Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 4 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 4

 

— Cavalheiros, bem-vindos ao espaço aéreo americano — anunciou o copiloto.

Estavam perto de sobrevoar Montana, lar dos alces, céu aberto e um monte de bases de ICBM desativadas e silos vazios.

Estavam queimando combustível muito rapidamente voando baixo, mas o computador controlava tudo, e tinham uma reserva muito melhor do que a que tiveram voando sobre o Atlântico no sentido oeste algumas horas atrás — com muitos campos que podiam ser usados para aterrissar lá embaixo. O piloto ligou a tela superior, que usava câmeras de pouca luz para transformar a escuridão numa TV verde e branca monocolor. Agora, ela mostrava montanhas a oeste da sua rota. A aeronave automaticamente ganharia altitude para compensar, pois estava programada para manter uma altitude de mil pés acima do solo, e fazer isso em ângulos suaves, para manter seus ricos passageiros felizes e, esperava, transformados em fregueses habituais.

A aeronave deslizou até a altitude de 6.100 pés enquanto passavam sobre o espinhaço em forma de lagarta da Cordilheira Teton. Em algum lugar lá embaixo estava o Parque Nacional do Yellowstone. À luz do dia seria possível vê-lo, mas era uma noite sem nuvens e sem lua.

Os sistemas de sensores do radar mostravam que estavam “livres de conflito”. Não havia outra aeronave perto de sua posição ou altitude. A Base Aérea de Mountain Home estava a algumas centenas de quilômetros atrás deles, juntamente com seu complemento de pilotos de caça impetuosos.

— Pena não podermos movimentar o sensor do nariz. Poderíamos até ver os búfalos com os sensores infravermelhos — observou o piloto. — Li em algum lugar que estão voltando com força ao velho oeste.

— Juntamente com os lobos — respondeu o copiloto. A natureza restaurava seu equilíbrio, pelo menos é o que o Discovery Channel dizia. Sem bisões suficientes, os lobos morrem. Sem lobos em quantidade, os bisões entram em superprodução.

 

O território de Utah começava montanhoso, mas gradualmente se transformava em planícies ondulantes. Novamente manobraram para o leste a fim de evitar Salt Lake City, que tinha um aeroporto internacional e, provavelmente, um radar suficientemente poderoso para detectá-los sem transponder.

Todo aquele exercício teria sido impossível trinta anos antes. Eles teriam que cruzar a Pinetree Line, uma das predecessoras do DEW — Distant Early Warning, o sistema de detecção avançada dos Estados Unidos —, e assim alertar o Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte em Cheyenne Mountain. Bem, diante das atuais tensões entre os Estados Unidos e a Rússia, talvez o DEW e a Pinetree fossem reativados.

O voo estava mais suave do que ele pensara. Voar à luz do dia, no verão, sobre o deserto, realmente poderia causar muita turbulência, devido à subida irregular de correntes térmicas. Salvo alguns faróis de automóveis, a terra abaixo poderia até ser confundida com o oceano, tão vazia e escura que era.

Trinta minutos para a chegada. Já estavam com apenas com 4 mil quilos de combustível. Os motores consumiam muito mais rápido naquela altitude, um pouco mais de 2.200 quilos em vez dos cerca de 1.500 quilos por hora, que era o padrão.

— Acordo os passageiros? — perguntou o copiloto.

— Boa ideia. — O piloto levantou o microfone. — Atenção. Aterrissagem prevista em trinta minutos. Nos avisem se tiverem alguma necessidade especial. Obrigado — acrescentou. Realmente muito obrigado pelo dinheiro e pelo interessante perfil de voo ele não acrescentou.

O piloto e o copiloto especulavam sobre quem eram os passageiros, mas não fizeram perguntas. Preservar suas identidades fazia parte do negócio, e, embora o que estavam fazendo fosse tecnicamente ilegal pelas leis americanas, eles não eram cidadãos americanos. Não estavam carregando armas, drogas ou qualquer outra coisa ilegal. De qualquer modo, nunca haviam visto o passageiro antes, e seu rosto estava envolvido em bandagens.

