Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 42 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 42

 

Em retrospectiva, Jenkins compreendeu que devia ter percebido a coisa, essa “promoção” que de fato não era mais que um enorme pé no saco. A instalação recebia visitas regulares de uma pletora de agências governamentais e seus funcionários, desde a Agência de Proteção Ambiental e de Segurança Interior ao Serviço Geológico dos Estados Unidos e o do Corpo de Engenheiros do Exército, todos os quais até então eram representados por um porta-voz do Departamento de Energia. A disputa recém-aquecida em Washington sobre o futuro da instalação havia mudado tudo isso, e parecia que todos os políticos ou burocratas que sabiam o caminho estavam indo até lá, armados com perguntas especulativas geradas pelas equipes de assessores mal pagos e com um profundo desejo de compreender todas as nuances da instalação.

— O que eles querem, Steve — dissera seu chefe —, é dar uma olhadinha por trás da cortina, e você é suficientemente grosseiro para fazê-los pensar que estão conseguindo isso.

Apesar do elogio disfarçado, Steve tinha que admitir que conhecia a instalação por dentro e por fora, e de trás para a frente, considerando que começara a trabalhar três anos depois de sair da faculdade, o que significava, na contagem de tempo de vida do projeto, 19 anos depois que o lugar fora identificado inicialmente como possível candidato, juntamente com dez outros em seis estados; 12 anos após ser designado para estudos de “caracterização local”; e dez anos depois de ter sido coroado vencedor do concurso de beleza. Ele trabalhara neste pedaço não tão pequeno do deserto pela maior parte de sua vida adulta, e ao custo atual de 11 bilhões de dólares, era um dos pedaços de terra mais estudados do mundo. E, dependendo de quem ganhasse a parada em Washington, esses 11 bilhões poderiam ser contabilizados como perdas. Como é que se podia fazer isso?, perguntava-se. Em que coluna da contabilidade federal cabia essa soma?

Completar o projeto havia se tornado uma questão de honra para os novecentos e tantos membros da equipe, e, apesar de variar a opinião de empregado para empregado sobre se desejavam viver ali perto, o investimento coletivo no sucesso era enorme. Ainda que tivesse apenas 37 anos, Steve era considerado um dos veteranos do projeto, juntamente com cerca de uma centena de outros que estavam ali desde que ele se transformara de um rascunho em um pedaço de papel a um empreendimento posto em prática. Infelizmente, ele não podia falar para ninguém muita coisa sobre o que fazia, uma restrição a que não dava importância até conhecer Allison. Ela era intensa e autenticamente interessada no que ele fazia, sobre como passava seus dias, um traço inexistente nas duas namoradas anteriores. Deus, como ele tinha sorte. Descobrir uma mulher como ela, e tê-la atraída por ele... E o sexo. Deus dos céus, ele sabia que sua experiência era um tanto limitada, mas as coisas que ela fazia com ele, com as mãos, com a boca... Todas as vezes que estavam juntos, ele se sentia como se estivesse em uma carta de sacanagem do fórum da Penthouse.

Seus pensamentos foram interrompidos por uma indiscreta nuvem de poeira aparecendo no alto da colina em frente à entrada principal do túnel, indicando aproximação de veículos. Sessenta segundos depois, dois Chevy Suburbans negros apareceram na estrada norte e pararam no estacionamento. O trabalho vespertino tinha sido interrompido, e todos os caminhões e pallets com equipamentos haviam sido levados para o perímetro da área. Os Suburbans diminuíram a velocidade e pararam a cerca de 15 metros de distância, com os motores em ponto morto. Nenhuma das portas se abriu, e Steve imaginou os ocupantes temendo deixar o interior com ar-condicionado. E nem estava calor, pensou, não o calor do verão, pelo menos. Engraçado como as delegações de visitantes como essa tendiam a desaparecer entre junho e agosto.

Então as portas se abriram e dos carros saíram dez assessores enviados pelos respectivos governadores. Dois para cada um dos estados limítrofes. Já tendo enrolado as mangas das camisas e afrouxado as gravatas, o grupo ficou um instante parado, piscando e olhando ao redor, antes de ver Steve acenando o braço. Todos foram até ele e se reuniram em semicírculo.

— Boa tarde e bem-vindos — disse. — Meu nome é Steve Jenkins, e sou um dos engenheiros seniores do local. Farei o melhor possível para decorar o nome de todos antes de terminarmos, mas, por enquanto, peço para que vocês mesmos encontrem seus crachás de visitantes.

