Morto ou Vivo
Capítulo 63
O contato deles os encontrou perto da estrada Al Kurnish, do lado leste do parque Sendebad, a pouca distância do consulado australiano. Hendley evitou explicar a Brian e Dominic a natureza de seu relacionamento com o australiano, e o chefe tampouco considerou necessário compartilhar o nome do sujeito, mas nenhum dos irmãos achou que era coincidência o fato de seus passaportes falsos e vistos terem os carimbos australianos.
— Tarde, cavalheiros. Suponho que sejam os rapazes de Gerry, sim?
— Suponho que somos — disse Dominic.
— Archie. — Apertos de mão foram trocados. — Vamos dar um passeio, que tal? — Esperaram uma pausa no trânsito e atravessaram correndo a Al Kurnish até um parque malcuidado, ao lado do edifício em forma de roda de vagão da Al Fatah, e descendo até a beira da água.
— Então, compreendo que estão numa espécie de caçada como franco-atiradores? — disse Archie, por sobre a agitação da água.
— Acho que se pode chamar assim — disse Brian. — Um sujeito foi assassinado aqui na semana passada. Primeiro enforcado, depois decapitado e teve os pés cortados.
Archie assentia.
— Ouvi falar. Trabalhinho sujo, esse. Por aqui chamam de “danadinho sem pés”. Vocês acham que esse sujeito saiu da linha, andou fazendo algum trabalho por fora?
Dominic assentiu.
— A embaixada da Suécia, é isso?
Outro assentimento.
— E vocês estão atrás dos quem e dos porquês, suponho.
— Pegaremos o que for possível — disse Brian.
— Bem, a primeira coisa que vocês precisam saber sobre Trípoli é que é uma cidade danada de segura, de maneira geral. A média de crimes nas ruas é muito baixa, e os vizinhos vigiam uns aos outros. A polícia não fica muito preocupada com o fato de um grupo matar um de seus próprios membros, a menos que a coisa se espalhe pelas ruas ou que algum deles faça algo para chamar atenção. A última coisa que o Coronel Cacheado quer é má notícia na imprensa internacional, não depois de todo o trabalho de relações públicas que ele andou fazendo. A verdade é que o CRO tem andando bem quieto já há uns oito ou nove meses. De fato, a fofoca nas ruas diz que esse negócio na embaixada da Suécia não foi coisa do CRO.
— Pelo menos, não sancionada.
— Ah, percebo. Uma cabeça cortada e pés decepados tendem a mandar um recado bem forte, não é? Ainda assim, poderia ser pior. Geralmente as joias da família entram na jogada. Bem, o apartamento onde esse sujeito foi liquidado fica perto da estrada Al Khums. Vizinhança bem fechada. Tal como fiquei sabendo, esse apartamento em particular estava vazio na época.
— Onde ouviu falar disso?
— Conheço alguns franceses que trabalham por aqui e são bastante amigos dos policiais.
— Então você acha que usaram o apartamento apenas por conveniência? — perguntou Dominic. — Um estúdio?
— Sim. O pobre coitado provavelmente foi liquidado em outro lugar. Vocês souberam através de algum site? CRO ou GILC? — disse Archie, referindo-se ao Grupo Islâmico Líbio de Combate.
— CRO — respondeu Brian. — Há mais gente que possa ter feito o serviço terceirizado para o CRO?
— Um monte. Nem é preciso que seja um grupo. Há criminosos em Medina, a Cidade Velha, que cortariam sua garganta por 20 dólares americanos. Veja bem, não para roubar, mas como crime encomendado. Mas esse vídeo... Parece um pouco elaborado demais para os macacos medianos.
— Então por que simplesmente não fizeram o serviço em outro lugar em Medina? — perguntou Brian. — Matar o sujeito, filmar tudo e depois jogar o corpo na rua.
— Então os policiais teriam que ir até Medina, percebe? Desse jeito todo mundo pode fingir que aconteceu em algum outro lugar e o balanço natural permanece. Em quantos sites esse vídeo apareceu?
— Seis, que nós saibamos — disse Dominic.
— Bem, por aqui há um monte de serviços de internet, mas os grupos que manejam esses sites geralmente fazem eles mesmos a hospedagem, com um servidor dedicado que podem pegar e movimentar, física e eletronicamente. Se o CRO encomendou o assassinato, então é provável que vocês estejam com azar; se eles mesmos fizeram isso, quer dizer que a mensagem veio bem do alto. O tipo de trabalho que não se deixa aberto ao acaso. Se esse for o caso, é possível que haja algum tipo de sobreposição, algum capitão local do CRO em contato com algum dos serviços de hospedagem móveis.
— Suponho que não seja possível entrar em contato com eles pelas páginas amarelas — disse Brian.
— Está supondo corretamente. Pode ser que eu conheça um sujeito. Me deixe fazer algumas ligações. Onde vocês estão hospedados?
— No Al Mehari.
Archie verificou seu relógio.
— Encontro vocês lá às cinco da tarde, e tomamos um drinque.
Ele chegou uma hora mais cedo com seu próprio carro, um Opel verde-floresta de meados dos anos 1980; como quase tudo em Trípoli, o carro estava coberto com uma fina camada de poeira vermelho-amarronzada.
— Vocês alugaram um carro? — perguntou Archie enquanto saíam na direção oeste pela rua Al Fat’h, em meio a uma cacofonia de buzinas e freadas.
