Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 33 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 33

 

Lidar com um intermediário não era comum, mas não tão incomum que chegasse a preocupar Melinda. Geralmente significava que o cliente era casado e/ou um indivíduo notável em posição proeminente, o que por sua vez resultava em mais dinheiro, como era o caso. O intermediário — um sujeito da região do Mediterrâneo chamado Paolo, com cicatrizes de queimaduras nas mãos — havia lhe dado metade dos 3 mil dólares adiantado, juntamente com o endereço de uma esquina no qual ela deveria aguardar ser recolhida — mais uma vez, um modus operandi incomum, mas dinheiro era dinheiro, e esse era muito maior que sua tarifa habitual.

O maior perigo possível era o cliente querer algum tipo de sexo bizarro que ela não topasse. E então o problema se transformava em como desviar desse assunto sem perder a viagem. A maioria dos homens era facilmente controlável nesses casos, mas de vez em quando se topava com algum com ideia fixa em algo perverso. Nesses casos — já acontecera duas vezes com ela —, a discrição, ela descobriu, era a melhor saída. Dizer obrigada, mas não, obrigada e dar no pé.

Estatisticamente não havia muitos assassinos em série por aí, mas a metade deles matava putas — desde Jack, o Estripador, no bairro de Whitechapel, em Londres. As senhoras da noite, na elegante frase da Londres vitoriana, levavam seus clientes para lugares escondidos para uma “tremida de joelho”, onde o assassinato era mais fácil que no meio de uma rua movimentada, de modo que ela e algumas de suas colegas tinham evoluído e adotaram um sistema simples de segurança mútua, compartilhando entre si os detalhes dos respectivos programas.

Nesse caso, era um Lincoln Town Car com janelas escurecidas. Parou no meio-fio e Melinda escutou a porta traseira destravar. A janela não abaixou. Depois de um momento de indecisão, ela entrou.

— Por que as janelas escurecidas? — perguntou ao motorista, tentando parecer despreocupada.

— Proteção contra o sol — respondeu.

Razoável, pensou Melinda, mantendo a mão perto da bolsa, onde tinha uma Colt calibre .25, muito velha, modelo automático de bolso, bem leve, com 350 gramas. Raramente atirava com ela, mas estava totalmente carregada com sete balas, com a segurança travada. Não era exatamente um Magnum .44, mas também não era um beijinho no rosto.

Verificou o relógio. Já estavam fora da cidade havia trinta minutos, percebeu. Boa e má notícia. Um lugar realmente privado era um bom lugar para matar uma puta e fazer o cadáver desaparecer. Mas ela não iria se preocupar com nada, e sua bolsa estava só a 1 centímetro da mão direita, e a pequena Sra. Colt bem ali.

O carro deu uma girada brusca à esquerda, entrando num beco, e depois mais uma à esquerda, entrando na garagem de um condomínio. Uma garagem particular em vez de uma coletiva, o que significava entrada privativa. Pelo menos não era em um parque de trailers. As pessoas que vivem neles a assustavam, apesar de não constituir sua clientela habitual. Melinda cobrava entre mil e 2 mil por uma trepada, e 4.500 dólares para passar toda a noite. O notável era ver quantos se dispunham a pagar, o que era uma bela complementação para seu salário regular como recepcionista do sistema de escolas públicas de Las Vegas. O homem saiu do carro, abriu a porta e lhe ofereceu a mão para ajudá-la a sair.

 

— Bem-vinda — disse uma voz adulta. Ela caminhou na direção e viu um homem mais alto na sala de estar. Ele sorriu agradavelmente. Ela estava acostumada com isso. — Como você se chama? — perguntou. Tinha uma bela voz. Melódica.

— Melinda — respondeu, caminhando em sua direção, com uma rebolada extra nos quadris.

— Gostaria de uma taça de vinho, Melinda?

— Obrigada — respondeu ela e lhe foi oferecida uma bela taça de cristal.

Paolo havia desaparecido — para onde, ela não fazia a menor ideia —, mas o ambiente a fez desligar seu sistema de alarmes. Seja lá quem fosse o sujeito, era rico, e tinha ampla experiência com esses. Agora podia relaxar um pouco. Melinda era excelente em sacar qual era a dos homens — o que mais ela fazia para viver? —, e esse sujeito não era nada ameaçador. Só queria dar uma trepada, e esse era seu negócio. Cobrava caro porque era boa nisso, e os homens não se importavam em pagar porque ela valia o que fazia. Era um sistema econômico perfeitamente laissez-faire, bem conhecido no pedaço, apesar de Melinda jamais na vida ter votado nos republicanos.

