Morto ou Vivo
Capítulo 21
Se estivesse em um estado mental objetivo, Nigel Embling reconheceria seu humor atual como nada menos que uma merda autoindulgente, mas no momento sua avaliação refletida era a de que o mundo ia rápido e diretamente para o inferno. Mais tarde, provavelmente reavaliaria essa decisão, mas, neste momento, sentado à mesa da sua cozinha diante de uma xícara de chá e lendo o Daily Mashriq matinal, um entre a meia dúzia de jornais de Peshawar, no Paquistão, nada que ele via melhorava seu humor.
— Malditos idiotas — resmungou.
Mahmood, seu criado, apareceu magicamente na porta da cozinha.
— Alguma coisa, Sr. Nigel? — Mahmood, 11 anos, estava alegre e ansioso demais, especialmente nessa hora do dia. Embling sabia que, sem ele, sua casa viraria um caos.
— Não, não Mahmood, só falava comigo mesmo.
— Oh, isso não é bom, senhor, não é nada bom. Perturbado, isso é o que as pessoas podem pensar. Por favor, se fizer isso, deixe sua fala para quando estiver em casa, sim?
— Sim, está bem. Volte para seus estudos.
— Sim, Sr. Nigel.
Mahmood era órfão, sua mãe, seu pai e suas duas irmãs morreram na violência que irrompeu entre sunitas e xiitas por todo o Paquistão, depois do assassinato de Benazir Buttho. Embling praticamente adotara o garoto, dando-lhe comida, abrigo e um pequeno estipêndio e, sem que Mahmood soubesse, estabelecera um fundo que crescia regularmente e que ele herdaria quando completasse 18 anos.
Outra mesquita queimada, outro líder de facção assassinado, outro rumor de eleições fraudadas, outro funcionário do ISI, o serviço de inteligência, preso por roubar segredos de Estado. Outro chamado à calma em Peshawar. Tudo isso era uma tremenda vergonha. Não que o Paquistão jamais tivesse sido um modelo de paz, note bem, mas houvera períodos mais calmos, ainda que mesmo isso fosse uma fraude, um leve filme encobrindo o caldeirão de violência fervendo logo abaixo da superfície. Ainda assim, Embling sabia que não havia outro lugar na terra para ele, apesar de jamais saber a razão disso. Talvez fosse reencarnação, mas fosse lá o que fosse, o Paquistão tinha se infiltrado em sua vida e agora, com 68 anos, ele estava firme e irrevogavelmente enraizado no seu lar adotivo.
Embling sabia que a maioria dos homens em sua posição estaria, e talvez com motivo, temerosa — um cristão anglo-saxão da Inglaterra, lugar de nascimento do Raj britânico, ou o “controle” britânico sobre os hindus. Na maior parte dos noventa anos transcorridos desde meados de 1850 até logo depois da Segunda Guerra Mundial, a Grã-Bretanha mantivera o controle sobre o então chamado “Subcontinente indiano” que, em vários momentos de sua história, incluía Índia, Paquistão, Bangladesh, Somália, Cingapura e Birmânia, hoje conhecida como Mianmar, apesar de Embling ainda e sempre chamá-la de Birmânia e que se dane o politicamente correto. Apesar de as lembranças do Raj já terem se esvanecido com o tempo, seu impacto nunca desaparecera completamente, e Embling podia ver e sentir isso cada vez que saía, no olhar dos velhos frequentadores do mercado e nas conversas sussurradas entre policiais que ouviram histórias de seus pais e avós. Embling não fazia nada para esconder sua herança, e, ainda que quisesse fazê-lo, não conseguiria, mesmo com seu domínio perfeito, embora com um leve sotaque, do urdu e do pashtun. Sem mencionar sua pele branca e seu 1,95m de altura. Não eram muitos os nativos com essas características.
Ainda assim, ele era na maior parte das vezes respeitado, e isso não tinha nada a ver com algum resto de deferência ao Raj, mas sim com sua própria história. Afinal, Embling estava no Paquistão há mais tempo que a maioria das pessoas que podia encontrar no mercado do Bazar Khyber em qualquer dia. Quantos anos, exatamente?, pensou. Descontando férias e algumas breves missões nos vizinhos do Paquistão... Digamos, quarenta e tantos anos. Tempo suficiente para que seus antigos (e às vezes também os atuais) compatriotas dissessem que ele “virou nativo”. Não que se importasse. Com todos os defeitos e todas as quase tragédias e perigos que vivera, não havia outro lugar para ele que não o Paquistão e, no fundo do seu coração, considerava um motivo de orgulho que o considerassem tão integrado que o vissem como “mais paquistanês do que britânico”.
