Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 25 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 25

 

— Carpinteiro entrando — piou o rádio ao lado de onde Andrea se sentava.

— Quer que vá buscá-lo, chefe?

— Não, eu mesmo vou. — Ryan levantou do computador e caminhou até a porta da frente. — Ele fica para jantar, aliás.

— Claro, chefe.

Arnie van Damm nunca fora de fazer cerimônias. Tinha alugado um carro no Aeroporto de Baltimore-Washington que ele mesmo dirigiu até ali. Ainda usava as camisas L.L.Bean e calças cáqui também, percebeu Jack, quando ele saiu do Chevy da Hertz.

— Olá, Jack — saudou o ex-chefe de gabinete.

— Arnie, há quanto tempo. Como foi o voo?

— Dormi quase o tempo todo. — Os dois entraram. — Como está avançando o livro?

— É meio complicado para o ego escrever sobre si mesmo, mas tento dizer a verdade.

— Puxa, cara, isso vai confundir os críticos do Times.

— Bem, eles jamais gostaram muito de mim mesmo. Não espero que mudem agora.

— Droga, Jack, você acabou de sair de um atentado contra sua vida...

— Bobagem, Arnie.

— Percepção, meu amigo. O público escuta falar desse tipo de coisas, e tudo que absorve é que alguém tentou matar você e pagou o preço.

— E daí, onipotência por procuração?

— Você sacou.

A essa altura haviam chegado na cozinha, e Jack servia café. Ainda tardaria uma hora até Cathy chegar em casa, e Jack ainda tinha tempo para um pouco de cafeína não autorizada.

— Então me conte as fofocas. Ouvi dizer que a Suprema Corte está provocando ataques em Kealty.

— Você diz isso porque ele não consegue nomear ninguém? Sim, ele está ficando silenciosamente maluco com isso. Na campanha, prometeu nomear o professor Mayflower, da faculdade de direito de Harvard.

— Esse sujeito? Jesus, ele quer reescrever o evangelho de são Mateus.

— Deus não frequentou Harvard. Caso contrário, Ele estaria mais bem-informado — comentou Van Damm.

Ryan deu uma risadinha.

— Então, qual a razão da visita?

— Acho que você sabe, Jack. Além do mais, acho que você também andou pensando nisso. Me corrija se estiver errado.

— Está errado.

— Outra coisa que sempre gostei em você, Jack. Nunca conseguiu mentir bem.

Ryan resmungou.

— Ser mau mentiroso não é tão ruim assim — disse Arnie. — Kealty já começou a descarrilar, Jack. É só minha opinião, mas...

— Ele é um salafrário. Todo mundo sabe disso, mas os jornais não dizem nada.

— É um salafrário, mas é o salafrário deles. Eles pensam que podem controlá-lo. Eles o compreendem e sabem como ele pensa.

— E quem diz que ele pensa alguma coisa? Ele não pensa. Tem visões sobre o modo como quer que o mundo seja. E quer fazer qualquer coisa para moldar o mundo a essa ideia, se é que se pode chamar isso de ideia.

— E as suas ideias, Jack?

— Eu as chamo de princípios, e há uma diferença. Você defende seus princípios da melhor maneira e espera que o público compreenda. Qualquer coisa diferente disso e você é apenas um vendedor de carros usados.

— Um político famoso já disse que a política é a arte do possível.

— Mas se você se limita ao que é possível, ao que já foi feito, como diabos se espera que haja progresso? Kealty quer trazer de volta os anos 1930, com Roosevelt e todo o resto.

— Andou pensando muito sobre isso, Jack? — disse Arnie com uma ponta de sorriso.

— Você sabe que sim. Os Pais Fundadores iriam revirar em seus túmulos com o que esse cabeça-dura anda fazendo.

— Então o substitua.

— E passar por tudo isso novamente... para quê?

— Edmund Burke, lembra? “Para o triunfo do mal só é preciso que homens bons não façam nada.”

