Morto ou Vivo
Capítulo 15
Não foram muito longe antes de o avião regressar ao terminal, as rodas dianteiras sem sequer começar a girar no concreto da pista. Não se explicou nada, apenas o sorriso fixo e um seco “Podem vir comigo, por favor?” para ele e Chavez, seguido pelo sorriso fixo e firme que apenas uma aeromoça profissional pode exibir — sorriso que dizia a Clark que o pedido não estava aberto a discussões.
— Esqueceu de pagar o tíquete do estacionamento, Ding? — perguntou Clark ao genro.
— Eu não, mano. Deixo tudo acertado.
Cada um deles beijou rapidamente a respectiva esposa com um “Não se preocupe” e seguiram a aeromoça pelo corredor até a porta já aberta. Esperando por eles na ponte de embarque estava um oficial da Polícia Metropolitana de Londres. O padrão de xadrez preto e branco do quepe do oficial informou a Clark que não era um patrulheiro comum, e a divisa no suéter informou que ele pertencia ao SCD11 — inteligência —, parte da Diretoria Especializada em Crimes.
— Sinto interromper seu passeio de volta para casa, cavalheiros — disse o policial —, mas a presença de vocês foi requisitada. Por favor, me sigam.
Maneiras britânicas — assim como dirigir do lado errado da rua e chamar batatas fritas de “chips” — eram uma das coisas com que Clark jamais se acostumara — especialmente nos altos escalões do Exército. A polidez sempre é melhor que a grosseria, é claro, mas havia algo enervante quando se está conversando, oh, tão educadamente com um sujeito que provavelmente já matou mais bandidos do que a maioria das pessoas jamais veria durante toda a vida. Clark conhecera alguns sujeitos ali que podiam explicar em detalhes como planejavam matar você com um garfo, beber seu sangue, depois esfolá-lo, o tempo todo mantendo o tom de um convite para o chá da tarde.
Chavez e Clark seguiram o policial pela ponte de embarque, passando depois por vários postos de checagem e finalmente por uma porta controlada por cartão até o centro de segurança de Heathrow. Foram levados a uma pequena sala de conferência onde encontraram Alistair Stanley, ainda oficialmente o segundo em comando da Rainbow 6, de pé diante de uma mesa em formato de diamante sob a luz fria de lâmpadas fluorescentes. Stanley era do SAS, a principal unidade de guerra da Inglaterra.
Apesar de Clark relutar em admitir isso quando em companhia mista, ele considerava o SAS, no que lhe dizia respeito, sem par em matéria de eficácia e longevidade. Certamente havia unidades militares por aí que eram tão boas quanto o SAS — sua alma mater, os SEAL da Marinha americana, lhe vieram à mente —, mas os britânicos havia muito tinham estabelecido o padrão-ouro para tropas de operações especiais da era moderna, desde 1941, quando um oficial da Guarda Escocesa chamado Stirling — famoso depois por dar seu nome à metralhadora Stirling — e seu Destacamento L, de 65 homens, atormentaram a Wehrmacht alemã por todo o norte da África. Desde as primeiras missões de sabotagem atrás das linhas no norte da África até a caça de Scuds no deserto iraquiano, o SAS já havia feito de tudo, visto tudo, e ao mesmo tempo escrito todos os manuais sobre operações especiais. E como todos os seus camaradas antes dele, Alistair Stanley era um soldado excepcional. De fato, Clark raramente pensava em Alistair como seu segundo em comando e sim como cocomandante, tão grande o seu respeito pelo homem.
Juntamente com a direção do trânsito e as batatas fritas, a organização do SAS foi outra adaptação que Clark tivera de fazer. De modo caracteristicamente britânico, a organização do SAS era excepcional, dividida em regimentos — o 21º, o 22º e o 23º — e esquadrões — ordenados de A até G, com algumas falhas nesse alfabeto para despistar. Mesmo assim, Clark também tinha que admitir, os britânicos faziam tudo com classe.
— Alistair — saudou Clark, com um aceno solene. O rosto de Stanley o informou que algo sério acontecera ou estava acontecendo.
