Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 43 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 43

 

— Muito bem, pessoal, é hora de acelerar o jogo — anunciou Gerry Hendley quando entrou na sala de conferências e achou uma cadeira.

Era mais uma manhã no Campus, e a mesa de conferências estava arrumada com cafeteiras ferventes e bandejas com biscoitos e rosquinhas doces. Jack se serviu uma xícara de café, agarrou um bagel de trigo integral — sem cream cheese — e achou um lugar vazio à mesa. Estavam também presentes Jerry Rounds, chefe de análise/inteligência, Sam Granger, chefe de operações, Clark e Chavez, e os irmãos Caruso.

— A hora é de fazermos uma abordagem focada. A partir de agora, todas as pessoas nesta sala não têm mais nada a ver com qualquer coisa que não seja o Emir e o Conselho Revolucionário Omíada, salvo eu, Sam e, é claro, Jerry. Também vamos manter as luzes acesas e as rosquinhas fresquinhas, mas o restante de vocês pode começar a transferir outras responsabilidades de trabalho. Vamos viver, respirar e comer o Emir 24 horas por dia até ele ser capturado ou morto.

— Oba! — disse Brian Caruso, provocando uma risada geral.

— Com esse objetivo, demos ao grupo um nome adequado: Kingfisher, o martim-pescador. O Emir acha que é uma espécie de rei; ótimo. Vamos pescá-lo. De agora em diante, este é o lugar de trabalho de vocês, e a porta de todos ficará sempre aberta, inclusive a minha, a de Sam e a de Jerry.

Puta merda, pensou Jack. De onde veio isso?

— Comecemos pelo começo. Dom e Brian andaram seguindo pistas na Suécia — disse Hendley, e depois recontou a descoberta de Jack da interceptação do DHS/FBI sobre a Hlasek Air. — Vamos continuar puxando essa meada, mas até agora nada apareceu. O mecânico se entregou à polícia nacional sueca, mas não tinha nada para contar. Pagamento em dinheiro por um trabalhinho em um transponder e um voo fretado cheio do que talvez fossem pessoas do Oriente Médio.

“Kingfisher — continuou Hendley. — Se tiverem alguma ideia, contem a alguém. Se quiserem experimentar alguma coisa nova, perguntem. Se apenas quiserem trocar ideias ou jogar o jogo do ‘se’, reúnam-se e façam isso. As únicas perguntas idiotas são as que não são feitas. Vamos nos manter orgânicos, pessoal. Esqueçam o modo como trabalhamos antes e comecem a pensar de forma diferente. Podem apostar o rabo de vocês que o Emir faz isso. Então: perguntas?”

— Sim — disse Dominic Caruso. — Por que a mudança?

— Recentemente recebi alguns bons conselhos.

Jack viu Hendley relancear quase imperceptivelmente para John Clark, e então a coisa fez sentido.

— Somos uma equipe muito pequena para funcionar com burocracia — acrescentou Jerry Rounds. — Nós três vamos nos revezar por aqui regularmente para certificar se continuamos nos trilhos, mas a questão final é essa: o Emir é um sujeito extraordinário, e temos que mudar nossas tácticas para corresponder a isso.

— O que isso significa para o lado operacional da coisa? — perguntou Chavez.

Sam Granger respondeu:

— Mais ação, esperamos. Boa parte do que formos produzindo não vai ser verificável hipoteticamente. Isso significa sair em campo e seguir as pistas. Muita coisa vai ser rotineira, mas tudo soma. Não me entendam errado, todos nós adoramos marcar pontos, mas não tropeçando e caindo de bunda. É preciso trabalhar para isso.

— E quando começamos? — perguntou Jack.

— Agora mesmo — respondeu Hendley. — O primeiro ponto é ter certeza de que estamos todos sintonizados. Vamos expor o que sabemos, do que suspeitamos e o que ainda temos que descobrir. — Consultou o relógio. — Vamos parar para o almoço, e depois nos encontramos aqui outra vez.

