Morto ou Vivo
Capítulo 86
Depois de se certificar de que todas as cortinas estavam fechadas, eles acenderam as luzes da casa, e então Jack chamou Pasternak e mandou que ele estacionasse a van na garagem. O médico entrou pela porta da cozinha e parou de súbito.
— É ele?
— Não, esse é Tariq, o guarda-costas do Emir — disse Jack.
De fato, precisaram de dez minutos para que Tariq apenas admitisse o próprio nome. Afora isso, não disse nada. Chavez e Domingo revistaram o restante da casa, mas até então ela mostrava toda a individualidade de um modelo do construtor. Não havia toques pessoais.
— Parece que acabamos de perder o próprio sujeito — disse Jack. — Vá se sentar na sala de estar, doutor. Logo o chamaremos. — Ele se reuniu com Clark na mesa diante de Tariq. Tinham amarrado suas mãos e seus tornozelos com fita crepe, e depois amarraram os pés na mesa da cozinha, também com fita adesiva.
— O que aconteceu com suas mãos? — perguntou Clark.
Tariq as tirou de cima da mesa e as colocou no colo.
— Um incêndio.
— Isso eu já supunha. Como, especificamente?
— Vocês invadem minha casa, me arrancam da cama. Não são da polícia. Quem são vocês, e o que querem?
— Você sabe por que estamos aqui — disse Jack. — Quando ele saiu?
— Quem? Moro aqui sozinho.
— Shasif Hadi nos contou uma história diferente.
Ao ser mencionado o nome de Hadi, os olhos de Tariq se estreitaram ligeiramente, mas logo voltaram ao normal.
— Não está interessado em saber como achamos Hadi? — indagou Jack. — Nós o pegamos no Rio de Janeiro. Depois do ataque à refinaria de Paulínia, o Emir ordenou que ele quebrasse contato com Ibrahim, Fa’ad e Ahmed. O Emir disse que os outros o haviam traído.
— Isso não é... — Tariq parou no meio da frase.
Clark interrompeu:
— Não é verdade? Está certo. A verdade é que quebramos sua criptografia. Todas essas tabelas de uso único embutidas nos banners dos sites... Quebramos isso, e mandamos uma mensagem para o site de armazenamento de Hadi para aquele dia, e o pusemos para correr, bem para o nosso colo. — Clark olhou Jack. — Levou o quê, uns dez minutos para ele ser quebrado?
— Nem isso. Olha só mais uma novidade, Tariq: o cargueiro Losan... paramos ele também. Os irmãos Salim estão mortos, e o corpo de bombeiros de Newport News está agora mesmo descarregando aqueles tanques de propano.
Dessa vez, Tariq não conseguiu se conter:
— Vocês estão mentindo!
— Sobre que parte? — provocou Clark. — Hadi ou o Losan?
— Ambos.
— Então está admitindo quem você é e que conhece o Emir.
Tariq fechou as mãos na mesa diante dele e olhou direto para a frente.
A voz de Ding veio do corredor:
— John, você vai querer ver isso.
Clark e Jack foram até Ding e Dominic, que estavam no quarto principal. Sobre uma cômoda com gavetas estava um laptop. Ding falou:
— Achamos isso na mesa de cabeceira. — Apertou o botão de retorno.
Depois de instantes o rosto do Emir apareceu na tela. O fundo era o sofá e a parede da sala de estar.
— Meu nome é Saif Rahman Yasin. Também sou conhecido como o Emir, e sou o comandante do Conselho Revolucionário Omíada. Falo a vocês hoje como um muçulmano devoto e humilde servo e soldado de Alá. A essa hora, o mundo já testemunhou a vingança que Alá impôs a essa nação infiel dos Estados Unidos da América...
Clark apertou o botão de parar, detendo o vídeo.
— É o testamento do filho da puta.
— Quando isso foi feito? — quis saber Jack.
— Ontem — respondeu Dominic.
— Cristo.
Todos seguiram Clark pelo corredor e de volta à copa. Clark sentou na mesa e todos ficaram olhando.
— Tariq.
— O quê?
— Quero que você me diga onde Saif está e o que vai fazer. Antes de responder, você precisa compreender a regra básica: você só tem uma oportunidade de responder, senão...
Tariq olhou para a frente.
— Vão me matar? Podem ir adiante; não temo a morte. Serei recepcionado no paraíso como um...
— Não vamos matar você, Tariq. Mas antes de passar uma hora, você vai desejar que tivéssemos feito isso.
Tariq se voltou e olhou Clark.
— Não tenho medo — desafiou.
Clark o olhou solenemente por alguns instantes, e depois, sem desviar o olhar de Tariq, disse para Ding por cima do ombro.
— Vá encher a banheira.
Clark realmente nunca compreendera a discussão sobre se afogamento era ou não tortura. Qualquer um que tivesse passado por isso ou visto a coisa sabia que era. Mas conseguia resultados cuja validade só podia ser avaliada por um interrogador particularmente astuto ou pela subsequente coleta de informações. Clark era abençoado com o primeiro atributo, mas infelizmente não tinha nem tempo nem recursos para o último.
Oito minutos, uma toalha encharcada e exatamente 1 litro de água foi todo o necessário. Satisfeito, Clark levantou da posição acocorada sobre Tariq, quase inconsciente e cuspindo água, e voltou-se para Ding, que estava de pé, braços cruzados, e apoiado na parede do banheiro.
— Pode esvaziar a banheira — ordenou Clark. — Limpe o cara e o tranque.
— Você acreditou, John.
— Sim. — Clark verificou o relógio. — De qualquer maneira, já estamos sem tempo.