— Esse vinho é muito bom — observou, depois de tomar um gole.

— Obrigado. Tento ser um bom anfitrião. — Ele acenou com um gesto cortês para um sofá de couro, e Melinda sentou, colocando a bolsa do lado esquerdo, mas deixando o zíper aberto.

— Prefere receber sua remuneração agora?

— Sim, se você não se importar.

— De modo algum. — Ele enfiou a mão no bolso de trás e puxou um envelope, que entregou a ela. Dentro, estavam vinte notas de 100 dólares, o que dava conta do programa pelo resto da noite. Talvez até mais, se ele ficasse particularmente satisfeito com o desenrolar das coisas.

— Posso perguntar seu nome? — disse ela.

— Você vai rir, mas meu nome é mesmo John. Isso acontece, sabe?

— Isso é ótimo, John — respondeu com um sorriso que derreteria o para-choque de um Chevy 1957. Ela colocou a taça na mesa. — Então... — E seu trabalho começou.

 

Três horas mais tarde Melinda havia tomado sua ducha e escovado os cabelos. Era parte da sua rotina pós-sexo, fazer o cliente sentir como se tivesse tocado sua alma. Mas isso era impensável para a maioria dos homens, e muito mais ainda para o cliente daquela noite. Também tirou o cheiro que ele espalhou sobre ela. O odor era vagamente familiar, embora ela não conseguisse se lembrar de onde. Algo levemente medicinal, considerou, deixando o pensamento de lado. Provavelmente pé de atleta ou coisa assim. Ereto e alto, ele não era feio de se ver. Italiano, talvez. Do Mediterrâneo ou do Oriente Médio, com certeza. Havia muitos desses por ali, e seus modos certamente indicavam que ele não batalhava duro por seu dinheiro.

Ela terminou de se vestir e saiu do banheiro sorrindo como uma coquete.

— John — disse com sua voz mais sincera —, foi maravilhoso. Espero que possamos repetir isso mais vezes.

— Você é muito doce, Melinda — respondeu John, e depois a beijou. Na verdade ele beijava muito bem. E mais ainda depois de lhe entregar outro envelope com mais vinte notas de 100 dólares. Por elas, ganhou um abraço.

Isso pode virar alguma coisa, pensou. Talvez, só talvez, se ela tivesse feito o serviço direito, fosse novamente convidada. Clientes ricos e exclusivos eram o melhor tipo.

 

— Ela foi adequada? — perguntou Tariq depois de ter deixado Melinda.

— Bastante — disse o Emir, reclinando-se no sofá. Na verdade, mais do que adequada, pensou. — Uma grande melhoria em relação à primeira.

— Minhas desculpas por aquele erro.

— Não precisa se desculpar, meu amigo. A nossa situação é única. Você estava sendo cuidadoso, como espero que sempre seja.

A outra mulher, Trixie, fora mal-educada e expedita demais na cama, mas esses eram traços que o Emir podia perdoar. Se não tivesse feito tantas perguntas, sido tão curiosa, teria voltado tranquilamente para sua esquina, onde continuaria a levar sua vida patética — sua única punição seria deixar de ser chamada de volta. Infelizmente, mas necessário, pensou o Emir. E uma lição necessária. Trazer Trixie diretamente para a casa fora um equívoco, que ele fizera Tariq corrigir alugando o apartamento, que serviria de escudo caso fosse necessário liquidar outra vagabunda.

— Algo mais antes de eu dormir? — perguntou. Eles passariam a noite ali antes de voltar para a casa. Carros indo e vindo durante a noite tendiam a atrair a atenção de vizinhos fofoqueiros.

— Sim, quatro pontos — respondeu Tariq, sentando na cadeira em frente. — Um: Hadi já está de volta a Paris. Ele e Ibrahim se encontrarão amanhã.

— Você revisou o pacote de Hadi?

— Sim. Quatro instalações parecem promissoras. Nosso agente trabalhou em cada uma delas nos últimos dois anos, e parece que a segurança mudou dramaticamente em apenas uma delas.

— Paulínia?

— Correto.

Isso fazia sentido, pensou o Emir. A instalação da Petrobras tinha sido designada para receber o novo influxo, o que por sua vez exigia novas construções — e isso, ele sabia, era onde residia a vulnerabilidade. Já tinham visto isso acontecer em Riad nos anos 1970 e 1980, um déficit de pessoal de segurança competente e treinado que acompanhasse o ritmo da expansão. Era o preço da cobiça.

