Morto ou Vivo
Capítulo 60
Esta, sabia o almirante Stephen Netters, seria uma reunião desagradável, e tinha tanto a ver com quem estava presente quanto com quem não estava. Se tudo estivesse certo, o homem sentado do outro lado da escrivaninha diante dele deveria ser Robby Jackson, mas não era. Algum caipira com o coração cheio de ódio tinha evitado isso. Então, ali estava Edward Kealty. O homem errado para todas as horas. Netters e Jackson subiram juntos, começando na Academia Naval, e suas carreiras se cruzando aqui e ali enquanto subiam a ladeira até que finalmente, no ocaso da administração Ryan, Netters havia sido nomeado chefe do Estado-Maior Conjunto. Aceitara a tarefa por várias razões, e a ambição era a menor delas; o respeito por Ryan, a mais importante.
Foi difícil não sair depois daquilo tudo, especialmente depois que ficou claro que Kealty ganharia o Salão Oval não por seus méritos e sim por conta de uma idiotice do destino e uma tragédia. Mas, mesmo enquanto os votos eram contados e o mapa eleitoral se inclinava inexoravelmente em favor de Kealty, Netters sabia que tinha que permanecer, temendo que o novo presidente nomeasse um dos “príncipes perfumados” do Pentágono. Alguém só precisava observar a profundidade (ou a falta de) do ministério de Kealty para saber o que o sujeito esperava da sua equipe. E nisso residia o problema. Contradiga o rei com frequência ou com muito zelo e algum príncipe mais submisso seria achado. Deixe de contradizer o rei e o reino cai nas mãos dos bárbaros.
— Me diga o que estou vendo, almirante — disse o presidente Kealty com um resmungo, e empurrou a fotografia de satélite de volta para o lado de Netters.
— Senhor presidente, o que vemos são movimentos de tanques em larga escala, que juntamente com a infantaria mecanizada se dirigem a oeste na direção da fronteira.
— Isso eu posso perceber, almirante. De que números estamos falando, e que diabos eles pretendem fazer?
— Quanto à primeira pergunta, identificamos uma divisão blindada com três brigadas de tanques, com uma mistura de velhos tanques soviéticos, modelos T-54, T-62 e Zulficar como armamento principal; quatro batalhões de artilharia; e duas divisões de infantaria mecanizada. Quanto ao que pretendem, senhor presidente, ainda não podemos pensar nesses termos. Precisamos nos concentrar no que eles são capazes de fazer, e daí avançar para suas intenções.
— Explique — disse a assessora de Segurança Nacional, Ann Reynolds.
Tradução: não sei de que droga você está falando. Tal como Scott Kilborn, a congressista democrata do Michigan era extremamente não qualificada, mas tanto a demografia de gênero quanto seu assento no Comitê de Inteligência da Câmara tinham feito dela uma favorita para o ministério de Kealty. Como CEO de uma companhia de Detroit que lidava com redes sociais em sites, Reynolds havia sido perspicaz e capaz, características que supôs serem facilmente transferidas para o papel de política e legisladora. Netters suspeitava que Reynolds ainda não tinha percebido que para ela não dava pé, um fato que o apavorava completamente. A assessora de Segurança Nacional metia os pés pelas mãos, esperando que os ternos poderosos de Donna Karan, os óculos severos e o estilo de falar disparado manteria os lobos à distância.
— Digamos que eu pretenda ultrapassar o recorde olímpico da maratona. Essa é minha intenção. O problema é que minhas pernas estão quebradas e tenho problemas cardíacos. Essa é minha capacidade. Essa última dita a primeira.
Reynolds assentiu sabiamente.
Scott Kilborn, o DCI, disse:
— Senhor presidente, Teerã vai dizer que se trata de um “exercício”, mas não podemos ignorar o óbvio. Em primeiro lugar, a força se movimenta na direção da depressão de Ilam; em voo direto, é o ponto mais próximo de Bagdá do que qualquer outro no Irã. Mais ou menos 12 quilômetros. Segundo, nós acabamos de colocar em execução nosso plano de retirada do Iraque. Na melhor das hipóteses, eles estão avisando aos sunitas para terem um bom comportamento. Na pior, a coisa é para valer e estão planejando uma incursão.
— Com que objetivo?
Kealty tinha feito a pergunta, o que era bom, pensou Netters, mas não havia nenhuma curiosidade por trás. Quando se tratava do Iraque, o presidente era completamente focado em uma solução. Desde o primeiro dia, havia deixado claro que pretendia retirar as forças dos EUA o mais rapidamente possível, com uma atenção apenas simbólica às questões de segurança. A Kealty faltavam dois ingredientes críticos para uma boa liderança: flexibilidade e curiosidade. Ele possuía os dois em abundância na arena política, mas isso se relacionava ao poder, e não a uma autêntica liderança.
