Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 31 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 31

 

Depois de quarenta minutos, Charles Alden chegou na antessala, sorrindo do mesmo modo que um vendedor de carros usados. Alto e magro como um corredor, velho o suficiente para parecer importante para si mesmo, fosse lá o que tivesse feito para merecer esse posto. Clark estava preparado para lhe dar o benefício da dúvida, mas as dúvidas se empilhavam rapidamente.

— Então você é o famoso Sr. Clark — disse Allen, cumprimentando-o; e sem se desculpar pelo atraso, percebeu Clark.

— Não tão famoso — respondeu Clark.

— Bem, pelo menos nesta comunidade. — Allen conduziu seu convidado para seu escritório, sem convidar Chavez para se reunir a eles.

— Acabei de ler seu arquivo.

Em 15 minutos?, pensou Clark. Talvez com leitura dinâmica.

— Espero que tenha sido esclarecedor.

— Peculiar. Tirar a família Gerasimov da Rússia foi um grande trabalho. E a missão em Tóquio, com um disfarce russo... impressionante. Ex-SEAL... E vi que o presidente Ryan lhe deu a Medalha de Honra. Está há 29 anos com a Agência. É um recorde — disse Alden, acenando para que Clark sentasse. Era uma cadeira menor que a do próprio Alden e desenhada para ser desconfortável. Jogo de poder, pensou Clark.

— Simplesmente cumpri as missões que me deram, da melhor maneira que pude, e consegui sobreviver a todas elas.

— Suas missões tendiam a ser um tanto físicas.

Clark encolheu os ombros.

— Agora tentamos evitar isso — observou Alden.

— Tentei evitar isso na época. Com melhor planejamento.

— Sabe, Jim Greer deixou um longo documento sobre como você atraiu a atenção da Agência.

— O almirante Greer era um cavalheiro particularmente honrado e agradável — observou John, subitamente de guarda em relação ao que esse documento podia dizer. James Greer gostava de seus registros escritos. Até ele tinha suas fraquezas. Bem, todo mundo tem as suas.

— Ele também descobriu Jack Ryan, correto?

— E muitos outros.

— Disso eu já soube.

— Desculpe, senhor, estamos aqui para fazer pesquisa?

— Na verdade, não, mas gosto de saber com quem estou conversando. Você também fez alguns recrutamentos. Chavez, por exemplo.

— É um bom oficial. Mesmo se descontar as coisas que fizemos na Inglaterra, Ding sempre esteve onde seu país precisava dele. Também obteve educação formal.

— Oh, sim, ele conseguiu o grau de mestre na George Mason, não foi?

— Certo.

— Um tanto físico também, como você. Não é um agente de campo de verdade, tal como a maioria das pessoas entende o termo.

— Nem todos podemos ser um Ed Foley ou uma Mary Pat.

— Eles também possuem arquivos peculiares, mas estamos tentando nos afastar disso enquanto o mundo evolui.

— É mesmo?

— Bem, hoje é assim. O mundo mudou. Aquele caso da Romênia com que você e Chavez lidaram... deve ter sido interessante.

— É um modo de perceber a coisa. Não é sempre que alguém se vê em um país estrangeiro no meio de uma revolução, mas fizemos o trabalho antes de deixá-lo.

— Você matou seu alvo — disse Alden com uma careta de desgosto.

— Ele precisava ser morto — respondeu Clark, olhos fixos no rosto de Alden.

— Era contra a lei.

— Não sou advogado, senhor. — E uma ordem executiva, mesmo presidencial, não era exatamente lei ou de acordo com a constituição. John logo compreendeu que o sujeito ali era a quintessência do piloto de escrivaninha. Se não estivesse escrito, não era verdadeiro, e se não tivesse autorização escrita então estava errado. — Quando alguém aponta uma arma carregada para você, já é um pouco tarde demais para negociações formais.

— Você tentou evitar essa contingência?

— Sim. — É melhor liquidar o filho da mãe pelas costas e desarmado, mas nem sempre isso é possível, pensou Clark. Quando se trata de vida ou morte, o conceito de luta justa pula pela janela. — Minha missão era capturar aquele indivíduo e, se possível, entregá-lo às autoridades adequadas. Não foi possível.

— O seu relacionamento com a aplicação da lei nem sempre foi amistoso — disse Alden, folheando as páginas do arquivo confidencial.

— Me desculpe, senhor, mas esse arquivo tem minha ficha como motorista?

