Morto ou Vivo
Capítulo 17
Era engraçado, pensou Jack Ryan Jr., não haver respostas congratulatórias ao anúncio do nascimento. Nenhuma. Ele havia indexado a coisa toda em seu computador, e tudo dentro dos terabytes de RAM no monstruoso servidor do Campus, e abrira os documentos mais recentes, fazendo uma anotação escrita do iniciador e do receptor, mas esses não eram nada mais que uma referência alfanumérica que podia ou não ter relação com os nomes verdadeiros. Jack ampliou a busca de e-mails até seis meses antes e montou rapidamente uma planilha. Com certeza, o trânsito havia sido uniforme, raramente variando mais que cinco por cento mês a mês. E agora, no período de poucos dias a partir do anúncio do nascimento, uma queda íngreme. De fato, além de algumas mensagens de rotina que provavelmente foram enviadas antes do anúncio e sido retidas no ciberespaço, não havia mais e-mails. O Emir e seu CRO — o Conselho Revolucionário Omíada — tinham entrado no que essencialmente era silêncio de rádio, e esse pensamento provocou um calafrio em Jack. Havia três opções: ou tinham mudado os protocolos de comunicação como uma medida geral de segurança, ou de algum modo perceberam que alguém estava lendo seus e-mails, ou isso era uma segurança de operação, um fechamento dos lábios eletrônicos prévio a uma operação de alto nível. As duas primeiras opções eram possíveis, mas improváveis. O CRO pouco mudara seus procedimentos nos últimos nove meses, e o Campus tinha sido bastante cuidadoso em não mostrar a cara. Então, opção três. Havia precedentes, claro. Logo antes do 11 de Setembro, o nível das conversas eletrônicas da al Qaeda caiu feito uma pedra; o mesmo aconteceu com os japoneses antes de Pearl Harbor. Uma parte de Jack queria que sua hipótese fosse comprovada; outra, tinha esperança de que estivesse errado.
Como, então, o Emir enviaria suas mensagens? Estafetas eram o método mais seguro, ainda que não o mais rápido. Escreva a mensagem, queime um disco e faça alguém levá-la até um ponto de encontro. Com o transporte aéreo moderno, uma pessoa podia ir de Chicago a Calcutá em menos de um dia, desde que não se importasse com comida de avião. Droga, o transporte aéreo internacional era planejado com isso em mente, não era? Poderia ter sido planejado tendo a comunidade “negra” em mente, e não simplesmente a equipe de vendas da Frederick’s de Hollywood ou a Dow Chemical.
Chicago a Calcutá. E se o Emir estivesse em Chicago, ou Nova York, ou Miami? O que o impediria de viver ali? Porra nenhuma. A CIA e todo mundo supunha que ele estivesse em algum desses países cujo nome termina em “istão” — por quê? Porque fora o último lugar onde havia sido visto. Não por causa de alguma evidência que o colocasse em algum lugar. E uma boa parte das forças especiais do governo dos Estados Unidos estava no Paquistão e no Afeganistão patrulhando tudo e olhando em todos os buracos nas pedras, fazendo inúmeras perguntas, gastando dinheiro à vontade, procurando o homem — ou a mulher — que pudesse conhecer seu rosto e saber onde ele estaria. E, ainda assim, nada. Quais eram as probabilidades disso?, perguntou-se Jack.
Um homem como o Emir jamais poderia se sentir suficientemente seguro, não com todas as agências de segurança do mundo atrás dele — até mesmo agentes de inteligência patriotas e dedicados podiam pensar na recompensa pública que os Estados Unidos ofereciam por sua cabeça e imaginar uma bela casa na Riviera e uma confortável aposentadoria, só por um telefonema e um tantinho de informação...
O Emir sabia disso tudo. Limitaria o número de pessoas que soubesse sua localização àquelas em que poderia confiar de modo absoluto, e tomaria muito cuidado com elas. O maior dos cuidados. Dinheiro, conforto, os luxos que as circunstâncias permitissem. Reforçaria o desejo delas de ganhar sua confiança. Reforçaria a fé delas em Alá e nele mesmo e seria extremamente solícito com elas. Mas também manteria sua aura de comando, porque a fonte de toda essa autoridade tinha sempre base no contato pessoal, tal como todas as coisas importantes na vida, uma coisa mental.