— Esperando para ver como reagimos — respondeu Kilborn. — Quanto mais tempo demorarmos na retirada, mais tempo Teerã disporá para trabalhar por trás dos panos com as milícias xiitas. Se uma incursão não reverter nossa retirada, eles podem ter uma previsão.
— Discordo — disse o almirante Netters. — Eles não têm nada a ganhar e tudo a perder se cruzarem a fronteira. Mais ainda: pegando leve.
— Explique.
— Mandaram a campo apenas elementos simbólicos de defesa antiaérea. E isso não é uma distração. Eles sabem que, se formos para cima deles, o primeiro ataque virá dos porta-aviões do golfo.
Ann Reynolds, a assessora de Segurança Nacional de Kealty, disse:
— Uma mensagem?
— Mais uma vez, Sra. Reynolds, isso cai na categoria das “intenções”, mas posso dizer o seguinte: apesar de todos os defeitos, os iranianos não são cegos, e acreditam fielmente no modelo de ordem de batalha dos soviéticos, que é grande em sistemas antiaéreos móveis. Eles viram o que nós fizemos nas duas guerras do golfo, e não esqueceram. Você não dispensa seus elementos antiaéreos assim por nada.
— E sobre cobertura aérea? — perguntou Reynolds. — Caças?
— Nenhuma mudança — respondeu Netters. — Nenhum movimento além dos voos rotineiros de patrulhamento.
O presidente Kealty franziu a testa. Uma mosca em sua sopa, pensou Netters. Ele prometeu ao país que iria retirar os Estados Unidos do Iraque, e o relógio estava tiquetaqueando não para as tropas ou para o bem-estar estratégico dos Estados Unidos, mas para as chances de Kealty conseguir um segundo mandato. É claro, Netters tivera, desde o começo, suas reservas quanto à guerra contra o Iraque, e ainda tinha, mas essas se tornaram minúsculas pela possibilidade muito real da coisa dar errado ali. Queira ou não, os Estados Unidos estavam metidos até o pescoço no Oriente Médio, mais do que jamais estiveram em toda a história. Uma retirada indolor era um sonho impossível que Kealty vendeu a uma nação compreensivelmente cansada de guerras. O plano de retirada atual jamais teria sucesso, mas era comedido o suficiente para que o Iraque deslizasse vagarosamente para o caos em vez de mergulhar de cabeça nele, e, nesse caso, ele esperava que Kealty tivesse um pouco da porra do bom senso de escutar os comandantes do teatro.
Mas Kilborn estava correto em um aspecto. Esse assunto na fronteira podia bem ser uma previsão para o final do jogo de Kealty no Iraque sem as tropas americanas, ainda que a possibilidade de o Irã mandar tropas para o terreno, uma vez que as forças dos EUA tivessem ido embora, era um mero jogo de adivinhação. Se fizessem isso, entretanto, usariam o aumento da violência dos sunitas contra os xiitas como justificativa.
Os iranianos estavam em um jogo irresoluto. Um atraso na retirada das tropas dos Estados Unidos parecia contrário aos interesses de Teerã. Ou pelo menos aqueles visíveis de Washington.
Kealty se inclinou na poltrona e juntou os dedos em ponta.
— Então, almirante, como não quer falar de intenções, eu farei isso por você — disse Kealty. — Os iranianos gostam de exibir força. Testar nossa decisão. Nós vamos ignorá-los, manter o plano de retirada e mandar nossa própria mensagem a eles.
— Tal como? — perguntou o almirante Netters.
— Outro porta-aviões e seu grupo de apoio.
Uma mensagem. Outra missão sem objetivo. Ao mesmo tempo que era verdade que os porta-aviões diziam tudo a respeito de projeção de poder, o conceito era análogo à segurança básica de armas: não aponte uma arma se não tiver intenção de atirar. Nesse caso, Kealty só queria exibir o objeto.
— Que ativos temos disponíveis? — demandou Kealty.
Antes que Netters pudesse responder, Kilborn disse:
— O Stennis...
Netters interrompeu.
— Senhor, nesse caso estamos perto do limite. O grupo do Stennis foi dispensado na base há dez dias. Está há muito tempo precisando de...
— Droga, almirante, estou ficando cansado de escutar sobre o que não podemos fazer, compreendeu?
— Sim, senhor presidente, mas precisa entender que...
— Não, não preciso. Para isso você é pago, almirante. Faça o serviço e me traga um plano, ou vou achar alguém que o faça.
Tariq foi até a sala de estar, onde o Emir lia, e pegou o controle remoto da televisão.
— Algo que você deve ver. — Ligou a TV e mudou para um canal a cabo de notícias. A âncora lourinha, bonitinha e de olhos azuis estava no meio de uma frase.