 

Jack enfiou a cabeça dentro do escritório de Clark.

— Não sei o que você fez, John, mas com certeza chamou atenção de Hendley.

Clark meneou a cabeça.

— Não fiz nada mais que dar um empurrão no rumo por onde ele já estava seguindo. É esperto. Ia acabar percebendo a coisa. Vamos, entre. Tem um minutinho?

— Claro. — Jack se sentou do outro lado da mesa.

— Ouvi dizer que você quer meter a mão na massa.

— O quê? Ah, sim. Ele contou para você, não foi?

— Pediu que o treinasse.

— Bem, para mim isso é ótimo. Mais que ótimo, aliás.

— Por que você quer fazer isso, Jack?

— Hendley não lhe disse...

— Quero ouvir da sua boca.

Jack se mexeu na cadeira.

— John, fico aqui sentado o dia inteiro, lendo o tráfego, tentando tirar um sentido de informações que podem ser alguma coisa ou nada, e sim, sei que isso é importante e tem que ser feito, mas eu quero fazer algo, sabe?

Clark assentiu.

— Como MoHa.

— Sim, tipo isso.

— Nem sempre é assim tão limpo.

— Sei disso.

— Sabe mesmo? Já fiz isso, Jack, cara a cara e corpo a corpo. Na maioria das vezes a coisa é feia e suja, e você nunca esquece. Os rostos vão sumindo, assim como o lugar e as circunstâncias, mas o ato, o fato em si, fica preso em você. Se não estiver preparado para lidar com isso, a coisa pode devorá-lo.

Jack respirou fundo, olhos no assoalho. Será que estava pronto? Ele sentia a verdade do que Clark dizia, mas naquele momento era uma abstração. Sabia que a coisa não era como nos filmes, ou nos romances, mas saber o que algo não era parecia inútil, como descrever a cor vermelha dizendo que não era azul. Sem pontos de referência, ou quase sem pontos de referência, ele fez questão de se lembrar. Houvera MoHa.

Como se lesse sua mente, Clark disse:

— E não se engane: MoHa foi uma anomalia, Jack. Você caiu naquilo, não teve nem chance de pensar a respeito, e tinha certeza de que o sujeito era bandido. Nem sempre é assim tão claro. De fato, raramente é assim. Você tem que ficar à vontade com a incerteza. Pode fazer isso?

— Para dizer a verdade, John, não sei. Não posso lhe dar uma resposta. Sei que não é a resposta certa, mas...

— Na verdade, essa é exatamente a resposta certa.

— Hã?

— Quando eu passei pelo processo de seleção na BUD/s, a Escola Básica de Demolição Submarina, todo mundo tinha que ser entrevistado por um psicólogo. Estava no saguão, esperando, e um amigo meu saiu do consultório. Perguntei a ele como tinha sido. Ele disse que o doutor havia perguntado se ele achava que podia matar um homem. Meu amigo, ansioso para mostrar coragem, disse “Claro que sim”. Quando chegou minha vez e o doutor me fez a mesma pergunta, eu falei que achava que sim, mas não tinha cem por cento de certeza. Um de nós entrou, o outro não.

Que coisa, pensou Jack. Imaginar John Clark como um recruta imberbe em vez de um sujeito que parecia um deus das operações especiais era um conceito difícil de realizar. Mas todo mundo precisa começar em algum momento.

Clark continuou:

— Se você me mostrar alguém que responde “Claro que sim” para esse tipo de pergunta, eu digo que o cara é um maluco, um mentiroso ou alguém que não pensou bastante sobre o assunto. E digo mais. Pergunte qualquer hora aí a Ding. Na primeira vez que ele teve que liquidar alguém, a coisa ia mal até o momento em que apertou o gatilho. Ele sabia que podia fazer aquilo, e tinha 95 por cento de certeza de que faria, mas até disparar o percussor ainda havia a vozinha na cabeça.