Segurou uma caixa de sapatos e, um a um, cada delegado avançou e descobriu seu crachá.

— Só um par de lembretes antes de sairmos do calor. Vou passar a vocês folhas com informações que devem cobrir tudo sobre o que vamos conversar nesta tarde, e tudo que tenho permissão para lhes contar.

Isso foi recebido com algumas risadas abafadas. Steve relaxou um pouco. Poderia não ser tão ruim assim.

— Dito isso, peço que não façam anotações, seja em papel seja nos seus palmtops. O mesmo vale para gravadores e câmeras.

— Por quê? — perguntou uma das delegadas, uma loura tipo californiana. — Há um monte de fotos na internet.

— É verdade, mas apenas as que queremos que estejam lá — respondeu Steve. — Acreditem, se eu puder responder a uma pergunta, responderei. Nosso objetivo é dar a vocês o máximo de informações que pudermos. Uma última coisa antes de entrarmos. Esse treco aí ao lado que parece parte lançador de foguetes, parte trailer e parte oleoduto é a nossa tuneladora, afetuosamente conhecida como Tatuzão. Para os que adoram fatos e números, o Tatuzão tem 140 metros de comprimento e 7,5 de largura, pesa 700 toneladas e pode perfurar até 5,5 metros de rocha sólida por hora. Para colocar em perspectiva, isso equivale mais ou menos ao comprimento de um dos Suburbans nos quais vieram até aqui.

Houve murmúrios apreciativos e risinhos na delegação.

— Muito bem, se me seguirem até a entrada do túnel, podemos começar.

 

— Estamos agora dentro do que chamamos de Instalações de Estudos Exploratórios — disse Jenkins. — Tem a forma de uma ferradura, com cerca de 8 quilômetros de comprimento e 8 metros de largura. Em vários lugares do IEE construímos alcovas do tamanho de celeiros, nas quais guardamos equipamentos e fazemos experiências, e há seis semanas completamos o primeiro deslocamento de posicionamento.

— Que é o quê?

— Trata-se essencialmente de onde os depósitos serão guardados quando e se a instalação entrar em atividade. Vocês verão a entrada do deslocamento dentro de poucos minutos.

— Não vamos entrar?

— Não, receio que não. Ainda estamos fazendo testes para ter certeza da estabilidade.

Isso era um enorme eufemismo, é claro. A escavação do deslocamento de posicionamento levara relativamente pouco tempo. Mas os testes e a experimentação levariam entre mais nove meses a um ano.

— Vamos falar um pouco de geografia — continuou Steve. — O sulco acima de nós se formou há uns 13 milhões de anos por um agora extinto vulcão de caldeira, e é composto por camadas alternadas de rochedo chamados de tufo soldado, também conhecido como “ignimbrito”, tufo não soldado e tufo semissoldado.

A mão de alguém se levantou.

— Ouvi direito o que você disse? Falou em “vulcão”?

— Sim. Mas extinto há muito tempo.

— Mas já tiveram terremotos aqui, certo?

— Sim, dois. Um medindo 5 na escala de Richter e outro medindo 4,4. O primeiro causou alguns danos menores nos edifícios na superfície, mas nem uma rachadura aqui embaixo. Eu estava aqui, bem aqui, nas duas ocasiões. Mal senti alguma coisa.

Havia, de fato, 39 falhas de terremotos e sete vulcões recentes em vários estágios de atividade no deserto que circundava a instalação. Isso estava na folha de informações que ele havia entregado, mas, se ninguém tocasse no assunto, certamente não era ele quem faria isso. Quando as pessoas ouviam as palavras vulcão e falha, seus cérebros tendiam a voltar ao estágio do homem das cavernas.

— A verdade é que — continuou Steve — esse pedaço em particular de geologia é estudado por quase 25 anos, e há montanhas de evidências de que os três tipos de terrenos aqui são perfeitamente aptos para o armazenamento de resíduos nucleares.

— Quanto de resíduo, exatamente?

— Bem, essa é uma das perguntas que não estou autorizado a responder.

— Por ordem de quem?

— Pode escolher, Segurança Nacional, FBI, Departamento de Defesa... Basta dizer que essa instalação será o depósito primário de combustível nuclear usado.

