Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 76 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 76

 

O incêndio fora magnífico, pensou Shasif Hadi. Mesmo a 5 quilômetros de distância, o céu acima da copa das árvores brilhava quase como o sol. E então vieram as explosões, grandes cogumelos de chamas e de fumaça negra ascendendo silenciosamente para o céu, seguidas alguns segundos depois por um rugido tão forte que Hadi conseguiu senti-lo subindo pela estrada, através dos pneus do carro, e sacudindo o assento. Através de nós quatro, pensou Hadi, a mão de Alá atacou e destruiu aquela refinaria.

Após instalar as cargas, fizeram como Ibrahim instruiu e caminharam um a um de volta pelo oleoduto até o bosque onde trocaram os macacões. Sem maiores explicações, Ibrahim ordenou:

— Corram! — E saiu disparado. Estavam a 200 metros do portão de gado quando a primeira carga disparou.

Olhando pela janela traseira do carro, Hadi observou a explosão sincopada das válvulas, seguida pela explosão da carga maior e depois nada por mais 110 segundos, salvo pela sirene Klaxon de alarme da refinaria. Equipes de resposta de emergência provavelmente teriam alcançado o oleoduto destroçado quando a carga final inflamou o etanol que se espalhava como uma onda da maré pelo complexo. Esses homens provavelmente morreram instantaneamente. Uma morte quase indolor, era o que Hadi esperava. O Brasil era um país principalmente cristão, o que o tornava inimigo do islã, mas isso não significava que não merecessem compaixão. Se sofressem, era a vontade de Alá; se perecessem rapidamente, também seria a vontade de Alá. De qualquer modo, ele e os demais tiveram sucesso na missão.

Uma vez no portão, dirigiram a picape para o meio das árvores, depois voltaram para o Volkswagen e saíram, fechando o portão atrás deles. Cerca de noventa segundos depois estavam de volta ao carro de Hadi. Prosseguindo com o plano, Hadi seguiu Ibrahim e os demais até onde Fa’ad deixara seu carro, numa estrada de terra a alguns quilômetros dali. Quando chegaram lá, Ibrahim saiu e acenou para que Hadi fosse até ele.

— Esquecemos de levar em conta um detalhe significativo — disse-lhes Ibrahim. — O vento.

— Não compreendo — disse Ahmed.

Ibrahim apontou para o oeste, na direção da refinaria. As chamas alcançavam agora centenas de metros, e estavam encimadas por um teto de fumaça negra e espessa. Enquanto observavam, podiam ver a fumaça se deslocando ao vento na direção sudeste.

— Está indo na direção de São Paulo. Logo fecharão o aeroporto, se já não fecharam.

— Ele está certo — replicou Hadi. — Ainda assim, de todos os erros que poderíamos ter cometido, esse é o que menos me preocupa. Se conseguirmos escapar, muito bem. Se não, morremos sabendo que cumprimos nosso dever.

Fa’ad soltou um risinho e falou:

— Você tem razão, é claro, mas prefiro estar vivo para ver o resultado de nossos esforços. Que Alá perdoe minha vaidade.

— O que tiver que ser, será — declarou Ibrahim. — Ainda temos uma oportunidade. Vocês conhecem a rota alternativa. — Verificou o relógio. — Nos encontraremos amanhã ao meio-dia, no Jardim Botânico do Rio. Se, por alguma razão, alguém se atrasar, nos encontraremos na localização secundária, quatro horas mais tarde. Boa sorte.

 

Apesar de nenhum dos dois ter dormido mais que duas horas antes de deixar o aeroporto, o horário de embarque do voo, aquele ponto entre a madrugada e o amanhecer, deixava ambos agitados. A boa notícia era que não acharam assentos na classe econômica, de modo que viajavam na primeira classe por conta do Campus. E o café também não era tão ruim.

— Sabe, ainda não saquei a coisa, John — disse Jack.

— Como assim? — replicou Clark.

— Esses dois que estamos procurando... o irmão e a irmã. Mal saíram da adolescência. O que os leva a virem para outro país e matar pessoas que jamais conheceram?

— Antes de qualquer coisa, não sabemos de nada além do fato de terem entrado com passaportes falsos.

— Talvez sim, mas as chances indicam que não vieram para jogar vôlei.

— Concordo. Mas eu sempre disse que, nessa nossa linha de trabalho, é melhor esperar para ver como são as coisas. Palpites podem ser muito convenientes, mas também podem matar.

— Sei.

— Mas, para responder sua pergunta, não acho que exista uma resposta. Pelo menos não uma resposta simples. O que você está perguntando é: como são feitos os terroristas? Pobreza, desesperança, fervor religioso equivocado, a necessidade de sentir que faz parte de algo maior que você mesmo... Pode escolher.

— Droga, John, assim você quase soa condescendente.

— E sou. Até o ponto em que essas motivações levam alguém a pegar uma arma ou preparar uma bomba. Daí em diante, as apostas se anulam.

— E então o quê? Você simplesmente desliga a empatia?

— Isso é com você, Jack, mas parte desse tipo de trabalho é a disposição para usar antolhos. Lidar com o que está diante de você. Todo terrorista tem mãe e pai. Talvez filhos, talvez pessoas que o amam. Droga, em seis de cada sete dias ele pode ser um cidadão decente, mas naquele dia que decide pegar uma arma ou plantar uma bomba passa a ser uma ameaça. E, se você for o sujeito que está entre ele e vidas inocentes, é só com essa ameaça que deve se preocupar. Percebe o que estou dizendo?

Jack assentiu.

— Sim, acho que sim. — Mesmo que no mundo real existam graduações de cinza, quando chega a hora da verdade, só há espaço para o preto ou branco. Jack sorriu e brindou Clark com sua xícara de café. — Você é um sábio, John.

