Morto ou Vivo
Capítulo 54
O único problema seria se as pessoas observassem a entrada e a saída de carros.
Arnie chegou primeiro. O ex-presidente Ryan o recebeu e os dois foram até a sala de estar.
— Pronto? — perguntou o ex-chefe de Estado-Maior.
— Não tenho certeza — admitiu Jack.
— Bem, Jack, se você tem dúvidas, é melhor exorcizá-las hoje. Ou você quer mais quatro anos com Ed Kealty na Casa Branca?
— Droga, não — respondeu Jack quase imediatamente. Depois pensou de novo no assunto. Será que era tão arrogante que pensava ser ele o projetado salvador dos Estados Unidos da América? Tais momentos de introspecção lhe vinham rapidamente. Ele não era dos que mediam seu ego na escala Richter ou em notação na décima potência. A campanha que se aproximava não seria divertida sob nenhum aspecto. — O problema é: meu ponto forte são os assuntos de segurança nacional. Não sou especialista em assuntos domésticos.
— Kealty é, ou pelo menos é a imagem que projeta. Mas tem fendas na armadura, Jack, e vamos descobrir quais são. E tudo que você tem que fazer é persuadir 200 milhões de eleitores americanos de que é um homem melhor que ele.
— Você não está pedindo muito — resmungou Ryan. — Há muitas coisas para consertar. — Um monte de coisas para consertar, repetiu para si mesmo. — Muito bem, quem é o primeiro?
— George Winston e alguns de seus amigos de Wall Street. George vai ser o seu tesoureiro.
— E quanto isso vai custar?
— Acima de 100 milhões de dólares. Mais do que você pode suportar, Jack.
— E essas pessoas sabem o que estão comprando?
— Certamente George explicou para eles. E você tem que sustentar isso, é claro. Ei, olhe o lado bom. Sua administração não teve muitos casos de corrupção. Os repórteres farejaram à beça, mas ninguém descobriu muita coisa.
— Jack, esse sujeito é um perdedor — anunciou George Winston, com a concordância geral dos que estavam ao redor da mesa de jantar. — O país precisa de alguém diferente. Você, por exemplo.
— A pergunta é: você volta também? — perguntou Ryan.
— Já tive minha cota — respondeu o ex-secretário do Tesouro.
— Tentei dizer isso também, mas Arnie não está aceitando.
— Droga, estávamos com o sistema fiscal arrumado até que esse babaca veio e fodeu com tudo novamente, e ainda conseguiu diminuir a receita — enfatizou Winston, mostrando desgosto. Aumentar impostos invariavelmente diminui a receita assim que os contadores começam a trabalhar com o novo código. O novo e “justo” código fora uma dádiva divina para a comunidade dos sonegadores.
— E sobre o Iraque? — perguntou Tony Bretano, mudando o rumo da conversa. O antigo CEO da TRW tinha sido o secretário de Defesa escolhido por Ryan.
— Bem, gostemos ou não, estamos colados com eles — admitiu Ryan. — A questão é: podemos sair de lá espertamente? Mais espertamente do que Kealty está fazendo?
— Quando Mary Diggs fez o discurso há dois anos, quase foi fuzilado. — O general Marion Diggs tinha dado uma surra no Exército da República Islâmica Unida quando era chefe do Estado-Maior do Exército, mas suas observações sobre os conflitos mais recentes foram completamente ignoradas pela nova administração. O sucessor de Diggs no Pentágono havia se inclinado diante das ordens da Casa Branca e feito o que lhe disseram para fazer. Era uma falha comum dos militares de alto escalão e nem era novidade. Para muitos, o preço da quarta estrela era arrancar os colhões. A maioria deles não era antigo o suficiente para ter servido no Vietnã. Não viram amigos e colegas de classe morrer por conta de erros políticos, e as lições infligidas na classe anterior de oficiais se perderam no processo de algo que chamaram “progresso”. O fato de Ed Kealty ter dissolvido duas divisões de infantaria ligeira e depois ter se metido em um conflito que gritava por formações de infantaria ligeira era algo que as agências de notícias ignoravam totalmente. Além disso, os tanques eram muito mais fotogênicos.
— Isso posso dizer de você, Tony. Sempre escutou os conselhos — disse-lhe Ryan.
— Saber o que você não sabe ajuda. Sou bom engenheiro, mas não sei de tudo ainda. Esse sujeito que assumiu meu lugar de vez em quando está errado, mas jamais tem dúvidas. — O ex-secretário Bretano havia acabado de descrever a pessoa mais perigosa do planeta. — Jack. Tenho que dizer agora que não voltarei. Minha esposa está doente. Câncer de mama. Esperamos que tenha sido detectado suficientemente cedo, mas ainda não temos o resultado.
— Quem é o seu médico? — perguntou Ryan.
— Charlie Dean, da Universidade da Califórnia. Já me disseram que é muito bom — respondeu Bretano.
— Desejo boa sorte a vocês, amigo. Se Cathy puder ajudar, é só nos avisar, certo?
— Ryan tinha usado sua esposa para várias indicações médicas no decorrer dos anos e, ao contrário da maioria dos políticos, não achava que qualquer um que tivesse um “Dr.” antes do nome era a mesma coisa, pelo menos não no tratamento de outras pessoas.
— Certo, obrigado. — A notícia teve um efeito sóbrio na reunião. Valerie Bretano, uma vivaz mãe de três, era muito estimada por praticamente todos ali.
— E sobre o anúncio?
— É, é preciso fazer isso, não é?
— A menos que você queira uma campanha clandestina. Assim é meio difícil vencer — observou Arnie. — Posso chamar Callie Weston para rabiscar um discurso para você?
— Ela é boa com as palavras — reconheceu Ryan. — Quando terei que fazer isso?
— Quanto mais cedo, melhor. Para começar a enquadrar os problemas.
— Concordo — disse Winston. — Ele não sabe bater acima do cinturão. Alguma bagagem ruim, Jack?
— Nada que eu saiba, e isso não quer dizer nada que eu me lembre. Se alguma vez infringi a lei, vão ter que provar isso para mim e para um júri.
— É bom ouvir isso — observou Winston. — Acredito em você, Jack, mas se lembre dos advogados do diabo. Há muitos deles em Washington.
— E sobre Kealty? Que roupa suja ele tem por aí?
— Muita — respondeu Arnie. — Mas você só pode usar essa arma com cuidado. Não se esqueça de que ele tem a simpatia da imprensa. A menos que você tenha um videoteipe, eles farão um esforço extraordinário de verificação, e tentarão fazer com que ricocheteie em você. Posso ajudar um pouco nisso. Deixe os vazamentos comigo, Jack, e quanto menos você souber disso, melhor.
Não pela primeira vez, Ryan se viu perguntando qual a razão de Van Damm ser tão fiel a ele. Estava tão metido no sistema político que fazia e dizia coisas que Jack jamais compreendia exatamente. Se ele era um bebezinho, então Arnie van Damm era sua babá. Coisa útil, as babás.