Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 49 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 49

 

Hadi poderia ter sido o primeiro da fila, mas fabricou um falso contratempo para evitar isso. Não precisava fingir cansaço. Contando o voo doméstico de Marselha e a conexão em Milão, estava no ar havia 15 horas, e a pressão parcialmente reduzida de oxigênio tinha deixado marcas em seu organismo. Mais uma razão para pensar na tripulação e em seu trabalho miserável.

— Olá, Sr. Klein — disse o funcionário da imigração com o que parecia ser um sorriso.

— Bom dia — respondeu Hadi, lembrando-se novamente de sua identidade falsa. Felizmente ninguém tentou conversar com ele durante o voo, salvo a comissária, que manteve sua taça de vinho abastecida. E a comida tinha sido tolerável, uma agradável surpresa.

— Qual o propósito de sua visita? — perguntou o funcionário, estudando o rosto de Hadi.

— Negócios. — O que era até verdade.

— Duração?

— Ainda não tenho certeza, mas provavelmente quatro ou cinco dias. É importante?

— Só para o senhor. — O funcionário escaneou o passaporte, passou a capa pelo leitor de código de barras, perguntando-se se a luz vermelha acenderia, mas quase nunca acendia, como não acendeu desta vez. — Algo a declarar?

— Nada — respondeu Hadi.

— Bem-vindo ao Canadá. A saída é por ali — disse o funcionário, apontando.

— Obrigado. — Hadi recebeu de volta o passaporte e caminhou para as portas múltiplas. Os países ocidentais eram tão autodestrutivamente acolhedores para seus inimigos, notou mais uma vez. Imaginava que eles queriam apenas o dinheiro proporcionado pelos turistas. Realmente não podiam abrigar tanta hospitalidade em seus corações infiéis, não é?

 

— Prestem atenção — disse John. As duas primeiras pessoas que passaram pelas portas eram mulheres, e Hadi não era uma delas... A menos que a informação fosse realmente muito ruim, pensou Clark. Já havia acontecido com ele mais de uma vez.

Muito bem, quem procuramos? Homem, de 35 a 45 anos, altura média, talvez um pouco menos pelos padrões americanos. Olhos escuros, sem olhar muito ao redor, fingindo estar relaxado, mas ainda assim olhando ao redor. Curiosidade, mas curiosidade controlada. Deve estar um pouco cansado pela viagem. Voar geralmente cansa as pessoas. Um tanto abatido pelas bebidas que provavelmente tomou... mas também deveria ter dormido um pouco.

Então viram um casaco castanho, a meia altura de comprimento. Parecia italiano. Supostamente Hadi estava baseado na Itália, em Roma, certo? Aproximadamente 1,70m, compleição média, um tanto para magro. Olhos escuros. Escuros como o inferno, quase negros, pensou John. Olhando cuidadosamente para a frente, não para o lado, empurrando um carrinho com uma maleta grande e uma pequena. Não pareciam muito pesadas, e a grande tinha rodinhas... preguiçoso ou cansado? Os cabelos eram tão negros quanto os olhos, um corte normal. Barba raspada. Sem barba, talvez — provavelmente? — por deliberação. Duas outras pessoas saíram depois dele, obviamente canadenses, pele clara e ruivos. Um deles acenou para alguém ao lado de Clark. Esse estava fora. De volta para o casaco castanho. Seus olhos se moviam para a direita e para a esquerda, mas a cabeça permanecia parada. Bom treinamento de campo, pensou John imediatamente ao notar aquilo. Depois se fixaram em algo: a cabeça de Clark girou e viu alguém de terno escuro, como um motorista, mas sem boné, segurando uma cartolina branca com KLEIN escrito com pincel atômico.

— É esse — sussurrou consigo mesmo. Para Chavez: — Faça a ligação com os irmãos e observe os flancos. Vou dar uma volta. Jack, venha comigo.

Os dois percorreram o saguão.

— Viu algo que eu não vi? — perguntou Jack.

— O nome dele não é Klein, isso posso apostar.

Nenhuma parada no banheiro, percebeu Clark. Descartar essa ideia. O alvo, perceberam, parecia não falar com quem viera recebê-lo. Bem-disciplinado, ou já se conheciam?

