Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 41 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 41

 

Será que foi um erro?, perguntou-se o Emir. As coisas raramente eram perfeitamente claras nesse nível de responsabilidade operacional. O país-alvo era irrelevante, na verdade, mas o alvo em si tinha grande significado, ou significado potencial. Os efeitos do ataque se espalhariam como ondas em um lago, logo batendo nas margens do alvo real.

Entre todas as suas preocupações sobre a operação atual, nada havia em relação ao comandante no terreno. Ibrahim era ambicioso, mas também cuidadoso e minucioso, e mantinha sua equipe pequena e bem-organizada em todos os detalhes. Mas a verdade é que o verdadeiro teste aconteceria quando o plano se tornasse operacional, e essa era a decisão que ele enfrentava agora. A escolha do momento era tudo, assim como a habilidade de focar no “quadro geral”, como diziam os americanos. Havia uma quantidade de peças se movimentando pelo tabuleiro, e cada uma delas tinha que seguir na direção certa e no ritmo correto, para que nenhuma fosse surpreendida sozinha e sem apoio. Se isso acontecesse, o restante desabaria em seguida, e a Lótus entraria em colapso. E ele certamente morreria sem vê-la desabrochar. Caso ele movesse rápido demais, sua vida poderia terminar antes do florescimento. Se fosse muito devagar, o resultado seria o mesmo.

Assim ele deixaria Ibrahim continuar com seu reconhecimento do lugar, mas iria segurar a aprovação final para a operação até saber da disposição das outras peças.

E se Ibrahim tiver sucesso?, pensou. O que aconteceria então? Será que esse Kealty reagiria como esperavam? O perfil que tinha dele — codinome CASCADE — parecia dar a certeza disso, mas o Emir havia muito aprendera a desconfiar dos caprichos da mente humana.

CASCADE... “cascata”, um título adequado. Ele achava o nome e o conceito por trás bastante divertidos. Certamente as agências de inteligência do Ocidente também tinham perfis psicológicos dele — na verdade, ele já lera um —, de modo que achava muito interessante basear amplamente sua operação mais ambiciosa em um perfil feito por eles mesmo.

Kealty era um político consumado, o que na política americana era tido como sinônimo de líder. Como e quando começara essa bobagem ele não sabia. Nem se importava. O povo americano escolhia por conta própria o político que conseguia se retratar da maneira mais hábil como líder, jamais se perguntando se essa imagem combinava com o caráter por trás. CASCADE dizia que não, e o Emir concordava. Pior ainda — ou melhor ainda, dependendo da perspectiva —, Kealty havia se cercado de sicofantas e puxa-sacos que nada faziam para melhorar suas credenciais.

Então, o que acontecia quando um homem de caráter fraco se defronta com uma cascata de catástrofes? Ele se desintegra, é claro — e com ele, o país.

 

Tal como prometido, o barco fretado os esperava. O capitão, um pescador local chamado Pyotor Salychev, sentado em uma cadeira de jardim no final do cais de madeira deserto, fumava seu cachimbo. Balançando na água escura e fria estava uma traineira de 12 metros de boca, fabricada pelo estaleiro inglês Halmatic. Salychev resmungou quando se levantou.

— Está atrasado — disse, depois saiu do cais e entrou no convés.

— Tempo ruim — respondeu Adnan. — E você, está pronto?

— Se não estivesse, não estava aqui.

Durante suas primeiras negociações, Salychev fizera poucas perguntas sobre quem eram e por que queriam ir até a ilha, mas Adnan, fazendo o papel de ecologista fanático, dera várias dicas durante a conversa. Grupos de vigilância ecológica há muito iam até lá para documentar as destruições da Guerra Fria, respondeu Salychev, dando de ombros. Enquanto pagassem e não colocassem ele ou seu barco em risco, levava feliz da vida qualquer um até aquele lugar esquecido por Deus.

— Não é da minha conta a estupidez — dissera a Adnan.

— É menor do que eu pensava — disse Adnan, olhando o barco.

— Você esperava encontrar algum cruzador? O barco é suficientemente resistente. Uma das poucas coisas boas feitas pelos ingleses, esse Halmatic. Coloco na rota e ele dispara. Se preocupe com você mesmo. Então, vamos, desatracamos em dez minutos.