Então, o que seria necessário para o Emir se realocar além do Paquistão e do Afeganistão? Como é que alguém se muda, sendo o homem mais procurado na face da terra?
O arquivo principal da CIA sobre o Emir tinha fotografias medíocres, algumas originais e outras digitalmente aperfeiçoadas, todas distribuídas para virtualmente cada uma das agências policiais e de inteligência do mundo. O mesmo com o público em geral. Se Brad Pitt e Angelina Jolie não conseguem sair para almoçar no domingo sem serem importunados por uma multidão, o Emir certamente teria dificuldades para viajar para fora de seu terreno familiar.
O Emir não podia mudar sua estatura, embora isso fosse tecnicamente possível, mas envolveria uma grande e dolorosa cirurgia, seguida por um longo período de recuperação, que exigiria que ele permanecesse imóvel por várias semanas — muito risco para alguém em fuga permanente. Podia mudar seu rosto, a cor da sua pele, seu cabelo. Podia usar lentes de contato coloridas para mudar a cor dos olhos e talvez até melhorar sua visão, a qual, segundo o arquivo, era média. Ele caminhava ereto, não encurvado, e a conversa de que sofreria da síndrome de Marfan fora liquidada por um médico do John Hopkins, especialista na doença, para grande surpresa de Langley, pois na comunidade da inteligência aquilo havia se tornado verdade talhada na pedra. Assim, ele não precisava estar sempre perto de uma máquina de diálise.
Espere um segundo, Jack. A comunidade de inteligência andava presumindo coisas demais sobre o Emir. Tiveram, o quê?, uma opinião sobre essa história do Marfan. Era o suficiente para discutir a teoria? Pelo que Jack sabia, ninguém jamais pusera as mãos em alguém suficientemente próximo ao Emir para saber de alguma forma. Algo para pensar.
— Ei, Jack — disse uma voz familiar. Voltou-se e viu Dominic e Brian parados na porta.
— Olá, caras, entrem. O que há?
Cada irmão pegou uma cadeira. Dominic disse:
— Ficar lendo no computador a manhã inteira me deu dor de cabeça, então vim aqui encher seu saco. O que você anda lendo? Um formulário de emprego do Departamento do Tesouro?
Jack levou um instante para sacar a coisa. O Serviço Secreto era uma repartição do Tesouro. Esse tipo de piada andava aparecendo desde o caso de Georgetown. Apesar de a imprensa estar cobrindo de perto o assunto, seu nome até então não havia aparecido, o que era muito bom para ele. Hendley sabia da história toda, é claro, o que não chateava Jack nem um pouco. Era mais munição para quando chegasse a hora de convencer o chefe.
— Babaca — respondeu Jack.
— Já descobriram alguma coisa sobre o cara? — perguntou Brian.
— Não que eu saiba. A imprensa anda dizendo que ele não tinha cúmplices, mas num caso desses eles só sabem o que o Serviço Secreto deixa vazar. — Numa cidade onde os vazamentos eram mais a regra que a exceção, o Serviço Secreto era conhecido por ser impenetrável. Jack mudou de assunto. — Vocês já ouviram falar da teoria sobre o Marfan, certo? Sobre o Emir?
— Bem, acho que sim — respondeu Dominic. — Não teve muito sucesso, certo?
Jack deu de ombros.
— Estou tentando ver a coisa por outro ângulo. A localização dele, por exemplo. Tenho um palpite de que não está no Afeganistão, mas nunca pensamos em outra coisa senão ali ou Paquistão. E se tivéssemos pensado? Ele dispõe de bastante dinheiro, e dinheiro compra muita flexibilidade.
Brian encolheu os ombros.
— Mesmo assim, acho difícil imaginar um cara como ele saindo até mesmo uns 100 quilômetros de distância da toca sem ser notado.
— Suposições e análise de inteligência são péssimos companheiros — observou Jack.
— Verdade. Se esse merda se movimentou, aposto que está morrendo de rir vendo todo mundo trepando aquelas montanhas atrás dele. Mas como ele faria isso, hein? Com certeza não pode ir até o aeroporto de Islamabad e comprar uma passagem.
Dominic disse:
— Dinheiro também pode comprar muito conhecimento.
— O que você quer dizer? — perguntou Jack
— Há um especialista para cada problema, Jack. O truque é saber onde encontrar.
O dia transcorreu rapidamente. Às cinco da tarde, Jack enfiou a cabeça no escritório de Dominic. Brian estava sentado do outro lado da mesa do irmão.