— Está com uma câmera? — perguntou John.

— Sim, digital. Pronta para usar. É capaz de já ter uma foto do nosso amigo, mas ainda não verifiquei.

— Se ele entrar em um carro, vamos nos assegurar...

— Claro. Marca, modelo e placa. Como estamos?

— Não acredito que tenha nos visto. Certeza absoluta de que não olhou para onde estávamos, dos dois lados. Ou é um cara bem frio ou está puro como a neve. Pode escolher.

— Parece meio judeu — disse Jack.

— Existe uma piada antiga em Israel. Se ele parece ser judeu e estiver vendendo bagels, é árabe. Nem sempre verdadeiro, mas uma boa piada.

— Salvo pelo cabelo, posso até imaginá-lo usando um chapéu de caubói e casaco preto comprido, na rua 47, em Nova York, lidando com diamantes. Não é um mau disfarce. Mas ele é tão judeu quanto eu.

Passaram pelas bancas de jornal, pelos bares de cerveja, pela porta de saída com detector de metais e entraram no saguão principal. Não para descer pelas escadas rolantes para a área de bagagens, mas era evidente que ele já havia feito isso. Em direção ao portão principal na parede envidraçada, saindo para o ar frio do outono canadense. Passaram pelo ponto de desembarque dos táxis e cruzaram a rua para o estacionamento. Seja quem fosse o recepcionista, tinha estacionado na área de cobrança por hora, e não na área de permanência de um dia ou mais. Muito bem, aquela era uma recepção programada. E nenhum telefonema feito do telefone do avião. Entraram no estacionamento, e então Clark teve que desacelerar sua rotina de segui-lo... e seguir direto para um carro estacionado.

— Câmera — disse Clark abruptamente, esperando que Jack soubesse como tirar fotos escondido.

Na verdade, ele fez isso muito bem, com as lentes se abrindo em telescópio para usar um zoom de duas ou três ampliações. Era um modelo novo preto do Ford Crown Victoria, do tipo comum usado por serviços de carros. Até ali tudo correspondia a um perfil, pensou Clark, quando começaram a encurtar a distância.

 

— Aqui está seu bilhete para Chicago — disse o motorista, entregando o envelope por cima do espaldar do assento.

Hadi abriu o envelope e estudou o bilhete. Ficou surpreso com seu destino. Verificou as horas. A cronometragem era quase perfeita. E o fato de os passageiros da primeira classe passarem primeiro pela imigração ajudava.

— Quanto tempo para chegar ao outro terminal?

— Só alguns minutos — respondeu o motorista.

— Ótimo. — E Hadi acendeu um cigarro.

 

O carro arrancou. Clark notou, mas continuou caminhando. Até o carro estar a uns 100 metros, então deu a volta para o trânsito da chegada e pegou um táxi.

— Para onde? — perguntou o motorista.

— Já digo em um minuto. Jack: olho vivo?

— Já peguei — assegurou Jack. O Crown Vic tinha entrado na fila para pagar o estacionamento. Ele tirou mais duas fotos para pegar o número da placa, apesar de já ter memorizado. Só para ter certeza, escreveu o número na caderneta que mantinha no bolso do paletó.

— Muito bem — disse Clark ao motorista. — Está vendo aquele Ford preto ali?

— Sim, senhor.

— Siga-o.

— Isso é um filme? — perguntou animado o motorista.

— Sim, e eu sou a estrela.

— Já fiz isso, sabe? Filmes de verdade. Eles pagam muito bem para dirigir carros.

Clark percebeu a deixa, pescou a carteira e entregou um par de notas de 20 ao motorista.

— Está bem assim?

— Sim, senhor. Aposto que vão para o Terminal Três.

— Vamos ver — respondeu Clark. Estava com os olhos grudados no Crown Vic, que fazia o trajeto tortuoso comum nos aeroportos, cujas vias de acesso sem dúvida eram projetadas pelo mesmo idiota desalmado responsável pela arquitetura dos terminais. Clark já havia passado suficientemente por aeroportos para saber que todos os arquitetos tinham frequentado a mesma escola.

O taxista estava certo. O Crown Vic parou diante de uma placa da UNITED AIRLINES em diagonal sobre o meio-fio. A porta do motorista abriu, ele desceu e foi até a porta do passageiro.