— Devia ter previsto que você ia falar isso — respondeu Jack. — Já prestei meus serviços. Lutei em duas guerras. Preparei minha própria linha de sucessão. Fiz tudo o que se espera que alguém faça.

— E fez tudo muito bem — admitiu o ex-chefe de gabinete. — Jack, no final das contas a coisa é simples: o país precisa de você.

— Não, Arnie, o país não precisa de mim. Ainda temos um bom Congresso.

— Sim, eles são bons, mas ainda não geraram um líder de verdade. Owens, do Oklahoma, tem possibilidades, mas ainda tem muito caminho pela frente. Ainda não amadureceu o bastante, é provinciano e idealista demais. Ainda não está pronto para o time principal.

— Você poderia ter dito o mesmo sobre mim — assinalou Ryan.

— É verdade, mas você escuta, e, principalmente, você sabe o que não sabe.

— Arnie, eu gosto da vida que tenho agora. Tenho um trabalho que me mantém ocupado, mas não tenho que me arrebentar. Não tenho que prestar atenção em cada palavra que digo com medo de ofender pessoas que nem gostam de mim. Posso andar pela casa sem sapatos, e sem gravata.

— Você está é entediado.

— Conquistei o direito de me entediar. — Ryan fez uma pausa, bebeu um gole de café, e depois tentou mudar de assunto. — O que Pat Martin anda fazendo?

— Não quer ser ministro da Justiça de novo — respondeu van Damm. — Ensina direito em Notre Dame. E também conduz seminários para juízes recém-nomeados.

— Por que não foi para Harvard ou para Yale? — perguntou Ryan.

— Harvard não o aceitaria. Eles gostariam da ideia de ter um ex-ministro da Justiça lá, é claro, mas não o seu. E, de qualquer maneira, Pat não iria para lá. Ele é torcedor fanático de futebol americano, e Harvard tem seu time, mas não como o de Notre Dame.

— Eu lembro — reconheceu Jack. — Eles não queriam nem jogar conosco, católicos metidos do Boston College. — E os BC Eagles de vez em quando derrotavam até o Notre Dame, quando as Moiras permitiam.

— Quer pensar no assunto? — perguntou Arnie.

— Os Estados Unidos da América escolhem seu próprio presidente, Arnie.

— É verdade, mas é como um restaurante com menu reduzido. Só se pode escolher entre o que o cozinheiro faz, e não se pode sair e ir para uma lanchonete se não estiver contente com a seleção.

— Quem mandou você aqui?

— As pessoas conversam comigo. Principalmente as que têm afinidade política com você...

Jack o interrompeu levantando a mão.

— Não sou afiliado a nada, lembra?

— Isso deve deixar o Partido Socialista dos Trabalhadores muito feliz. Então concorra como Independente. Funde seu próprio partido. Teddy Roosevelt fez isso.

— E perdeu.

— É melhor tentar e fracassar do que...

— Sei, sei.

— O país precisa de você. Kealty já está se cagando. Mandou o pessoal dele que pesquisa a oposição cavar coisas sobre você. Não soube disso?

— Besteira.

— Já faz mais de um mês que fazem isso. O caso de Georgetown os deixou preocupados. Estou lhe dizendo, Jack, precisamos agarrar isso enquanto é possível. — Ryan começou a balançar a cabeça. — Escute, você não planejou isso. As pessoas estão em cima da história porque seus números ainda são altos.

— Malditos votos de simpatia...

— Não vai ser assim, acredite em mim, mas no que diz respeito a entradas espetaculares em cena, essa foi de ouro. Então: há alguma roupa suja espalhada por aí?

— Nada que você não conheça. — Mas Jack conseguiu soltar essa mentira. Apenas Pat Martin sabia sobre a herança particular que Ryan havia deixado para trás. Ele nunca contara sequer para Robby. — Sou chato demais para virar político. Talvez seja por isso que a mídia jamais gostou de mim.

