Morto ou Vivo
Capítulo 75
Logo depois das nove da manhã, Musa passou por Yakima, em Washington, e dirigiu mais alguns quilômetros até Toppenish, onde saiu da rodovia e entrou na cidade. Achou um restaurante, algo chamado Pioneer Kitchen, e parou. O estacionamento estava apenas com um quarto da lotação. Os americanos, havia muito Musa aprendera, preferiam tudo com rapidez e facilidade, especialmente comida. Apesar de não ter visto nenhum, supôs que Toppenish tinha sua boa porção de McDonald’s, Burger King e Arby’s. Sempre em movimento, cuidando de seus importantes negócios, os americanos não sentavam para comer a menos que estivessem no sofá diante da televisão. Uma pílula para cada doença, e uma enfermidade para cada falha de caráter.
Achou uma vaga para estacionar próxima à porta da frente e entrou. O cartaz no balcão do caixa informava que ele podia sentar onde quisesse. Achou um reservado perto da janela, de onde podia ficar de olho no Subaru, e sentou. Uma garçonete com avental cor de mostarda e blusa branca se aproximou.
— Bom dia. Posso trazer café?
— Sim, por favor.
— Precisa de um minuto para olhar o menu?
— Não. Torrada, sem manteiga, e frutas.
— Claro, sem problemas. Volto já. — Retornou com uma xícara e uma jarra de café e saiu.
Atrás dele ouviu uma voz perguntar:
— Ei, aquele é o seu carro?
Musa se virou. Um policial uniformizado estava ali parado. Tinha seus 50 e tantos anos, cabelo escovinha e pança. Os olhos eram perspicazes, entretanto. Olhar de policial. Musa respirou fundo para se acalmar e disse:
— Desculpe?
— Aquele carro. É seu?
— Qual deles?
— Aquele econômico ali.
— O Subaru?
— Sim.
— A luz de leitura está acesa. Notei quando entrava.
— Oh, obrigado, não reparei. Não vou demorar. Acho que não vai arriar a bateria.
— Provavelmente não. Só por curiosidade: o que é aquela coisa na traseira? Parece uma caixa grande de iscas.
— Não vai acreditar em mim se lhe contar.
— Experimente.
— É uma máquina de raios X portátil para cavalos.
O policial resmungou.
— Nem sabia que existia uma coisa dessas. Para onde você vai?
— Faculdade de veterinária na UNLV, Las Vegas.
— Longa viagem.
— Confundiram a papelada, a companhia aérea não queria colocar no porão de carga. Decidi que uma viagenzinha de carro não ia me fazer mal. Além disso, ganho 50 centavos por quilômetro rodado.
— Bem, boa sorte.
— Obrigado.
O policial se afastou e sentou numa banqueta ao balcão. Alguns minutos depois a garçonete voltou com a torrada e as frutas de Musa.
— Willie andou se metendo nos seus assuntos?
— Desculpe?
Ela apontou o policial com o polegar.
— Willie é o chefe de polícia. Faz um bom trabalho, mas é enxerido demais. Ano passado terminei com meu namorado e Willie sabia disso antes da minha mãe.
Vá embora, mulher. Musa deu de ombros.
— Cidades pequenas.
— É isso. Desfrute seu café. Volto daqui a pouco para ver se você quer algo mais. — E saiu.
Alá, dê-me paciência, pensou Musa. Verdade seja dita, ele geralmente achava os americanos toleráveis, ainda que um tanto faladores. Se sua pele fosse mais escura ou se tivesse sotaque, provavelmente esse não seria o caso. O destino era algo estranho. Aquelas pessoas eram, por um lado, decentes e viviam despreocupadas, mas adoravam um falso deus, tentando dar sentido a uma existência que não tinha significado fora do islã. Os americanos adoravam suas “zonas de conforto”. A vasta maioria deles jamais havia saído e jamais sairia dos confins dos Estados Unidos, tão certos estavam de que o restante do mundo não tinha nada a oferecer, salvo talvez algum estranho lugar para passar as férias. Mesmo os acontecimentos do 11 de Setembro pouco fizeram para que os americanos abrissem os olhos para fora de sua bolha. Muito pelo contrário. Encorajados por seu próprio governo, muitos haviam se retirado mais para o interior de suas conchas, consolando-se com seus rótulos e platitudes: islamofascista. Extremista. Malfeitores que odeiam nossa liberdade. Aqueles que tentavam destruir os Estados Unidos.