— Vai demorar um ano até a segurança deles ficar perfeita.

— Você provavelmente está certo, mas não vamos esperar para verificar isso. Recrutamento?

— Ibrahim está quase pronto — concluiu Tariq. — Seu relatório diz que terá tudo pronto em duas semanas. Propôs que Hadi fosse recrutado para a equipe.

O Emir considerou o assunto.

— O que você acha?

— Hadi é confiável, isso nós sabemos, e não há dúvidas sobre sua lealdade. Tem um pouco de treinamento de campo, mas pouca experiência além do que fez no Brasil, o que foi sólido. Se Ibrahim acha que ele está pronto, tendo a concordar.

— Muito bem. Transmita minha bênção a Ibrahim. O que mais?

— Uma atualização da mulher. O relacionamento está bem-estabelecido e ela faz progressos, mas não acha que ele esteja pronto para a fisgada.

— Ela previu algum prazo?

— Três a quatro semanas.

O Emir projetou mentalmente a informação em um calendário. A informação dela era crucial. Sem isso, ele teria que considerar o adiamento por mais um ano. Mais um ano para que os americanos aperfeiçoassem suas redes e para que línguas se soltassem. E para que alguém em algum lugar tivesse sorte e topasse com o fio que desenrolasse toda a meada.

Não, decidiu, tinha que ser naquele ano.

— Diga a ela que esperamos no máximo três semanas. O que mais?

— A mensagem de Nayoan em São Francisco. Seus homens estão no lugar esperando ordens.

Da miríade de partes e peças do Lótus, a de Nayoan se confirmara como sendo a mais fácil, pelo menos nas fases de infiltração e preparação. Era relativamente fácil conseguir vistos de estudante, e mais fácil ainda conseguir alguém na posição de Nayoan. Além do mais, ignorantes como eram os americanos sobre o mundo fora de suas fronteiras, os indonésios eram vistos simplesmente como asiáticos ou “orientais”, e não como membros da maior concentração de muçulmanos do planeta. Intolerância e estreiteza mental, pensou o Emir, eram armas que o CRO ficava muito feliz em usar.

— Ótimo — disse o Emir. — Amanhã revisaremos novamente os alvos. Se for preciso fazer mudanças, melhor fazer logo. O que mais?

— Último ponto. O senhor viu as notícias sobre a embaixada em Trípoli?

O Emir assentiu.

— Negócio idiota. Um desperdício.

— Quem planejou foi um dos nossos.

O Emir sentou, seus olhos endurecidos.

— Como é?

Oito meses antes havia sido passada a mensagem a todos os membros do CRO em nível de célula que todas as missões estavam proibidas até aviso posterior. A operação atual era muito delicada, muito intrincada. Operações menores — a maioria fracassos com pequenas baixas — tinham seu lugar na criação da ilusão de desorganização e de que as coisas continuavam como antes, mas uma coisa dessas...

— Qual o nome dele?

— Dirar al-Kariim.

— Não me lembro.

— Jordaniano. Recrutado na mesquita de Hussein, em Amã, há três anos. Um soldado, nada mais. A mesma missão tinha sido proposta ano passado pelo nosso pessoal em Benghazi, e nós declinamos.

— Quantos mortos?

— Seis a oito dos nossos. Nenhum do outro lado.

— Graças a Deus por isso. — Sem reféns mortos, a imprensa ocidental logo esqueceria, e frequentemente as agências de inteligência seguiam na direção apontada pela imprensa. Era o preço de se empenhar na sua “guerra global contra o terror”. Pareciam o proverbial holandesinho com o dedo enfiado no dique.

— Sabemos quem ele recrutou?

— Estamos investigando. Também não sabemos se alguém sobreviveu ao ataque, salvo o próprio al-Kariim — acrescentou Tariq. — De fato, ele sequer participou.

— Imbecil! Então esse... esse nada planeja uma missão sem nossa aprovação, estraga tudo e não tem o bom senso ou a honra de morrer na tentativa... Sabemos onde ele está?

— Não, mas não deve ser difícil saber. Especialmente se estendermos a mão. Deve estar fugindo, procurando abrigo.

O Emir assentiu pensativamente.

— Ótimo. Faça isso. Ofereça a ele o ramo de oliveira, mas à distância. Mande Almasi cuidar da situação.

— E quando o tivermos em mão?

— Faça dele um exemplo para os demais.