Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 56 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 56

 

No dia seguinte, estavam de pé pouco depois das seis horas, reunindo o equipamento no convés enquanto o velho e grisalho Salychev bebericava seu café e observava. O vento do dia anterior tinha esmaecido, deixando a baía lisa e calma, salvo o leve ondular contra as rochas a meio quilômetro de distância. No entanto, o céu não havia mudado desde o dia anterior, permanecendo na mesma cor de chumbo que tinha desde que chegaram à Rússia.

Quando todo o equipamento estava arrumado, Adnan fez uma relação dos itens novamente na sua lista mental, e depois mandou que tudo fosse arrumado em quatro mochilas grandes com armação externa. Em seguida, vieram os dois botes infláveis. Eram negros e pareciam antigos, mas os motores de popa montados no gio estavam em bom estado e não havia vazamentos nem remendos, afinal Adnan tinha se assegurado disso quando os comprara. Quando os botes estavam inflados na pressão máxima, os homens começaram a colocar as tábuas de convés nos respectivos chanfros.

— Esperem, esperem — disse Salychev. — Esse jeito está errado. — Foi até lá e removeu uma das tábuas e a virou, ajustando a ponta curva com o rebordo do convés do bote. — Assim, percebem?

— Obrigado — disse Adnan. — Isso faz diferença?

— Acho que depende se você quer viver ou morrer — respondeu o capitão. — Do jeito como vocês fizeram, o fundo iria se fechar como uma ostra. Vocês iam se ver na água antes de perceber.

— Oh.

Cinco minutos depois, os botes estavam completamente montados. Os homens os desceram pelo lado e amarram os cabos de atracação da proa nas braçadeiras na popa do Halmatic. Depois desceram os motores, em seguida as bolsas com equipamentos e finalmente os homens. Adnan passou por último pela amurada.

— Voltaremos antes que escureça — disse a Salychev.

— E se não voltarem?

— Voltaremos.

Salychev deu de ombros.

— Não queiram ser surpreendidos lá fora à noite, a menos que tenham equipamento ártico escondido nessas bolsas.

— Voltaremos — repetiu Adnan. — Certifique-se de estar aqui.

— Para isso é que você me paga.

 

Se não fossem os blocos de gelo flutuantes e as plataformas de gelo malsubmersas, a viagem até a praia teria durado dez minutos, mas passaram quase quarenta minutos antes de o nariz do bote da frente raspar a praia de seixos. Os botes foram puxados até um terreno mais alto e as mochilas descarregadas; Adnan ajudou cada um dos homens a preparar seu carregamento e depois levantou o seu.

— Inóspito — disse um dos homens, olhando em volta.

Afora uma linha de despenhadeiros marrons e regulares a 4 quilômetros a leste, o terreno era plano, coberto de pedras, tufos de relva marrom, e uma fina camada de gelo que esmagavam sob as botas.

— E o que vai ser dos botes? — perguntou outro dos homens.

— Vamos rebocá-los — disse Adnan. — As pedras são suficientemente lisas para permitir isso.

— Qual a distância? — perguntou outro.

— Seis quilômetros — respondeu Adnan. — Vamos.

Partiram seguindo a praia na direção norte e leste, mantendo a baía à sua esquerda até que se estreitasse a apenas 100 metros e se curvasse ao sul para o interior, onde o canal seguia paralelo aos despenhadeiros que tinham visto no desembarque. Mais perto, Adnan pôde ver que os despenhadeiros na verdade eram colinas com pendentes bem agudas, a superfície que sofreu erosão por séculos ou milênios de escoamentos de neve e vento. Depois de mais 2 quilômetros de caminhada, o canal subitamente se alargava em uma segunda baía, uma forma grosseiramente oval com 2 quilômetros quadrados de superfície.

Os navios haviam sido ancorados sem cuidado nem ordem, como Adnan podia ver, alguns adernados no vizinho, outros com proas e popas encostadas umas nas outras em ângulos diversos, enquanto ainda havia aqueles encalhados por rebocadores para abrir espaços para novas chegadas. Originalmente todos eram civis, a maioria cargueiros de carga seca e navios-oficinas e de reparos, mas o tamanho de todos oscilava entre 30 e 200 metros, alguns tão velhos que os cascos estavam completamente enferrujados e esburacados.

— Quantos estão ali? — perguntou um dos homens, olhando admirado.

— Dezoito, mais ou menos — respondeu Adnan.

