Morto ou Vivo
Capítulo 73
Entrando na cidade de Paulínia logo depois do pôr do sol, Shasif Hadi podia ver as luzes da refinaria, distante ainda uns 6 quilômetros, muito antes de poder avistar o complexo. Sete quilômetros quadrados de colunas de destilação, torres de fracionamento, e linhas de alta-voltagem, tudo enfeitado com luzes vermelhas piscantes projetadas para avisar as aeronaves que voavam baixo, tudo desnecessário, no que dizia respeito a Hadi. Se algum piloto conseguisse a proeza de deixar de notar as dezenas de refletores de estádio que iluminavam as áreas de trabalho do complexo, então o sujeito merecia cair.
A rodovia principal de Campinas, a SP-332, se desdobrava pelos subúrbios ao norte de Paulínia antes de virar primeiro para oeste e depois para o norte, onde finalmente passava pelo complexo da refinaria, à esquerda. Hadi dirigiu passando por ali e continuou ao norte por mais 1,5 quilômetro até chegar a uma saída que dava em uma estrada de asfalto de duas pistas que ia na direção leste. Seguiu por ali exatamente 2,4 quilômetros, onde a estrada mais uma vez fazia uma curva e o asfalto dava lugar a cascalho. Uns 100 metros adiante, seus faróis captaram o que parecia ser uma ponte sobre a estrada. Hadi sentiu seu pulso aumentar. Aquilo não era uma ponte, e sim um oleoduto de etanol. Quando passou por baixo, olhou pela sua janela de passageiro e pôde ver um pasto fechado por uma porteira de gado. Parada diante da porteira, capô para a frente, havia uma picape branca. Hadi continuou, fazendo mais uma curva, desta vez para o sul, e entrando em uma estrada de terra. Diminuiu a velocidade depois de 50 metros, examinando as árvores à esquerda. Localizou a abertura entre elas, entrou e desligou os faróis enquanto estacionava. Verificou seu relógio: no horário.
Desceu, trancou a porta e saiu das árvores, indo até a margem da estrada. Tudo parecia certo. Uns 800 metros de estrada abaixo um par de faróis apareceu depois da curva. O Volkswagen azul de Ibrahim diminuiu a marcha ao chegar perto dele, os freios gemendo ligeiramente.
— Sem problemas? — perguntou Ibrahim.
— Nenhum.
Hadi sentou no banco traseiro. Fa’ad estava ao seu lado, e Ahmed, no banco do carona. Como parte de seu plano de retirada, Fa’ad e Ahmed haviam estacionado seus carros em estradas secundárias a sudoeste e a nordeste da refinaria, onde foram recolhidos por Ibrahim. Se, por alguma razão, o grupo fosse separado, eles se encontrariam em um desses carros e seguiriam a caminho da costa.
Ahmed entregou uma pistola a Hadi, uma Glock 17 9 milímetros equipada com silenciador.
— O caminhão está ali — disse Hadi. — Não pude me certificar, mas acho que vi duas pessoas sentadas dentro.
— Ótimo. Ahmed, você faz a coisa.
Faróis apagados, Ibrahim engatou o carro e seguiu, voltando pelo caminho que Hadi fizera ao chegar. Parou o carro a 50 metros do oleoduto. Ahmed desceu, passou por trás do carro e entrou no bosque. Os demais esperaram em silêncio, Ibrahim controlando o tempo no relógio. Após dois minutos, ligou os faróis e avançaram novamente.
— Abaixem-se aí atrás — disse a eles. Hadi e Fa’ad se agacharam sob as janelas. Quando o carro emparelhou com a picape, Ibrahim parou e saiu. Tinha um mapa na mão direita.
— Desculpem — falou em português, enquanto caminhava na direção do caminhão. — Estou perdido. Podem me indicar a direção para voltar a Paulínia?
Ninguém respondeu.
— Desculpem, preciso de ajuda. Podem...
A mão de alguém apareceu na janela do motorista e acenou para que ele se aproximasse. Ibrahim caminhou até lá. O decalque na porta dizia SEGURANÇA DA PETROBRAS.
— Acho que passei da entrada. Paulínia está longe?
— Não muito — disse o guarda. — Siga por essa estrada até chegar à rodovia, e vire à esquerda.
Através da janela aberta do assento de passageiros, Ibrahim percebeu a silhueta de Ahmed emergir das árvores e caminhar em direção ao caminhão.
— Qual a distância? — perguntou Ibrahim.