Embling, na imatura e ingênua idade de 22 anos, fora um dos muitos recrutados do pós-guerra pelo MI6 em Oxford, tendo sido abordado pelo pai de um colega que ele pensava exercer um cargo burocrático no Ministério da Defesa, mas que de fato era do MI6 — um dos poucos, na verdade, que avisara os superiores que o infame traidor Kim Philby era um recrutamento nada estelar e que, com o tempo, ou se avacalharia completamente e colocaria vidas em perigo ou seria tentado a passar para o outro lado, o que ele fez, agindo como infiltrado para os soviéticos por muitos anos, antes de ser exposto.
Depois de sobreviver ao rigor do treinamento do MI6 em Fort Monckton na costa de Hampshire, Embling foi designado para a fronteira noroeste do Paquistão, ou NWFP (ou Pakhtunkhwa ou Sarhad, dependendo de com quem se estivesse falando), no limite do Afeganistão, na época se transformando em um parque de diversões da KGB russa. Embling passara a maior parte de seis anos vivendo nas montanhas perto da fronteira, avançando às vezes com os senhores da guerra pashtuns, governantes da área cinza que recobria a região entre o Paquistão e o Afeganistão. Se os soviéticos tentassem se infiltrar na direção do Paquistão, muito provavelmente viriam pelas montanhas e através das terras dos pashtuns.
Fora viagens ocasionais para casa na Inglaterra, Embling passara sua carreira nos “istão” da Ásia Central — Turquistão, Casaquistão, Turcomenistão, Uzbequistão, Quirguistão e Tajiquistão —, todos os quais caíram, em vários momentos e graus, sob domínio ou pelo menos influência da União Soviética. Enquanto a CIA americana e seus compatriotas no MI6 — oficialmente conhecido como Serviço Secreto de Inteligência, ou SIS — combatiam a Guerra Fria nas ruas cheias de neblina de Berlim, Budapeste ou Praga, Embling vagava pelas montanhas com os pashtuns, comendo quabili pulaw dampukht (arroz com cenouras e passas) e chá preto amargo. Em 1977, sem o conhecimento de seus superiores em Londres, Embling chegara a se casar em uma tribo pashtun, tomando como esposa a filha mais nova de um senhor da guerra de menor importância, a qual perdeu dois anos depois em um ataque aéreo indiano, quando os soviéticos invadiram o Afeganistão. O corpo dela jamais fora recuperado. Muitas vezes ele se perguntava se essa era a razão pela qual ficou tanto tempo no Paquistão depois de se aposentar. Será que algum pedaço entristecido de seu coração ainda esperava descobrir Farishta ainda viva em algum lugar? Seu nome, afinal, significava “Anjo”.
Esperança ilusória, pensava agora Embling.
Esperança ilusória, tal como a ideia de um Paquistão estável.
A 11 mil quilômetros dali em Silver Spring, Maryland, Mary Pat Foley tinha um pensamento semelhante, bebendo algo semelhante — a xícara de café meio descafeinado requentado e salgado que ela se permitia tomar à noite —, mas sobre um tópico completamente diferente — o Emir — e duas questões que haviam afligido os serviços de inteligência dos Estados Unidos na maior parte da década: onde ele estava e como pegar o filho da mãe. Com poucas e breves exceções, e a despeito de ser o Inimigo Público Número Um para a Casa Branca, uma posição com a qual Mary Pat não concordava muito, certamente o cara precisava ser agarrado ou, melhor ainda, liquidado de uma vez e ter suas cinzas espalhadas pelos ventos. Matar o Emir, contudo, não resolveria os problemas dos Estados Unidos com o terrorismo. Havia até alguma discussão sobre o quanto, se é que havia algo, de inteligência operacional era do conhecimento do Emir. Mary Pat e seu marido, Ed, agora aposentado, tendiam a ficar do lado que achava que “nada de muito consistente” sairia disso. O Emir sabia que era caçado e, ainda que fosse um filho da puta de primeiríssima linha e assassino em massa, certamente não era estúpido para se colocar na armadilha de uma posição operacional onde “precisava saber o que acontecia”, especialmente naqueles dias, quando os terroristas tinham percebido a beleza da compartimentalização. Se o Emir fosse um chefe de Estado de verdade, provavelmente receberia informes regulares, mas não era — pelo menos ninguém pensava assim. Estava, na melhor suposição que a CIA tinha, oculto em algum lugar do território selvagem das montanhas do Paquistão, perto da fronteira do Afeganistão. Mas esse cenário era a proverbial agulha no palheiro, não era? Ainda assim, nunca se sabe. Algum dia alguém teria sorte e o descobriria, disso ela estava certa. A questão era se o pegariam vivo ou não. Ela realmente não se importava com isso, mas a ideia de estar frente a frente com o filho da mãe e olhar na cara dele certamente tinha algum apelo.