A melhor estimativa colocava a capacidade máxima da instalação por volta de 135 mil toneladas métricas, com parte disso degradando para níveis “seguros” em décadas e partes permanecendo potencialmente letais por milhões de anos. O modelo favorito do lixo nuclear, o mais frequentemente citado pelos jornalistas — o plutônio-239, que tinha meia-vida de cerca de 25 mil anos —, estava longe de ser o que permanecia por mais tempo, sabia Steve. O urânio-235, usado tanto em reatores quanto em armas, tinha meia-vida de 704 milhões anos.

— Por que meios o lixo será transportado? — perguntou um dos delegados do Oregon.

— Por ferrovia e caminhões, ambos especialmente projetados para a tarefa.

— O que eu queria dizer era que suponho que não estamos falando de tambores de 55 galões.

— Não, senhor. Pode ver as informações detalhadas no material que entreguei, mas já vi essas coisas de perto e acompanhei os testes de estresse que são aplicados. São o mais perto de indestrutível a que já se conseguiu chegar.

— Disseram o mesmo sobre o Titanic.

— Tenho certeza de que a General Atomics lembrou disso muito bem enquanto desenvolvia essas coisas nos últimos dez ou 12 anos.

— E como é a segurança, Sr. Jenkins?

— Se a instalação entrar em funcionamento, a segurança primária será manejada pelas Forças de Proteção da Administração Nacional de Segurança Nuclear, a NNSA. É claro que haverá... forças suplementares de rápida mobilização, caso aconteça uma emergência.

— Que tipo de forças suplementares?

Steve sorriu.

— Do tipo que provoca pesadelos nos bandidos.

Mais risadas.

— Muito bem, vamos passar para o que vocês todos vieram ver. Se subirem nesses carrinhos nos trilhos, podemos prosseguir.

A viagem durou 15 minutos, mas perguntas frequentes fizeram o comboio parar. Finalmente diminuíram a velocidade ao lado da abertura do túnel principal. Os delegados desceram e se reuniram ao redor de Steve na entrada.

— O poço que estão vendo na direção do fundo tem 180 metros de comprimento e se liga ao deslocamento de posicionamento, que é uma grade de túneis menores que, por sua vez, levam a grandes áreas de depósito de lixo atômico.

— Como o lixo sai do trem ou do caminhão até o nível do depósito? — perguntou um dos assessores de Utah. — Permanece no recipiente de transporte?

— Desculpe, mas isso também é área ultrassecreta. O que posso dizer é como o lixo será guardado lá embaixo. Cada “pacote” será enfiado em dois recipientes aninhados, um feito com quase 2 centímetros de um metal resistente à alta corrosão chamado de Liga 22, depois um segundo recipiente com 5 centímetros de espessura feito com algo chamado 316NG, composto essencialmente por aço inoxidável de grau nuclear. Abrigando os recipientes aninhados haverá um escudo de titânio projetado para protegê-los de vazamentos e da queda de rochedos.

— E isso é algo que preocupa vocês?

Steve sorriu.

— Os engenheiros não se preocupam. Nós planejamos. Tentamos modelar todos os cenários possíveis e planejar para isso. Esses três componentes, os dois recipientes aninhados e o escudo de titânio, formam o que chamamos de “defesa em profundidade”. Os pacotes serão armazenados horizontalmente e combinados com diferentes graus de lixo, de modo que cada câmara manterá uma temperatura constante.

— E qual será o tamanho desses pacotes?

— Cerca de 2 metros de diâmetro e com o comprimento variando entre 3,5 a 5,5 metros.

— O que acontece se os pacotes forem... colocados fora do lugar? — perguntou o outro candidato da Califórnia.

— Não poderia acontecer. A quantidade de requerimentos envolvidos para a movimentação de um pacote e as pessoas de controle tornam isso virtualmente impossível. Pensem assim: todos nós temos chaves dos nossos carros, certo? Imaginem uma família de oito pessoas. Cada pessoa da família teria um conjunto duplicado de chaves; três vezes por dia, cada pessoa teria que assinar um formulário declarando que as chaves estão ou em sua posse ou colocadas em um lugar predeterminado; três vezes por dia cada pessoa teria que verificar se suas cópias da chave realmente funcionam nas portas e na ignição do carro; e finalmente, três vezes por dia cada pessoa teria que verificar com cada um dos outros membros da família e se certificar de que essa pessoa teria feito todos os passos acima mencionados. Começaram a entender o quadro?

Assentimentos ao redor.

— E tudo isso aconteceria a cada turno de todos os dias do ano. E teria uma supervisão do processo por computador. Prometo a vocês, com a mesma certeza de que o sol nascerá amanhã, que nada vai ser colocado fora do lugar nesta instalação.

