Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 45 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 45

 

Clark considerava um sinal do avanço da idade o fato de estar cada vez mais intolerante a viagens aéreas. As poltronas apertadas, a comida ruim, o barulho... A única coisa que tornava aquilo razoavelmente tolerável eram os fones Bose de cancelamento de ruído, um travesseiro-ferradura que ganhara em um Natal, e alguns comprimidos de Lorax que Sandy lhe dera para a viagem. Por sua vez, Chavez estava na poltrona da janela, olhos fechados enquanto escutava música em seu iPod Nano. Pelo menos a poltrona entre os dois estava vazia, o que lhes dava um pouco mais de espaço para os cotovelos.

Depois de sua conversa com Hendley e Granger, ele procurara Ding e o colocara a par, depois ligou para o celular de Mary Pat, combinando de encontrá-la em sua casa no final da tarde. A pedido da própria, chegou mais cedo e ficou papeando com Ed por uma hora antes de ela chegar. Enquanto Ed preparava o jantar, Clark e Mary Pat foram para o pátio dos fundos com um par de cervejas.

Ignorando o aviso de Hendley de “lidar com cuidado”, Clark colocou suas cartas na mesa. Os dois se conheciam havia muito tempo para que pudesse ser diferente. Mary Pat nem piscou.

— Então Jack arranjou a coisa, não é? Sempre me perguntei se ele faria mesmo isso. Coisa boa o que ele fez. Bem, eles não perderam tempo para agarrar vocês dois, hein? Quem lhe deu a dica?

— Jimmy Hardesty, uns dez minutos depois que Alden nos botou para fora. Acontece, Mary Pat, que acho que tentamos decifrar a mesma charada. Se você não estiver de acordo em compartilhar as informações que conseguirmos...

— E por que não estaria?

— Para início de conversa, estaríamos infringindo pelo menos três leis federais. E você arriscaria a ira dos Alden lá de Langley.

— Se nós conseguirmos pegar esse babaca, ou pelo menos chegarmos um pouco mais perto disso, por mim está tudo bem. — Mary Pat bebeu um gole de cerveja e olhou de soslaio para Clark. — Isso significa que Hendley está pagando a conta?

Clark deu um risinho.

— Digamos que é um gesto de boa vontade. Então, como vai ser? Apenas um negócio ou o começo de uma maravilhosa amizade?

— Compartilhar tudo — respondeu Mary Pat. — Dane-se a burocracia. Se tivermos que encostar nossas cabecinhas para pegar o sujeito, que assim seja. É claro — acrescentou sorrindo —, vamos ter que ficar com o crédito, considerando que vocês não existem.

 

Meio comprimido de Lorax e uma cerveja ajudaram Clark a passar as últimas cinco horas do voo em um sono profundo e sem perturbações. Quando o avião bateu os pneus no aeroporto de Peshawar, ele abriu os olhos e observou ao redor. A seu lado, Chavez enfiava o iPod e um livro na bolsa.

— Hora de trabalhar, chefe.

— Vamos lá.

 

Sem surpreender nenhum dos dois, as filas de passagem pela imigração e pela alfândega do aeroporto prosseguiram lentamente, mas sem incidentes. Uma hora depois de chegarem ao terminal, os dois estavam lá fora no meio-fio da área de transporte terrestre. Quando Clark levantou a mão para chamar um táxi, uma voz com sotaque falou atrás deles:

— Aconselharia não fazer isso, cavalheiros.

Clark e Chavez se viraram para observar um homem magricela de cabelos brancos vestindo um termo azul-escuro e um chapéu branco de abas largas atrás deles.

— Aqui os táxis são armadilhas mortais.

— Você deve ser o Sr. Embling — disse Clark.

— De fato.

Clark se apresentou e fez o mesmo por Chavez, usando apenas os nomes de batismo.

— Como você...

— Um amigo mandou um e-mail com as informações de seu voo. Depois foi só procurar dois sujeitos com o ar adequado. Nada óbvio, veja bem, mas já desenvolvi uma espécie de... radar; acho que chamaria assim. Vamos?

Embling os levou até um Range Rover verde com vidros escurecidos, estacionado mais adiante. Clark ficou no assento do passageiro, e Chavez foi para o banco de atrás. Logo estavam em meio ao trânsito.

Clark disse:

— Desculpe, mas seu sotaque...