— Bom palpite... como é mesmo seu nome? — perguntou Clark.

— Tony.

— Obrigado, Tony. Tenha um bom dia. — Clark e Jack saltaram. A câmera estava na mão de Jack, bem-escondida, mas pronta para ação.

— Ele fuma — observou Clark.

Melhor ainda, posava muito bem. Às vezes a sorte trabalha a seu favor.

— Ok, bata uma minha — disse Clark, fazendo pose. O que Jack fez devidamente, e em seguida Clark se aproximou para dizer algo inócuo, seguido de: — Conseguiu pegá-lo?

— Perfeitamente. E agora?

— Agora vou tentar conseguir uma passagem para Chicago. Você o segue até o portão e me liga quando identificar o voo.

— Você acha que pode conseguir um bilhete assim rapidamente?

— Bem, se falhar, não vamos estar piores do que estamos agora.

— Saquei — concordou Jack. — Estou com seu número. — E seguiu em frente, assumindo posição a uns 40 metros de seu amigo Hadi, que desfrutou todas as tragadas possíveis do cigarro antes de caminhar para o terminal. Ele tinha uma boa foto do cara, percebeu Jack, verificando a tela anterior.

 

Clark foi até o balcão da United, satisfeito por não haver muita fila para suportar.

Hadi terminou o cigarro e jogou a guimba no meio-fio, respirou fundo a atmosfera de fora do avião, e entrou. Dominic seguia a uma distância discreta, com o celular de segurança na mão esquerda. Hadi foi direto para o saguão correto e verificou o monitor para se certificar do portão de embarque. Foi andando como uma pessoa comum que tentasse pegar o voo. Em menos de dez minutos estava sentado no portão D-28. Brian fez a ligação.

— Clark — respondeu a voz na outra ponta.

— Aqui é o Jack. Portão D-28, voo um-um-zero-oito.

— Anotado. Parece estar cheio?

— Não, mas o alvo já está no portão, e a hora prevista para decolagem é daqui a vinte minutos. Melhor se mover.

— A caminho. — John foi até o balcão, teve que esperar que um cara de negócios pegasse seu bilhete, depois sorriu para a balconista. — Voo um-um-zero-oito para Chicago, por favor. Primeira classe, se possível, mas econômica, caso contrário. — E entregou a ela seu MasterCard Gold.

— Sim, senhor — respondeu educadamente a atendente. Comprovou ser maravilhosamente eficiente, e o computador cuspiu o bilhete em apenas três minutos.

— Obrigado, senhora.

— À direita. — E apontou, como se ele pudesse não saber qual era a direita. John caminhou calmamente. Vinte minutos para alcançar o voo. Sem problema. Esse apareceu quando ele passou pelo detector de metais, que disparou, para surpresa de John. Então um segurança passou o detector manual, que disparou novamente sobre o bolso de seu paletó. John descobriu que seu escudo de U.S. Marshal havia provocado aquilo. O detector de metais estava mesmo bem-afinado.

— Oh, tudo bem, senhor.

— Eu nem estou aqui de forma oficial — disse Clark, com um sorriso tímido. — Está tudo certo mesmo?

— Sim, senhor. Obrigado.

— Certo. — Da próxima vez, ele passaria aquilo pela esteira e deixaria todo mundo pensar que era um policial. E não tinha disparado com a caneta em seu bolso. Isso era interessante, ou poderia ser, se ele estivesse com a Caneta Mágica. Mas não estava. Azar.

Era um Boeing 737. Seattle deve ter vendido um monte deles, pensou Clark, olhando o saguão desconfortável. O mesmo arquiteto, as mesmas cadeiras vagabundas. Mesma empresa que faz as poltronas de avião? Será que isso não era conflito de interesses?

