Morto ou Vivo
Capítulo 71
Mais tarde, Gerry Hendley refletiria que a parte mais difícil daquele maldito negócio — exceto pelo evento que provocara tudo, é claro — era simplesmente achar um lugar privado para onde trazê-los. Finalmente, o ex-presidente Ryan interferiu, fazendo uma ligação telefônica para o chefe do Estado-Maior da Força Aérea, que por sua vez ligou para o comandante da 316ª Ala, a unidade primária da Base Aérea de Andrews.
Eles chegaram em dois Chevy Tahoe pretos. Hendley, Jerry Rounds, Tom Davis, Rick Bell, Pete Alexander e Sam Granger no primeiro; Clark, Chavez e Jack Ryan Jr. no segundo. Os dois veículos dobraram à esquerda na rua C e encostaram ao lado de um hangar na margem da pista. O expresidente Ryan chegou cinco minutos depois em um Town Car, flanqueado pela equipe do Serviço Secreto em dois Suburbans.
O Gulfstream V pousou 11 minutos mais tarde, três minutos antes do horário, e taxiou até parar a 50 metros dali. Os motores arrefeceram, as escadas rolaram e se encaixaram na porta principal do avião.
Jack Ryan Jr. desceu do Tahoe, seguido pelos demais, que ficaram alguns passos atrás dele.
A porta do Gulfstream abriu, e trinta segundos depois Dominic Caruso apareceu na soleira. Piscou com a luz do sol, depois começou a descer as escadas. O rosto estava abatido e mostrava cinco dias de barba. Jack avançou e o encontrou no meio do caminho. Os dois se abraçaram.
— Sinto muito, cara — sussurrou Jack.
Dominic não respondeu, mas se soltou do abraço e assentiu.
— É — foi tudo que disse.
— Onde ele está?
— No porão de carga. Não me deixaram trazê-lo na cabine.
Depois de deixarem a pedreira, Bari dirigiu o mais rapidamente possível com os faróis do Opel desligados, conseguindo voltar para a estrada principal em menos de dez minutos. Brian oscilava entre a consciência e a inconsciência enquanto corriam para leste pela costa, e Dominic segurava sua mão, apoiando a cabeça do irmão em seu colo. Mantinha a outra mão fazendo pressão sobre o ferimento, que continuava escorrendo sangue escuro, cobrindo a mão e o antebraço de Dominic, ensopando o assento embaixo de suas pernas. Dez quilômetros antes de Zuwarah, Brian começou a tossir, primeiro ligeiramente, depois em espasmos, o corpo saltando para fora da poltrona enquanto Dominic se inclinava sobre seu torso e sussurrava para que ele aguentasse. Passados alguns minutos, Brian pareceu relaxar e sua respiração se regularizou. E então parou. Dominic não perceberia isso até bem mais tarde, mas tinha sentido aquele momento, aquele ligeiro salto que separava Brian da vida para a morte. Dominic se ajustou na poltrona e a cabeça de Brian pendeu para o lado, seus olhos vazios encarando as costas do assento.
Ele mandou Bari encostar e parar o carro, o que ele fez, e Dominic pegou as chaves da ignição, saiu do carro e caminhou a 10 metros de distância. A leste, os primeiros débeis raios de sol começavam a aparecer no horizonte. Dominic sentou silencioso, observando o alvorecer e não querendo olhar para Brian, meio esperando que quando fizesse isso seu irmão estaria respirando novamente, olhando para ele com um sorriso estúpido, idiota. Claro que isso não aconteceu. Depois de dez minutos, voltou para o carro e mandou o líbio sair da rodovia principal e achar um lugar onde pudessem se abrigar. Depois de dirigir por trinta minutos, Bari achou um bosque de palmeiras, com sombra, e estacionou ali.
