Morto ou Vivo
Capítulo 85
Kersen Kaseke saiu de casa às quatro da madrugada e dirigiu dois quarteirões até um posto de gasolina aberto 24 horas, e comprou uma xícara grande de café. Se o café era de fato haraam — proibido para muçulmanos —, Kaseke até então ainda não descobrira a verdade definitiva, de modo que se permitia aquela indulgência. Era apenas isso, afinal. Ele nem fumava nem bebia nem deixava os olhos se fixarem muito tempo na nudez relativa das mulheres dali.
Voltou para o carro e dirigiu para a Igreja Congregacional do Coração Aberto. As ruas da cidade, aliás raramente muito movimentadas, estavam especialmente tranquilas. Tinha chovido desde o meio da tarde, e agora as únicas pessoas que se deslocavam eram as que não tinham escolha: trabalhadores que entravam cedo, motoristas de entregas, a polícia... Destes últimos ele não viu nenhum carro; um sinal, acreditava, de que Alá estava com ele.
Deu duas voltas pela igreja, em seguida estacionou a um par de quarteirões ao norte, no estacionamento de uma loja de vídeos, colocou a mochila nas costas e saiu. Por força do hábito, não tomou o caminho mais direto até a igreja, e sim uma rota cheia de desvios. Ao finalmente se convencer de que não estava sendo seguido, Kaseke atravessou o gramado diante da igreja até as sebes que margeavam os degraus de entrada, onde se ajoelhou.
Retirou da mochila a primeira mina. Oficialmente conhecida como M18A1, e coloquialmente como “Claymore”, era projetada para uso como arma antipessoal e de vedação de área. Moldada como um retângulo convexo, as entranhas da Claymore não eram complicadas: uma camada de explosivo plástico C4 apoiando uma camada de setecentas bolas de aço de rolamento, cada uma do tamanho de chumbo de caça #4, embutidas em uma camada de resina. Quando detonada, o C4 espalha os setecentos fragmentos na velocidade de 1.220 metros por segundo. Como foi instruído e treinado, Kaseke tinha, na noite anterior, removido a embalagem externa da Claymore e espalhado cuidadosamente 225 gramas de bolinhas de veneno de rato entre as bolas de aço. O ingrediente ativo do veneno, difetialona, era um anticoagulante e, com sorte, impediria que mesmo os menores ferimentos coagulassem. Era uma tática usada com sucesso por seus irmãos palestinos na Faixa de Gaza e na Margem Ocidental. Não demorou muito para que o pessoal de socorro israelense percebesse do que se tratava, mas durante um curto período muitas pessoas morreram, sangrando até a morte a partir do que pareciam ser apenas pequenas lacerações. Por jamais terem visto esse tipo de ataque antes, os paramédicos locais enfrentariam o mesmo horror e confusão.
Quando se certificou de que as bolinhas estavam bem distribuídas, Kaseke selou o veneno no local com uma fina camada de cera de vela, deixou endurecer e remontou a caixa da Claymore. O manual recomendava lenço de papel revestido integralmente com uma camada de adesivo para pano em spray, mas a cera funcionaria da mesma maneira, ele sabia. Em seguida, verificou cada parafuso, o ajuste, para ter certeza de que as camadas se encaixavam perfeitamente. O manual também era direto sobre isso: se as embalagens externas estivessem desalinhadas, a força do explosivo poderia se dispersar. Essa instrução ele seguiu à risca.
Em seguida, Kaseke esticou os suportes em forma de tesoura da mina. Depois se assegurou de que a etiqueta — frente na direção do inimigo — estivesse apontada para a entrada daquela igreja que, dentro de algumas horas, estaria cheia de movimentação. Então enfiou as pernas no terreno suave dentro das sebes. Ficou de barriga, rastejou entre as cercas de plantas, em seguida deu a volta e olhou pelo visor colocado no topo da mina.
Ótimo. Havia escolhido a localização perfeita. A explosão abrangeria não apenas a entrada e as escadas como também parte da calçada.