— Olá, amor, cheguei... — anunciou Ed Foley alegremente, descendo as escadas e entrando na cozinha vestindo moletom e camiseta.
Desde que se aposentara, a movimentação de Ed Foley consistia apenas nos 10 metros e meia dúzia de degraus até seu estúdio, onde trabalhava numa obra de não ficção, a história da comunidade de inteligência dos Estados Unidos, desde a Revolução Americana até o Afeganistão. O capítulo em que trabalhava, terrivelmente bom, se ela expressasse isso a si mesma, tratava de John Honeyman, um tecelão nascido na Irlanda e talvez o espião mais obscuro de sua época. Tendo recebido do próprio George Washington a missão de se infiltrar nas fileiras dos terríveis mercenários hessianos aquartelados nas proximidades de Trenton, Honeyman, fingindo-se de negociante de gado, passava pelas linhas, levantava a ordem de batalha dos hessianos e suas posições, depois furava de volta, proporcionando a Washington a vantagem de que precisavam para ter uma vitória esmagadora. Para Ed, esse era um capítulo de sonho, sobre um pedacinho desconhecido da história. Escrever sobre Wild Bill Donovan, a Baía dos Porcos e a Cortina de Ferro era muito bom, mas havia pouco o que acrescentar no que já era história velha no gênero da espionagem não ficcional.
Ed certamente merecera várias vezes sua aposentadoria, tal como Mary Pat, mas apenas um punhado de privilegiados em Langley — incluindo Jack Ryan Senior — saberia em que grau os Foley haviam servido e o que sacrificaram por seu país. Ed, irlandês por nascimento, graduara-se na Fordham e começou sua carreira como jornalista, trabalhando como um repórter sólido, mas sem destaque, no New York Times antes de escorregar para o mundo de bandidos e espiões. Quanto a Mary Pat, se alguma vez uma mulher nasceu para trabalhar em serviços de inteligência, essa era ela, a neta do tutor de equitação do tsar Nicolau II e filha do coronel Vanya Borissovich Kaminsky que, em 1917, percebeu o que estava escrito nos muros e escapuliu com sua família da Rússia pouco antes da revolução que derrubaria a dinastia Romanov e custaria as vidas de Nicolau e sua família.
— Dia duro no escritório, querido? — perguntou Mary Pat ao marido.
— Exaustivo, absolutamente exaustivo. Tantas palavras difíceis, e um dicionário muito pequeno. — Ele se inclinou para dar um beijinho no rosto dela. — E você, como está?
— Bem, bem.
— Meditando de novo, não é? Sobre quem estou achando que é?
Mary Pat assentiu.
— Tenho que voltar para lá hoje à noite, de fato. Talvez algo quente esteja chegando. Vou acreditar quando puder ver.
Ed franziu a testa, mas Mary Pat não soube dizer se era por sentir falta da ação ou porque estava tão cético quanto ela. Os grupos terroristas ficavam cada vez mais capacitados em inteligência, especialmente depois do 11 de Setembro.
Mary Pat e Ed Foley haviam adquirido o direito de serem levemente cínicos se isso lhes conviesse, tendo testemunhado em primeira mão o funcionamento interno da CIA e sua história tortuosa por quase trinta anos, servindo na Estação de Moscou como agentes de campo como marido e mulher, na época em que a Rússia ainda comandava a União Soviética e a KGB e seus satélites eram o único bicho-papão da CIA.
Ambos subiram na hierarquia da diretoria de operações de Langley, Ed terminando sua carreira como DCI, ou diretor central de Inteligência, enquanto Mary Pat, vice-diretora de operações, havia requerido uma transferência lateral para o NCTC — Centro Nacional de Contraterrorismo —, onde atuava também como vice-diretora. Como esperado, a central de boatos entrou em funcionamento, especulando que Mary Pat de fato havia sido rebaixada de sua posição no DDO, e que sua posição no NCTC era uma simples parada a caminho da aposentadoria. Nada podia estar mais longe da verdade, claro. O NCTC era a ponta da lança, e Mary Pat queria estar lá.