Dominic ligou para o celular de Archie; a ajuda do Campus demoraria demais. Em duas sentenças curtas, contou o que aconteceu ao australiano, depois entregou o telefone para Bari, que indicou a localização de onde estavam para Archie. Levou duas horas. Archie chegou em um Range Rover e, sem falar nada, tirou Dominic do Opel, colocou-o no banco de trás do Rover, depois puxou um saco para cadáveres do porta-malas e voltou ao Opel, onde ele e Bari deslizaram cuidadosamente o corpo de Brian para fora do assento e o selaram no saco. Após colocar o saco na área de carga do Rover, Archie voltou ao Opel e limpou tudo, jogando todas as armas e o equipamento no porta-malas. Quando teve certeza de que o carro estava limpo, Archie regou o interior do Opel com o conteúdo de uma lata de cinco galões de gasolina e tocou fogo.
Ao meio-dia estavam de volta a Trípoli. Archie nem passou pelo consulado e foi direto para o que Dominic supôs ser uma casa segura saindo de Bassel el Asad, perto do estádio. Bari, pés e mãos amarrados, foi trancado no banheiro, e, depois que Archie se assegurou de que o embaralhador da linha telefônica estava ligado, deixou Dominic sozinho para ligar para casa.
— Quem mais sabe? — perguntou Dominic ao primo.
— Ninguém — respondeu Jack. — Só quem está aqui. Achei que você queria fazer isso. Ou, se preferir, eu...
— Não.
— Quer ir para casa? — perguntou Jack.
— Não, pegamos algumas coisas. Vocês vão querer ver. Vamos voltar para o escritório. Hendley ou alguém tem que entrar em contato com Archie em Trípoli. Se quisermos Bari aqui, temos que...
— Dom, você não tem que se preocupar. Nós cuidamos disso.
O ex-presidente Ryan se aproximou, e ele e Dominic se abraçaram.
— Dizer que sinto muito não é o suficiente, filho, mas sinto muito.
Dominic assentiu. Para Jack:
— Vamos indo, ok?
— Claro.
Jack se voltou e fez um sinal para Clark e Chavez, que se aproximaram e escoltaram Dominic para o segundo Tahoe.
— Posso pegar uma carona com você? — perguntou Jack ao pai.
— Claro.
Jack fez um sinal para Hendley, depois seguiu o pai até o Town Car.
Viajaram em silêncio até os carros passarem pelo portão principal, então Ryan Senior disse:
— O diabo é que provavelmente nunca saberemos o que aconteceu. Por mais que queira, não vou perguntar a Gerry.
— Pergunte para mim — disse Jack.
— O quê?
— Eles estavam em Trípoli, pai, caçando algo.
— Do que você está falando? Como sabe disso?
— O que você acha?
Ryan Senior não respondeu imediatamente, mas ficou encarando o filho.
— Você está falando sério.
— Sim.
— Jesus, Jack.
— Você sempre me disse que eu tinha que traçar meu próprio caminho. É isso que estou fazendo.
— Há quanto tempo?
— Um ano e meio. Andei juntando coisa com coisa e percebi que havia mais no negócio de Gerry do que o que estava à vista. Fui lá e conversei com ele. Levei uma conversa e consegui um emprego, acho.
— Fazendo o quê?
— Principalmente análise.
— “Principalmente.” O que isso quer dizer? — A voz de Ryan Senior ficou mais dura.
— Andei fazendo algumas coisas em campo. Não muito, só para dar os primeiros passos.
— De jeito nenhum, Jack. Isso acabou. Não vou deixar você...
— A decisão não é sua.
— Droga nenhuma que não é. O Campus foi ideia minha. Eu procurei Gerry e...
— E agora o espetáculo é dele, certo? Eu até que sou meio esperto, pai. Não preciso de você me vigiando. Já fizemos alguns bons trabalhos lá. Do mesmo tipo que você costumava fazer. Se estava ok para você, então por que não para mim?
— Porque você é meu filho, caramba.
Jack sorriu arrevesado para o pai.
— Então talvez esteja no sangue.
— Porcaria nenhuma.
— Olha, eu enfrentei o mundo financeiro e fui bem, mas não levei muito tempo para compreender que não queria trabalhar com aquilo pelo resto da minha vida. Quero fazer algo. Fazer diferença, servir meu país.
— Vá ensinar na escola dominical.
— Vem logo depois na minha lista.
Ryan Senior suspirou.