— Holandês. Uma regressão do meu tempo de serviço. Existe uma população significativa de muçulmanos na Holanda, sabe, e são realmente bem-tratados. É mais fácil fazer amigos, e permanecer vivo, passando por holandês. É um caso de autopreservação, percebem. E a cobertura de vocês?

— Escritor freelance canadense e fotógrafo. Material especial para a National Geographic.

— Funciona em curto prazo, acho. O truque para se misturar é parecer que faz tempo que andam por aqui.

— E como você faz isso? — perguntou Chavez.

— Parecendo assustado e desestimulado, meu rapaz. Recentemente, isso se tornou o passatempo favorito dos paquistaneses.

 

— Que tal uma volta rápida pelos pontos quentes? — perguntou Embling alguns minutos depois. Iam na direção leste pela Jamrud Fort Road, em direção ao coração da cidade. — Um pouco do quem é quem em Peshawar?

— Claro — respondeu Clark.

Passados dez minutos, saíram da Jamrud e foram para o sul na Bacha Kan.

— Aqui é Hayatabad, a versão de Peshawar do South Central da Los Angeles de vocês. Densamente habitada, empobrecida, pouca presença da polícia, drogas, crimes de rua...

— E pouca obediência às regras de trânsito — disse Chavez, acenando pela janela para a corrente de carros, caminhões, carretas puxadas por homens e bicicletas motorizadas que ziguezagueavam entre si.

— Nenhuma regra, receio. Atropelamentos com fuga por aqui são quase um esporte nacional. Alguns anos atrás, a cidade fez algum esforço para melhorar esse bairro, sabe, mas não conseguiram muita coisa.

— Mau sinal quando a polícia deixa de aparecer — observou Clark.

— Oh, mas eles aparecem. Dois ou três carros passam duas vezes por dia, mas a menos que vejam um assassinato acontecendo, raramente param. Só na semana passada perderam dois carros e dois policiais. E quando eu digo “perderam”, quero dizer que desapareceram.

— Meu Deus do céu! — disse Chavez.

— Não dá as caras por aqui — murmurou Embling.

Nos dez minutos seguintes eles entraram ainda mais em Hayatabad. As ruas foram se tornando cada vez mais estreitas e as casas, mais decrépitas, até passarem por choças de metal corrugado e cartolina impermeável. Olhares vazios observavam o Range Rover de Embling de portais sombrios. Em cada esquina, grupos de homens se amontoavam, fumando o que Clark supunha não ser tabaco. O lixo se amontoava nas calçadas e escorria pelo pavimento, empurrado por redemoinhos.

— Eu me sentiria muito mais confortável se estivesse armado — murmurou Chavez.

— Não se preocupe, meu rapaz. Por sorte, o Grupo de Serviços Especiais do Exército gosta muito de Range Rovers com vidros escurecidos. De fato, se olhar para trás agora vai ver um homem correndo pela rua.

Chavez se virou:

— Estou vendo.

— Quando chegarmos à próxima rua, vamos encontrar portas sendo batidas.

John Clark sorriu.

— Sr. Embling, percebo que estamos com a pessoa certa.

— Gentileza sua. E o nome é Nigel, aliás.

 

Deram mais uma volta e entraram em uma rua com uma mistura de lojas de blocos de concreto e residências de vários andares construídas com tijolos crus e madeira, e onde muitas fachadas estavam enegrecidas pelo fogo, com marcas de balas, ou ambas as coisas.

— Bem-vindos ao paraíso dos extremistas — anunciou Embling.

Apontava para edifícios quando passavam, recitando o nome de grupos terroristas — Lashkar-e-Omar, Tehreek-e-Jafaria Paquistão, Sipah-e-Muhammad Paquistão, Nadeem Commando, Frente Popular de Resistência Armada, Harkat-ul-Mujahideen al-Alami — até darem outra volta, onde a lista continuava.

— Nenhum desses é a sede oficial, claro — disse. — Mas, sim, algo semelhante a clubes, ou fraternidades. De vez em quando a polícia ou o Exército dá uma batida. Às vezes, o grupo visado desaparece completamente. Às vezes, estão de volta no dia seguinte.

— Quantos ao todo? — perguntou Clark.