— Já está sentindo nossa falta, Stan? — disse Ding, apertando a mão dele.
— Gostaria que fosse isso, meu amigo. Me sinto horrivelmente incomodado por interromper a viagem de vocês e tudo mais. Porém acho que gostariam de fazer algo mais antes de cair na moleza. Algo interessante está acontecendo.
— Onde? — perguntou Clark.
— Com os suecos, por assim dizer. Parece que acabaram de perder seu consulado em Trípoli. Muito embaraçoso para eles.
Chavez disse:
— Por “perder”, suponho que você não queira dizer colocar em outro lugar?
— Certo, desculpe. Típico eufemismo britânico. Encantador, mas nem sempre prático. A inteligência ainda está filtrando a coisa, mas dada a localização, não é preciso um salto muito grande para adivinhar a identidade do culpado, de um modo geral.
Clark e Chavez puxaram cadeiras e sentaram à mesa. Stanley fez o mesmo. Abriu uma pasta de couro com um bloco de anotações coberto de notas manuscritas.
— Vamos ouvir — disse Clark, engrenando mentalmente na nova situação.
Dez minutos atrás ele estava no modo civil — ou pelo menos no tanto de modo civil que se permitia —, sentado com a família e se preparando para voltar para casa, mas isso foi antes, e agora a situação era outra. Agora ele era novamente o comandante da Rainbow 6. E achava isso bom, tinha que admitir.
— Tanto quanto sabemos, são oito homens ao todo — disse Stanley. — Passaram pela polícia local sem nenhuma baixa rapidamente, como se nada estivesse na frente deles. As imagens de satélite mostram quatro suecos, provavelmente Fallskarmsjagares, abatidos e expostos dentro do terreno do complexo.
Os Fallskarmsjagares eram basicamente a versão sueca dos rangers aerotransportados, escolhidos entre os melhores do Exército. Provavelmente membros do Särskilda Skyddsgruppen — Grupo de Proteção Especial —, que reforçava o SÄPO, o Serviço de Segurança Sueco, no trabalho da embaixada.
— São uns caras durões — disse Chavez. — Alguém fez bem o dever de casa e deu uns tiros com boa pontaria. Alguma coisa dentro do consulado?
Stanley balançou a cabeça.
— Silêncio de rádio.
O que fazia sentido, concluiu Clark. Quem fosse bom o suficiente para penetrar tão rapidamente no terreno e abater quatro Fallskarmsjagares seria também esperto o suficiente para ir direto para a sala de comunicações.
— Ninguém se responsabilizou pelo ataque? — perguntou Chavez.
— Até agora não, mas não vai demorar muito, suspeito. Até agora os líbios bloquearam a imprensa, mas é só questão de tempo, receio.
A confusa mistura de grupos terroristas no Oriente Médio tendia a encavalar o crédito por qualquer ato significativo de violência, e não se tratava sempre de prestígio, tampouco, mas sim de uma tentativa deliberada de turvar as águas da inteligência. Era muito parecido com o que uma unidade de homicídio da polícia enfrentava em casos de assassinato. Confissões rápidas e malucos suspeitos apareciam às dúzias, e cada um deles tinha que ser considerado com seriedade, sob pena de se arriscar a perder o verdadeiro. O mesmo raciocínio se aplicava ao terrorismo.
— E sem exigências, suponho — acrescentou Clark.
— Certo.
Muitas vezes não havia demandas. No Oriente Médio, a maioria dos que faziam reféns queria uma audiência internacional crescente antes de começar a executar pessoas, só explicando com atraso os porquês e os para quês. Não que isso fizesse alguma diferença para Clark e sua equipe, mas até que algum funcionário governamental dissesse “Avançar”, a Rainbow estava, como qualquer agrupamento de operações especiais, à mercê da política. Apenas quando os políticos concluíssem que soltar os cães de guerra era a opção certa que a Rainbow começava a fazer o que fazia tão bem.
— Bem, agora vem a parte complicada — disse Stanley.
— Política — palpitou Clark.