Os Estados Unidos não podiam ser destruídos de fora, disso Musa tinha certeza. E o Emir fora presciente nesse sentido. Cada um dos impérios caídos ao longo da história apodrecera por dentro, e o mesmo seria verdade ali. Lutando em duas guerras intratáveis, uma economia bagunçada, fábricas e bancos gigantescos falindo... Essas condições podiam mudar com o tempo, talvez até melhorar, mas os historiadores do futuro marcariam esses acontecimentos como o início da decadência. A triste verdade era que os Estados Unidos não podiam ser destruídos, por si sós, de dentro ou de fora, e certamente não pelo esforço de mortais. Se isso acontecesse, viria pela própria mão de Alá, e no tempo de Sua escolha. E, ao contrário de todos os líderes que vieram antes dele, o Emir sabia a verdade contida nisso e havia ajustado sua estratégia de acordo.
Mais quatro dias, pensou Musa, o mundo aterrorizador que os Estados Unidos teimavam tanto em manter distante desabaria sobre eles.
Clark e Jack tinham reservas em um voo às seis da manhã pela US Airways saindo de Dulles para Norfolk; Chavez e Dominic sairiam no voo noturno da Northwest para o Rio de Janeiro. Deviam pousar nos respectivos destinos mais ou menos na mesma hora.
Noventa minutos depois do começo do incêndio em Paulínia, quando os céus da costa leste começaram a escurecer com a fumaça, São Paulo fechou o espaço aéreo para todo tráfego. Hendley e Granger acharam isso de bom augúrio: com sorte, os agressores da refinaria não teriam chegado ao aeroporto antes destes fecharem. Era quase certo terem algum plano alternativo de evacuação, mas qual a rapidez que este poderia retirá-los do país era desconhecida.
Enquanto os demais estavam sentados na sala de conferências observando a cobertura de notícias de Paulínia, Jack encontrou Dominic sentado na sala de descanso, as mãos fechadas sobre a mesa diante dele. Olhava para o nada. Só quando Jack ficou parado diante dele, Dominic levantou o olhar.
— Olá, Jack.
— Ding já informou você? São Paulo?
— Sim.
— Se você não estiver preparado para o trabalho, tenho certeza de que...
— Por que eu não estaria?
A pergunta surpreendeu Jack.
— Acho que eu não estaria, se estivesse em seu lugar. Dom, ele era meu primo e eu o adorava, mas era seu irmão.
— E qual é a sua questão?
— Minha questão é: vinte e poucas horas depois da morte de Brian, você está de novo no ar e, quando te pergunto sobre isso, você me dá uma resposta inesperada. É só um pouco estranho.
— Desculpe.
— Não estou procurando pedidos de desculpa. Quero que você converse comigo.
— Brian está morto, Jack. Sei disso, está bem? Vi a faísca de vida deixá-lo. — Dominic estalou os dedos. — Desse jeito. Sabe a primeira coisa que pensei depois disso?
— O quê?
— Que se não fosse por causa daquele idiota do Bari, Brian provavelmente ainda estaria vivo.
— Você acredita nisso?
— Na verdade, não, mas tive que me controlar ao máximo para não sair do carro e meter uma bala na cabeça do sujeito. Eu cheguei a colocar minha mão na maçaneta. Queria matá-lo, depois voltar à casa de Almasi e ver se algum daqueles filhos da puta ainda estava vivo para poder matá-lo também.
— Você estava em choque. Ainda se sente assim?
— Não sinto muita coisa, Jack. Isso é o que me assusta.
— Isso se chama choque. Você pode se sentir assim por algum tempo. Todo mundo reage de forma diferente. Você lida com isso do jeito que lida com isso.
— Sim, e o que faz você especialista nessa merda?
— Você ouviu falar de Sinaga?
— O falsificador? O que tem ele?
— Eu estava vigiando os fundos quando John e Ding arrombaram a porta dele. Ele pulou pela janela, e de repente veio para cima de mim com uma faca. Nós lutamos, eu segurei o pescoço dele e tropecei em alguma coisa. Quando vi, ele estava ali deitado, estrebuchando. Olhando para mim. Nem sei exatamente como, mas quebrei o pescoço dele.
Dominic ouviu tudo, mas seu rosto permaneceu impassível.
— Acho que é minha vez de perguntar como você se sente.
— Bem, acho — respondeu Jack. — Acho que jamais vou apagar o rosto dele da minha cabeça, mas era ele ou eu. Me sinto mal por isso, mas com certeza não me sinto mal por estar vivo.
— Então você está um ponto na minha frente, primo. Se pudesse trocar de lugar com Brian, eu trocaria.
— Está tentando me dizer alguma coisa?
— Tipo o quê?