— Olá, caras — chamou Jack.
— Olá — respondeu Brian. — Como anda o perito dos computadores?
— Dando no pé.
— Onde vai jantar? — perguntou Dominic.
— Aceito sugestões.
— A vida sentimental dele deve ser como a minha — resmungou Brian.
— Descobri um lugar novo em Baltimore. Querem experimentar?
— Claro. — Ora, bolas, pensou Jack. Comer sozinho não tinha a menor graça.
O comboio dos três carros se dirigiu para o norte na US 29, depois virou ao leste na US 40 para a viagem até a Little Italy de Baltimore — a maioria das cidades americanas têm uma —, perto da Eastern Avenue. A viagem era quase idêntica à que Jack normalmente fazia para ir para casa, a alguns quarteirões do estádio de beisebol de Camden Yards. Mas a temporada já terminara, mais uma vez sem chegar às finais.
A Little Italy de Baltimore era um emaranhado de ruas estreitas e poucos estacionamentos, e, para Jack, estacionar seu Hummer não era muito diferente de aportar um transatlântico. Mas enfim conseguiu uma vaga em um pequeno estacionamento e depois caminhou dois quarteirões até o restaurante na High Street, especializado em comida do norte da Itália. Ao entrar, viu que seus primos estavam acampados em uma mesa de canto, sem ninguém por perto.
— Que tal a comida daqui? — perguntou, pegando uma cadeira.
— O cozinheiro-chefe é tão bom quanto nosso avô, e isso é um elogio e tanto, Jack. A vitela é realmente de primeira classe. Dizem que ele mesmo a compra diariamente no Lexington Market.
— Deve ser dura, sendo de vaca — observou Jack, escrutinando o menu.
— Nunca perguntei — assinalou Brian. — E também nunca escutei queixas.
— Fale com minha irmã. Ela está virando vegan, salvo os sapatos — disse Jack com um muxoxo. — Que tal a carta de vinhos?
— Já pedi — respondeu o marine. — Lachrima Christi del Vesuvio. Descobri em Nápoles num cruzeiro pelo Mediterrâneo. As Lágrimas de Cristo do Vesúvio. Fiz uma viagem a Pompeia, e o guia disse que há mais de 2 mil anos cultivam uvas vinícolas ali, e achei que já deviam entender do negócio muito bem. Se você não gostar, pode deixar que eu bebo tudo.
— Brian conhece vinhos, Jack — disse Dominic.
— E você diz isso como se estivesse surpreso — disparou de volta Brian. — Não sou um marine qualquer, você sabe.
— Aceito a correção.
A garrafa chegou um minuto depois. O garçom a abriu com um floreio.
— Onde você come em Nápoles?
— Rapaz, você tem que se esforçar muito para achar um restaurante ruim na Itália — disse Dominic. — O que você compra pelas ruas é tão bom quanto na maioria dos restaurantes com cadeiras. Mas este lugar aqui é muito bom. Ele é paisano.
Brian sintonizou:
— Em Nápoles, há um lugar no cais chamado La Bersagliera, mais ou menos a um quilômetro e meio da fortaleza grande. Olha, eu arrisco até uma briga e digo que é o melhor restaurante do mundo.
— Não. O Alfonso Ricci, de Roma, a uns 800 metros do Vaticano — decretou Dominic.
— Bom, aceito sua palavra quanto a isso.
A comida chegou, juntamente com mais vinho, e a conversa passou a girar em torno de mulheres. Todos os três namoravam, mas sem compromisso. Os Caruso brincaram dizendo que esperavam a italiana perfeita; Jack, por sua vez, procurava uma garota que “pudesse apresentar para mamãe”.
— O que você está dizendo, primo? — perguntou Brian. — Você não gosta delas um pouquinho safadas?
— Na cama, claro que sim — respondeu Jack. — Mas em público... Não sou lá muito fã de frente única e tatuagens enormes no traseiro.
Dominic deu uma risadinha. Falou:
— Brian, como é mesmo o nome daquela garota... você sabe, a stripper com a tatuagem?
— Puta merda...
Dominic ainda ria. Voltou-se para Jack e disse, em tom meio conspiratório:
— Ela tinha essa tatuagem logo abaixo do umbigo: uma seta apontada para baixo com as palavras Escorregadia quando molhada. O problema é que ela escreveu escorregadia só com um r.
