Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 55 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 55

 

Odiesel pipocava monotonamente enquanto o barco de desembarque navegava rumo oeste. Vitaliy permanecia no leme, sempre dando uma olhada na bússola giroscópica, observando a água deslizar por baixo da proa rombuda e pelos lados. Sem um navio ou barco de pesca à vista. Já era o meio da tarde. O caminhão estava de volta ao seu lugar. O aparelho cor bege que tinham trazido — roubado? Bem, provavelmente sim — estava no convés de aço enferrujado. Ele teria que raspar e pintar o convés antes que ficasse frio demais para isso. Pintar na atmosfera congelante era perda de tempo. Mesmo se secasse, simplesmente descascava. Tenho que pintar logo, disse a si mesmo. Vanya reclamaria disso. Como ex-marinheiro da Marinha soviética, considerava esse tipo de manutenção um insulto à sua hombridade. Mas Vanya não era o dono do barco, e Vitaliy se importava, e ponto final. Os passageiros relaxavam, fumando cigarros e bebericando chá. Era estranho que não bebessem vodca. Ele se dera ao trabalho de conseguir uma da boa, não aquela porcaria feita a partir de batatas. Vitaliy cedia ao desejo de beber. Apenas vodca pura, feita com grãos. Às vezes, ele se excedia e bebia Starka, a vodca marrom que antes era consumida apenas pelo Politburo e pelos chefes locais do partido. Mas essa época já tinha passado — para sempre? Só o tempo diria, e por enquanto ele não iria perturbar suas entranhas com vodca falsificada. Vodca permanecia sendo uma das coisas que seu país fazia bem — melhor que qualquer outro país do mundo. Nasha lusche, disse a si mesmo — A nossa é a melhor —, um antigo lugar-comum russo, apesar de ser fato. Ele logo daria conta do que esses bárbaros não bebiam.

O mapa mostrava sua posição. Vitaliy realmente tinha que comprar aquele sistema de navegação com GPS. Mesmo por aqui, não havia substituto para saber sua posição exata o tempo todo, porque as águas lisas e escuras não revelavam nada além de 1 metro abaixo... Muito devaneio, recriminou-se. Um marinheiro supostamente devia estar alerta o tempo todo. Mesmo quando estava a bordo do único barco à vista em um mar liso e calmo.

Vanya apareceu a seu lado.

— Motores? — perguntou o proprietário ao imediato.

— Ronronando como gatinhos. — Gatinhos bem ruidosos, é claro, contudo macios e regulares. — Os alemães projetaram muito bem.

— E você faz a manutenção adequada — assentiu aprovadoramente Vitaliy.

— Não gostaria de perder força onde estamos. Eu também estou aqui, camarada capitão — acrescentou. Além disso, o trabalho era bem-pago. — Quer que o substitua no leme?

— Está ótimo — disse Vitaliy, recuando um passo.

— Para que eles querem aquela coisa?

— Talvez tenham lanternas grandes lá de onde vieram.

— Não existe ninguém assim tão forte — objetou Vanya, estourando de rir.

— Talvez queiram construir um farol próprio lá onde vivem, e essa bateria é cara demais para comprar.

— Quanto você acha que custa?

— Nada, se você tiver o caminhão certo — observou Vitaliy. — Não tem nem adesivos de aviso. Pelo menos, nada sobre tirá-la do lugar.

— Eu que não iria querer isso embaixo do meu travesseiro. É um gerador atômico.

— É mesmo? — Vitaliy nunca havia se informado sobre como operava o gerador.

— Sim, tem um triângulo triplo sinalizando no lado. Eu não chego perto dessa maldição — anunciou Vanya.

— Humpf — resmungou Vitaliy na mesa de mapas. Seja lá o que fosse, os passageiros deviam saber, e eles estavam bem perto da coisa. Então, como isso poderia ser perigoso? Mas decidiu não se aproximar muito. Coisa radioativa. Não se podia ver nem sentir o que fazia. Isso era o que a tornava assustadora. Bem, se eles queriam brincar com isso, problema deles. Lembrou-se da velha piada da Marinha soviética: Como você reconhece um marinheiro da Frota do Norte? Ele brilha no escuro. É claro que já havia escutado todo tipo de história sobre os homens designados para servir a bordo dos submarinos nucleares. Trabalho infeliz e, como a tripulação do Kursk descobrira para o azar deles, perigoso. Não, que tipo de maluco vai ao mar em um navio que supostamente deve afundar?, perguntou-se. Ainda por cima, uma usina elétrica que solta veneno invisível. Era preciso muito para fazer com que Vitaliy tremesse, mas tal pensamento conseguia o resultado. Um motor a diesel podia não ser tão poderoso, mas não tentava matá-lo só por estar por perto. Bem, 15 metros distante daquela bateria. Devia ser seguro. Seus passageiros estavam a apenas 5 metros, e pareciam bem contentes e confortáveis.