— Obrigado. Quando se envelhece, fica-se mais esperto. Pelo menos é assim que se supõe que funciona. Mas sempre existem exceções. Seu pai, por exemplo. Ele é sábio para além da idade. Soube disso logo que o conheci.

— É, quando foi isso?

— Boa tentativa, Jack. Você já conversou com ele?

— Sobre o Campus? Sim, quando voltávamos de Andrews. No começo ele ficou puto da vida, mas depois a coisa ficou melhor do que eu esperava.

— Me deixe adivinhar: ele quer ser quem vai contar para sua mãe?

Jack assentiu.

— E cá entre nós, fiquei bem contente. Meu pai é um filho da mãe durão, mas minha mãe... Ela tem aquele olhar... Aquele olhar que só uma mãe tem, sabe?

— Ã-hã.

Ficaram em silêncio por algum tempo, bebericando o café.

— Ando pensando sobre o Dom — disse Jack.

— Ele vai sair dessa. Mas você tem que lembrar que, salvo talvez por você, a transição dele foi a mais difícil. Era um agente do FBI e se transformou em espião. De uma agência que trabalha com regras e regulamentos para uma corretora falsa que caça bandidos à margem da lei. E agora isso com Brian... — Clark deu de ombros. — Não importa o jeito como você olha, é uma merda.

— Só estou pensando se não é cedo demais para ele voltar à ativa.

— Ding não acha, e para mim isso é o suficiente. Para Gerry também. Além do mais, somos apenas quatro e há muita coisa a cobrir. — Clark sorriu. — Droga, lembre com quem ele está. Eu confiei minha filha a esse sujeito, Jack, e nunca lamentei isso. Ele vai garantir que Dom atravesse bem essa etapa.

 

Apesar de separados por menos de 600 quilômetros, tanto Raharjo Pranata quanto Kersen Kaseke havia semanas seguiam virtualmente a mesma rotina: ir para a escola, não despertar atenção e aguardar ordens. As de Pranata chegaram apenas horas depois das de Kaseke, durante a verificação final diária. Ele ficou tão surpreso ao ver o arquivo de texto na caixa de entrada do site de armazenamento que errou a primeira tentativa de decodificar a mensagem.

O local que escolheram para ele estava a menos de 1 quilômetro de seu apartamento. Ele passava por ali quase todos os dias. Ao se tratar de um alvo, era quase ideal: grande o suficiente para acomodar centenas de pessoas, e cercado de edifícios por todos os lados. O horário do ataque também fazia sentido. Pranata vira cartazes anunciando o evento por toda a cidade, apesar de não ter prestado muita atenção nos detalhes. Uma inauguração de alguma coisa. Uma estátua ou fonte. Não que isso importasse.

Dos três alvos que lhe disseram para preparar, esse era o que oferecia maior potencial para enormes baixas. Como era mesmo o ditado? Pescar em balde?

O mapa que usou na preparação foi fácil de obter, e vários deles foram adquiridos no centro de visitantes da cidade. O mapa topográfico ele baixara de um site popular de caminhadas, e, apesar de ele não ter o menor interesse nas trilhas locais, as elevações e as distâncias estavam claramente marcadas, e um passeio pela cidade com seu GPS portátil confirmou a precisão.

Uma vez que assegurou ter todos os dados necessários, simplesmente inseriu os números na equação adequada e copiou os parâmetros.

Agora vinha a parte difícil: esperar. Passaria o tempo treinando montar e desmontar seu equipamento.

 

O segundo dia de viagem de Musa foi relativamente curto, levando-o de Toppenish, em Washington, até Nampa, em Idaho, cujo único atributo digno de nota, segundo uma placa na entrada, era que aquela não apenas era a maior cidade do Canyon County, Idaho, com uma população de 72.249, como era a que crescia mais rapidamente. Outra placa na estrada, menos de 100 metros distante da primeira, proclamava também que Nampa era “um ótimo lugar para viver!”.

Quando planejara sua rota desde Blaine, Musa decidira que suas paradas para dormir deveriam ser em cidades de médio porte — nem tão grandes que a força policial fosse agressiva ou particularmente bem-treinada, nem tão pequenas, para que a chegada de um estranho de pele escura provocasse curiosidade indevida. Toppenish, com uma população de apenas 8 mil, poderia se classificar na última categoria, se não fosse por sua proximidade com Yakima. É claro, seu encontro com Willie, o enxerido chefe de polícia de Toppenish, havia plantado uma semente de dúvida na mente de Musa. A situação não tinha evoluído, é claro, e isso não aconteceria, mesmo que o policial o questionasse mais. Tal como a documentação falsa que ele havia mostrado ao inspetor da alfândega em Vancouver, Musa estava agora munido de cartões de visita, papel timbrado e formulários com o carimbo da Universidade de Nevada, Las Vegas. Sua cobertura era essencialmente a mesma: um proprietário de cavalos rico e neurótico de Bellingham, que não confiava no equipamento de raios X do veterinário local.

A tarde já avançava quando ele saiu da rodovia 84/30 e entrou no estacionamento do Fairfield Inn & Suites. Desligou a ignição, depois abriu o mapa de viagem que estava no banco de passageiros. Ele não tinha escrito nada nem feito marcações. Não havia necessidade; ele sabia a rota e as distâncias de cor.

São 965 quilômetros pela frente, pensou Musa. Se desejasse, poderia começar cedo no dia seguinte e provavelmente cobrir a distância que faltava para Beatty, em Nevada, em um dia. Era tentador, mas decidiu não fazer isso. O Emir fora bem específico em suas ordens. Ele seguiria o cronograma.