— Esse pessoal de pesquisa da oposição vai ter acesso a tudo, Jack, até aos documentos da CIA. Você deve ter deixado algumas coisas desagradáveis para trás — insistiu Van Damm. — Todo mundo deixa.

— Depende da interpretação, suponho. Mas revelar qualquer uma delas seria crime federal. Quantos políticos, por mais desprezíveis que sejam, arriscariam isso?

— Você ainda é um bebezinho perdido, Jack. Fora ser filmado estuprando uma garota ou batendo uma punhetinha num menino, não há muito que um político não arrisque pela presidência.

— Isso provoca uma pergunta que eu não consigo deixar de pensar: será que Kealty gosta de ser presidente?

— Ele provavelmente nem se reconhece. Está fazendo um bom trabalho? Não, realmente não. Mas nem sabe disso. Acha que está indo tão bem quanto qualquer um poderia, e melhor que a maioria. Ele gosta de jogar esse jogo. Gosta de atender ao telefone. Gosta de ter pessoas vindo até ele quando estão com um problema. Gosta de ser o sujeito que responde as perguntas, mesmo quando não tem a menor ideia do que responder. Lembra o que Mel Brooks disse uma vez? “É bom ser rei”, mesmo que o rei seja uma merda total. Ele quer estar lá, e que ninguém mais esteja, porque foi político a vida inteira. É o monte Everest, e ele o escalou porque está ali, e de que adianta chegar ao topo e não ter nada para fazer lá? Estar lá, estar no cume, e ninguém mais estar. Será que ele mataria pelo cargo? Provavelmente, se tivesse colhões para isso. Mas não tem. Vai mandar um de seus soldados fazer isso, de modo que possa negar, sem nada registrado por escrito. Sempre se consegue achar pessoas para fazer esse tipo de coisa, e que se foda se for pego.

— Eu nunca...

— Esse tal de John Clark. Ele matou pessoas, e as razões para isso nem sempre passariam pelo teste do escrutínio público. Você tem que fazer esse tipo de coisa quando comanda um país, e bem, talvez não seja tecnicamente legal, mas você mantém em segredo porque não ficaria bem se aparecesse na primeira página dos jornais. Se você deixou algo desse tipo para trás, Kealty vai divulgar através de intermediários e de vazamentos cuidadosamente estruturados.

— Se chegar a isso, sei como lidar com o assunto — disse Ryan friamente. Ele nunca reagira bem a ameaças e raramente as fazia, não sem ter munição suficiente. Mas Kealty jamais deixaria isso acontecer. Como tantos “grandes” homens, e como muitos políticos, na verdade, ele era um covarde. Covardes eram os primeiros a optar por uma demonstração de força. É o tipo de poder que alguns homens acham embriagante. Ryan sempre achara isso assustador, mas sob nenhuma condição tivera que liberar essa munição sem ter uma razão muito importante. — Arnie, não tenho medo de nada que esse filho da mãe possa jogar em cima de mim, se isso chegar a acontecer. Mas por que deveria chegar a esse ponto?

— Porque o país precisa de você, Jack.

— Tentei consertar a coisa. Tive mais de cinco anos, e falhei.

— O sistema é corrupto demais, não?

— Tive um Congresso decente. A maioria era decente, os que voltaram para casa por causa de promessas de campanha. Droga, esses eram os honestos, não é? O Congresso melhorou muito, mas é o presidente que dá o tom da nação, e não consegui mudar isso. Você sabe como tentei.

— Callie Weston escreveu para você alguns discursos muito bons. Você poderia ter sido um bom padre. — Arnie se inclinou para beber o restante do café. — Você fez um grande esforço, Jack. Mas não foi o suficiente.

— E aí você quer que eu tente de novo. Quando você bate com a cabeça num muro de pedra, aquele barulho de esguicho fica um tanto deprimente depois de algum tempo.

— Os amigos de Cathy já descobriram a cura para o câncer?

— Não.

— E pararam de tentar?

— Não — teve que reconhecer Jack.

— Porque vale a pena tentar, mesmo que seja impossível.