— O que você acha, Vanya? — perguntou o proprietário.

— Aquela bateria ali? Não vou me preocupar. Pelo menos não muito. — Ele dormia na popa e abaixo da cabine de comando. Apesar da pouca educação formal, Vanya era suficientemente esperto para lidar com as máquinas e suas personalidades.

Vitaliy olhou o volume de aço à frente da casa do leme. Era aço, afinal, e com 7 ou 8 milímetros de espessura. O suficiente para deter uma bala. Certamente era o suficiente para deter a radiação, não é? Bem, não é possível se preocupar com tudo. Aportaram logo depois do pôr do sol, onde as coisas já estavam fechando. No cais dos navios de grande porte, um navio ro-ro estava meio carregado com caixas de carga para os campos petrolíferos a leste, e os estivadores voltavam para suas casas, esperando completar o carregamento no dia seguinte. Os bares próximos ao cais já limpavam as mesas à espera dos negócios da noite. No geral, uma modorrenta noite em um porto que, na maior parte do tempo, era modorrento. Vitaliy direcionou seu barco para um cais, o que tinha uma rampa para carregar caminhões e trailers em barcos como o dele. O cais parecia abandonado, como era normal, o chefe do cais já a caminho de um dos bares para beber e jantar.

— Os dias estão ficando curtos, capitão — observou Vanya, parado à esquerda do timão. Dentro de mais algumas semanas, eles dificilmente veriam o sol, e seria a época de manutenção invernal, sem ninguém fretando o barco. Até os ursos polares estariam procurando os covis onde dormiriam durante o duro inverno, enquanto os humanos faziam quase a mesma coisa, ajudados pela vodca. E um dos faróis permaneceria sem luz durante toda a estação. Não que isso fosse de muita importância.

— Assim podemos dormir mais, não é, Vanya?

Sempre uma boa maneira de passar o tempo, pensou o marinheiro.

Os passageiros ainda estavam no convés de desembarque, parados perto de seu caminhão. Não pareciam muito animados por estar de volta ao porto, percebeu Vitaliy. Bem, eram sistemáticos, e para ele tudo bem. Já estava com metade do preço do fretamento no bolso, e o restante do dinheiro logo chegaria, e talvez ele comprasse o sistema GPS para facilitar sua navegação, se conseguisse fazer um bom negócio. Yuriy Ivanov devia ter um bom estoque dos brinquedinhos no depósito e, por uma garrafa de Starka, talvez pudesse conseguir uma boa barganha no que ainda em muito parecia uma economia de trocas.

— Desça para controlar os motores, Vanya.

— Seguindo suas ordens, camarada capitão — respondeu o marinheiro, dirigindo-se para o porão da popa.

Ele simplesmente rebocaria o barco, decidiu Vitaliy. A rampa era de concreto coberto de cascalho e seu barco era feito para esse tipo de coisa. Alinhou cuidadosamente e moveu a apenas 2 ou 3 nós, o mínimo necessário. A luz diminuía, mas não tão rapidamente.

— A postos — disse pelo intercomunicador.

— A postos — respondeu Vanya do mesmo modo.

A mão esquerda de Vitaliy pegou no acelerador de mão, mas não o moveu ainda. Trinta metros, aproximação suave, disse a si mesmo. Vinte metros. Sua visão periférica mostrou apenas um barco de pesca, ancorado ao lado, ninguém à vista. Estamos chegando... agora.

Foi um barulho horrível, do tipo que faz os dentes das pessoas trincarem, e o fundo de aço se arrastou na rampa, mas o ruído logo parou, e Vitaliy colocou o acelerador em ponto morto. E a viagem e o fretamento estavam completos.

— Desligue os motores, Vanya.

— Sim, camarada capitão. Desligando. — E o ribombo parou.

Vitaliy puxou a alavanca de soltar a rampa da cabine, e a rampa da proa desceu vagarosamente até a doca. Feito isso, desceu até a rampa de desembarque. Os passageiros foram até ele.