— Oficialmente... quase quarenta, e o número só cresce. O problema é que quem faz a contagem é a ISI — respondeu, referindo-se à Diretório para os Interserviços de Inteligência, o equivalente paquistanês da CIA. — A inteligência militar também realiza algum controle. É a proverbial raposa guardando o galinheiro. A maior parte desses grupos recebe fundos, recursos ou inteligência da ISI. O negócio é tão enrolado que duvido que ela ainda esteja controlando a catraca.

— Aqueles danos por aí — disse Chavez. — São das batidas policiais?

— Não, não. Isso é trabalho do Conselho Revolucionário Omíada. Sem dúvida eles são os mandachuvas do pedaço. Cada vez que um desses peixinhos nada no poço errado, o CRO vem e engole, e, ao contrário das autoridades locais, quando isso acontece, o grupo some de vez.

— Isso é sintomático — respondeu Clark.

— Realmente.

Eles viram pelo para-brisas uma coluna de fumaça subindo a alguns quilômetros de distância. Logo depois sentiram estouros da explosão no estômago.

— Carro-bomba — disse Embling despreocupado. — A média por aqui é de três por dia, mais um par de ataques de morteiro para arrematar. Ao anoitecer é que as coisas ficam realmente interessantes. Acredito que vocês consigam dormir ouvindo tiroteio, certo?

— Já passamos por isso — respondeu Clark. — Tenho que lhe dizer, Sr. Embling, que você pinta um quadro negro de Peshawar.

— Então lhes dei um quadro preciso. Volta e meia ando por aqui por quase quatro décadas, e na minha avaliação o Paquistão está em um momento crucial. Mais um ou dois anos e saberemos, mas o país está mais perto de se tornar um Estado falido do que jamais esteve em vinte anos.

— Um Estado falido com armas nucleares — acrescentou Clark.

— Certo.

— E por que você fica aqui? — perguntou Chavez.

— Porque é o meu lar.

 

Alguns minutos depois, Chavez disse:

— Voltando para Hayatabad... O que me pergunto é: quem não vive lá?

— E essa é uma boa pergunta — disse Embling. — Ainda que seja uma medida subjetiva, os três maiores atores aqui, que são o CRO, o Lashkar-e-Taiba e o Sipah-e-Sahaba, anteriormente conhecido como Anjuman, geralmente estão agrupados em volta do acantonamento militar de Peshawar, a Cidade Velha, e na área de Saddar. Quanto mais perto do acantonamento estejam, mais dominantes são. Quem atualmente tem esse título é o CRO.

— Por sorte, estamos interessados primariamente nessas áreas — disse Clark.

— Imaginei. — Um sorriso de Embling. — Minha casa é logo fora do acantonamento, perto do forte Balahisar. Vamos ter um almocinho e falar de negócios.

 

Mahmood, o doméstico de Embling — um termo que Clark tinha dificuldade para fazer sua cabeça entender completamente, apesar de saber que era comum por ali —, serviu a eles um almoço de raita, uma salada de iogurte e vegetais; lentilhas cozidas; e kheer, um pudim de arroz, que Chavez imediatamente adorou devorar.

— Qual é a história do rapaz? — perguntou Clark.

— A família dele foi assassinada naqueles dias ruins que se seguiram ao assassinato de Bhutto. Ano que vem irá para Harrow, em Middlesex.

— Está fazendo uma boa coisa, Nigel — disse Chavez. — Você não tem nenhum...

— Não. — Seco.

— Desculpe. Não pretendia enfiar o nariz nos seus assuntos.

— Não precisa se desculpar. Perdi minha esposa em 1979, quando os soviéticos invadiram. Lugar errado, hora errada. Quem quer chá? — Depois de servir uma xícara para cada um, disse: — O que teremos, cavalheiros? Pessoa, lugar, ou coisa? De que vocês estão atrás, quero dizer.

— Para começar, um lugar. Na verdade, lugares — respondeu Clark. Tirou da pasta uma ampliação digital do mapa Baedeker, empurrou para o lado xícaras e pratos, e o abriu sobre a mesa. — Se você olhar de perto...

— Locais de troca — interrompeu Embling. Observou as expressões atônitas de Clark e Chavez e sorriu. — Nos antigos dias da espionagem, cavalheiros, locais de troca eram o nosso pão com manteiga. Três pontos para ponto de entrega; quatro para recolhimento?

— Reverta isso.

— O quão recente é o mapa?