Claro que para sua decisão tinha contribuído o fato de seu antigo lar, o DO, não ser mais o que fora. Seu novo nome, Serviço Clandestino, ao mesmo tempo que irritava os dois (apesar de nenhum deles ter a ilusão de que o termo diretoria de operações enganava alguém, mas Serviço Clandestino parecia ser um tanto exibicionista para o gosto deles), eles também sabiam que se tratava apenas de mais um apelido. Infelizmente, a mudança veio mais ou menos na mesma época em que começaram a sentir que a diretoria passara a tratar menos de operações clandestinas e colheita de inteligência e mais de política. E apesar de Mary Pat e Ed terem cada um suas próprias — e muitas vezes contrárias — posições políticas, no que ambos concordavam era que política e inteligência formavam uma mistura ruim. Gente demais nos escalões superiores da CIA era simplesmente funcionário público procurando marcar pontos em seu caminho para coisas mais elevadas e melhores, algo que os Foley jamais compreenderam. Tanto quanto lhes dizia respeito, não havia serviço mais significativo do que a defesa do país, seja uniformizado no campo de batalha, seja atrás da cortina, que o chefe-espião da CIA durante a Guerra Fria, James Jesus Angleton, apelidara de “Floresta de Espelhos”. Não importa que Angleton acabasse como um paranoico delirante cuja caçada a infiltrados soviéticos tivesse devorado Langley de dentro para fora como se fosse um câncer. No que dizia respeito a Mary Pat Foley, o apelido que Angleton dera ao mundo da espionagem era perfeito.
Por mais que ela adorasse o mundo em que trabalhava, a “Floresta” cobrava seu preço. Nos últimos meses, ela e Ed começaram a conversar sobre sua eventual aposentadoria, e, ao mesmo tempo que seu marido fora fundamentalmente discreto (e até sutil), era claro o que ele queria que ela fizesse, chegando até a deixar exemplares da National Geographic abertas sobre a mesa da cozinha, mostrando fotos do Fiji, ou uma reportagem sobre a Nova Zelândia, dois lugares que os dois tinham posto na lista de “algum dia”.
Nos raros momentos em que se permitiam introspecções sobre algo além do trabalho, Mary Pat se via dançando ao redor da pergunta crítica — Qual a razão de permanecer? — sem realmente encarar o assunto. Eles tinham dinheiro suficiente para uma boa aposentadoria, e nenhum dos dois deixaria de ter com que se ocupar. Então, se o dinheiro não era a questão, qual seria? Na verdade, era simples: o trabalho de inteligência era sua vocação, e ela sabia disso — sabia desde seu primeiro dia na CIA. Havia feito um bom trabalho no seu tempo, mas não tinha como negar que a CIA já não era mais a mesma. As pessoas eram diferentes, e suas motivações, obscurecidas pela ambição. Ninguém parecia seguir a máxima de “não pergunte o que seu país pode fazer por você”. Pior ainda, os tentáculos da política da capital abriram caminho no fundo da comunidade da inteligência, e Mary Pat temia que essa fosse uma situação sem volta.
— Quanto tempo você vai demorar? — perguntou Ed.
— Difícil saber. Meia-noite, talvez. Se passar muito, eu ligo. Não me espere acordado.
— Ouviu alguma coisa interessante sobre aquele caso de Georgetown?
— Nada muito além do que os jornais disseram. Pistoleiro solitário, levou um único tiro na cabeça.
— Escutei o telefone tocando antes...
— Duas vezes. Ed Junior ligou para dar um alô e disse que ligaria amanhã para você. E Jack Ryan. Queria saber como ia o livro. Pediu para você ligar quando tivesse uma oportunidade. Talvez você possa espremer alguns detalhes dele.
— Isso eu duvido muito.
Os dois homens escreviam espécies de recordações. Ed, uma história, e o ex-presidente Ryan, suas memórias. Os dois se compadeciam e trocavam referências pelo menos uma vez por semana.
A carreira de Jack Ryan, desde seus tempos de calouro na CIA até ele ser enfiado na presidência por uma tragédia, se entrecruzava com as de Mary Pat e Ed. Alguns momentos maravilhosos e outros simplesmente uma merda.
Ela suspeitava que os telefonemas semanais de Jack e Ed eram noventa por cento sobre histórias de guerra e apenas dez por cento relacionados aos livros. Ela não reclamava. Ambos ganharam direito de sobra para isso. Ela conhecia de cor a carreira de Ed, mas tinha certeza de que havia porções da carreira de Jack Ryan que apenas ele e um par de outras pessoas conheciam, o que era dizer muita coisa diante do acesso que Mary tinha. Ora, bolas, consolou-se ela. O que é a vida sem alguns mistérios?
Mary Pat viu as horas, bebeu o restante do café, franziu o cenho com o gosto e se levantou para beijar Ed no rosto.
— Tenho que correr. Dê comida para o gato, sim?
— Pode deixar, querida. Dirija com calma.