O restante dos homens de Adnan terminou de descarregar o equipamento do caminhão, depois se apressaram para o cais e começaram a carregar o barco, enquanto Salychev gritava ordens sobre onde e como colocar cada coisa no lugar certo. Depois de verificar que tudo estava em ordem, Salychev soltou as amarras, deu um empurrão no cais e soltou o Halmatic. Segundos depois, estava na casa do leme, ligando o motor. Com um bafo de fumaça negra saindo pelo escapamento, o motor a diesel rugiu e a água começou a fervilhar na proa.

— Próxima parada — gritou Salychev por cima do ombro —, inferno.

 

Duas horas mais tarde, o promontório do sul da ilha apareceu através da neblina na amurada de estibordo. Adnan estava parado no meio do convés, observando o litoral pelos binóculos. Salychev havia lhe assegurado de que as patrulhas militares não seriam problema, e Adnan não via nenhuma.

— Estão por aí — disse ele, da cabine do piloto —, mas não são muito brilhantes. Você pode acertar o relógio por eles. Mesmas rotas de patrulhamento, todos os dias na mesma hora.

— E quanto ao radar?

— Onde?

— Na ilha. Ouvi dizer que existe uma base aérea...

Salychev soltou uma risadinha.

— O quê, você está se referindo a Rogachevo? Na verdade, não existe mais. Não há dinheiro suficiente. Antes ali havia um regimento de caças, o 641º, acho, mas hoje em dia só há alguns aviões de carga e helicópteros. Quanto aos barcos-patrulha, eles têm uns instrumentos de navegação vagabundos e, como disse, são bem previsíveis. Quando estivermos perto da praia, já estaremos a salvo. Como você pode imaginar, eles querem manter distância.

Adnan podia perceber o motivo. Enquanto seus homens pouco sabiam sobre a natureza da missão, Adnan recebera instruções completas.

Novaya Zemlya era realmente um inferno na terra. Segundo o último censo, a ilha era o lar de 2.500 pessoas, a maioria das etnias nenets e avars, que moravam na comunidade de Belushya Guba. A ilha propriamente dita na verdade eram duas — Severny ao norte, e Yuzhny ao sul —, as duas separadas pelo estrito de Matochkin.

Era realmente uma pena, pensou Adnan, que o mundo inteiro só lembrasse de Novaya Zemlya por sua história na Guerra Fria. Os russos e os europeus a conheciam desde o século XI, inicialmente pelos mercadores de Novgorod, depois por uma corrente contínua de exploradores — Willoughby, Barents, Liitke, Hudson... Todos a visitaram centenas de anos antes de a ilha ser anexada pelos soviéticos em 1954, rebatizada de Campo de Testes de Novaya Zemlya, e dividida em zonas: A, Chyornaya Guba; B, Matochkin Shar; e C, Sukhoy Nos, onde a bomba de 50 megatons chamada de Bomba Tsar foi detonada em 1961.

Enquanto funcionou, Novaya Zemlya foi o local de mais de trezentas explosões nucleares, a última das quais em 1990. Desde então, o lugar se tornara muitas coisas para muitas pessoas — uma curiosidade, uma tragédia, uma recordação sombria... Mas para o governo russo carente de dinheiro, a ilha se transformara numa lixeira, um lugar onde abandonavam suas abominações.

Como era mesmo a frase americana?, perguntou-se Adnan. Ah, sim... O lixo de um é o tesouro de outro.

 

Eles estavam interessados na nova linha, percebeu Cassiano. Onde cruzava as estradas, quantos pilares de suporte por quilômetro... Um pedido interessante, e é claro que ele faria o melhor possível para conseguir a informação.

Também estavam interessados em trens, o que o intrigava. Era verdade que os trens entravam e saíam diariamente, mas sua entrada nas instalações era estritamente limitada e monitorada. Se buscassem acesso à instalação, havia modos mais fáceis. Talvez essa fosse a resposta. Não estavam interessados nos trens como meio de infiltração, mas sim como instrumentos de medição. A produção da instalação era um segredo bem-guardado, mas, se os trens que entravam e saíam fossem monitorados e suas especificações conhecidas, podia-se fazer uma boa avaliação sobre os níveis de produção.

Bem esperto, pensou. E batia com o que conhecia sobre seus novos empregadores. A competição era uma coisa saudável, disseram-lhe, e nada podia ser feito sobre campos de petróleo recém-descobertos. O que podia ser controlado, entretanto, eram os preços e a capacidade de produção, que era o que ele suspeitava que seus empregadores pretendiam fazer. As nações da OPEP (nações islâmicas) haviam sido as maiores produtoras de petróleo por décadas e décadas, e se Cassiano pudesse ajudar a manter essa supremacia, faria isso com felicidade.