— Obrigado, capitão — disse o líder deles com um sorriso. Falou em inglês, com sotaque, mas Vitaliy nem notou.

— Tudo satisfatório?

— Sim — respondeu o estrangeiro. Depois falou em outro idioma com um de seus amigos, mas Vitaliy não compreendeu. Não era inglês e não era russo. É difícil reconhecer um idioma que não se fala e, como dizia a velha piada, tudo era grego para o capitão. Um dos passageiros entrou no caminhão e ligou o motor, levando-o para o cais, a carga pendurada pelo guindaste da carroceria. Sob a luz que diminuía, o selo de três triângulos de aviso de radiação brilhava muito, o que provavelmente era intencional. Um momento depois, outro caminhão apareceu no cais, e o antigo veículo do Exército encostou nele de ré. Outro dos passageiros ativou o controle do guincho, levantando, e depois descendo a bateria na área de carga do segundo caminhão. Seja lá quem fossem essas pessoas, eram razoavelmente eficientes. Alguém devia ter usado um celular para pedir auxílio, especulou Vitaliy.

— Então, aqui está seu dinheiro — disse o líder, entregando um envelope.

Vitaliy pegou, abriu e contou as notas. Dois mil euros, compensação nada insatisfatória pelo que tinha sido um trabalho bem simples. E o suficiente para comprar o sistema GPS, mais algumas Starka, e 100 para Vanya, é claro.

— Obrigado — disse Vitaliy educadamente e apertou sua mão. — Se precisar novamente de mim, sabe onde me encontrar.

— Posso vir amanhã, digamos, por volta das dez da manhã?

— Estaremos aqui — prometeu Vitaliy. Tinham que começar a pintar o convés, e o dia seguinte seria tão bom quanto qualquer outro.

— Então virei ver vocês — prometeu o líder. Depois apertaram as mãos e ele foi para o cais.

Em terra, falou com um companheiro, usando agora seu idioma nativo:

— Amanhã às dez — disse ao seu principal subordinado.

— E se o porto estiver movimentado?

— Faremos tudo lá dentro — explicou.

— A que hora pegamos o avião?

— Amanhã ao meio-dia.

— Excelente.

 

Eles apareceram pouco antes das dez, percebeu Vitaliy. Com o restante do dinheiro, esperava. Dirigiam um carro diferente dessa vez. Um japonês. Eles estavam dominando a Rússia. Muitos de seus conterrâneos ainda não gostavam dos produtos alemães, uma atitude permanente que provavelmente tinha menos a ver com a história que com os filmes de guerra que a indústria cinematográfica russa produzia como se fossem maços de cigarro.

O homem usava uma parca, frouxa o suficiente para vestir um suéter por baixo, e foi sorrindo até o barco. Então, sim, talvez tivesse um bônus para ele. As pessoas geralmente sorriam antes de entregar dinheiro.

— Bom dia, capitão — chamou, entrando na cabine. Olhou ao redor. Não havia muita atividade à vista, salvo no cais dos navios de grande porte, onde estavam carregando as caixas de mercadorias, a meio quilômetro de distância. — Onde está seu imediato?

— Abaixo, mexendo nos motores.

— Ninguém mais por aqui? — perguntou, aparentando surpresa.

— Não, nós fazemos a manutenção do barco — disse Vitaliy, indo pegar seu caneco de chá. Não conseguiu. A bala 9 milímetros entrou nas suas costas sem aviso e atravessou seu coração, de trás para a frente, antes de sair pelo peito e através do casaco. Ele caiu no convés de aço, mal percebendo o que aconteceu, antes de perder a consciência pela última vez.

Então o líder dos passageiros do frete desceu a escada até a sala de máquinas, onde Vanya, tal como comunicado, trabalhava no cano de descarga do motor de estibordo. Ele mal levantou os olhos de suas ferramentas e nem viu a arma subir e disparar. Dessa vez foram dois tiros, bem no peito, de uma distância de 3 metros. Quando se certificou de que seu alvo estava morto, Musa colocou a pistola no bolso e subiu. Vitaliy estava caído de bruços no convés. Musa verificou o pulso da carótida, não sentiu nada, e, com a missão cumprida, saiu da cabine e desceu a escada, parando para se virar e acenar para o corpo na cabine, para o caso de alguém vê-lo descer. Depois, desceu a rampa até onde o carro alugado o esperava. Tirou o mapa para guiá-lo até o aeroporto local, e logo terminaria sua estada naquele país infiel.