— Não tenho ideia.

— Então não temos como saber se os pontos ainda estão ativos. Onde vocês...

— Nas montanhas — respondeu Chavez.

— Em um lugar escuro e úmido, suponho. Os proprietários anteriores... estavam presentes?

Clark assentiu.

— E fizeram todo o possível para destruí-lo.

— É um ponto a nosso favor. A menos que eu esteja desatualizado, os três pontinhos representam tanto um lugar de recolhimento quanto um sinal para o próximo recolhimento.

— Também achamos isso — respondeu Clark.

— Vocês estão interessados no que está sendo deixado e recolhido, ou em quem faz cada uma ou as duas coisas?

— Em quem.

— E vocês conhecem o sinal?

— Não.

— Bem, provavelmente essa é a menor de nossas preocupações.

— Como assim? — perguntou Chavez.

— Não estamos muito interessados na correção do sinal e sim em identificar quem se interessa por ele. Nesse caso, temos que escolher cuidadosamente nossa localização. — Embling ficou em silêncio, estalando a língua e olhando o mapa. — Aqui vai minha sugestão. Aproveitamos a tarde para fazer uma campana...

— Uma o quê? — perguntou Chavez.

— Reconhecimento.

— Devo ter perdido a palavra quando andei por lá.

— Passamos algum tempo em Hereford — explicou Clark a Embling.

— Uma turma bem sombria — respondeu Embling. — É bom ver que vocês não perderam o sorriso. Muito bem, deixaremos os senhores confortáveis com o território, e amanhã começamos a jogar iscas. Se não, temo que hoje possamos perder a luz do dia.

Apesar de a maior parte dos pontos estar bem fora do acantonamento, decidiram se concentrar nos quatro dentro da Cidade Velha, primeiro passando de carro pelo perímetro, seguindo mais ou menos a muralha que encerrava o local até meados dos anos 1950.

— Havia 16 portões na muralha, completos com torreões e bastiões para arqueiros — disse Embling, apontando para fora da janela de passageiros. — De fato, em persa, Peshawar quer dizer “O Forte Alto”.

Clark gostou de Embling, em parte porque durante seu período com a Rainbow ele chegara a conhecer um pouco melhor a mentalidade britânica, e em parte por ele ser um personagem autêntico — com ênfase nesse último aspecto. Dada a maneira como se entusiasmava ao falar de Peshawar, Clark meio que imaginava se o sujeito não havia nascido cem anos atrasado. Nigel Embling estaria bem à vontade ali durante a época do domínio britânico.

Embling achou um lugar para estacionar perto do Lady Reading Hospital, onde desceram e caminharam para dentro da Cidade Velha. As ruas do acantonamento fervilhavam de atividade: corpos, movendo-se ombro a ombro, saíam e entravam de becos e debaixo de toldos de lona; crianças olhavam os passantes através de barras de ferro nos balcões no alto das casas. O cheiro de carne assada e tabaco forte enchia o ar, juntamente com a Babel de vozes misturadas falando em urdu, punjabi e pashtun.

Depois de caminhar alguns minutos, entraram numa grande praça.

— Chowk Yadgaar — anunciou Embling. — Todos os pontos de entrega estão a menos de 1 quilômetro desta praça.

— Escolhida provavelmente por causa da multidão — disse Chavez. — Difícil de ser visto, fácil de desaparecer.

— Outra observação astuta, jovem Domingo — disse Embling.

— Tenho meus momentos.

Clark disse:

— Vamos nos separar e checar os pontos. Nos encontramos aqui de novo em uma hora. — Decidiram quem iria para cada ponto e se separaram.

 

Encontraram-se novamente e compararam suas anotações. Dois dos pontos — um dentro de um pequeno pátio entre o bazar dos joalheiros e a mesquita Mahabbat Khan, e outro em um beco perto do local do Portão Kohati — mostravam leves traços de uma marca de giz, o padrão-ouro para sinalizar pontos de recolhimento desde a Guerra Fria. O giz desbotava facilmente e era facilmente tomado por brincadeira de crianças. Clark tirou o mapa, e Embling verificou as duas localizações.

— Portão Kohati — disse. — Mais fácil de vigiar, e o lugar mais próximo da saída do acantonamento.

— Feito — disse Clark.

— Ainda é cedo — declarou Embling. — Vocês se interessam por críquete?