Morto ou Vivo
Capítulo 37
Hora de arrumar um novo emprego, disse Clark a si mesmo depois do desjejum. Havia ligado e acertado a chegada para as dez e meia, depois despertou Chavez e os dois se encontraram no carro às nove e meia.
— Bem, vamos ver quanto pagam — observou Ding. — Estou pronto para ficar impressionado.
— Não fique lá muito animado — avisou Clark enquanto ligava o carro. — Droga, nunca esperei ganhar 100 mil por ano quando comecei em Langley. Meu salário inicial foi 95 mil.
— Bem, o sujeito disse que os benefícios adicionais funcionam muito bem, e vi todos aqueles carrões no estacionamento. Deixo você levar a conversa — sugeriu Chavez.
— É, você só fica lá sentadinho com cara de mau. — John se permitiu uma risada.
— Você acha que eles realmente querem que eliminemos pessoas?
— Acho que vamos ter que descobrir isso.
O trânsito na American Legion Bridge não estava muito ruim, com a hora do rush chegando ao fim, e logo se dirigiram para o norte pela US 29.
— Você já decidiu o que fazer a respeito da minha cagada?
— Sim, acho que sei. Vamos nos enfiar de vez nisso, Ding... bem mais fundo do que fomos antes. Então, vamos logo até o final. Entregamos a coisa para eles e veremos o que conseguem tirar de lá.
— Muito bem. E esse tal de Hendley... o que sabemos sobre ele?
— Senador pela Carolina do Sul, democrata, atuava no Comitê de Inteligência. Lá em Langley gostavam dele; esperto, direto. Ryan também gostava do sujeito. Hendley perdeu a família num acidente de carro. Esposa e dois rapazes, acho. É muito rico. Assim como Ryan, fez uma pilha de dinheiro com negociação de ações. É bom em enxergar o que os outros não conseguem.
Os dois estavam adequadamente vestidos, com ternos decentes que compraram em Londres enquanto estavam na Rainbow, gravatas Turnbull & Asser, e belos sapatos engraxados. Na verdade, engraxar os sapatos era algo que Chavez ainda fazia todos os dias, lembrança de seus tempos no Exército, enquanto Clark precisava ser lembrado disso de vez em quando.
Estacionaram no espaço para visitantes e entraram. Ernie Chambers ainda cuidava da portaria.
— Olá, estamos aqui de novo para ver o Sr. Davis.
— Sim, senhor. Por favor, sentem enquanto ligo lá para cima.
Clark e Chavez sentaram, e John pegou um número atual da revista Time. Tinha que se acostumar a ler as notícias com quatro dias de atraso. Davis apareceu no saguão.
— Obrigado por voltarem. Queiram me acompanhar.
Dois minutos depois, os três estavam no escritório de Tom Davis, com vista para a zona rural de Maryland.
— Então, estão interessados? — perguntou Davis.
— Sim. — respondeu Clark pelos dois.
— Muito bem, ótimo. Regras: primeiro, o que acontece aqui fica aqui. Este lugar não existe, e muito menos qualquer atividade que possa ou não acontecer aqui.
— Sr. Davis, nós dois sabemos o que é guardar segredos. Nenhum de nós fala muito, e não contamos historinhas por aí.
— Terão que assinar mais um conjunto de acordos de confidencialidade. Não podemos obrigá-los a nada legalmente, mas podemos tirar todo o dinheiro de vocês.
— Devemos mostrar esses papéis para nossos advogados particulares revisarem?
— Se quiserem, podem. Não há nada comprometedor nos contratos, mas depois podem rasgar tudo. Não podemos permitir advogados especulando sobre o que fazemos aqui. Nem tudo, falando estritamente, é legal.
— Quanta viagem? — perguntou John em seguida.
— Menos do que estão habituados, acho. Ainda estamos revisando isso. Por enquanto passarão a maior parte do tempo aqui, examinando dados e planejando operações.
— Fontes dos dados?
— Principalmente Langley e Fort Meade, mas garimpamos um pouco do FBI, da Imigração e Alfândega, do DHS... Esses tipos de lugares. Temos uma equipe técnica muito boa. Vocês provavelmente notaram aquele ouriço no nosso teto.
— Sim.
— Somos o único edifício em uma linha direta da CIA com a NSA. Eles trocam dados por micro-ondas, e nós baixamos todas as transmissões interagências. É assim também que fazemos as transações financeiras. A NSA fica de olho nos bancos nacionais e estrangeiros. E também podem entrar nos sistemas de computadores dos bancos e em suas comunicações internas.
— O que você disse outro dia sobre nosso trabalho...
— Até agora fizemos uma única operação, as quatro pessoas que mencionei ontem. A verdade é que estávamos um tanto curiosos sobre o que poderia acontecer. De fato, não aconteceu muita coisa. Talvez tenhamos coberto nossos rastros muito bem. Todas as mortes pareceram ser resultados de ataques cardíacos, as vítimas foram publicadas e todos os relatórios de autópsia declararam “causas naturais”. Achamos que a oposição comprou a história e seguiu em frente. O quarto, MoHa, nos deixou um laptop com chaves de criptografia, então estamos lendo agora alguns de seus e-mails internos; ou estávamos, até recentemente. Parece que trocaram seus protocolos de comunicação semana passada.