— Certíssimo. Como pode imaginar, nosso amigo coronel quer mandar sua Jamahiriyyah, e já a tem posicionada, de fato, mas o cônsul-geral sueco não é muito fã da ideia, sabendo como são as regras de engajamento da Jamahiriyyah.
A Guarda Jamahiriyyah era essencialmente a unidade pessoal de forças especiais do coronel Muammar Kadafi, composta por 2 mil e tantos homens recrutados em seu próprio quintal, na região Surt, na Líbia. A Jamahiriyyah era eficiente, Clark sabia disso, e tinha um bom apoio de suas unidades domésticas de logística e inteligência, mas ela também não se destacava pela discrição e muito menos por grandes preocupações com danos colaterais, vivos ou inanimados. Com a Jamahiriyyah encarregada do assalto, os suecos tinham certeza de perder uma boa quantidade de pessoal.
Um filho da mãe interessante, esse Kadafi, pensou Clark. Como muitos da comunidade de inteligência dos Estados Unidos, Clark tinha suas dúvidas sobre a recente transformação do caráter do coronel, de bandido do norte da África a humanitário condenador do terrorismo. A velha frase “o leopardo não muda as pintas” pode ser um clichê que parece falso para muitas pessoas, mas, no que dizia respeito a Clark, o coronel Muammar Abu Minyar al-Kadafi, “Fraterno Líder e Guia da Revolução” era um leopardo com pintas e tudo, e assim seria até o dia em que morresse de causas naturais ou nem tanto.
Em 2003, sob ordem de Kadafi, o governo líbio informou oficialmente às Nações Unidas que estava pronto para aceitar a responsabilidade pela derrubada do voo 103 da Pan American World Airways sobre Lockerbie, uns 15 anos antes, e também para compensar as famílias das vítimas com uma soma próxima dos 3 bilhões de dólares. O gesto foi imediatamente recompensado não apenas com elogios do Ocidente, mas também com o levantamento das sanções econômicas e manifestações de “É isso aí, garoto!” diplomaticamente emitidas por muitos países europeus. E o leopardo não parou aí, primeiro abrindo seus programas de armas para inspeção internacional e depois denunciando os ataques do 11 de Setembro.
Clark tinha um palpite sobre as mudanças de Kadafi, e achava que isso não estava relacionado ao amadurecimento da velhice, mas sim à economia, pura e simplesmente. Em outras palavras, o preço do petróleo havia desabado no decorrer dos anos 1990, deixando a Líbia mais pobre do que fora desde que os camelos, e não o ouro negro, reinavam na nação desértica, e a tornando menos capaz de financiar os projetinhos terroristas domésticos do coronel. É claro, Clark se lembrou também que a invasão do Iraque pelos Estados Unidos ajudara Kadafi a montar seu roteiro de bancar o bonzinho, pois ele percebera aquilo como uma amostra do que poderia acontecer com seu pequeno feudo. Mas a verdade, reconheceu Clark, é que era melhor ter um leopardo que apenas fingia mudar as pintas, desde que suas garras de fato estivessem embotadas. A questão era se agora, com o preço do petróleo subindo mais uma vez, o coronel não estaria ficando animado novamente. Será que usaria o incidente para rugir?
— Claro, o Comando Supremo em Estocolmo deseja mandar seu próprio pessoal, mas Kadafi não quer nem ouvir falar disso — continuou Stanley. — Segundo minhas últimas informações, o pessoal da rua Rosenbad estava conversando com a Downing. De qualquer maneira, fomos colocados de prontidão. Herefordshire está enviando mensagens para o restante da equipe. Temos dois de licença, um por saúde, outro de férias, mas o grosso já deve estar reunido e equipado dentro de uma hora e a caminho daqui logo em seguida. — Stanley verificou o relógio.
— Você disse “de prontidão” — comentou Chavez. — De prontidão onde? — O tempo era fator crítico, e mesmo com o transporte mais rápido, o pulo de Londres até Trípoli era comprido, talvez mais comprido do que o tempo que os reféns dentro daquele consulado viveriam.
— Taranto. A Marina Militare gentilmente se ofereceu para nos hospedar até os políticos decidirem. Se formos convocados, é só um pulinho pela água até Trípoli.