— Sua amizade com pessoas de cima foi muito útil para sua carreira.

— Suponho que sim, mas isso acontece com muita gente. De modo geral, eu cumpri as missões que me deram, e foi por isso que fiquei tanto tempo por aqui. Sr. Alden, qual é o objetivo desta entrevista?

— Bem, como vice-diretor de operações, tenho que me familiarizar com as pessoas do Serviço Clandestino, e lendo isso aqui, percebi que você teve uma das carreiras mais peculiares. Você teve sorte de durar tanto tempo, e agora poder contemplar uma carreira tão singular.

— E sobre meu próximo posto?

— Não há novo posto. Ah, você pode voltar para a Fazenda como um dos treinadores, mas realmente meu conselho é que aceite sua aposentadoria. É bem-merecida. Seus papéis de aposentadoria estão prontos para serem processados. Você os mereceu, John — disse ele, sem conseguir esconder uma ponta fria de sorriso.

— Mas, se eu fosse vinte anos mais novo, você não teria um lugar para mim?

— Talvez um posto em uma embaixada — disse Alden. — Mas nenhum de nós é vinte anos mais novo. A Agência mudou, Sr. Clark. Estamos saindo desse negócio de ações paramilitares, salvo quando tivermos pessoas diretamente enviadas para nós pela Força Delta, por exemplo, mas estamos tentando nos afastar dessa atitude de mão na massa na qual você e Chavez se especializaram. O mundo é um lugar mais suave e gentil.

— Contou isso para os nova-iorquinos? — perguntou Clark calmamente.

— Há outros modos de lidar com coisas assim. O truque é descobrir tudo antes e encorajar as pessoas a tomar um rumo diferente se quiserem ganhar nossa atenção.

— Como, exatamente, alguém faz isso... teoricamente, claro?

— É um assunto que enfrentamos aqui no sétimo andar, estudando caso a caso.

— Quando se está no campo, casos como esse nem sempre caem no seu colo de modo que possa ser submetido ao quartel-general. É preciso confiar no seu pessoal para que tome iniciativa, e apoiá-lo quando faz isso de modo inteligente. Já estive lá. A situação pode se tornar terrivelmente solitária no campo se você não confia nas pessoas que estão atrás de você, especialmente quando estão a 8 mil quilômetros de distância.

— A iniciativa funciona bem nos filmes, mas não no mundo real.

Quando foi a última vez que você esteve em campo no mundo real?, queria perguntar Clark, mas não fez isso. Não estava ali para argumentar ou discutir. Estava ali simplesmente para ouvir a voz de Deus, transmitida por esse babaca acadêmico. Acontecera antes na Agência, mas lá atrás, nos anos 1970, quando tinha evitado uma aposentadoria involuntária pela primeira vez, com ajuda de James Greer, e havia construído um nome trabalhando na União Soviética em missões “especiais”. Fora ótimo, durante algum tempo, ter um inimigo em que todos acreditavam.

— Então estou fora?

— Você vai se aposentar honrosamente, com os agradecimentos da nação, a qual você serviu bem e sob risco de morte. Sabe, lendo isso aqui, pensei como foi possível você não ter uma estrela na parede do átrio. — Ele se referia ao saguão de mármore branco com estrelas douradas que lembravam o nome dos agentes de campo mortos a serviço da CIA.

O livro que listava esses nomes — estava numa caixa de cobre e vidro — tinha muitos espaços em branco mostrando apenas datas, porque os próprios nomes eram sigilosos, mesmo cinquenta anos depois do fato. Muito provavelmente, Alden usava o elevador executivo desde o estacionamento de segurança no subsolo, de modo que não era rotineiramente obrigado a olhar a parede — droga, nem sequer a passar por ela.

— E quanto a Chavez?

— Como lhe disse, ele já terá tempo para aposentadoria dentro de apenas mais dez semanas, contando seu tempo no Exército. Vai se aposentar como GS-12, com todos os benefícios, é claro. Ou, se insistir, podemos colocá-lo como instrutor de treinamento na Fazenda por um ou dois anos, antes de enviá-lo para a África, provavelmente.

— Por que a África?

— Há coisas acontecendo por lá, o suficiente para nos manter interessados.