— Assim do nada? — perguntou Clark.
— Sim. Interceptamos um anúncio de nascimento. Grande lista de distribuição. Dentro de horas, tudo silenciou.
— Trocando de canais — disse Chavez.
— Sim. Estamos trabalhando numa pista que pode nos levar de volta.
— Quem mais estará operando como nós?
— Vocês os conhecerão no devido tempo — prometeu Davis.
— E o pagamento?
— Podemos começar com vocês a 250 mil por ano. Vocês podem participar do plano de investimentos do escritório com quanto quiserem de seu salário. Já lhes contei sobre nossa taxa de retorno. Também pagamos por gastos educacionais razoáveis para as crianças. Até um Ph.D. ou graduação profissional. Esse é o limite.
— E se minha mulher quiser voltar para a faculdade de medicina para algum estudo adicional? Ela é clínica geral, mas pensa em se aperfeiçoar em obstetrícia/ginecologia.
— Isso nós cobrimos.
— E se ela perguntar o que faço aqui, o que respondo?
— Consultoria de segurança para uma grande corretora de valores. Sempre funciona — assegurou Davis. — Ela deve saber que você trabalhava para a Agência.
— É filha dele. — Chavez apontou para Clark.
— Então ela compreenderá, não é? E sua esposa, Sr. Clark?
— Pode me chamar de John. Sim, Sandy conhece a receita. Talvez agora ela possa dizer qual é o meu trabalho verdadeiro — acrescentou com um sorrisinho.
— Então, que tal conhecerem o chefe?
— Por nós, tudo bem — disse Clark pelos dois.
— Os perdões são verdadeiros — assegurou-lhes Hendley alguns minutos depois. — Quando Ryan me vendeu a ideia de montar este lugar, disse que seria necessário proteger o pessoal de campo quando os mandássemos para a rua, de modo que assinou cem. Nunca tivemos que usar nenhum, mas são uma apólice de seguro caso se tornem necessários. Alguma coisa sobre a qual tenham curiosidade e que Tom não tenha explicado?
— Como os alvos são selecionados? — perguntou Clark.
— Vocês farão parte do processo na maioria dos casos. Temos que ser cuidadosos na escolha das pessoas que queremos despachar.
— Também escolhemos os métodos? — perguntou Clark delicadamente.
— Você já lhes contou sobre as canetas? — Hendley dirigiu-se a Davis.
— Esse é um dos métodos que usamos. — Davis levantou uma caneta de ouro. — Injeta aproximadamente 7 miligramas de sucinilcolina. É um sedativo usado em procedimentos cirúrgicos. Interrompe a respiração e os movimentos musculares voluntários. Mas não o coração. Você não pode se mexer, não pode falar e não pode respirar. O coração continua batendo por mais ou menos um minuto, mas é privado de oxigênio, de modo que na necropsia a morte aparece como causada por ataque cardíaco. Evidentemente parece mesmo com isso.
— Reversível? — perguntou Clark.
— Sim, se a vítima for levada imediatamente a um respirador. A droga se dissolve, se metaboliza, em aproximadamente cinco minutos. Não deixa traços, a menos que a vítima seja necropsiada por um patologista realmente especialista que saiba o que está procurando. A coisa é quase perfeita.
— Fico surpreso pelos russos não terem aparecido com algo parecido com isso.
— Certamente tentaram — respondeu Davis. — Mas a sucinilcolina não chegou aos hospitais deles, suponho. Conseguimos isso de um médico amigo da Faculdade de Medicina e Cirurgia da Columbia, que tinha um ajuste pessoal a ser feito. Seu irmão, um corretor sênior com a Cantor Fitzgerald, morreu no 11 de Setembro.
— Impressionante — disse Clark, examinando a caneta. — Poderia ser também um bom instrumento de interrogatório. Seria difícil achar um freguês que quisesse passar duas vezes por essa experiência.
Davis passou a caneta para ele.
— Não está carregada. Você gira a extremidade e muda a ponta. Escreve perfeitamente bem.
— Bem bolado. Bem, isso responde a uma pergunta. Mas poderemos usar meios mais convencionais?
— Apenas se, e na medida em que, a missão o exija — confirmou Davis assentindo. — Mas para nós sempre se trata de não deixarmos rastros, de modo que devem manter isso no fundo da mente.
— Entendido.
— E quanto a você, Sr. Chavez? — perguntou Hendley.
— Senhor, sempre tento escutar e aprender — respondeu Ding ao chefe.
— Ele é tão esperto assim, John? — perguntou o ex-senador.
— Na verdade é ainda mais. Nós trabalhamos bem juntos.
— É disso que precisamos. Bem-vindos a bordo, cavalheiros.
— Mais uma coisa — disse Clark. Tirou o pen drive de Ding do bolso e o colocou sobre a mesa. — Tomamos isso de um dos bandidos em Trípoli.