Jack caiu na risada.
— Como é mesmo o nome dela?
Brian sacudiu a cabeça.
— De jeito nenhum.
— Diga logo — falou Dominic.
— Vamos — provocou Jack.
— Candy.
Mais risos.
— Escrito com y ou com ie? — perguntou Jack.
— Nenhum dos dois. Dois e. Está bem, ela não era muito esperta. Mas não estávamos exatamente a caminho do casamento. E quanto a você, Jack? Qual o seu tipo? Jessica Alba, talvez? Scarlett Johansson?
— Charlize Theron.
— Boa escolha — observou Dominic.
Uma opinião saiu de uma cabine perto do bar:
— Eu preferia Holly Madison. Que peitos.
Os três se voltaram e viram uma mulher sorrindo para eles. Ruiva, alta, olhos verdes e sorriso aberto.
— Palpite grátis — acrescentou ela.
— A dama tem certa razão — observou Dominic. — Mas, realmente, se falamos de intelecto...
— Intelecto? — respondeu a mulher. — Pensei que estávamos falando de sexo. Se vocês querem meter capacidade cerebral na história, então tenho que dizer... Paris Hilton.
Houve um momento de silêncio antes que a expressão séria da mulher mostrasse a ponta de um sorriso. Jack, Dominic e Brian caíram na risada. O marine disse:
— Acho que chegou a hora de perguntar se você quer se sentar conosco.
— Adoraria.
Ela pegou a taça de vinho recém-completada e se mudou para a mesa deles, sentando-se ao lado de Dominic.
— Sou Wendy — disse. — Com um y no final — acrescentou. — Desculpem, mas não pude deixar de escutar — falou para Dominic. — Então já sabemos que Jack gosta de Charlize Theron e Brian prefere strippers disléxicas...
— Essa doeu — disse Brian.
— ... Mas e quanto a você?
— Quer a resposta verdadeira?
— Claro que sim.
— Vai parecer uma cantada.
— Manda ver.
— Eu prefiro as ruivas.
Jack gemeu.
— Que discreto.
Wendy examinou o rosto de Dominic por um instante.
— Mas acho que ele está falando a verdade — concedeu ela.
— Está mesmo — confirmou Brian. — Ainda tem um pôster da Lucille Ball no quarto dele.
Risadas gerais.
— Merda nenhuma. — Então, para Wendy: — Você veio encontrar alguém?
— Vinha. Uma namorada. Ela me mandou um torpedo dizendo que não vem mais.
Os quatro jantaram, pediram mais vinho e conversaram até perto das onze horas, quando Jack anunciou que ia para casa. Brian, que percebeu os mesmos sinais que o primo, também se levantou e fez uma mesura, e logo Dominic e Wendy ficaram a sós. Bateram papo por mais alguns minutos antes de ela dizer:
— Então...
Ali estava a deixa, e Dominic foi fundo.
— Quer sair?
Wendy sorriu.
— Meu apartamento fica a uns dois quarteirões daqui.
Os dois já estavam se beijando antes de a porta do elevador fechar, separaram-se brevemente quando ele chegou ao andar e caminharam juntos até a porta, e depois dentro, quando as roupas começaram a cair. Quando chegaram no quarto, Wendy se livrou do restante do vestido, mostrando um sutiã de rendas e calcinha combinando. Sentou-se na cama diante de Dominic, agarrou seu cinto e o abriu, depois se deitou na cama.
— Sua vez. — Um cacho que cabelos ruivos tinha desabado sob os olhos de Wendy.
— Nossa — suspirou Dominic.
— Aceito isso como um cumprimento — respondeu ela com uma risadinha.
Dominic tirou a calça e subiu na cama. Os dois se beijaram por trinta segundos até Wendy se afastar. Ela rolou pela cama e abriu a gaveta do criado-mudo.
— Só uma coisinha para criar um clima — disse, olhando para ele, e depois girando com um espelhinho retangular e um vidrinho do tamanho do polegar.
— O que é isso? — perguntou Dominic.
— Para esquentar o clima — disse Wendy.
Que merda, pensou Dominic. Ela viu sua mudança de expressão e perguntou:
— O quê?
— Não vai rolar.
— Por que, qual o problema? É só um pouquinho de coca.
Dominic se levantou, pegou a calça e se vestiu.
