Morto ou Vivo
Capítulo 7
— Então, qual é a boa de hoje? — perguntou Brian Caruso ao primo.
— O mesmo guisado de sempre, só muda o dia, suponho — respondeu Jack Ryan Jr.
— “Guisado?” — retrucou Dominic, o outro Caruso. — Você não está querendo dizer “merda”?
— Tento ser otimista.
Os três, armados com as primeiras xícaras de café do dia, caminharam pelo corredor até o escritório de Jack. Eram oito e dez, já na hora de começar mais um dia no Campus.
— Alguma notícia de nosso amigo, o Emir? — perguntou Brian, bebendo um gole de café.
— Nada em primeira mão. Ele não é estúpido. Fez até com que seus e-mails fossem enviados por uma série de intermediários, alguns através de contas em servidores abertos e fechados em questão de horas, e mesmo assim os dados financeiros das contas acabam sendo becos sem saída. Atualmente, o interior do Paquistão é a aposta mais provável. Talvez na casa ao lado. Talvez onde quer que ele possa comprar um lugar seguro. Droga, a essa altura fico tentado a olhar até no nosso guarda-roupa.
Era frustrante. Sua primeira aventura como agente de campo tinha sido um sucesso. Ou talvez sorte de principiante. Ou destino. Ele tinha ido a Roma como apoio de inteligência para Dominic e Brian, nada mais que isso, e por puro acaso localizou MoHa no hotel. Daí para a frente, as coisas correram rapidamente, rápido demais, e então foi ele e MoHa no banheiro...
Da próxima vez, não ficaria tão assustado, disse Jack a si mesmo com enorme — e falsa — confiança. Ele se lembrava de matar MoHa tão claramente quanto da primeira vez que dera uma trepada. O mais vívido foi o olhar no rosto do homem quando a sucinilcolina começou a atuar. Jack poderia ter se arrependido do assassinato, salvo pela onda de adrenalina do momento e pelo que Mohammed era culpado de ter feito. Ele não tinha nenhum arrependimento na alma por essa ação. MoHa era um assassino, alguém que tinha tomado para si levar a morte a civis inocentes, e Jack não perdeu um pestanejar de sono por causa disso.
Havia ajudado muito estar acompanhado de familiares. Ele, Dominic e Brian compartilhavam um avô, Jack Muller, pai de sua mãe. O avô materno deles, agora com 83 anos, era um italiano de primeira geração, que emigrou da Itália para Seattle, onde nos últimos sessenta anos trabalhara no restaurante administrado e de propriedade da família.
Vovô Muller, antigo veterano do Exército e vice-presidente da Merrill Lynch, tinha um relacionamento desgastado com o Jack Ryan mais velho, depois de declarar que o abandono de Wall Street por seu genro em troca do serviço público era pura idiotice — idiotice que havia levado sua filha e sua neta, a pequena Sally, a quase perderem as vidas num desastre de automóvel. Se não fosse a decisão errada do genro de voltar para a CIA, isso não teria acontecido. É claro que ninguém, salvo o vovô Muller, acreditava nisso, incluindo mamãe e Sally.
Também ajudou, considerou Jack Jr., o fato de Brian e Dominic serem também relativamente novos nisso. Não novos diante do perigo — Brian era um marine e Dominic, agente do FBI —, mas nessa “Selva de Espelhos”, como James Jesus Angleton a chamara. Eles se adaptaram bem e rapidamente, tendo despachado três soldados do CRO em curto prazo — quatro no tiroteio no shopping em Charlottesville e três na Europa com a “Caneta Mágica”. Entretanto, Hendley não os contratara por serem bons de gatilhos. “Atiradores espertos” foi a frase que Mike Brennan, quando era diretor do Serviço Secreto, usara muitas vezes, e realmente caía como uma luva em seus primos.
— Me dê seu melhor palpite — pediu Brian em seguida.
— Paquistão, mas perto o suficiente para o pessoal dele poder pular a fronteira. Algum lugar cheio de rotas de evacuação. Está num lugar com eletricidade, mas geradores portáteis são fáceis de obter, então isso não quer dizer muito. Talvez também uma linha telefônica. Eles se livraram dos telefones via satélite. Aprenderam isso do modo mais difícil.