— Percebo. E por que está em cima da minha mesa?
— Uma distração — respondeu Clark. — Pode chamar de “efeito da idade”. Acho que podemos devolvê-lo para os suecos ou para Langley, mas suspeito que aqui teremos chances de fazer melhor uso disso.
— Já olhou o que há aí?
— Imagens em formato JPEG, cerca de uma dúzia. Para mim, pareciam fotos de férias, mas quem sabe — respondeu Chavez.
Hendley considerou a questão, depois assentiu:
— Muito bem, vamos dar uma olhada. Tom, temos um escritório para os dois?
— Lá embaixo com os garotos Caruso.
— Ótimo. Deem uma olhada por aí, rapazes, e nos veremos amanhã cedo.
Hendley se levantou, encorajando os demais a fazer o mesmo. Davis se encaminhou para a porta, seguido por Chavez e Clark.
— John, pode ficar mais um instante?
— Claro. Ding, alcanço você depois.
Quando ficaram a sós, Hendley disse:
— Você já circulou por essas áreas por muito tempo, John. Gostaria de revisar com você alguns pontos.
— Diga.
— Somos bem novos nisso, em todo esse conceito, de fato que muito disso é tentativa de acerto e erro. E começo a achar que nosso fluxo de trabalho está um tanto complicado.
Clark deu uma risadinha.
— Sem ofensa, Gerry, mas quando você usa palavras como fluxo de trabalho num negócio desses, algo me diz que você tem razão. Como é a linha de comando?
Hendley descreveu a estrutura organizacional do Campus, e Clark disse:
— Parece com Langley. Escute, o trabalho de inteligência é principalmente orgânico, certo? Não se pode dispensar a análise, mas tentar enfiar o processo em alguma estrutura artificial é esperar a merda ser jogada no ventilador.
— Você não pega leve no palavreado, certo?
— Gostaria que eu fizesse isso?
— Não.
— Muitas boas ideias se perdem abrindo caminho pela cadeia de comando. Meu conselho: ponha seus ajudantes principais em uma sala uma vez por dia e faça um brainstorm. Pode ser um clichê, mas funciona. Se houver pessoas preocupadas sobre se o pensamento criativo delas está fazendo a diferença, você estará desperdiçando talento.
Hendley assoviou baixinho, sorrindo.
— Não me leve a mal, John, mas com certeza você não é nenhum homem-primata, certo?
Clark deu de ombros, mas não respondeu.
— Bem — continuou Hendley —, você meio que bateu no ponto certo. Andava pensando no mesmo. Mas é bom ouvir uma segunda opinião.
— Algo mais?
— Sim. Jack Ryan veio falar comigo outro dia. Quer fazer mais trabalho de campo.
Junior não é mais tão junior, Clark fez questão de se lembrar.
— Tom contou para você o caso do MoHa? — perguntou Hendley.
— Contou.
— Bem, ouvi dizer que os irmãos Caruso levaram Jack até o Hogan’s Alley para aliviar um pouco do estresse. E ele se saiu muito bem, pelo que me disseram. Cometeu alguns erros, coisa de principiante, mas de qualquer modo foi muito bem.
Então ele tem algum talento, pensou Clark. Talvez fosse genético, se acreditasse nesse tipo de coisas. Havia visto o pai de Jack em ação, e ele também era bom no gatilho. E frio sob pressão. Ambas as coisas podem ser ensinadas, mas a última era mais uma questão mental e de temperamento. Parecia que Jack possuía as duas, além de mão firme.
— E a cabeça dele? — perguntou Clark.
— Sem ilusões, acho. De qualquer modo, não me parece um caçador de glórias.
— E não é. Foi bem-educado pelos pais.
— É um analista ótimo, leva realmente jeito para a coisa, mas acha que está marcando passo. Quer entrar no mato. O problema é que não sei como o pai dele iria...
— Se você for tomar decisões a respeito dele baseado no que o pai pensaria ou diria, então...
— Diga.
— Então precisa começar a se preocupar sobre onde está a sua cabeça, e não a do garoto. Jack é adulto e a vida é dele. Você precisa tomar a decisão se baseando no fato de ele ser ou não bom na coisa, e se ajudaria ou não o Campus. Se trata disso, apenas disso.
— Está certo. Bem, preciso pensar um pouco mais sobre o assunto. Se decidir mandar Jack para o campo, ele vai precisar de alguém que o treine.
— Você já tem quem faça isso.
— Posso usar mais um, ou dois. Pete Alexander é muito bom, mas gostaria que você colocasse Jack debaixo da sua asa.
Clark considerou o assunto. É hora de praticar o que você pregou para o patrão, John.
— Claro, farei isso.
— Obrigado. Estamos também sempre procurando por mais pessoas como você e Chavez, então, peço que pense nisso. Temos nossos caçadores de talentos, mas é sempre bom ter candidatos em excesso.
— Verdade. Vou pensar um pouco. Posso ter um ou dois nomes.
Hendley sorriu.
— Alguns operadores recém-aposentados, talvez?
Clark sorriu de volta.
— Talvez.