— ... novamente, um porta-voz do Pentágono acabou de confirmar uma reportagem anterior da BBC sobre exercícios do Exército iraniano que estão sendo realizados em sua fronteira com o Iraque. Enquanto o Pentágono admite que o governo de Teerã deixou de anunciar o exercício, prosseguiu afirmando que tais eventos não eram incomuns, citando um movimento de tropas e equipamentos semelhante, ocorrido no começo de 2008...
Tariq desligou o som da TV.
— Estranhos companheiros de cama — murmurou o Emir.
— Desculpe?
Apesar de Teerã no geral não apoiar a causa do CRO, também não tinha sido um obstáculo, sabendo muito bem que nunca se podia prever quando os interesses poderiam coincidir. Nesse caso, o Ministério de Inteligência e Segurança Nacional do Irã, o VEVAK, havia recentemente voltado sua atenção sobre como poderia ser a configuração do Iraque pós-ocupação. Apesar de bem-representados por várias milícias e apoiados pela ajuda do Hezbollah e do Pasdaran, os xiitas iraquianos eram ainda uma minoria, e consequentemente vulneráveis à perseguição sunita, um desequilíbrio de poder que Teerã desprezava, e o CRO ficava feliz em explorar. Logo que os Estados Unidos começaram a bater o bumbo para a guerra, em 2002, o Emir desenvolvera sua própria análise de custo-benefício, assim como uma estratégia para expandir os objetivos do CRO. O fato de essa estratégia estar obliquamente baseada no modelo econômico americano era algo que provavelmente jamais ocorreria a Washington.
Os Estados Unidos em algum momento sairiam, ou pelo menos diminuiriam sua presença a um nível nominal, ocasião na qual o Irã começaria seu jogo para a dominação do Iraque, uma façanha que não podia esperar obter sucesso sem alguma vantagem sobre a maioria sunita. Nesse sentido, o Irã tinha necessidades. Era um freguês em construção.
O envolvimento do CRO no Iraque havia começado em agosto de 2003, com o influxo de homens, suprimentos e experiência, todo o conjunto amplamente oferecido aos grupos extremistas sunitas. Baseados no ódio comum aos ocupantes dos EUA, recursos foram compartilhados e objetivos entrecruzados e, por volta de 2006, o CRO controlava ou tinha influência em grandes porções de Bagdá e na maior parte do triângulo sunita. Esses eram os bens ou serviços para os quais Teerã queria pagar.
Como Mary Pat Foley e o NCTC bem sabiam e Jack Ryan Jr. recentemente compreendera, a disponibilidade da informação na era digital podia ser tanto um obstáculo quanto uma bênção para o trabalho de inteligência. Os computadores podem categorizar, cotejar e disseminar quantidades maciças de informação, mas a mente humana só consegue absorver e usar parte disso. A aplicação de informação é o pivô em torno do qual decisões — boas, más ou neutras — são feitas, um fato que engenheiros, supervisores de jogos, cassinos e centenas de outras disciplinas aparentemente não relacionadas já reconheceram há muito tempo. Quem faz o que, onde e quando? Para um planejador urbano, uma lista dos cruzamentos onde acontecem mais engarrafamentos é virtualmente inútil; um mapa dinâmico no qual ele ou ela possam perceber os pontos quentes e as tendências, valiosíssimo. Tristemente, como era frequente no caso, o governo dos Estados Unidos ainda não estava pronto para alcançar o terreno da Visualização de Dados e da arquitetura da informação, tendo que terceirizar tais serviços para empresas experientes na cibernética enquanto a burocracia federal desperdiçava milhões de dólares e perdia tempo com o assunto.
Para Jack e Gavin Biery, o projeto que eventualmente terminaram apelidando de RELHA começara como um desafio técnico: como pegar a inundação de informação de fontes abertas na internet e transformá-la em algo útil — uma espada que pudessem usar para desbastar a sobrecarga. Apesar da metáfora ligeiramente floreada, rapidamente fizeram progresso, começando com um programa de software projetado para recolher obituários da costa leste e mapeá-los segundo vários agrupamentos: idade, local, causa do óbito, profissão etc. Muitos dos padrões que emergiram eram previsíveis — como a concentração da morte de pessoas mais velhas nas proximidades de asilos de idosos —, mas alguns não eram, tal como o recente aumento da idade de permissão para beber em um estado precedendo o aumento na morte nas rodovias de jovens adultos que se dirigiam aos estados com idade menor de licença para beber. Isso também era mais ou menos previsível, admitiram, mas observar as marcações em um mapa era a proverbial imagem que substituía mil palavras.