Claro. Mandem Chavez para Angola, onde vão confundir seu sotaque espanhol com português e ajudá-lo a ser liquidado por algum resto de guerrilha, certo? Não que você se importe com isso, Alden. Essas pessoas gentis e amorosas realmente nunca se importavam muito com os indivíduos. Interessavam-se apenas pelos grandes assuntos do dia, tentando enfiar peças quadradas de realidade nos buracos redondos teóricos de como o mundo supostamente deveria parecer e agir. Era uma deficiência comum entre os politicamente astutos.

Clark disse:

— Bem, isso é com ele, suponho, e depois de 29 anos, acho que minha aposentadoria está no limite, não?

— Muito bem — concordou Alden, com um sorriso tão autêntico como o de um sujeito que está pronto para fechar a venda de um Ford Pinto 1971.

Clark levantou. Não estendeu a mão, mas Alden o fez, e Clark teve de apertá-la simplesmente para manter os bons modos, e boas maneiras sempre desarmavam os babacas do mundo.

— Ah, quase esqueci. Tem alguém que quer ver você. Conhece James Hardesty?

— Já trabalhei com ele uma vez, sim — respondeu Clark. — Também não está aposentado ainda?

— Não, ainda não. Trabalha com os arquivos operacionais, parte de um projeto no qual a diretoria de operações vem trabalhando há uns 14 meses, uma espécie de projeto de história sigiloso. De qualquer modo, o escritório dele é no quarto andar, passando pelo quiosque de vendas perto dos elevadores. — Alden entregou um número de escritório escrito numa folha de papel em branco.

Clark pegou, dobrou e guardou no bolso. Jimmy Hardesty ainda estava por ali? Como diabos ele conseguira escapar da atenção de sacanas como esse Alden?

— Muito bem, obrigado. Passo por ele a caminho da saída.

— Precisam de mim lá? — perguntou Ding a Clark quando ele saiu.

— Não, desta vez ele só me queria. — Clark ajustou a gravata fazendo um sinal previamente combinado, diante do qual Chavez não reagiu. E com isso os dois tomaram o elevador para descer ao quarto andar. Passaram pelo quiosque com uma equipe de trabalhadores cegos que vendiam coisas como barras de chocolate e Coca-Cola, o que sempre surpreendia os visitantes como algo horripilante e sinistro, mas que para a CIA era uma atitude louvável de proporcionar emprego para os deficientes. Se é que eram realmente cegos. Ninguém nunca podia ter certeza de qualquer coisa nesse edifício, mas isso era apenas parte da sua atmosfera mística.

 

Acharam o escritório de Hardesty e bateram à porta trancada com código. Ela se abriu em segundos.

— Grande John — disse Hardesty como saudação.

— Olá, Jimmy. O que você anda fazendo aqui neste ninho de ratos?

— Escrevendo uma história de operações que ninguém jamais lerá, pelo menos não enquanto nós estivermos vivos. Você é Chavez? — perguntou a Ding.

— Sim, senhor.

— Vamos, entrem. — Hardesty acenou para que entrassem na sala, que tinha duas cadeiras extras e espaço quase suficiente para as pernas extras, mais uma mesa de trabalho que servia como escrivaninha improvisada.

— Em que ano você está? — perguntou John.

— Você acredita que em 1953? Passei toda a semana passada no caso Hans Tofte e no do cargueiro norueguês. Esse trabalho realmente teve baixas, e nem todos eram bandidos. Era o custo da profissão naquela época, acho, e os marinheiros daquele navio deviam ter pensado duas vezes antes de se alistar.

— Antes da nossa época, Jimmy. Você conversou com o juiz Moore sobre isso? Acho que ele teve uma participação nessa operação.

Hardesty assentiu.

— Esteve aqui na sexta-feira passada. O juiz deve ter aprontado quando jovem, antes de sentar na poltrona por trás da banca. Tanto ele quanto Ritter.

— O que Ritter anda fazendo agora?

— Você não ouviu falar? Merda. Morreu há três meses lá no Texas; câncer no fígado.

— Que idade tinha? — perguntou Chavez.

— Tinha 75 anos. Estava no MD Anderson Cancer Center, no Texas, de modo que teve o melhor tratamento possível, mas não adiantou.

— Todo mundo morre de alguma coisa — observou Clark. — Mais cedo ou mais tarde. Ninguém nos contou sobre Ritter lá na Inglaterra. Eu me pergunto por quê.

— A atual administração não gostava muito dele.

Isso fazia sentido, pensou John. Ele fora um guerreiro dos piores daqueles velhos tempos, que trabalhara na terra dos vermelhos contra o principal inimigo da época, e os guerreiros frios eram duros de morrer.