— Você vai embora? — perguntou Wendy, sentando-se.
— Sim.
— Você está me gozando? Só por causa da...
— Sim.
— Puxa, qual é o seu problema?
Dominic nem respondeu. Pegou a camisa do chão e a vestiu. Saiu a caminho da porta.
— Você é um babaca — disse Wendy.
Dominic parou e se voltou para ela. Tirou a carteira do bolso e abriu, mostrando seu escudo do FBI.
— Oh, merda — sussurrou Wendy. — Eu não queria... Você vai me...
— Não. Hoje é seu dia de sorte.
E foi embora.
Tariq Himsi contemplava o poder do dinheiro. E os acasos da escolha. Descobrir uma companhia para o Emir, mesmo para um encontro casual, era assunto delicado. Os gostos dele eram específicos; sua segurança estava acima de tudo. Felizmente, as putas ali eram abundantes, fáceis de achar na rua e, como ele descobriu, acostumadas a pedidos incomuns, tal como serem levadas a um local desconhecido em um veículo com janelas escurecidas. Seu trabalho prévio de reconhecimento mostrou que, mesmo moralmente corruptas, essas mulheres estavam longe de ser estúpidas: patrulhavam suas esquinas em grupos de duas ou três, e sempre que uma de suas cúmplices entrava em um carro, uma das outras anotava a placa. Uma ida rápida a um dos estacionamentos remotos de um dos aeroportos resolveu esse problema. Placas eram fáceis de instalar e ainda mais fáceis de jogar fora. Quase tão fácil quanto disfarçar sua aparência com grossos óculos escuros e um boné de beisebol.
No começo, Tariq chegou a pensar em contratar um serviço de garotas de programa, mas isso trazia complicações próprias — não insuperáveis, certamente, mas de qualquer modo complicadas. Através de sua rede, ele obteve o nome de um serviço conhecido pelo zelo na proteção do anonimato dos clientes, tanto que era usado por celebridades e políticos, incluindo vários senadores. A ironia de usar esse serviço era tentadora, Tariq teve que admitir.
Mas, por enquanto, ele se contentaria em contratar os serviços de uma das putas de rua que observara na última semana. Apesar de ela se vestir como as outras de um modo geral — roupas ofensivamente reveladoras —, seu gosto parecia ser ligeiramente menos horroroso, seus modos ligeiramente menos desavergonhados. Em curto prazo, ela serviria como receptáculo.
Ele esperou até bem depois de o sol se pôr, então ficou no final do quarteirão, aguardando uma diminuição do trânsito antes de ligar o carro e dirigir até onde a mulher e duas companheiras estavam paradas. Parou no meio-fio e abaixou a janela do passageiro. Uma das mulheres, uma ruiva com seios incrivelmente grandes, deslizou até a janela.
— Você não — disse Tariq. — Aquela outra. A loura alta.
— Como quiser, cara. Ei, Trixie, ele quer você.
Trixie deslizou até lá.
— Olá — disse. — Procurando uma namorada?
— Para um amigo.
— E onde esse amigo está?
— No condomínio dele.
— Não faço programas em casas.
— Dois mil dólares — respondeu Tariq, e imediatamente viu os olhos de Trixie mudarem. — Suas amigas podem anotar a placa, se quiserem. Meu amigo é... muito conhecido. Ele simplesmente quer uma companhia anônima.
— Sexo normal?
— Desculpe?
— Não topo brutalidade, nem essa de brincar com xixi, nada desse tipo de coisa.
— Claro.
— Ok, espere um instante, querido. — Trixie caminhou até suas amigas, trocou com elas algumas palavras e depois voltou até Tariq, que disse:
— Pode ir no banco de trás. — E soltou a tranca da porta.
— Puxa, que chique — disse Trixie, e entrou.
— Por favor, sente-se — disse o Emir a ela trinta minutos mais tarde, quando Tariq a levou até a sala de estar e fez as apresentações. — Gostaria de um pouco de vinho?
— Hã, claro, acho — disse Trixie. — Gosto desse tal de zinfandel. É assim que dizem, certo?
— Sim. — O Emir fez um sinal para Tariq, que desapareceu e voltou um minuto depois com duas taças de vinho. Trixie pegou a sua, olhou ansiosa ao redor, depois remexeu a bolsa e tirou um lenço de papel, onde cuspiu o chiclete que estava mascando. Tomou um gole de vinho.