Verificou o cronômetro da mina com seu próprio relógio. Estavam sincronizados. Ajustou o tempo e apertou o botão de início, e passou alguns segundos observando os tique-taques antes de levantar e ir embora.
Como costumava fazer nos fins de semana, Hank Alvey despertou cedo na manhã de domingo e silenciosamente tirou os três filhos da cama, alimentou-os com aveia e waffles de mirtilo, e depois os deixou sentados diante da TV — o volume bem baixo — para assistir a desenhos animados. As nuvens de chuva da noite anterior tinham sumido, deixando o céu azul brilhante. Raios de sol atravessavam as janelas da sala de estar e se refletiam no assoalho de madeira onde agora as crianças sentavam, mesmerizadas pela TV.
Um pouco antes das sete horas, preparou para Katie uma torrada com massa de pão fermentada, e a despertou com o café da manhã na cama. A loja de pneus da qual era o gerente fechava aos domingos, de modo que este era o único dia em que podia livrar a esposa do que ao contrário seria um trabalho de sete dias por semana. Cuidar das crianças para que ela pudesse dormir mais uma hora, dizia a esposa, era tão romântico e tão sexy. E, na maioria das noites de domingo, depois de as crianças dormirem, ela mostrava a ele exatamente o quanto apreciava aquele gesto.
Mas isso era para mais tarde, lembrou-se Hank, servindo o café, que estava ao lado do pão recém-amanteigado. Na maioria das manhãs ele quase conseguia chegar na cama antes que Katie virasse e o recebesse com um sorriso sonolento. O que ela fez então.
— O que tem para o café da manhã?
— Adivinhe.
— Ah, meu favorito. — Ela se sentou e enfiou os travesseiros atrás das costas. — O que você fez com as crianças, trancou no closet?
— Estão vendo Yo Gabba Gabba! Acho que Jeremy tem uma paixonite pela Foofa.
Katie deu uma mordida na torrada.
— Qual é essa?
— Aquela com a florzinha rosa.
— Certo. Vamos à igreja?
— É bom irmos. Perdemos os dois últimos domingos. Podemos pegar o culto das nove e depois levar as crianças ao parque.
— Muito bem. Vou ficar bonita para sair.
— Feito — disse Hank, indo para a porta. — Vou soltar as crianças agora do closet.
Katie já descia as escadas, vestida, penteada e maquiada, antes mesmo de Hank estar pronto para a operação sapatos. O mais velho deles, Josh, já sabia atar os seus, mas Amanda e Jeremy não, de modo que Hank cuidou de um enquanto Katie ajudava o outro, e então estavam de saída, procurando os casacos e as chaves do carro, e verificando se a porta dos fundos estava trancada.
— Vamos chegar atrasados — disse Katie.
Hank verificou o relógio.
— Ainda faltam mais de 15 minutos. Chegamos lá em cinco minutos. Muito bem, garotos, a caminho...
E saíram.
Meio quarteirão ao norte e do lado oeste da igreja, Kaseke estava no seu terceiro café do dia, sentado em um banco da parada de ônibus. Daquele ângulo tinha uma visão perfeita das escadas da frente. Pronto. As portas se abriram e as pessoas começaram a sair. Kaseke verificou o relógio: 8:48. Pelo caminho que dava a volta na igreja até o estacionamento dos fundos chegava a fila dos fiéis das nove horas. Na frente do grupo vinha um jovem casal com três crianças — dois garotos e uma menina —, os três de mãos dadas e avançando adiante dos pais. Kaseke fechou os olhos e pediu forças a Alá. Isso era necessário. E as crianças, pequenas como eram, morreriam instantaneamente, tão rápido que a dor nem seria percebida por suas mentes.
O grupo que chegava parou no final do caminho, onde se reuniu na área comum diante das escadas.
Keseke verificou o relógio. Faltava menos de um minuto.
A 100 metros de onde tinha plantado a mina, não podia ver que seu plano estava sendo arruinado e, só mais tarde, depois de ele ser capturado, a polícia explicaria como fracassara.
