pelo corredor até quase poder pegar na maçaneta da porta.

— Na porta — avisou Johnston.

A porta se abriu e uma figura saiu de lá. Chavez examinou por meio segundo, viu o AK-47 pendurado no peito do sujeito e enfiou uma bala pouco acima de seu ouvido direito. Ding girou nos calcanhares, levantou o braço esquerdo e agarrou o sujeito pelo torso enquanto ele caía. Bianco já avançava, passando pela porta, procurando mais alvos. Chavez deitou o cadáver suavemente no chão.

— Limpo — transmitiu Bianco cinco segundos mais tarde, e depois saiu e ajudou Chavez a arrastar o cadáver até a sala. Fecharam a porta, entraram de novo em formação e se agacharam para esperar. Se o tiro tivesse atraído a atenção de alguém, saberiam num instante. Nada se moveu.

— Na segunda porta, parede norte.

— Não vejo mais movimento — respondeu Johnston.

Ding e Bianco revistaram a sala e voltaram.

— Comando, Azul Vivo. Andar de cima limpo — transmitiu Ding. — Seguindo para o andar principal.

— Entendido — respondeu Stanley.

A 6 metros, no fundo do corredor, estava um arco e uma curva abrupta à direita para o que Chavez sabia ser a escadaria para o primeiro andar. As escadas eram abertas, com 6 metros de largura, margeadas de um lado por uma parede, e abertas à esquerda, dando vista para o que tinham decidido que provavelmente era a principal área de trabalho da embaixada — e lugar mais provável para os terroristas agruparem os reféns.

Isso proporcionava vantagens e desvantagens, sabia Ding. Se os reféns estivessem agrupados e juntos, havia uma boa chance de que a maioria dos bandidos também estivesse lá. Isso tornava mais fácil o trabalho da Rainbow, pelo fato de os alvos estarem assim concentrados, mas também significava que os reféns, sentados lado a lado, estariam completamente desprotegidos caso os terroristas abrissem fogo.

Então simplesmente não vamos deixar que façam isso, mano.

Avançou cuidadosamente, movimentando-se sem tirar os pés do chão até chegar ao arco. Uma olhadela rápida pela esquina revelou o andar térreo. Abaixo das escadas e à direita estava a parede da frente, com as janelas ainda fechadas. No fundo da escada devia estar o pequeno corredor e quatro salas desconhecidas.

Chavez moveu o olhar até o canto noroeste da sala, e mentalmente mediu 1 metro a partir da parede. Era mais ou menos ali, com uma margem de uns 30 centímetros, que Weber entraria. Mas à esquerda, visível por cima do corrimão, ele pôde ver duas figuras paradas juntas. Cada um portava uma submetralhadora compacta, mas que não estavam armadas e preparadas. Penduradas do lado. Para mim, ótimo, pensou. Em uma mesa perto dali, um abajur com cúpula verde jogava um facho de luz na parede.

Chavez recuou e voltou até onde esperava o restante da equipe. Gesticulou: Planta confirmada; movimentem-se como planejado. Ele e Bianco, juntamente com Weber e sua equipe quando esses atravessassem a parede, se ocupariam do lado mais pesado da sala principal. Showalter e Ybarra pegariam à direita no fundo da escada, tomando o corredor. Recebeu acenos de cada um dos homens.

— Comando, Azul Vivo, câmbio.

— Prossiga, Azul.

— Posicionados.

— Entendido.

De Weber:

— Vermelho Vivo, entendido.

— Movimentação em noventa segundos — disse Chavez.

— Na espera — respondeu Weber.

 

— Comece a contagem — transmitiu Ding.

— Cinco e contando. — A voz de Weber. Cinco segundos para o Gatecrasher.

Cada um dos homens de Chavez tinha uma granada de luz e som nas mãos, o pino retirado.

Quatro... três... dois...

Em uníssono, Ding e Bianco jogaram as granadas por cima do corrimão e começaram a descer, MP5 engatilhada e tentando achar os alvos. Ding escutou o primeiro projétil deslizar assoalho abaixo, seguido um quarto de segundo mais tarde pelo disparo do Gatecrasher. Uma onda de fumaça e detritos voou pela sala. Chavez e Bianco continuaram avançando, Ybarra e Showalter passando por eles seguindo rapidamente para o corredor à direita que dava para o lado leste do edifício.

A segunda granada de luz e ruído explodiu. A luz brilhante resplandeceu no teto e nas paredes. Ding ignorou isso.

Alvo.

Olhando por cima do corrimão, viu uma figura correndo na direção deles. Ding apontou a mira da MP5 no peito do homem e disparou duas vezes. Ele caiu, e Ding continuou avançando. Percebeu outra figura à sua esquerda, mas sabia que Bianco cobria por ali, e, como se fosse uma deixa, escutou o pop-pop. À sua direita, Chavez viu o primeiro membro da equipe de Weber passar pelo buraco de 1 metro criado pelo Gatecrasher, seguido por um segundo, um terceiro e um quarto.