Antes de o motorista responder, Ibrahim deu um passo atrás. O primeiro disparo abafado foi na testa do guarda passageiro; o segundo foi no pescoço do motorista, que caiu de lado. O silenciador, feito com latas de aço de sopa e um isolamento de fibra de vidro, funcionara bem. Os tiros não soaram mais altos que uma batida de mãos.
— Mais um em cada um — ordenou Ibrahim.
Ahmed disparou novamente no primeiro guarda. Depois enfiou a arma na cabine, apontou e atirou novamente no ouvido do outro. Ibrahim virou e fez sinal para o Volkswagen. Hadi assumiu o volante e levou o carro até a clareira. Ibrahim e Ahmed já haviam tirado os cadáveres do caminhão.
— Chaveiro — disse Ahmed, e o jogou para Ibrahim.
Começaram a arrastar os cadáveres para o bosque. Hadi pegou um par de toalhas brancas que trouxera do hotel, jogou uma para Fa’ad e os dois limparam o carro. As balas Glock de ponta côncava e macia desintegraram o interior dos crânios dos guardas, sem deixar ponto de saída, de modo que havia mais sangue que matéria cerebral. Uma vez feito isso, Hadi jogou a toalha para Fa’ad, que deu uma corridinha até as árvores para jogá-las ali.
Ibrahim voltou para a clareira, destrancou a porteira, depois jogou o chaveiro de volta a Hadi. Ele e Fa’ad entraram e passaram o caminhão pelo portão, seguidos por Ibrahim e Ahmed no Volkswagen. Hadi fechou e trancou o portão enquanto Ibrahim colocava o Volkswagen sob as árvores e fora da vista.
A estrada de serviço corria ao redor do oleoduto, montada sobre pilões de 1,5 metro de altura, espaçados a cada 30 metros, mais ou menos. Cercada em ambos os lados por árvores e cheia de sulcos, a estrada fora construída para acomodar equipamentos durante a construção do oleoduto e servia de acesso para as equipes de manutenção e segurança da refinaria.
Depois de 1,5 quilômetro, a estrada se desviava, seguindo pela direita enquanto o oleoduto seguia para a esquerda. No meio havia um pequeno bosque de árvores, acima das quais se podiam ver as luzes da refinaria. Ibrahim parou o caminhão, e todos desceram.
— Troca de roupas — ordenou.
Os macacões azul-celeste foram escolhidos não pela camuflagem, mas pelo anonimato. A maioria dos trabalhadores da refinaria usava macacões semelhantes. Se vistos à distância, Ibrahim e sua equipe seriam, ele esperava, confundidos com o pessoal da manutenção. Estavam agora a uns 500 metros da estrada e da cerca do perímetro da refinaria.
Vestidos com os macacões, caminharam pelo bosque até uma clareira. Nela o oleoduto ziguezagueava antes de se endireitar novamente, cruzando pela estrada, e depois de mais uns 500 metros, passava por baixo da cerca de segurança para dentro da refinaria propriamente dita.
O oleoduto de etanol acima de suas cabeças tinha menos de um ano e corria desde Goiás, cerca de 800 quilômetros ao norte, através de Paulínia, antes de continuar até o terminal de Japeri, no Rio de Janeiro, 320 quilômetros a nordeste dali. Por esse oleoduto que se estendia por um quarto da largura do Brasil, 3,2 bilhões de galões de etanol passavam por ano.
O CRO não fora capaz de descobrir o índice preciso de fluxo do oleoduto, mas as médias foram suficientes para convencer o Emir de que o plano era viável. Com um período de “funcionamento” estimado em 85 por cento, o oleoduto bombeava seus 3,2 bilhões de galões em um período de 310 dias, o que por sua vez significava que, a cada dia de operação, 10,3 milhões de galões fluíam de Goiás para o Rio. A qualquer hora do dia, em qualquer trecho de 16 quilômetros do oleoduto, havia etanol para encher vinte caminhões-tanque.
— Quatro dispositivos de fechamento de emergência entre aqui e o perímetro — sussurrou Ibrahim. — Uma carga para desabilitar cada dispositivo, uma para o ponto central entre os últimos pilões, e uma para a detonação. Dessas duas cuido eu mesmo. Ahmed, você fica com a primeira válvula; Fa’ad, a segunda; Shasif, você cuida da terceira e da quarta. Quando eu instalar minha carga, recuo e coço a cabeça. Disparem os cronômetros. Quatro minutos exatos. Lembrem: caminhem para o caminhão. Não corram. Qualquer um que não esteja de volta quando a primeira carga disparar será deixado para trás. Alguma pergunta? — Não havia nenhuma. — Alá esteja conosco.