Nas últimas cinco horas em que a Claymore ficou primeiro debaixo da chuva e depois sob o sol matinal, a cera de vela que Kaseke usara para cimentar as bolinhas de veneno de rato nas bolas de rolamento e sua base de resina começou a rachar. Isso por si só não interferiria nas funções da mina, mas o que Kaseke não sabia era que essa Claymore em particular, e outras oito, tinham mais de duas décadas de vida e haviam passado os últimos oito anos armazenadas de modo inadequado dentro de uma caixa de madeira em uma caverna úmida, ou enterradas no solo cozido pelo sol da província de Nargahar, no Afeganistão.
Enquanto a vela de cera rachava dentro do estojo, a resina, com seu prazo de validade há muito vencido e tão quebradiça quanto um biscoitinho, também rachou, mas apenas alguns milímetros. Era o suficiente, entretanto, para afrouxar os soquetes sobre os quais estavam 14 bolas de rolamento. Com tinques metálicos sobrepostos que ninguém poderia ouvir nas escadas da igreja, as 14 bolas de rolamento se soltaram e caíram contra o fundo do estojo. Se não fosse pelas dez horas de chuva, isso, também, não teria prejudicado a detonação da mina, mas os suportes que a sustentavam na posição no solo, agora amaciado e com consistência de lama, sucumbiram ao peso das bolas de rolamento, que mudaram de posição. Às 8:49:36, 24 segundos antes da detonação, a Claymore cuidadosamente apontada por Kaseke se inclinou para a frente e parou em um ângulo de 45 graus, metade da dianteira apontando para a terra, e a outra metade apontando para o concreto.
Quando acordou horas depois no hospital, os primeiros pensamentos de Katie Alvey foram: Meu marido morreu e acho que meus filhos estão vivos, seguido pela compreensão de que a sorte pura e simples teve grande participação no resultado, seja ele qual fosse.
Enquanto a mina de Kaseke se inclinava para baixo, a família Alvey subia as escadas junto com dúzias de outros atrasados que também começavam a subir. Hank caminhava mais perto das sebes que margeavam a escada, com Josh e Amanda à sua esquerda, depois Katie e Jeremy, que segurava a mão da mãe.
As testemunhas mais tarde descreveriam a explosão como um sopro intenso seguido de uma tempestade de granizo infernal. Katie não viu nem ouviu essas coisas, mas por alguma razão havia virado o rosto para Hank quando a Claymore disparou. Das setecentas bolas de rolamento que estavam dentro da mina, umas quatrocentas foram na direção do chão, formando uma cratera no canteiro e arrancando um pedaço de 1 metro de largura do concreto. O restante das bolas ou deslizou pelo concreto, ferindo pés e panturrilhas, destroçando ossos e arrancando pedaços de carne, ou rebateu no concreto em vários ângulos e trajetórias. Os que tiveram o azar de serem atingidos por esses ou morreram instantaneamente ou sofreram horríveis ferimentos nos membros. Hank Alvey, com seu corpo protegendo o filho mais velho e a filha, foi atingido por uma bola por baixo do lado esquerdo do queixo, efetivamente destroçando sua cabeça em três partes. Katie viu isso, mas não teve tempo de reagir nem de agarrar qualquer uma das crianças ou proteger Jeremy com seu corpo. Felizmente, nada disso fora necessário.
Katie ficou parada piscando, os ouvidos zumbindo e o cérebro sem conseguir registrar a carnificina ao redor. Dos dois lados dela, Josh, Jeremy e Amanda estavam igualmente estonteados, mas isso passou rapidamente, e as lágrimas começaram a escorrer. Os degraus estavam banhados de sangue e forrados com braços, pernas e pedaços não identificáveis de... quem? Ela não reconheceu ninguém. Dúzias de pessoas estavam estendidas no concreto. Algumas não se mexiam, outras se contorciam de dor ou tentavam se arrastar para longe ou na direção dos seus bem amados, as bocas se mexendo, mas sem nenhum som saindo.
Então os ouvidos de Katie se abriram e ela escutou os gritos. E as sirenes.