— Epa! — gritou Brian do assento traseiro.
— Aqui não existem leis de trânsito. Podem chamar de darwinismo básico. É a sobrevivência do motorista mais capaz. Então: carro de aluguel?
— Não alugamos nenhum.
— Depois que terminarmos, vocês podem me deixar na embaixada e usar este. Cuidado com a segunda marcha. Está meio frouxa.
— Desde que você não espere recebê-lo de volta inteiro.
— É hora do rush. Dentro de algumas horas melhora.
A labiríntica e amuralhada Medina da Trípoli moderna nasceu durante a ocupação otomana e por séculos serviu tanto para dissuasão dos invasores quanto como centro de comércio. Situada ao lado do porto e bordejada aos quatro lados pela estrada Al Kurnish, pela rua Al Fat’h, pela rua Sidi Omran e pela rua Al Ma’arri, a Medina era um labirinto de ruas estreitas, becos sem saída, calçadas cobertas de arcos e pequenos pátios.
Archie achou um lugar para estacionar próximo ao portão Bab Hawara, perto do muro sudoeste, e eles saíram e caminharam dois quarteirões ao sul até um café. Um homem com calça larga preta e camisa de mangas curtas marrom se levantou de uma mesa quando Archie se aproximou. Trocaram apertos de mão, se abraçaram e Archie apresentou Brian e Dominic como “velhos amigos”.
— Este é Ghazi — disse Archie. — Podem confiar nele.
— Sentem, por favor — disse Ghazi, e todos se acomodaram na mesa sob o guarda-sol. Apareceu um garçom, e Ghazi disparou alguma coisa em árabe. O garçom saiu e reapareceu um minuto depois com uma jarra, quatro copos pequenos e uma tigela com balas de menta. Quando o chá foi servido, Ghazi disse:
— Archie me contou que vocês estão interessados em sites.
— Dentre outras coisas — disse Dominic.
— Há muitas pessoas que proporcionam os serviços que Archie mencionou, mas uma em particular pode valer o tempo que dedicarem a ele. Seu nome é Rafiq Bari. No dia seguinte ao que esse vídeo apareceu na web e um dia antes de o corpo do homem ser descoberto, ele mudou seu negócio, bem de repente e durante a noite...
— Isso é tudo? — disse Brian.
— Não. Existem boatos de que ele fez um trabalho para certas pessoas. Sites que aparecem e desaparecem: servidores proxy, redirecionamentos, nomes de domínio alternados, tudo isso. Essa é a especialidade de Bari.
— E sobre ISPs? — perguntou Dominic, referindo-se aos provedores de serviço de internet. — É possível que essas pessoas estejam criando os seus próprios em vez de usar companhias comerciais?
Archie respondeu:
— Trabalheira demais, acho. Por aqui não existe muita supervisão com esse tipo de coisas. Um nome e um cartão de crédito são o suficiente. Nomes de domínios podem ser registrados no atacado e modificados num piscar de olhos. Não, o modo como esse tal de Bari faz é o usual, pelo menos por aqui.
Dominic perguntou a Ghazi:
— Com quem ele mora? Família?
— Aqui não. Tem uma esposa e uma filha em Benghazi.
— Quais são as chances de ele estar armado?
— O próprio Bari? Muito improvável, acho. Quando ele se movimenta por aí, às vezes tem proteção.
— Do CRO?
— Não, não diretamente, não acredito. Talvez contratados por eles, mas são simplesmente pessoas de Medina. Bandidos.
— Quantos? — perguntou Brian.
— Nas vezes que o vi... Dois ou três.
— Onde o encontramos? — disse Brian.
Quando deixaram Archie de volta no consulado, a borda de baixo do sol já quase tocava a superfície do mar a oeste. Por toda a cidade, lâmpadas de rua, faróis de automóveis e sinais de neon piscavam, se acendendo. Tinham decidido que Dominic, que fizera o curso de direção defensiva do FBI, ficaria no volante do Opel. Confirmando a previsão de Archie, o tráfego havia melhorado um pouco, mas as ruas ainda se pareciam mais com pistas de corrida do que com vias urbanas.
Archie desceu do carro e encostou os braços na porta de passageiro.
— O mapa de Medina que vocês têm é bastante preciso, mas não perfeito, então prestem atenção por onde andam. Têm certeza de que isso não pode esperar até amanhã?
— Provavelmente não — disse Brian.
— Bem, então fiquem relaxados e sorriam. Ajam como turistas. Olhem as vitrines, pechinchem um pouco, andem tranquilos. Não marchem pelo lugar como se fossem sapadores...
— Sapadores?
— Soldados. Podem estacionar em alguma das ruas laterais perto do Corinthia, aquela monstruosidade de hotel que passamos a caminho daqui.
— Saquei.
— É visível de praticamente toda Medina. Caso se percam, rumem para lá.
— Droga, cara, você soa como se nós estivéssemos entrando na cova dos leões — disse Brian.
— Não é uma analogia ruim. Considerando tudo, Medina é segura à noite, mas a palavra corre se vocês se destacarem. Mais duas coisas: abandonem o carro se precisarem. Comunico que foi roubado. Segundo: há um saco de papel marrom debaixo do pneu no porta-malas com alguns presentinhos dentro.
— Suponho que você não esteja falando de guloseimas — disse Dominic.
— Disso eu não falo, colega.