A outra surpresa foi a profundidade e a abrangência da informação aberta. Os dados realmente úteis, apesar de não serem inacessíveis, estavam enfiados bem no fundo de sites dos governos locais, estaduais e federal, disponíveis para qualquer um que tivesse paciência e conhecimentos tecnológicos para achá-los. Os países do Segundo e do Terceiro Mundo, nos quais aconteciam a maior parte dos incidentes terroristas, eram a presa mais fácil, muitas vezes fracassando em fechar a abertura entre os registros mantidos on-line e a segurança dos bancos de dados. Em outros casos, informações confidenciais como relatórios de prisões e arquivos de investigações correntes eram armazenadas em servidores sem segurança, às vezes sem nem mesmo um firewall ou senha de acesso entre eles e os portais governamentais.
E esse era o caso da Líbia. Quatro horas depois de receber o sinal verde de Hendley, Jack e Gavin tinham a RELHA arando gigabytes de dados, tanto de fontes abertas quanto de bancos de dados governamentais. Duas horas depois, a RELHA regurgitava informação na cópia do Google Earth Pro de Gavin. Jack chamou Hendley, Granger, Rounds e os irmãos Caruso para a sala de conferências na penumbra. A visão aprimorada de Trípoli via satélite proporcionada pela RELHA estava sobreposta com linhas multicoloridas que se entrecruzavam, pontos de agrupamento e quadrados. Jack ficou ao lado da tela LCD com o controle remoto na mão; Biery estava sentado no fundo contra a parede, o laptop aberto sobre suas pernas.
— Parece um quadro de Jackson Pollock — observou Brian. — Você está tentando nos dar um piripaque, Jack?
— Prestem atenção — respondeu Jack, e depois apertou um botão no controle remoto. O “tracejamento de dados”, como ele e Gavin chamavam aquilo, desapareceu. Jack passou cinco minutos explicando ao grupo sobre a RELHA, e depois apertou novamente o controle remoto. A imagem se aproximou do aeroporto de Trípoli, que agora tinha uma espécie de corola de flor em cima, o estigma dividido em pedaços de tortas coloridos, as pétalas quadriculadas e em vários ângulos.
— O estigma representa a média diária de chegadas. As manhãs são mais movimentadas; as tardes, mais calmas. As pétalas representam o número de buscas especiais efetivadas nos postos de controle do aeroporto. Como podem ver, há um salto nas manhãs, das sete às dez, e uma queda quanto mais se aproxima o meio-dia. Tradução: quintas-feiras entre dez e meia e meio-dia são o melhor momento para tentar deslizar algo pelos controles.
— Por quê? — perguntou Granger.
— Os postos de controle são manejados em capacidade total de manhã, mas o pessoal faz uma rotação nos intervalos para o almoço no final da manhã; menos pessoal e mais passagens é igual a menos segurança. Mais ainda: quase dois terços do pessoal das máquinas e dos guardas de segurança trabalha de domingo até quinta-feira.
— Então as quintas-feiras são as sextas-feiras deles — disse Dominic. — Já estão pensando no fim de semana.
Jack assentiu.
— Foi o que pensamos. Também temos um gráfico igual para as decolagens. Pode ser bem útil para vocês.
Jack passou uma série de gabaritos coloridos descrevendo padrões de tráfego, atos de violência, sequestros, batidas feitas tanto por unidades militares quanto pela polícia, demonstrações antiocidente... Tudo categorizado por datas e horas, demografia, vizinhanças, etnicidade, envolvimento estrangeiro, afiliações religiosas e políticas, até finalmente sintetizar os dados em uma série de “fazer” e “não fazer” para Brian e Dominic: área a evitar, e a que horas do dia, bairros onde provavelmente encontrariam forte apoio ao CRO, ruas nas quais eram mais comuns as barreiras da polícia e dos militares.
— Jack, isso é fantástico — comentou Brian. — É como se fosse nosso próprio e bizarro guia de viagem.
— O quanto esses dados variam? — perguntou Dominic.
— Não muito. Há alguma flutuação durante e próxima aos dias santos islâmicos mais importantes, mas, a menos que vocês fiquem por mais de dez dias, não vão achar muita variação.
Granger perguntou:
— Eles podem acessar isso quando estiverem em campo?
— Gavin hackeou dois Sony Vaio VGN: tela de 8 polegadas com sistema operacional Ubuntu e uma...
— Em inglês, Jack — disse Rounds.
— Pequenos laptops. Terá todos os dados em formato Flash. Vocês poderão mudar e revisar os gabaritos da RELHA quando quiserem. Vamos mostrar para vocês quando acabarmos aqui.
— Ótimo trabalho, Jack... Gavin. Alguma pergunta, rapazes? — disse Hendley.
Brian e Dominic sacudiram as cabeças.
— Então, boa viagem.