— Você não é mais um garotinho, acho.
— Não mesmo.
— Bem, não quer dizer que eu vá gostar disso, e provavelmente nunca chegarei a gostar, mas acho que esse é um problema meu. Com sua mãe, no entanto, vai ser uma história diferente.
— Eu falo com ela.
— Não vai não. Eu falo, quando for o momento certo.
— Não gosto de mentir para ela. — Ryan Senior abriu a boca para falar, mas Jack acrescentou rapidamente: — E também não gostava de mentir para você. Droga, se não fosse pelo John, talvez nunca contasse.
— John Clark?
Jack assentiu.
— Ele é tipo meu supervisor de treinamento de fato. Ele e Ding.
— Não há ninguém melhor nesse negócio do que esses dois.
— Então você concorda com isso?
— Digamos que sim. Vou contar um segredo, Jack. Quanto mais velho você fica, menos gosta de mudanças. Semana passada, a Starbucks parou de vender minha torrefação preferida. Me tirou do sério por vários dias.
Jack riu.
— Ainda bem que sou mais a Dunkin’ Donuts.
— Essa também é boa. Você toma cuidado, certo?
— Com o café. Sim...
— Não banque o espertinho.
— Sim, sou cuidadoso.
— Então, em que vocês estão trabalhando?
Outro sorriso de Jack.
— Desculpe, pai, sua necessidade de saber expirou há algum tempo. Se ganhar a eleição, conversamos novamente.
Ryan Senior sacudiu a cabeça.
— Malditos espiões.
Frank Weaver passou quatro anos no Exército, de modo que possuía bastante familiaridade com o modo enlouquecedor como o governo às vezes fazia as coisas, mas achou que havia deixado isso tudo para trás quando foi para a reserva e entrou na escola de direção de caminhões. Passara dez anos fazendo isso, percorrendo grandes trechos de costa a costa, às vezes levando junto a esposa, mas principalmente devorando os quilômetros enquanto ouvia rock clássico. Deus ama as rádios via satélite, pensou, e, graças a Deus, o governo o deixava continuar com o novo emprego. Ele não tinha se entusiasmado em voltar a trabalhar para o governo, mas o salário era bom demais para dispensar, com os adicionais de periculosidade e tudo mais. Eles não chamavam a coisa exatamente assim, mas era disso que se tratava. Tivera que frequentar um programa especial de treinamento e passar pelas verificações do FBI, mas não tinha nada a esconder e era ótimo motorista. Na verdade, não havia nada de extraordinário no que o mandavam fazer — isto é, salvo a carga, mas ele jamais havia precisado tocar naquela coisa. Bastava ir ao local, deixar alguém fazer o carregamento, depois dirigir com segurança até o destino e deixar alguém descarregar. O treinamento era principalmente sobre procedimentos de emergência: o que fazer se alguém tentasse roubar a carga; o que fazer caso se envolvesse em um acidente; o que fazer se um óvni descesse e usasse um raio para jogá-lo fora da cabine... Os instrutores do Departamento de Energia e da Comissão de Regulação Nuclear tinham procedimentos para todos “e se” que você pudesse imaginar, e mais uma centena que você nem pensaria. Além do mais, ele nunca dirigiria sozinho pela estrada. Ainda não tinham lhe dito se a escolta estaria em carros identificados ou não, mas podia apostar que estavam armados até os dentes.
Porém dessa vez não haveria guardas, o que surpreendeu um pouco Weaver. Sim, era apenas um treinamento e sua carga estaria vazia, mas, considerando o jeito como o DOE fazia tudo parecer real, ele esperava ter escolta. Mas talvez estivessem mentindo; talvez houvesse uma escolta que ele supostamente não deveria ver. Isso não mudava seu trabalho.
Weaver diminuiu a marcha e freou, manobrando o caminhão trucado para a entrada da Usina Nuclear de Callaway. Cerca de 100 metros adiante, viu a cabine da guarda. Freou até parar e entregou a identidade para o guarda. A entrada estava bloqueada por cinco pilares de concreto com o interior repleto de aço.
— Desligue o motor, por favor.
Weaver obedeceu.