— Faltam 185 quilômetros, segundo o computador. Espero que a pista seja realmente comprida.

— O mapa diz que sim. Parece ter 2.600 metros. Logo saberemos.

De fato, a pista de pouso fora construída em 1943, e desde então era raramente usada, construída por um batalhão de engenharia que foi levado de caminhão para Nevada para construir uma base aérea — na verdade, um treinamento. Todas as pistas pareciam iguais, construídas a partir do mesmo manual, como um triângulo com um segmento maior que os outros dois. Eles estavam manobrando para a pista dois-sete, indicando uma aproximação no sentido oeste contra os ventos prevalecentes. Tinha até luzes de sinalização instaladas, mas o cabeamento já havia se degradado há muito, tal como o gerador a diesel do aeroporto. A região sofria muito pouco com neve e gelo para que houvesse danos ao concreto das pistas, que estava tão bom quanto no dia em que fora curado, 30 centímetros de concreto reforçado.

— Ali.

— Estou vendo.

Eram, de fato, luzes químicas de neon sendo quebradas, sacudidas e jogadas no perímetro da pista, e fulguravam com brilho no display. Em seguida, mais ainda quando luzes de caminhões foram ligadas. Um desses pares de faróis se dirigiu para o limite norte da pista, como se a delineasse para a aeronave que se aproximava. Nem o piloto nem o copiloto sabiam, mas supunham que um dos passageiros tivesse ligado antes pelo celular para despertar alguém.

— Ok, vamos fazer a aproximação — disse o piloto em comando. Puxou suavemente os manches para trás e abaixou os flapes para diminuir a velocidade do ar. Mais uma vez, o sensor de altitude anunciou sua altura acima do solo, mais baixa... mais baixa... mais baixa... então as rodas beijaram o solo. No lado oeste da pista, um caminhão piscou suas luzes, de baixa para alta e vice-versa, várias vezes, e o piloto levou a aeronave para lá.

— Chegamos ao nosso destino — disse o piloto pelo intercomunicador quando a aeronave diminuiu e parou suavemente. Tirou os fones de ouvido e se levantou para ir para a popa. Abriu a porta da esquerda e abaixou as escadas, depois se voltou para olhar os passageiros do voo fretado, a maioria dos quais já havia se levantado e caminhava nessa direção.

— Bem-vindos ao solo americano — disse.

— Foi um voo longo, mesmo assim muito bom — declarou o líder do grupo. — Obrigado. Seu pagamento já está depositado.

O piloto acenou agradecendo.

— Se precisarem novamente de nós, é só avisar.

— Sim, faremos isso. Talvez dentro de duas ou três semanas.

Nem a voz nem o rosto revelavam muito, o rosto um tanto obscurecido por bandagens. Talvez tivesse ido para lá descansar durante um período de recuperação de qualquer que tenha sido a cirurgia que fez. Acidente de carro era o palpite do piloto. Pelo menos era um clima saudável.

— Acredito que tenham notado o caminhão de abastecimento. Isso irá assegurar a vocês que o tanque seja completamente cheio. Quando partem para o Havaí?

— Assim que formos abastecidos — respondeu o piloto. Quatro, cinco horas. Piloto automático na maior parte do tempo, depois de deixarem para trás a costa da Califórnia.

Outro passageiro avançou, e depois se voltou para a popa.

— Um momento — disse, entrando no lavatório e fechando a porta atrás de si. Havia outra porta no fundo do recinto. Dava para o compartimento de bagagem. Ali, ele deixou uma bolsa de lona. Abriu o zíper para ver o interior. Dentro, ativou um timer eletrônico. Considerou que duas horas e meia seriam mais que o suficiente, depois fechou novamente o zíper e foi para a frente. — Me desculpe — disse ele, avançando e saindo pela porta à esquerda, descendo a escada. — E muito obrigado.

— O prazer foi meu, senhor — falou o piloto. — Desfrutem a estada.