— É... quando leram sobre isso no Times — resmungou Brian.
Os jornalistas acham que podem imprimir o que quiserem. É difícil ver as consequências disso quando se está sentado na frente de um teclado.
— Porém no fim das contas não sabemos onde Sua Alteza anda agora. Mesmo minha melhor avaliação é apenas um palpite, mas a verdade que tem que ser dita é que inteligência muitas vezes não passa disso, um palpite baseado nas informações disponíveis. Algumas vezes é sólida como uma rocha, e em outras, parece leviana como o ar. A boa notícia é que temos lido muitos e-mails.
— Quantos? — perguntou Dominic.
— Talvez 15 ou vinte por cento do total. — Ainda assim, o volume era esmagador, mas com o volume vinham as oportunidades. Meio como Ryan Howard, pensou Jack. Balança num monte de lançamentos, perde um bocado, mas consegue pontuar bastante. Felizmente.
— Então vamos balançar a árvore e ver o que cai. — Sempre marine, Brian estava a fim de atacar uma cabeça de praia. — Agarramos alguém e o fazemos suar um pouco.
— Não quero estragar nossa mão — disse Jack. — Deixe algo assim para uma operação em que valha a pena botar para quebrar.
Uma coisa que ambos sabiam não falar sobre era como a comunidade de inteligência tratava com cautela os dados que recebia. Uma boa parte ficava em casa, sem ser passada adiante nem para os próprios diretores, que tendiam a ser políticos nomeados, leais para quem os nomeava e nem sempre fiéis ao juramento que prestavam ao assumir os cargos. O presidente — conhecido na comunidade como NCA, a autoridade nacional em comando — tinha uma equipe na qual confiava, ainda que essa confiança significasse vazar o que ele queria, e apenas o que ele queria que vazasse, e apenas para jornalistas que aceitassem tratar a notícia vazada como ele queria. A comunidade de espiões não revelava tudo ao presidente, o que poderia gerar demissão caso alguém fosse descoberto. Também controlavam o que era passado para os agentes de campo, algo que tinha uma história por trás e que também explicava por que o pessoal de operações especiais raramente confiava na comunidade de inteligência. Era tudo uma questão de necessidade de saber. Você podia ter a autorização de segurança mais alta, mas, se não fosse necessário que soubesse, ficava fora da jogada. A mesma coisa valia para o Campus, que oficialmente estava fora de todas as jogadas, o que era em parte uma questão de princípio. Ainda assim, eles conseguiam muito sucesso se esgueirando para dentro da jogada. O hacker-chefe deles, uma espécie de supergeek chamado Gavin Biery, que dirigia a seção de TI, ainda não tinha encontrado um sistema de criptografia no qual não conseguisse enfiar o dedo.
Antigo empregado da IBM, ele perdera dois irmãos no Vietnã, e depois disso passou a trabalhar para o governo federal, onde foi localizado e cuidadosamente selecionado para ir ao quartel-general da Agência de Segurança Nacional, a NSA, em Fort Meade, o principal centro de comunicações e segurança eletrônica do governo. Desde então seu salário alcançara o máximo como sênior do serviço executivo, e ele ainda recebia uma generosa aposentadoria do governo. Mas adorava ação e tinha pulado para agarrar a oferta do Campus, segundos depois que esta lhe fora oferecida. Era, profissionalmente, um matemático com doutorado em Harvard, onde estudou com o próprio Benoit Mandelbrot, e de vez em quando fazia conferências no MIT e na Caltech sobre sua especialidade.
Biery era um geek de cabo a rabo, até os óculos de aros negros grossos e uma aparência pastosa, mas mantinha os equipamentos eletrônicos do Campus lubrificados e as máquinas ronronando o tempo todo.
— Compartimentalização? — disse Brian. — Não me venha com essa merda de sigilo.
Jack levantou as mãos e deu de ombros.
— Sinto muito. — Tal como seu pai, Jack Ryan não era de quebrar as regras. Primo ou não, Brian não tinha necessidade de saber. Ponto final.