Lá estava Hadi, sentado na área para não fumantes. Sem tentar chamar atenção para si mesmo? Se fosse o caso, tinha boa postura em campo. Simplesmente sentado ali, lendo uma revista, a Newsweek, pouco atento. Mais dez minutos e chamaram o voo. Clark teve sorte e conseguiu uma poltrona na primeira classe, 4C. No corredor, o que era útil. Lembrou-se de outro voo comercial recente, mas na ocasião ele estava com uma pistola, sem que a tripulação da cabine da British Airways soubesse; isso os teria assustado tanto quanto se estivesse carregando uma bolsa cheia de bananas de dinamite. Bem, a maior parte das comissárias era composta por moças bonitinhas, e não seria bom fazê-las se preocupar com isso. Trabalhavam duro por salários baixos. Hadi entrou a bordo com três pessoas na sua frente, percebeu John, e sentou-se no 1A, a poltrona com janela mais à frente do lado esquerdo, talvez uns 5 metros distante de Clark, à sua esquerda. Três passadas e podia quebrar o pescoço do cara como se fosse um graveto. Ele não tinha feito isso, dessa maneira, desde o Vietnã, onde os homens muitas vezes tinham pescoços magrinhos. Mas isso fora havia muito tempo, e mesmo então, ele quase conseguia esquecer tudo. Lembranças de tempos antigos. Mais exatamente, a 5 metros do banheiro da frente. Quanto mais velho ficava, mas precisava localizar esse tipo de coisa.

Os avisos de segurança de sempre. O cinto de segurança é igual ao do seu carro, bobinho e, se você precisar, a mamãezinha vem fechá-lo para você; mas nada de bebida para você! Os banheiros estão na dianteira e na traseira, e estão assinalados com desenhos, caso você seja idiota e não consiga ler. A idiotização da sociedade também acontecia no Canadá. Uma pena, pensou John. A menos que a United voasse apenas com cidadãos americanos.

O voo foi totalmente comum, praticamente sem turbulência e levou menos de uma hora para pousar em O’Hare, assim nomeado em homenagem a um aviador naval da Segunda Guerra Mundial que ganhou a Medalha de Honra antes de ser derrubado, provavelmente por fogo amigo, que te mata do mesmo jeito que o de outro tipo. Clark se perguntou quão difícil seria para o piloto achar o portão de desembarque, mas provavelmente já devia ter feito esse voo antes, talvez centenas de vezes. Agora vinha a parte difícil, percebeu John. Para onde iria Hadi, e será que ele conseguiria um assento no mesmo voo? Uma pena que não pudesse simplesmente perguntar para o filho da mãe. Ele precisaria passar pela imigração, porque os Estados Unidos tinham ficado sérios com controle de quem entrava no país. Isso, na verdade, significava que estava suficientemente complicado para obrigar os bandidos a pensarem durante um minuto inteiro antes de descobrir uma forma de se esgueirar para dentro. Talvez fosse algo que detivesse os realmente idiotas. Mas os idiotas não eram muita ameaça, eram?

Isso estava muito acima de sua alçada, entretanto, e os que tomavam tais decisões raramente consultavam as abelhas operárias que viviam onde o rabo delas corria perigo. Isso assustara Clark já no Vietnã, quando seu nome ainda era Kelly. Portanto, talvez esse tipo de coisa nunca mudasse. Era um pensamento assustador, mas pensamentos assustadores vinham com o trabalho, e ele tinha aceitado isso havia mais de trinta anos. Os procedimentos de entrada não chegavam nem a ser superficiais. Seu passaporte sequer foi carimbado, uma surpresa considerável. Outra mudança de procedimento? Talvez para evitar que a tinta sujasse os dedos do funcionário?

 

— Muito bem, o que está acontecendo? — perguntou Granger pela linha segura.

— Clark pegou o mesmo voo que nosso amigo — respondeu Jack. — Temos algumas fotos dele. Com sorte, continuará seguindo o cara até onde estiver indo.

Improvável, o chefe de operações pensou na outra ponta. Não temos gente suficiente, nem recursos suficientes. Bem, nem tudo podia ser feito por uma corporação privada, e isso mantinha os custos baixos.

— Ok, me mantenha a par. Quando vocês voltam?

— Temos reserva em um voo para o aeroporto D.C. National; sai daqui a trinta minutos. Estaremos de volta no edifício por volta de cinco e meia ou seis horas da tarde, provavelmente. — O que significava um dia completamente desperdiçado, a menos que se considerasse algumas fotos como sucesso, pensou Jack. Diabos, era mais do que tinham antes.