Morto ou Vivo
Capítulo 57
Oaeroporto internacional fora de Arcangel recebia principalmente voos domésticos, e poucos desses, salvo no verão. A maioria tomava o trem para o sul, que era mais barato e acessível para os cidadãos locais. A Aeroflot ainda não tinha se livrado de sua antiga reputação de segurança de voo abaixo do padrão. Porém havia um terminal de carga bem mais ativo, usado principalmente para pescados que precisavam de transporte rápido para vários restaurantes internacionais. De modo que o pacote foi carregado no compartimento dianteiro de carga de um DC-8 com 40 anos, pertencente à Asin Air Freight. Voaria até Estocolmo, e dali, com nova tripulação, se dirigiria mais ao sul, parando em Atenas antes da perna final até o Aeroporto Internacional de Dubai nos Emirados Árabes Unidos.
— O que é isso? — perguntou o agente da alfândega, olhando o recém-pintado compartimento da “bateria”.
— Equipamento científico, de raio X, algo assim — respondeu seu colega.
O agente verificou que os papéis estavam corretamente preenchidos, e isso, realmente, era o que lhe importava. Não era uma bomba. Elas exigiam formulários diferentes. De modo que assinou na linha verde e carimbou o papel, tornando-o oficial. Ninguém nem mesmo precisou suborná-lo para isso. Se fosse munição, precisariam, mas obviamente aquilo não era nenhum tipo de arma. Ele não perguntou, eles não esclareceram. Para alívio deles, e indiferença dele. Uma empilhadeira movida a gás levantou a embalagem — que pesava uns 700 quilos —, e a levou até a plataforma colocada ao lado do compartimento de carga. Dali foi levantada nos braços a bordo e firmemente amarrada no convés de alumínio.
O piloto e o copiloto faziam a inspeção pré-voo da aeronave, andando ao redor, verificando vazamentos de fluidos, inspecionando visualmente a fuselagem em busca de qualquer coisa errada. O negócio de carga aérea não era conhecido pela qualidade de seus procedimentos de manutenção, e os tripulantes, cujas vidas viajam na cabine de comando, faziam o melhor possível para compensar esse fato perturbador. O pneu da popa do trem de pouso principal do lado esquerdo precisava de substituição em mais ou menos dez ciclos. Fora isso, parecia que o avião conseguiria voar pelas próximas oito horas. Voltaram para a sala da tripulação para beber um pouco do (horrível) café local com pão (bem razoável). As marmitas com almoço já estavam a bordo, guardadas pelo engenheiro de voo, ocupado na verificação dos motores.
Trinta minutos mais tarde estavam de volta e subiram a antiquada escada para se colocar a caminho. Isso levou mais 15 minutos, e depois taxiaram até o final da pista um-oito para começar a corrida para levantar voo. A velha aeronave tinha 37 mil horas na fuselagem — começara a vida como avião de passageiros da United Airlines, na maioria das vezes cruzando da costa leste para a oeste e voltando, com algumas passagens por Saigon como Freedom Bird, que a aeronave, se tivesse memória, lembraria com um sorriso. Ascenderam até a velocidade de cruzeiro determinada, de 32 mil pés, e se dirigiram para oeste antes de pegar o rumo sul sobre a Finlândia, diminuindo a velocidade enquanto cruzavam o mar Báltico, e aterrissaram em Estocolmo. Tudo era rotina, terminando na pista dois-seis e dobrando à esquerda para o terminal de carga. Um caminhão-tanque imediatamente se aproximou para reabastecer e logo depois chegou a tripulação substituta, perguntando como fora a viagem e como estava a aeronave. Todas as respostas estavam dentro dos limites aceitáveis, e a tripulação que chegou desembarcou para tomar o carro que os levaria até o hotel usado pelas equipes de bordo. O hotel tinha um pub, que eles ficaram felizes em ver, com chope gelado. A tripulação substituta já estava com o DC-8 voando novamente antes que eles terminassem o primeiro pint.
De volta à Rússia, Musa estava no Aeroporto Domodedovo, em Moscou, no terminal principal, o que parecia uma espaçonave alienígena (mas que era um avanço em relação à adorada escola de design de bolo de noiva stalinista), fazendo uma ligação internacional para um amigo em Berlim. Quando a ligação se completou, disse ao amigo que o carro tinha sido adequadamente consertado, e que ele receberia o pagamento da próxima vez que se encontrassem. Seu amigo concordou, e a chamada terminou. Musa e seus homens foram então para o bar do aeroporto, onde desfrutaram largamente de doses de vodca russa com preço estupidamente alto, mas que, pelo menos, era de uma marca de qualidade, enquanto passavam duas horas esperando pelo voo da KLM que os levaria até a Holanda. O bar também lhes serviu fatias de pepino e pão para acomodar a vodca nos estômagos. Pagaram a conta em euro, deixando uma gorjeta miserável para o garçom antes de embarcar no 747 da KLM, na cabine da primeira classe, onde a bebida era grátis, e da qual também desfrutaram. Por sua vez, os pensamentos de Musa não se fixaram nos dois assassinatos que cometera. Fora necessário. Ele aceitara essa parte da missão antes de viajar para a Rússia e fretar o barco do infiel. Olhando em retrospectiva, surpreendeu-se por ele e seus amigos não terem aceitado bebidas enquanto estavam a bordo, mas havia o velho ditado sobre não misturar negócios com prazer, e não misturar álcool com os negócios certamente era um ditado ainda mais sábio. Será que aquele tal de Vitaliy tinha comentado sobre o fretamento com alguns amigos locais? Impossível saber. Mas como ele não sabia seus nomes ou endereços, e ninguém havia tirado nenhuma fotografia, que evidências ele teria deixado para trás? O norte da Rússia lhe parecia como aqueles velhos filmes americanos de caubói, nos quais as coisas eram muito casuais para serem adequadamente investigadas pela polícia. As pistolas usadas tinham sido descartadas, e isso era tudo, imaginou. Com aquilo decidido, abaixou o assento e deixou que o álcool o levasse ao sono.