O copiloto já havia descido e estava supervisionando a operação de reabastecimento. O último passageiro seguiu seu chefe até a limusine que esperava no concreto, entrou, e o carro foi embora. O reabastecimento levou cinco minutos. O piloto se perguntou como é que eles conseguiam o que parecia ser um caminhão de abastecimento oficial, mas este saiu logo depois, e a tripulação voltou para a cabine e começou os procedimentos de decolagem.

 

Depois de um total de 33 minutos no solo, o Falcon taxiou até o extremo leste da pista. A tripulação avançou os manches até a posição de decolagem e disparou para subir aos céus pela terceira vez no que já era um longo dia, seguindo para oeste. Cinquenta minutos mais tarde, e 1.800 quilos de combustível mais leves, eles ultrapassaram a costa da Califórnia um pouco acima de Ventura e passaram a estar “de pés molhados” sobre o oceano Pacífico, cruzando à velocidade Mach 0,83 e em uma altitude de 41 mil pés. O transponder primário foi ligado, o que transmitia a informação sobre o registro “oficial” da aeronave. O fato de ter simplesmente aparecido na tela do radar principal do Centro de Controle Aéreo de São Francisco não foi motivo de preocupação para ninguém, afinal os planos de voo não eram nem computadorizados nem realmente organizados de forma sistemática. Enquanto a aeronave não fizesse nada contrário às regras, não atraía atenção. Seguia em direção a Honolulu, a 3.700 quilômetros de distância, com um tempo de voo estimado em quatro horas e 54 minutos. A caminho de casa.

Piloto e copiloto relaxaram, a aeronave em piloto automático e todos os indicadores dentro das normas. O piloto acendeu mais um cigarro enquanto deixava a costa dos Estados Unidos a uma velocidade de 820 quilômetros por hora sobre o solo.

Ele não sabia que no compartimento de bagagem da popa havia uma bomba feita com 4 quilos de explosivos plásticos PETN e RDX — vulgarmente referido como Semtex — armados com um timer eletrônico. Eles permitiram que os passageiros e seu comitê de recepção cuidassem da bagagem como quisessem. Assim que a aeronave passou o ponto dos mil quilômetros da costa da Califórnia, o timer zerou.

A explosão foi imediata e catastrófica. Destruiu a cauda e os dois motores da aeronave. Os principais dutos de combustível, que corriam logo abaixo da fuselagem, ficaram expostos ao vento e criaram uma cauda de fogo parecida com a de um meteoro. Poderiam ter sido vistas por qualquer aeronave que estivesse voando atrás do Falcon, mas não havia nenhuma naquela hora da madrugada, e as gotas gêmeas de chama amarela piscaram e apagaram em poucos segundos.

Na proa, piloto e copiloto não poderiam saber o que havia acontecido, apenas um ruído súbito, um painel aceso com todas as luzes de emergência e alarmes, e uma aeronave que não respondia aos controles. Aviadores são treinados para lidar com emergências. E levou apenas quatro ou cinco segundos para perceberem que estavam condenados. Sem o estabilizador de cauda, o Dassault não podia ser controlado; a física era inexorável. A nave começou a entrar em espiral em direção ao oceano negro. Os dois aviadores tentaram manejar os controles, com esperança apesar do desespero. Toda uma vida de treinamento e horas infindáveis em simuladores de voo computadorizados tinham incrustado neles o que fazer quando uma aeronave não respondia aos comandos. Tentaram tudo que sabiam, mas o nariz não subia. Não tiveram tempo de notar que as tentativas de ajustar a força dos motores não adiantavam nada. Presos em seus assentos pelos cintos de segurança de quatro pontos, não podiam olhar para trás, para a cabine de passageiros, e logo ambos estavam anóxicos com a perda de pressão na cabine que escancarara a porta da popa. As mentes não tiveram a chance de perceber o que acontecia.

No final, tudo durou menos de um minuto. O nariz subiu e desceu. Girou à esquerda e à direita, por conta própria e à mercê das correntes de ar até que se esmigalhou no mar à velocidade de 240 nós, instantaneamente fatal. A essa hora, seus passageiros chegavam ao destino final, e sequer pensavam neles.