— Tipo se eu vou precisar esconder todas as facas de churrasco da próxima vez que você for assistir futebol lá em casa.
— Não, Jack. Mas vou dizer uma coisa: antes de isso tudo terminar, vou me vingar por Brian, e vou começar em São Paulo.
Jack abriu a boca para responder, mas Dominic levantou a mão, impedindo-o.
— Primeiro a missão, Jack. Só estou dizendo que, se aparecer um babaca na minha mira, liquido o idiota e faço um traço por conta do Bri.
Fora os olhares estranhos de seus companheiros viajantes enquanto olhavam o tonel do GA-4 ao passarem por ele na rodovia, o primeiro dia de viagem de Frank Weaver transcorreu sem incidentes. Como aquele era um carregamento experimental, o tonel em particular era simplesmente uma concha sem nada dos escudos de nêutrons e raios gama que a coisa de verdade exigiria. Também não tinha decalques ou estênceis. Nada que indicasse seu propósito. Era simplesmente um halter gigante de aço inoxidável sobre um caminhão-plataforma. As criancinhas em particular estavam se divertindo muito, apertando as caras com olhar arregalado pelas janelas quando passavam.
Mais de 670 quilômetros e sete horas após sair da fábrica de Calloway, Weaver pegou a saída 159 da rodovia 70 e dobrou ao sul na Vine Street. O Motel Super 8 estava a uns 400 metros dali. Ele seguiu a placa CAMINHÕES ENTRAM POR AQUI para o estacionamento, então freou e parou entre as linhas amarelas de uma vaga para caminhões. Três outros ocupavam vagas vizinhas.
Weaver desceu da cabine e espreguiçou.
Um dia já se foi, pensou Weaver. Faltam três.
Trancou o caminhão, e depois deu uma volta, verificando cada uma das linguetas com cadeados e a tensão de todas as correntes. Tudo certo. Atravessou o estacionamento em direção ao saguão.
A 50 metros dali, um Chrysler 300 azul-escuro entrou em outra vaga. No assento dianteiro, um homem levantou um binóculo e observou Weaver passar pelas portas do saguão.
Como fazia quatro vezes por dia durante as últimas duas semanas, Kersen Kaseke ligou o laptop, abriu o navegador e foi até o site de armazenamento on-line de arquivos. Ficou surpreso ao ver um arquivo esperando em sua caixa de entrada. Era uma imagem JPEG de algum tipo de pássaro — um gaio-azul, talvez. Baixou o arquivo para a pasta de documentos de seu disco, apagou a foto do site e fechou o navegador.
Achou o arquivo, clicou nele com o botão direito do mouse, e selecionou “Abrir com... Image Magnifier”. Cinco segundos depois, uma janela abriu mostrando a imagem do gaio-azul, que passou de colorido a preto e branco antes de começar a granular. Primeiro vagarosamente e depois mais rapidamente, pedaços de pixels começaram a desvanecer. Passados trinta segundos, só sobraram duas linhas de pares alfanuméricos — 168 deles. Finalmente, Kaseke clicou duas vezes na tabela de uso diário e a abriu. A decodificação era tediosa, levando quase dez minutos, mas, quando terminou, tinha duas linhas de texto:
Domingo. 8:50 da manhã
Igreja Congregacional do Coração Aberto
Uma Igreja Cristã, pensou Kaseke. Muito melhor que uma biblioteca ou mesmo uma escola. Sabia onde se localizava e suspeitava que, como quase todas as igrejas em Waterloo, essa tinha vários serviços matinais. O horário de oito e cinquenta seria o momento aproximado em que as pessoas estariam saindo do primeiro serviço e chegando para o segundo. Dando alguns minutos para os membros recolherem suas coisas e se dirigirem para a porta... Nos reconhecimentos anteriores, ele estudara as idas e vindas dos membros da igreja. Eles gostavam de se reunir na porta entre os serviços, apertar as mãos, rir e conversar sobre seja lá o que fosse. Tanta frivolidade. O que passava por devoção ali era uma desgraça.
Oito e cinquenta. Sim, era perfeito. Haveria mais de cem pessoas paradas nos degraus e na calçada. Entretanto, provavelmente com a presença de crianças, e Kaseke não gostava especialmente dessa parte. Mas Alá o perdoaria. Sacrificar alguns pelo bem maior era aceitável.
Era noite de sexta-feira. Ele usaria a maior parte do sábado para determinar a localização, e durante a noite se asseguraria de que o disposto estava em ordem. Isso não levaria muito tempo, sabia. Seu trabalho seria simples: plantar o dispositivo, ajustar o timer e achar um bom ponto de observação para acompanhar os resultados.