— Troço bom.
— É mesmo. Trixie é seu nome verdadeiro?
— Sim, de verdade. E o seu, qual é?
— Acredite ou não, meu nome é John.
Trixie caiu na risada.
— Se você diz... Então, e aí, você é árabe ou algo assim?
Parado na soleira da porta atrás de Trixie, Tariq franziu a testa. O Emir levantou o indicador do braço da cadeira. Tariq assentiu e recuou alguns passos.
— Sou da Itália — disse o Emir. — Sicília.
— Ei, como Opoderoso chefão, certo?
— Desculpe?
— Você sabe, o filme. Foi de lá que vieram os Corleone: Sicília.
— Acho que sim.
— Seu sotaque é meio engraçado. Você mora aqui ou só está de férias?
— Férias.
— É uma casa bem bacana. Você tem muita grana, hein?
— A casa é de um amigo.
Trixie sorriu.
— Um amigo, hein? Talvez seu amigo também queira companhia.
— Com certeza perguntarei a ele — falou o Emir, secamente.
— Só para você saber: só faço sexo normal, ok? Nada tarado.
— Claro, Trixie.
— E nada de beijo na boca. Seu cara aí falou em 2 mil?
— Você quer ser reembolsada agora?
Trixie tomou outro gole de vinho.
— Eu o quê?
— Seu dinheiro.
— Claro. E aí podemos começar. — Ao sinal do Emir, Tariq avançou e entregou a Trixie um maço de notas de 100 dólares. — Sem ofensa — disse, e depois contou as notas. — Quer fazer aqui mesmo?
Uma hora mais tarde o Emir saiu do quarto. Atrás dele, Trixie vestia a calcinha e cantarolava consigo mesma. Na mesa de jantar, Tariq se levantou para receber seu chefe. O Emir simplesmente disse:
— Perguntas demais.
Alguns minutos mais tarde na garagem, Tariq deu a volta no carro para abrir a porta de trás para ela.
— Foi divertido — disse ela. — Se o cara quiser fazer de novo, você sabe onde me encontrar.
— Informarei a ele.
Quando Trixie se abaixou para entrar no carro, Tariq deu um leve chute na parte de trás do joelho dela, fazendo-a cair.
— Ei, mas que...? — foram as únicas palavras que ela conseguiu dizer antes que o garrote de Tariq, uma peça de corda de náilon de meio metro de comprimento desse a volta em seu pescoço e apertasse sua traqueia.
Como ele planejara, os laços duplos da corda, espaçados a 15 centímetros do meio dela, imediatamente comprimiram as artérias carótidas dos dois lados da traqueia. Trixie começou a dar pinotes, agarrando a corda, seu torso se curvando até que Tariq pôde ver seus olhos — primeiro arregalados e saltados, e então, vagarosamente, à medida que o sangue que chegava a seu cérebro diminuía, trêmulos e girando para trás na órbita. Depois de mais uns dez segundos, Trixie amoleceu. Tariq manteve a pressão na corda por mais três minutos, de pé e perfeitamente imóvel enquanto a vida vagarosamente escoava do corpo dela. A estrangulação não era assim tão rápida como parecia nos filmes de Hollywood.
Ele deu dois passos para trás, arrastando-a consigo e vagarosamente deitando seu corpo no chão de concreto da garagem. Cuidadosamente, tirou a corda do seu pescoço e examinou a pele. Havia um machucado, mas nada de sangue. Mesmo assim, a corda seria depois queimada em um balde de aço. Ele procurou o pulso no pescoço e não encontrou nada. Ela estava morta, disso tinha certeza, mas, dadas as circunstâncias, um cuidado extra era necessário.
Colocando uma das mãos embaixo do seu ombro e a outra por baixo das nádegas, Tariq virou Trixie de barriga para baixo, depois se escarranchou em sua cintura. Colocou a mão esquerda abaixo do queixo dela, puxou a cabeça em sua direção, depois colocou a palma da mão direita do lado da cabeça e alavancou as mãos em direções opostas. O pescoço quebrou. Trocou a posição das mãos e girou a cabeça na outra direção, provocando outro barulho abafado de osso quebrando. Os impulsos nervosos residuais do corpo fizeram as pernas dela se mexerem uma vez. Ele gentilmente abaixou a cabeça até o chão e se levantou.
Agora só faltava decidir até que distância deserto adentro ele a levaria.