— Alguma vez você já pensou sobre o nome? — perguntou Dominic. — O CRO? Você sabe bem como esse pessoal adora duplos sentidos.
Ideia interessante, pensou Jack.
O Conselho Revolucionário Omíada foi invenção do próprio Emir, eles achavam. Seria o que parecia — simplesmente outra referência oblíqua a um símbolo indiscutível do jihad, ou seja, Saladino —, ou seria algo mais?
Nascido como Salah Ad-din Yusuf Ibn Ayyub, por volta de 1138 em Tikrit — hoje Iraque —, Saladino rapidamente cresceu até o status de figura representativa nas cruzadas, primeiro como defensor de Baalbek, depois como sultão do Egito e da Síria. O fato de o desempenho de Saladino nos campos de batalha ser, segundo alguns relatos, irregular no melhor dos casos, tinha pouca consequência para a história muçulmana. O que importava, como foi o caso de muitas figuras tanto do Oriente quanto do Ocidente, era o que Saladino passou a representar. Para os muçulmanos, ele era a espada vingadora de Alá, resistindo à inundação dos cruzados infiéis.
Se havia algum pano de fundo simbólico no nome do CRO, provavelmente estava no último nome, Omíada, o nome da mesquita de Damasco que abrigava a última morada de Saladino, um mausoléu que continha tanto um sarcófago de mármore doado pelo imperador Guilherme II da Alemanha quanto um simples caixão de madeira, no qual ainda estavam os restos de Saladino. O fato de o Emir ter escolhido Omíada como nome operacional de sua organização sugeria a Jack que ele via o jihad como um ponto de inflexão, tal como a morte de Saladino fora a transição de uma vida de lutas e sofrimentos para o paraíso eterno.
— Vou pensar um pouco nisso — disse Jack. — Não é um mau palpite, eu acho.
— Aqui dentro não há apenas areia, primo — declarou Brian, sorrindo, enquanto batia na testa com o dedo indicador. — Então, o que seu pai anda fazendo com todo o tempo livre?
— Não sei. — Jack não passava muito tempo em casa. Isso significaria conversar com seus pais, e, quanto mais falasse sobre seu “emprego”, mais provável era que seu pai ficasse curioso, e, se descobrisse o que ele fazia ali, mais provável ainda que ficasse muito irritado. E nem pensar em como sua mãe reagiria. Esses pensamentos irritavam Jack. Ele não era nenhum filhinho da mamãe, com certeza, mas será que alguém verdadeiramente deixa de tentar impressionar os pais e buscar aprovação? Como era mesmo aquele ditado? Alguém só se tornava verdadeiramente um homem quando matasse seu pai — metaforicamente, é claro. Ele era um adulto, seguindo seu caminho, fazendo um monte de coisa séria no Campus. Já é hora de sair da sombra do papai, lembrou-se Jack pela enésima vez. Só que era uma maldita sombra grande demais.
Brian disse:
— Aposto que ele está de saco cheio e...
— Quer escapar?
— Você não gostaria?
— Já morei na Casa Branca, lembra? Já tive minha dose. Com prazer arrumo meu cubículo aqui e fico caçando bandidos.
Por enquanto, quase sempre no computador, pensou Jack, mas talvez, se jogasse direito, mais no campo. Ele já ensaiava o discurso que faria para o chefe do Campus, Gerry Hendley. O caso do MoHa tinha que valer alguma coisa, não é? Seus primos eram atiradores espertos. O termo cabia a ele?, considerou Jack. Poderia se aplicar a ele? Em comparação, sua vida tinha sido muito protegida, o filho bem-protegido do presidente John Patrick Ryan, mas isso também trouxe seus benefícios, não é verdade? Aprendeu a atirar com agentes do Serviço Secreto, havia jogado xadrez com o secretário de Estado, vivera e respirara, ainda que obliquamente, no mundo interior das comunidades militar e de inteligência. Teria ele, por osmose, adquirido alguns dos traços pelos quais Brian e Dominic treinaram tanto? Talvez. Ou talvez fosse apenas vontade. De qualquer maneira, primeiro ele tinha que passar por Hendley.