— Beberei à sua memória. A gente se estranhava de vez em quando, mas ele nunca me atacou pelas costas. Tenho minhas dúvidas é com esse tal de Alden.

— Não é nosso tipo de gente, John. Supostamente devo fazer um relatório completo sobre as pessoas que liquidamos pelo caminho, quais leis podem ter sido violadas, esse tipo de coisa.

— Então, o que posso fazer por você? — perguntou Clark.

— Alden lhe vendeu a aposentadoria?

— Foram 29 anos. E ainda estou vivo. Meio milagroso, quando você pensa no assunto — observou John em um momento de reflexão.

— Bem, se você precisar de algo para fazer, tenho um número para o qual pode ligar. Seus conhecimentos são um ativo, você pode ganhar dinheiro com isso. Talvez comprar um carro novo para Sandy.

— Que tipo de trabalho?

— Algo que você vai achar interessante. Não sei se realmente vai fazer seu tipo, mas diabos, na pior das possibilidades, você ganha um almoço.

— Quem está nisso?

Hardesty não respondeu à pergunta. Em vez disso lhe entregou outro pedaço de papel com um número.

— Dê uma ligada para eles, John. A menos que você queira escrever suas memórias e tentar fazer com que passem pelo pessoal do sétimo andar.

Clark deu uma risada.

— De jeito nenhum.

Hardesty se levantou e estendeu a mão.

— Desculpe ter que parar por aqui, mas tenho uma tonelada de trabalho. Dê uma ligada para eles; ou não, se achar que não tem interesse. É com você. Talvez a aposentadoria lhe faça bem.

Clark se levantou.

— Está certo. Obrigado.

Feito isso, bastava mais uma viagem de elevador e a porta de saída estava à frente. John e Ding pararam para olhar o muro. Para algumas pessoas da CIA, aquelas estrelas representavam os Mortos de Honra, nada menos que o cemitério de Arlington, apesar de se permitir aos turistas vê-las.

— Qual é o número, John?

— Algum lugar de Maryland, a julgar pelo código de área. — Ele viu as horas e tirou seu celular novo do bolso. — Vamos ver onde...

 

A checagem do tráfego eletrônico que Jack fazia diariamente tomou noventa minutos de seu tempo e não proporcionou nada de substancial. Sendo assim, ele pegou sua terceira xícara de café, escolheu algumas roscas e voltou para seu escritório, começando o que ele chamava de sua “ronda matinal” na miríade de papéis interceptados que o Campus recebia da comunidade de inteligência dos Estados Unidos. Quarenta minutos depois do que parecia ser um exercício crescente de frustração, uma interceptação do Departamento de Segurança Interna, o DHS, atraiu seu olhar. Epa, essa é interessante, pensou, e pegou o telefone.

Cinco minutos depois estava no escritório de Jerry Rounds.

— O que você pescou? — perguntou Rounds.

— Uma interceptação do DHS/FBI/ATF. Estão procurando um avião desaparecido.

Isso atraiu a atenção de Rounds. O Departamento de Segurança Interna tinha uma espécie de sistema de patamar de eventos em funcionamento que geralmente fazia um bom trabalho tirando inquéritos triviais de seu menu de inteligência. O fato de esse inquérito ter subido tanto na cadeia alimentar sugeria que outra agência fizera o trabalho rotineiro de pesquisa e confirmara que o avião em questão não havia sido simplesmente tratado como fora do lugar por alguma companhia de voos charter em algum tipo de confusão administrativa.

— ATF, hein? — murmurou Rounds.

Álcool, Tabaco e Armas de Fogo também se especializava em investigações relacionadas a explosivos. Combine isso com um avião desaparecido... pensou Jack.

— De que tipo? — perguntou Rounds.

— Não informa. Tem que ser pequeno, não comercial, se não a notícia teria vazado. — Qualquer avião 757 perdido gera notícia.

— Há quanto tempo?

— Três dias.

— Sabemos a fonte?

— O roteamento parecia ser interno. De modo que talvez tenha vindo da FAA ou do NTSB. Verifiquei ontem e hoje, e nem um pio de ninguém. — O que significava que alguém havia colocado um tampão sobre o assunto. — Talvez haja outro meio de avançar nisso.

— Me diga.

— Siga o dinheiro — disse Jack.

Rounds sorriu.

— Seguro.