Era uma estimativa grosseira, com certeza, baseada em suas próprias informações, mas provavelmente bem perto do que o próprio governo russo poderia estimar. Aquela baía havia se transformado num cemitério não oficial nos meados dos anos 1980, quando a corrida armamentista com o Ocidente começou a pesar na infraestrutura financeira soviética e cada vez mais gastos eram aparados a favor dos gastos militares. Era mais barato descarregar e abandonar navios descomissionados do que transformá-los adequadamente em ferro-velho. Aquele era apenas um de dúzias de cemitérios marítimos nos mares de Barent e de Kara, a maioria cheios de navios que simplesmente constavam em alguma tabela como “ancorados, aguardando desmanche”. Ninguém informara a Adnan como esses cemitérios tinham atraído a atenção de seus superiores, nem ele conhecia os detalhes do que logo seria conhecido como o mais caro erro administrativo da história moderna.

Provavelmente o navio tinha um nome e uma designação, mas esses detalhes haviam sido excluídos do relatório de instruções entregue a Adnan. O que ele tinha era um mapa com as coordenadas de ancoragem e um esboço grosseiro da planta do porão de carga e das entradas no convés. Evidentemente, o mapa não viera nem da Atomflot nem do estaleiro, mas sim de uma fonte de primeira mão, provavelmente alguém da tripulação. Adnan também conhecia a história da embarcação e como ela chegara até ali.

Comissionado em 1970 como navio-oficina da Atomflot, fora designado para descarregar combustível usado e componentes danificados de embarcações atômicas civis no mar e levá-los de volta à terra para descarte. Em julho de 1986, sobrecarregado com varetas de alto nível de reatores nucleares de um quebra-gelo danificado, o navio perdeu velocidade de manobra quando estava em águas agitadas e se danificou, derramando água do mar nos porões e soltando as varetas de reatores. A contaminação foi tão severa e imediata que a tripulação, de 42 no total, morreu antes que barcos de salvamento chegassem ao local. Ansiosa por não revelar ao mundo outro desastre do nível de Chernobyl, que acontecera havia apenas três meses, Moscou ordenou que o navio fosse rebocado até uma angra isolada na costa leste da Novaya Zemlya e abandonado no local.

O erro que permitira que outras embarcações fossem depositadas ali foi monumental, mas tal é a natureza da burocracia, raciocinou Adnan. Certamente em algum momento o governo havia percebido o erro, mas então pouca coisa podia ser feita. A baía fora declarada como área restrita, e o segredo foi mantido. De vez em quando, equipes eram enviadas até lá para verificar se havia vazamentos no casco do navio ou sinais de invasão, mas, enquanto o tempo passava e as prioridades mudaram, o incidente deve ter se dissolvido nas páginas secretas da história da Guerra Fria soviética.

O que os olhos não veem, o coração não sente, acreditava Adnan.

 

O navio estava ancorado do lado norte da angra, a 50 metros da praia e escondido da vista por um par de cargueiros. Precisaram apenas de mais quarenta minutos para circunavegar a angra.

Começaram a descarregar o equipamento. Primeiro tiraram as vestes de proteção impregnadas de borracha com proteção química L1, e depois as botas de borracha e as luvas. Como a maior parte dos equipamentos, as vestes eram originárias do Exército: verde-oliva e duras, e fedendo a tintura. Depois de verificar se os zíperes e os encaixes estavam fechados, cada homem colocou uma máscara respiradora GP-6 da era soviética.

— Para que mesmo isso vai adiantar? — perguntou um dos homens, com a voz abafada.

— Estão destinadas à exposição a curto prazo — respondeu Adnan. Parte dele lamentava a mentira, mas não havia o que pudesse ser feito. Mesmo que as roupas não tivessem já vinte anos, seriam de pouca utilidade contra outra coisa que não agentes químicos e biológicos.

Se contasse a verdadeira extensão do perigo que estava diante deles, os homens provavelmente iriam embora, mas essa era uma possibilidade com a qual não podia contar.

— Se estivermos fora daqui dentro de uma hora, não haverá danos a longo prazo. — Isso também era mentira.

Empurraram os botes para dentro d’água e se amontoaram neles, navegando para a escada de acesso à meia-nau, que estava abaixada, chegando a uns 30 ou 50 centímetros acima da água. A razão disso era desconhecida para Adnan, pois ninguém da tripulação escapara. Talvez o governo tivesse feito algum tipo de inspeção no passado.