— Mas você não é o seu pai — lembrou-lhe Dominic.
— Isso é verdade. — Jack girou a cadeira e ligou seu PC para a dosagem matinal de notícias, públicas e confidenciais. Muitas vezes, as últimas estavam apenas três dias adiante das primeiras. O primeiro lugar que Jack acessava era o Sumário Executivo de Transcrição de Interceptações da NSA. Chamado de EITS ou XITS — e que pela infeliz semelhança com a palavra “zits”, tinha o apelido de “pústulas” —, era enviado apenas aos dirigentes de alto nível da NSA e da CIA, e para o Conselho de Segurança Nacional, o NSC, na Casa Branca.
Falando no demônio... Ali estava o próprio Emir, mais uma vez no XITS. Uma interceptação. A mensagem era estritamente administrativa. Emir queria saber o que alguém — simplesmente um codinome sem rosto — estava fazendo, se tinha feito contato com algum estrangeiro desconhecido, com algum propósito desconhecido. Isso era o padrão com a maioria das interceptações — um bocado de desconhecidos, do tipo preencha os espaços em branco, que era, na verdade, o trabalho de análise de informações. O maior e mais complexo quebra-cabeça do mundo. Essa peça em particular tinha provocado uma reunião de brainstorming na CIA.
A agenda proposta era o tópico de todo um relatório apresentado em espaçamento simples (quase tudo especulação), feito por algum analista de nível médio que provavelmente desejava conquistar um escritório mais bem-situado, e que gostava de encher papel com suas especulações na esperança de que algum dia alguma coisa colasse e ele pudesse ser alçado aos níveis salariais superiores. E talvez algum dia isso acontecesse, mas isso não o tornaria mais competente, exceto talvez aos olhos de algum superior que tivesse conseguido subir do mesmo modo e gostasse de puxa-sacos.
Alguma coisa estava azucrinando a mente de Jack, algo sobre essa pesquisa em particular... Ele deslizou a seta do mouse sobre a pasta do XITS no disco rígido do seu computador, clicou duas vezes e abriu o documento que estava arquivado. E lá estava, o mesmo número de referência da interceptação, desta vez vinculado a um trio de e-mails de mais de uma semana atrás, o primeiro de um membro da equipe do NSC para a NSA. Aparentemente, alguém na Casa Branca queria saber como exatamente haviam conseguido aquela informação. A pesquisa tinha sido encaminhada para o Arquivo de Segurança Nacional Digital, o DNSA, posição ocupada por um profissional de inteligência militar três estrelas, neste momento, um oficial do Exército chamado tenente-general Sam Ferren, que respondeu sucintamente: BACKPACK. NÃO RESPONDA. ASSUNTO A SER TRATADO ADMINISTRATIVAMENTE.
Jack teve que sorrir diante daquilo. Na verdade, “Backpack” era o nome de código rotativo interno da NSA para Escalão, o programa da agência destinado à monitoração eletrônica, que tudo sabia e tudo via. A resposta de Ferren era compreensível. O membro da equipe do NSC estava perguntando pelas “fontes e métodos”, ou seja, os mecanismos através dos quais a NSA operava sua mágica. Tais segredos simplesmente não eram compartilhados com os consumidores de informações de inteligência como a Casa Branca, e a pergunta do funcionário do NSC, consequentemente, era idiota.
Previsivelmente, o sumário XITS subsequente para o NSC simplesmente listava a interceptação como “cooperação estrangeira de ELINT”, ou inteligência eletrônica, comunicando em resumo à Casa Branca que a NSA conseguira a informação através de uma agência de inteligência amiga. Ou seja, ele mentiu.
Só podia haver uma razão para isso: Ferren suspeitava que a Casa Branca estava mostrando o XITS por aí. Jesus, pensou Jack, deve ser uma tensão enorme para um três estrelas ter que cuidar do que dizia para o presidente em exercício. Mas, se o mundo dos espiões não confiava no presidente, quem, então, cuidava do país? E, se o sistema quebrar, Jack continuou pensando, a quem recorrer? Essa era uma questão para um filósofo, ou para um sacerdote.