Ding virou à esquerda, dirigindo-se para o centro da sala. Soaram gritos. Uma massa de corpos amontoados no chão. Alvo. Atirou duas vezes e continuou avançando, a MP5 apontando. Atrás dele ouviu Showalter dizer:

— Alvo, esquerda. — Foi seguido por uma série de pops coincidentes.

Weber e sua equipe já haviam se reunido com Chavez e Bianco e estavam se espalhando em leque, cada homem cobrindo um setor.

— Abaixem, abaixem, abaixem! Todos se abaixem! — gritou Ding.

À direita: pop, pop, pop.

Chavez continuou avançando, passando pelo centro da sala, Bianco à sua direita fazendo o mesmo, procurando movimento...

— Limpo — escutou Weber dizer, seguido por mais dois.

— Limpo à esquerda! — respondeu Bianco.

— Corredor limpo! — Era Showalter. — Verificando as salas.

— A caminho — anunciou Ybarra.

Do corredor de Showalter veio um grito de mulher. Chavez se virou. Ybarra, que tinha chegado à entrada do corredor, pulou para o lado e se colou na parede esquerda.

— Alvo.

Chavez correu até o corredor e tomou posição do lado oposto de Ybarra. Uma figura emergiu saindo da última sala arrastando uma mulher consigo. O homem tinha uma pistola pressionando o pescoço dela. Ding espreitou. O homem o percebeu e virou um pouco a mulher, usando-a como escudo. Gritou algo num árabe com tom de pânico. Ding recuou.

— Showalter, qual é sua posição? — sussurrou.

— Segunda sala.

— O alvo está bem ao lado da terceira porta. Três, três metros e meio. Tem uma refém.

— Escutei. Qual o meu ângulo?

— Meia cabeça aberta para o tiro.

— Entendido, diga quando.

Chavez espiou novamente. O homem se movimentou ligeiramente, emparelhando com ele. Showalter, sua MP5 já no ombro, saiu na soleira de sua porta e disparou. A bala entrou pelo olho direito do homem. Ele desabou, e a mulher começou a gritar. Showalter saiu e foi em sua direção.

Chavez soltou o fôlego, depois pendurou sua MP5 e se virou para inspecionar o salão principal. Feito e feito. Vinte segundos, não mais. Nada mal. Apertou o botão do rádio.

— Comando, aqui Azul Vivo, câmbio.

— Prossiga.

— Situação segura.

 

Depois que Chavez percorreu tudo novamente e considerou a embaixada totalmente dominada, transmitiu um firme “tudo limpo” para Clark e Stanley. A partir daí os acontecimentos se precipitaram à medida que o relatório saiu de Tad Richards para seu contato com a Milícia do Povo, o tenente Masudi, e subiu pela linha de comando líbio até um major que insistiu que Chavez e sua equipe saíssem pela porta da frente, escoltando os reféns até o portão principal. No comando temporário da Rainbow, Clark e Stanley, não compreenderam a exigência e se recusaram a atendê-la até que Masudi explicou, em mal inglês, que não haveria câmeras de televisão. O povo líbio simplesmente queria expressar sua gratidão. Clark considerou a questão e aprovou com uma sacudida de ombros.

— Boa vontade internacional — resmungou para Alistair Stanley.

Dez minutos depois, Chavez, sua equipe e os reféns emergiram da porta principal da embaixada sob a luz de refletores e aplausos. Foram recebidos no portão por um contingente do Serviço de Segurança Sueco (Säkerhetspolisen) e do Departamento de Investigação Criminal (Rikskriminalpolisen), que assumiram a guarda dos reféns. Depois de uns bons dois minutos de apertos de mãos e abraços, Chavez e sua equipe avançaram até a rua, onde um monte de soldados e oficiais da Milícia do Povo lhes deram mais abraços e tapinhas nas costas.

Richards apareceu ao lado de Chavez enquanto avançavam pelo meio da multidão em direção ao centro de comando.

— Que diabos acontece aqui? — gritou Chavez.

— Difícil captar as palavras — respondeu Richards —, mas estão simplesmente impressionados. Não, maravilhados é uma expressão melhor.

Atrás de Chavez, Showalter gritou:

— Com o quê, pelo amor de Deus? Que porra eles esperavam?

— Baixas! Montes de mortos! Achavam que nenhum dos reféns conseguiria sair de lá, muito menos todos eles. Estão comemorando!

— Está de sacanagem — declarou Bianco. — Achavam que fôssemos amadores?

Richards respondeu por cima do ombro.

— Bem, eles não têm um bom desempenho no resgate de reféns.

Chavez sorriu com isso.

— Ora, bom, nós somos a Rainbow.