— Fale conosco sobre corrosão, Sr. Jenkins.

— Nossos testes de corrosão são feitos na ITCLPL. Desculpe, na Instalação de Teste de Corrosão a Longo Prazo Livermore.

— No Laboratório Nacional Lawrence Livermore?

Obrigado pela deixa, pensou Jenkins, mas não falou. Lawrence Livermore era um nome familiar, e, apesar de a maioria das pessoas não poder nem dizer exatamente o que se fazia lá, o LNLL era tido em alto conceito. Assim, se Lawrence Livermore estava na jogada, para que se preocupar?

— Certo — disse. — O processo de testes envolve amostras de envelhecimento e de pressão dos metais chamadas de “cupões”. Neste momento eles testam 18 mil cupões representando 14 diferentes ligas de metal em soluções comuns a esta área. Por enquanto, o índice de corrosão dos cupões é de 20 nanômetros por ano. Um cabelo humano é 5 mil vezes mais espesso que isso. Com esse índice, a Liga 22 usada nos recipientes aninhados deve aguentar por cerca de 100 mil anos.

— Impressionante — disse um homem com chapéu de caubói, um dos delegados de Idaho, supôs Jenkins. — E que tal falarmos sobre os piores cenários. E se alguma coisa vaza e começa a filtrar pelo solo.

— As chances disso são...

— Vamos, nos conte.

— Antes de mais nada, precisam saber que o lençol freático por baixo de nossos pés é incomumente profundo, correndo a uma média de 450 metros, o que daria 335 metros abaixo do deslocamento de posicionamento.

Esse era outro ponto de debate acirrado, sabia Steve. Embora o que havia acabado de dizer aos delegados fosse verdade, alguns dos cientistas do projeto estavam pressionando para deslocamentos e posicionamentos mais profundos — alguns a 100 metros abaixo do atual. A verdade é que não havia uma resposta firme sobre a questão da filtragem. A rapidez com que vários líquidos vazariam pela rocha abaixo da instalação era desconhecida, tal como os efeitos que um terremoto poderia ter nos índices de filtragem. Mas, lembrou a si mesmo, pelas melhores estimativas, as chances de um terremoto catastrófico afetar os níveis de armazenamento eram de 1 em 70 milhões.

Se alguma coisa fosse assinalar um inevitável tocar de sinos fúnebres para a instalação, seria a natureza do lençol freático. Até dez meses antes, a crença geral era de que a área abaixo da instalação era o que se conhecia como bacia hidrológica fechada, uma formação que produzia água para dentro de si mesma e não oferecia saídas nem para os oceanos nem para os rios. Duas pesquisas exaustivas, uma pela Agência de Proteção Ambiental e outra pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos, estavam agora contradizendo essa crença. Se fossem precisas, o aquífero podia se estender até a Costa Oeste e o golfo da Califórnia. Até que a disputa fosse resolvida, entretanto, as ordens de Steve eram claras: o modelo de bacia hidrológica fechada era o padrão-ouro.

Então ele disse:

— Para que resíduos começassem a vazar na rocha, dúzias de sistemas e subsistemas, tanto humanos quanto computadorizados, teriam que falhar. E temos que colocar isto em perspectiva: comparados com os protocolos de segurança com os quais esta instalação irá funcionar, entrar sorrateiramente em um silo de ICBM e disparar um míssil seria um passeio no parque.

— Alguns desses materiais são físseis?

— Você pergunta se podem explodir?

— Sim.

— Bem, seria necessário alguém com vários Ph.D para explicar as razões, mas a resposta é não.

— Digamos que alguém conseguisse sorrateiramente passar pela segurança e descer até o nível de armazenamento com uma bomba...

— Por “alguém”, suponho que esteja se referindo ao Super-Homem ou ao Incrível Hulk?

Isso provocou uma risada geral.

— Certo, por que não? Vamos supor que conseguisse. Que tipo de danos poderia provocar?

Steve sacudiu a cabeça.

— Desculpe aguar seu leite, mas só a logística disso tornaria a façanha terrivelmente improvável. Antes de mais nada, vocês viram que este túnel diagonal tem 3 metros de largura. A quantidade de explosivos convencionais necessários para provocar algum dano significativo nos níveis de armazenamento não caberia em um caminhão de mudanças.

— E explosivos não convencionais? — perguntou o delegado de Idaho.

Então, pensou Steve, teríamos um problema.