O guarda examinou sua identidade, depois a guardou no bolso da frente e mandou que ele assinasse a prancheta. O caminhão de Weaver estava vazio, mas o guarda fez seu trabalho, primeiro dando uma volta completa em torno do caminhão, depois verificando o chassi por baixo com um daqueles carrinhos com espelho.
O guarda reapareceu ao lado da janela.
— Por favor, desça do caminhão. — Weaver desceu. O guarda mais uma vez examinou a identidade, levando uns bons dez segundos para verificar se os rostos combinavam. — Por favor, fique ao lado da cabine da guarda.
Weaver assim o fez, e o guarda subiu na cabine do caminhão e passou dois minutos revistando o interior antes de sair. Entregou de volta a identidade de Weaver.
— Doca número quatro. Vão encaminhar você pelo caminho. O limite de velocidade é de 15 quilômetros por hora.
— Saquei.
Weaver entrou de volta no caminhão e ligou o motor. O guarda levou o rádio portátil aos lábios e disse alguma coisa. Um momento depois, os pilares de concreto reentraram no solo. O guarda acenou para Weaver passar.
A doca número quatro estava a apenas 100 metros dali, nos fundos da instalação. No meio do caminho, um homem com um capacete de segurança e macacão acenou para que ele manobrasse. Weaver fez um retorno, encostou de ré na doca e desligou o motor.
O capataz da doca foi até a porta de Weaver.
— Pode esperar no saguão, se quiser. Vai levar mais ou menos uma hora.
Levou quase noventa minutos. Apesar de Weaver já ter visto fotos da coisa durante o treinamento, nunca vira uma pessoalmente. Ele e os demais motoristas a apelidaram de “Halteres do King Kong”, mas o pessoal do DOE tivera muito trabalho para enfiar os detalhes da coisa em seus cérebros. Oficialmente conhecido como Tonel para Transporte de Restos Nucleares em Caminhão de Peso Legal GA-4, o contêiner era uma impressionante peça de engenharia. Como eles chegaram a essa forma de halteres era algo que Weaver não sabia, mas supunha que tinha a ver com a durabilidade. Segundo os instrutores, os desenhistas do GA-4 haviam realizado verdadeiros testes de tortura na coisa, submetendo-a a queda livre, incineração, riscos de perfuração e submersão. Para cada tonelada de lixo nuclear — conjuntos de combustível tanto para reatores que funcionavam à base de pressão hidráulica quanto por vaporização de água —, o tonel do GA-4 recebia 4 toneladas de proteção.
Caramba, pensou Weaver, é tão impossível entrar naquela coisa quanto roubá-la com algo menos que um caminhão, um guindaste e talvez um helicóptero de serviço pesado. Seria algo parecido com o que aqueles idiotas que às vezes se vê na televisão fazem. Prendem um caixa automático com uma corrente, arrastam e depois precisam jogar fora em algum lugar porque não conseguem abrir.
— Nunca vi um desses de perto — disse Weaver ao capataz da doca.
— Parece algo saído de um filme de ficção científica, não é?
— De certo modo, sim.
Pelo protocolo, os dois deram a volta pela plataforma, verificando os itens “pré-voo” enquanto passavam. Cada corrente de amarração era nova, e fora testada para estresse ainda na fábrica, tal como as linguetas, cada uma delas presa por cadeados duplos. Seguros de que o contêiner não iria deslizar antes de chegar a seu destino, Weaver e o capataz assinaram e contra-assinaram os formulários, cada um ficando com uma cópia.
Weaver acenou se despedindo e subiu na cabine. Quando o motor já estava funcionando, ligou o sistema de navegação via GPS fixo no painel, depois passou pelo menu e selecionou sua rota. A unidade havia sido programada pelo DOE com dúzias de possibilidades. Outra precaução, disseram-lhe. Nenhum motorista saberia sua rota até deixar a instalação de carga.
O percurso apareceu na tela como uma linha púrpura por sobre um mapa dos Estados Unidos. Nada mal, pensou Weaver. Rodovias principais na maior parte do caminho, 2.626 quilômetros. Quatro dias.