Saíram todos juntos, caminhando casualmente e batendo papo, tal como qualquer grupo de manutenção faria para suportar melhor um turno noturno. A 200 metros do bosque, alcançaram a primeira ESD. Ahmed se separou e se ajoelhou atrás da válvula do tamanho de um barril, depois foi a vez de Fa’ad e, finalmente, a de Shasif.
— Vejo vocês de volta no caminhão — disse Ibrahim, e continuou andando.
A estrada do perímetro estava 50 metros adiante. Uma picape branca apareceu à direita, andando vagarosamente enquanto o guarda passageiro lançava o facho de uma lanterna na cerca. Ibrahim verificou o relógio. Cedo. Quinze minutos mais cedo! O agente deles, Cassiano, tinha lhes dado certeza sobre os horários e as rotas da segurança da refinaria. Ou ele estava errado ou a rotina havia mudado. Se fosse o último, qual a razão? Rotina ou algo mais? Essa picape da segurança, Ibrahim sabia, percorreria a estrada do perímetro, depois sairia pelo portão oeste da instalação antes de contornar ao norte novamente até passar pela porteira de gado por onde Ibrahim e os demais haviam entrado. Quando os guardas não vissem nenhuma picape ali, como reagiriam? Ibrahim decidiu que o melhor era não descobrir.
Tinham 12 minutos. Digamos mais quatro minutos para colocar as cargas e oito para percorrer de volta o quilômetro e meio até o portão de gado. Seria muito apertado. Ou, pensou, havia outra opção.
Com o coração disparado, diminuiu os passos. O mesmo fez a picape, quase parando. Ibrahim levantou o braço em saudação e disse em português:
— Boa noite! — Inclinou levemente as costas, só para sentir se a Glock estava no lugar.
Depois de longos cinco segundos, o motorista acenou de volta.
— Como estão as coisas?
Ibrahim deu de ombros.
— Bem. — E começou a andar despreocupado na direção da picape. Quanto me aproximo?, perguntou-se. Para matar os dois homens antes que tivessem a chance de alcançar o rádio, deveria estar dentro de 10 ou 12 metros. Será que suspeitariam de seu rosto ou do uniforme? Atacar logo e começar a disparar? Não, decidiu. A picape iria disparar. Ibrahim parou de andar.
— O que você está fazendo? — perguntou o motorista.
— Verificação de soldas — respondeu Ibrahim. — Nosso chefe decidiu achar algo para a gente fazer.
O motorista deu uma risadinha.
— Sei como é. Até logo.
A transmissão engatou, e a picape avançou. E então parou. As luzes de ré acenderam, e o carro voltou até emparelhar novamente com Ibrahim.
— Você veio pelo portão de gado? — perguntou o motorista.
Com o coração na boca, Ibrahim assentiu.
— Havia uma picape por lá?
— Não vi nenhuma. Qual o problema?
— Paiva e Cabral não respondem o rádio.
Ibrahim apontou o polegar para os outros espalhados pelo oleoduto atrás dele.
— Os nossos também andaram estranhos esta noite.
— Manchas solares ou coisa assim — disse o motorista. — Sotaque interessante, esse seu. De onde é?
— Angola. Vivi lá até um ano atrás.
O motorista encolheu o ombro.
— Ok. Vá com calma.
A picape saiu e desapareceu na estrada. Ibrahim esperou até não ouvir mais o motor, e soltou a respiração. Quase lá. Que Alá me guie. Atravessou a estrada, escolheu o caminho pela calha de drenagem e subiu pelo outro lado. O muro agora estava à vista, 100 metros adiante. Passou pelo pilão final e começou a contar os passos. No meio do caminho, parou e se ajoelhou. O duto estava bem acima de sua cabeça. Podia escutar o gorgolejar do combustível através do aço.
A primeira carga, a maior das duas, pesava em torno de 250 gramas, mas cabia perfeitamente no bolso da calça cargo. A segunda carga, com 60 gramas, cabia na palma da mão. Ele ajustou o cronômetro digital da primeira carga para quatro minutos e dez segundos; a segunda, para cinco minutos. Comprimiu os olhos, fez rapidamente uma prece, levantou, fixou a carga principal na parte de baixo do duto, e ligou o cronômetro. Esperou dois segundos, saiu para o campo aberto, voltou-se e coçou a cabeça. Esperou o suficiente para que todos os três vissem seu sinal, depois acionou o cronômetro da segunda carga e a enfiou no estojo feito com plástico-bolha e fita adesiva.
Jogou o pacote por cima do muro e começou a andar.