O 747 aterrissou no Aeroporto Templehof em Berlim à uma da manhã, hora local. Musa e os demais desembarcaram em separado, passaram pela complicação da imigração usando seus passaportes holandeses, atravessaram para recolher a bagagem e dali para o ponto de táxi, onde um alemão dirigindo um Mercedes foi direcionado, em inglês, até certo endereço. Estava no que localmente era conhecido como Cidade das Parabólicas, por conta da quantidade de antenas de televisão via satélite. Elas permitiam aos muitos residentes árabes assistir à TV em seu próprio idioma.
O anfitrião já estava esperando, avisado por um amigo em Amsterdã, de modo que ele só precisou bater uma vez. Apertos de mãos e beijos trocados, e Musa entrou na sala de estar do pequeno apartamento. Mustafa, o dono da casa, levantou um dedo aos lábios e depois à orelha esquerda. O apartamento podia estar grampeado, pensou. Bem, em um país infiel é preciso se precaver. Mustafa ligou a TV na reprise de um programa de jogos.
— Sua missão foi bem-sucedida? — perguntou Mustafa.
— Completamente.
— Ótimo. Posso servir alguma coisa?
— Vinho? — perguntou Musa. Mustafa foi até a cozinha e trouxe uma taça cheia de vinho branco do Reno. Musa tomou um longo gole, depois acendeu um cigarro. Tivera um dia longo, mais os dois assassinatos, que, constatou, tendiam a perturbá-lo por nenhuma razão que ele conseguisse perceber. De qualquer maneira, o sono veio rapidamente, tão logo Mustafa estendeu o saco de dormir, e ele terminou seu vinho do Reno. No dia seguinte seguiria para Paris, esperando a notícia de que o pacote havia chegado sem problemas, e depois prosseguiria. Em Dubai poderia desfrutar de algum tempo livre; o engenheiro designado para o pacote era confiável e competente, e necessitaria de pouca supervisão. Mas, pensou Musa, que tipo de supervisão ele poderia dar? O que deveria ser feito com o pacote estava além de suas habilidades.
Era um nome estranho para uma cidade, pensou Kersen Kaseke. O local da derrota final de Napoleão diante de Wellington. Talvez uma metáfora conveniente: uma mudança de sorte divinamente ordenada para um tirano que mantivera boa parte do mundo sob seu punho. Ainda assim, achar um lugar como aquele, no meio do “cinturão do milho”, fora uma surpresa, como muita coisa nos Estados Unidos. As pessoas ali pareciam bem decentes e o tratavam bem, a despeito de seu nome engraçado e do inglês com sotaque pesado. Ajudava, ele tinha certeza, conseguir se fazer passar por cristão, filho adotivo de um missionário luterano que morrera dois anos antes em um ataque de morteiro nos arredores de Kuching. Apesar de achar repugnante negar diariamente o islã e o Verdadeiro Profeta, a história havia, efetivamente, amolecido os corações dos mais desconfiados dos moradores da cidade, a maioria dos quais eram operários ou fazendeiros. Não, na verdade ele não desprezava as pessoas, e sim o governo, e, por mais triste que pudesse ser, há milênios os cidadãos pagavam o preço de políticas brutais e fracassadas. Para as pessoas dali, tratava-se simplesmente de uma questão do destino finalmente alcançá-los. Destino e a vontade de Alá. Além disso, lembrou a si mesmo, o que viria para essas pessoas era apenas uma fração do que seu próprio país sofrera. Apesar de a história trágica de seus pais missionários ser tecnicamente falsa, era, no espírito, muito verdadeira. As ruas de Zagreb, Rijeka, Osijek e dúzias de outras tinham sido inundadas pelo sangue e pela miséria dos muçulmanos por décadas, sem que o Ocidente fizesse nada para salvá-los. O que teria acontecido, imaginou Kaseke, se tivessem sido crianças cristãs louras e de olhos azuis massacradas nas ruas de Londres ou Los Angeles? E então?
Como o e-mail instruiu, Kaseke dirigiu seu Ford Ranger 1995 até a estação de ônibus de Trailway em Sycamore, entre a 3 e a Park Avenue. Parou o Ranger no estacionamento do Doyle’s Pub, caminhou de volta um quarteirão até a estação, e entrou. A chave que recebeu pelo correio uma semana antes coube no armário número 104. Lá dentro, achou uma caixa de papelão resistente embrulhada em papel marrom. Era pesada, quase 15 quilos, mas reforçada com fita adesiva. Não havia nada escrito no papel. Ele retirou a caixa, colocou-a no chão entre seus pés, olhou ao redor para ter certeza de que ninguém o observava antes de usar a manga de seu suéter para limpar a chave do armário. Teria tocado em alguma outra coisa? Deixou impressões digitais em algum lugar ali perto? Não, apenas na chave.
Kaseke pegou a caixa e saiu, caminhando de volta pelo quarteirão até sua caminhonete. A caixa foi para o banco de passageiros. Ele entrou pelo outro lado e ligou a ignição, depois fez uma pausa, perguntando-se rapidamente se deveria colocar a caixa no chão. Se ele sofresse um acidente... Não, pensou. Não era necessário. Ele sabia o que havia na caixa, ou pelo menos tinha uma boa ideia, dado o currículo de treinamento pelo qual passara no acampamento. Eles o haviam treinado bem para fazer uma coisa, e apenas uma coisa.
A carga era perfeitamente inofensiva. Por enquanto.