Amarraram os botes na escada e subiram. A escada sacudiu e retiniu sob seus pés. No alto, viram que a grade da amurada estava fechada, mas bastaram algumas pancadas com a mão para Adnan soltar a fechadura e abri-la.

— Fiquem juntos e prestem atenção para não pisar em pontos frágeis do convés — disse ele. Verificou seu esboço, e depois se colocou de frente para a proa para se orientar. Segunda escotilha descendo, pensou, descer uma escada e ir para a direita...

Seguiram em frente, caminhando rígidos e com as pernas um tanto abertas, o tecido das vestimentas arranhando sovacos e coxas. Adnan manteve a cabeça se movendo, verificando tanto o convés a seus pés quanto a superestrutura acima. Tentou nem pensar nas partículas invisíveis bombardeando sua veste e penetrando em sua pele. Tal como a fechadura da grade, a alavanca para soltar a escotilha estava enferrujada e resistiu ao primeiro puxão. Outro membro da equipe se juntou a ele, e unidos conseguiram puxar a alavanca até a escotilha abrir.

Todos ligaram as lanternas e, um a um, passaram pela escotilha, onde começaram a descer. No convés seguinte viraram à direita em um corredor. Passaram por três corredores laterais, cada um cheio de portas de cabines ou escotilhas. Canos e conduítes de eletricidade cruzavam o teto como veias. Na quarta interseção, Adnan entrou à esquerda e parou na porta. Havia uma janelinha na altura dos olhos. Olhou por ali, mas não conseguiu ver nada.

Voltou-se para os homens.

— Provavelmente haverá água no convés. É o nosso maior risco. Não confiem muito em corrimões e passarelas. Se alguma coisa começar a ceder, devem ficar imóveis onde estão e não entrar em pânico. Compreenderam?

As cabeças assentiram ao redor.

— Com o que parece esse container?

— Um barril de petróleo, mas só com a metade do tamanho. Se Alá quiser, deve estar preso na parede da sala de contenção. — Melhor seria se fosse vontade de Alá que essa porta de contenção ainda estivesse fechada e trancada, pensou Adnan. De outra maneira, não havia como encontrar o que tinham vindo buscar antes da radiação matá-los. — Alguma outra pergunta?

Não havia nenhuma.

Adnan se virou para a porta e experimentou a maçaneta. Bem protegida da maresia, ela girou livremente. Devagar, ele a empurrou apenas o suficiente para que pudessem passar, mas manteve a maçaneta segura para que a porta não balançasse e fechasse quando entrassem. Deu uma passada experimental adiante, colocando com cuidado o pé na passarela e vagarosamente aplicando seu peso para a frente, até ter certeza de que aguentaria. Deu mais um passo, depois se virou à esquerda, então mais dois passos. Olhou por cima do ombro e acenou. O homem seguinte entrou.

Em relação ao tamanho do espaço de carga, o deste navio era pequeno, medindo cerca de 10 metros quadrados de área e 6 metros de profundidade. A passarela onde estavam se estendia pela extensão do compartimento e terminava em uma escada. Depois que todos os homens passaram pela porta, Adnan começou a andar pela passarela. Na metade, ele parou e se aproximou do gradil, cuidando para não bater nele. Apontou a lanterna para cima e pôde ver o perfil da escotilha de carga, 8 metros por 8; por uma borda, percebeu uma faixa prateada de luz. Sabia que tinha sido por ali que entrara a água do mar. A escotilha de carga havia torcido em uma rolagem a estibordo e o selo quebrara. Apontou a luz da lanterna para baixo. Como temia, o convés estava inundado, uma lama de água do mar, poeira radioativa e pedaços de varetas de combustível, várias das quais ele podia ver flutuando na superfície. Em algum lugar ali embaixo estava o contêiner revestido de chumbo, o “sarcófago”. Quantas das fechaduras se romperam durante o acidente? Quantas varetas de combustível permaneciam trancadas nos recipientes?

Avançaram para a escada.

— É aquilo ali? — perguntou um dos homens, apontando a lanterna para baixo dos degraus.

No fundo, a 3 metros de área inundada, havia uma porta estilo cofre de banco presa por oito alavancas, três de cada lado e uma no alto e outra no fundo. Na altura da cintura, a partir do batente da esquerda, havia um mecanismo de tranca preso por um cadeado.

— Alá seja louvado — murmurou Adnan.