— Brincar com as leis da ciência é mais fácil que mudar a natureza humana.

— Está bem, você sempre pode ficar aí sentado vendo a CNN, lendo os jornais e se enfezando.

E faço muito isso, Jack não precisava nem reconhecer. A questão de Arnie era que ele sabia como manipular Ryan do mesmo modo como uma garotinha de 4 anos manipula o pai. Sem esforço e inocentemente. Tão inocente quanto Bonnie e Clyde dentro de um banco, evidentemente, mas Arnie sabia como fazer a coisa.

— Vou dizer mais uma vez, Jack. Seu país...

— E eu pergunto mais uma vez: quem mandou você aqui?

— Por que você acha que alguém me mandou aqui?

— Arnie.

— Ninguém, Jack. Verdade. Também estou aposentado, lembra?

— Você sente falta da ação?

— Não sei, mas digo uma coisa: eu pensava que a política era a forma mais elevada da atividade humana, porém você me curou disso. Você tem que tomar posição. Kealty não faz isso. Ele simplesmente quer ser o presidente dos Estados Unidos porque acha que estava na linha de sucessão, e era a vez dele. Pelo menos é como ele vê a coisa.

— Então você entraria no barco comigo? — perguntou Ryan.

— Estarei lá para ajudar, e aconselhar você, e talvez dessa vez você escute mais a voz da razão.

— Essa coisa de terrorismo é trabalho demais para quatro anos.

— Concordo. Você pode restabelecer seu programa de reconstrução da CIA. Reforçar o recrutamento, colocar as operações de volta nos trilhos. Kealty aleijou o programa, mas não o destruiu completamente.

— Levaria uma década. Talvez mais.

— Então você põe as coisas nos trilhos, fica de lado e deixa outro completar o serviço.

— A maioria dos membros do gabinete não voltaria.

— E daí? Descubra outros — observou Arnie friamente. — O país é cheio de pessoas talentosas. Descubra algumas honestas e aplique a mágica Jack Ryan em cima delas.

Ryan Senior bufou.

— Vai ser uma campanha comprida.

— Sua primeira campanha de verdade. Quatro anos atrás você estava concorrendo à coroação, e isso funcionou. Foi asquerosamente fácil, voando por aí e discursando sempre para plateias amistosas, a maioria das pessoas só queria conhecer o cara em quem iam votar. Com Kealty vai ser diferente. Você vai ter até que debater com ele, e não o subestime. Ele é um operador político consumado, e sabe dar um golpe baixo — avisou Arnie. — Você não está acostumado com isso.

Ryan suspirou.

— Você é um filho da puta, sabia? Se quer que eu me comprometa com isso, vai se desapontar. Tenho que pensar no assunto. E tenha uma esposa e quatro filhos.

— Cathy vai concordar. Ela é muito mais durona e esperta do que as pessoas pensam — notou Van Damm. — Sabe o que Kealty disse semana passada?

— O quê?

— Sobre o plano de saúde nacional. Uma equipe da televisão local em Baltimore a entrevistou. Ela deve ter tido um momento de fraqueza e falou que não achava que planos de saúde governamentais fossem uma boa ideia. A reação de Kealty foi: “Que diabos uma médica sabe sobre assuntos de saúde?”

— E como isso não chegou aos jornais? — Afinal, é suculento e delicioso.

— Anne Quinlan é a chefe de imprensa de Ed. Ela conseguiu convencer o Times a não publicar. Anne não é nenhuma boba. O editor executivo em Nova York é amigo dela.

— E como é que sempre me esculhambavam quando eu falava? — perguntou Ryan.

— Jack, Ed é um deles. Você, por outro lado, não é. Você nunca dá uma folga para seus amigos? Eles também. Também são seres humanos. — A postura de Arnie estava mais relaxada. Ele vencera a batalha principal. Era a hora da magnanimidade.

Ter que pensar em jornalistas como seres humanos já era trabalhoso demais para Ryan, no momento.