Pensamentos profundos para um começo de manhã, disse Jack a si mesmo, mas, se ele lia os XITS — supostamente o sanctum sanctorum dos documentos governamentais —, o que não estava lendo? O que não estava sendo disseminado? E quem diabos tinha essas informações? Haveria um canal de ligação insulado e exclusivo para nível de diretor?
Muito bem, então o Emir estava falando novamente. A NSA não possuía a chave de seu sistema pessoal de criptografia, mas o Campus sim — algo que o próprio Jack tinha conseguido, emprestando os dados do computador pessoal de MoHa e entregando tudo para Biery e seus geeks, que transferiram os dados para um disco rígido com porta FireWire. Em menos de um dia haviam desmontado todos os segredos — incluindo senhas, que arrombaram todos os modos de comunicação criptografada, algumas das quais foram lidas pelo Campus por cinco meses antes de serem rotineiramente modificadas. Os adversários haviam sido bem cuidadosos com tudo aquilo, e/ou foram adequadamente treinados por alguém que trabalhava numa agência real de espionagens. Mas não tão cuidadosamente assim. As senhas não eram modificadas diariamente, ou mesmo semanalmente. O Emir e seu pessoal tinham bastante confiança em suas medidas de segurança, e esse tipo de falha destruíra Estados-nação inteiros. Criptoespiões estavam sempre disponíveis para aluguel no mercado aberto, e a maioria deles falava russo e eram pobres o suficiente para achar boas quaisquer ofertas. A CIA havia até balançado algumas ofertas para os inimigos que davam consultoria ao Emir. E pelo menos um deles foi achado debaixo de um monte de lixo em Islamabad com a garganta cortada de orelha a orelha. Era um jogo pesado o que rolava ali fora, mesmo para profissionais. Jack esperava que Langley tivesse pelo menos cuidado da família que o sujeito deixou para trás. Isso nem sempre acontecia com os agentes. Os agentes de campo da CIA tinham seguro e benefícios para o caso de morte, e suas famílias jamais eram negligenciadas por Langley, mas com os agentes freelancers a coisa era bem diferente. Estes eram geralmente desprezados, e muito rapidamente esquecidos, quando alguém mais valioso aparecia.
Aparentemente, o Emir ainda se perguntava o que teria acontecido com as pessoas que ele perdeu nas ruas da Europa — todas nas mãos de Brian e Dominic Caruso e de Jack, ainda que ele não soubesse disso. Três ataques cardíacos, o Emir especulava, parecia ser um número extraordinário para pessoas jovens e saudáveis. Fez com que seus agentes pesquisassem cuidadosamente os registros médicos, mas esses haviam sido eliminados, legal ou ilegalmente — os primeiros por advogados representando herdeiros do falecido, e os demais através do suborno de pequenos burocratas para recolher os documentos originais e verificar se havia documentos adicionais arquivados em algum outro lugar. O Emir escrevia a um operador, evidentemente vivendo em Viena, para que investigasse um caso estranho, o de um homem que aparentemente caiu debaixo de um bonde, porque, dizia o Emir, ele era um rapaz muito capaz de lidar com os cavalos — não um tipo sujeito a cair embaixo de um veículo. Mas a resposta do agente do Emir foi que, com certeza, nove pessoas viram o acidente, e em todos os relatos ficava claro que ele escorregou bem em frente do bonde, algo que podia acontecer com qualquer um, não importa que tivesse os pés bem firmes aos 11 anos. Os médicos austríacos tinham sido bem detalhistas e a necropsia oficial foi clara: Fa’ad Rahmin Yasin fora retalhado de modo grosseiro em meia dúzia de pedaços por um bonde. O sangue havia sido testado para verificar a presença de álcool, mas nada foi descoberto, salvo alguns traços residuais da noite anterior — assim supôs o patologista —, mas certamente nada que pudesse ter afetado seu julgamento. Também não havia traços de narcóticos de qualquer tipo no sangue recuperado no corpo despedaçado. Conclusão: ele escorregou, caiu e morreu devido ao forte trauma e exsanguinação — um modo elegante de dizer que ele sangrou até a morte.
Coisa que não aconteceria a um sujeito mais simpático, decidiu Jack.