— E quanto a você?

— A mesma coisa.

— Difícil de acreditar — respondeu Jack.

— Pois acredite.

— Então, o que você me diz? Devo ficar com meu teclado e o monitor do computador?

— A escolha é sua. Só queria ter certeza de que está com a cabeça certa quanto a isso. Se não, você se torna um perigo para você mesmo e para todos os demais.

— Muito bem.

— Mais uma coisa. Quero que você considere contar para seu pai.

— Jesus, está brincando...

— Não, não estou não. Vou manter o segredo, Jack, porque você é adulto e a escolha é sua, mas acho que já é hora de assumir o que você é, e não vai poder fazer isso enquanto estiver com medo de ficar diante dele. Até então, você ainda não assumiu seu próprio papel.

— Você não pega leve mesmo, não é?

Clark sorriu.

— Recentemente, ando ouvindo isso muitas vezes. — Deu uma olhada no relógio. — Já é quase hora de voltarmos. Pense mais um dia sobre o assunto, sobre os dois assuntos. Se ainda quiser ir, eu ensino o que puder.

 

O contato de Mary Pat na Legolândia — a sede do Serviço Secreto de Inteligência Britânico em Vauxhall Cross, nas margens do Tâmisa, era coloquialmente conhecida como Legolândia ou Babilônia, em razão da arquitetura achatada, como se fosse um zigurate — havia lhe dado apenas um nome em resposta à sua pergunta. Nigel Embling, disseram-lhe, era um veterano já aposentado dos “istão”, e tinha esquecido mais do que a maioria das pessoas sabia sobre a região. Mary Pat supunha que os britânicos possuíam agentes ativos por lá, mas, se Embling era ou não um desses, ela não tinha como ter certeza. Provavelmente não. Seu contato da linha dos fundos deixara claro que ela estava ligeiramente fora do prumo, caso em que os chefões do SIS não o olhariam com a menor simpatia se ele lhe desse um agente autêntico.

É claro que ter um contato era apenas metade da batalha. Embling era um homem mais velho que já havia deixado para trás seus tempos de trabalho de campo, o que significava que era preciso colocar alguém em campo para andar com ele. Mary Pat nem teve que pensar muito sobre quem poderia ser. Dois nomes imediatamente lhe vieram à mente, e, se a fofoca fosse verdadeira, esses indivíduos em particular poderiam ter interesse em um trabalhinho sob contrato. O NCTC tinha alguns fundos que podiam usar à vontade, e ela e Ben Margolin concordaram que esse seria um gasto que valia a pena.

Só foram necessárias duas ligações para confirmar o boato e outras duas para conseguir um número de telefone em uso.

 

O celular de Clark, enfiado na gaveta de cima de sua mesa, tocou uma vez, e depois outra. Ele agarrou a atendeu no terceiro toque.

— Alô.

— John, aqui é Mary Pat Foley.

— Olá, Mary Pat, você estava na minha lista de pendências.

— Como assim?

— Eu e Ding saímos recentemente da Rainbow. Queria dar um alô.

— Que tal fazer isso pessoalmente? Tenho algo para conversar com você.

O radar interno de Clark ligou.

— Claro. Quando e onde?

— Logo que for possível.

Clark olhou o relógio.

— Posso sair para almoçar agora mesmo.

— Ótimo. Você conhece o Huck’s em Gainesville?

— Sim, logo na saída da Linton Hall Road.

— Esse mesmo. Encontro você lá.

 

Clark desligou o computador e foi até a sala de Sam Granger. Relatou a ligação para o chefe de operações do Campus.

— Acho que não se trata de um almoço social — disse Granger.

— Duvido. Ela estava com a voz de quem está no jogo.

— Ela sabe que você está saindo da Agência?

— Pouca coisa escapa de Mary Pat.

Granger considerou o assunto.

— Muito bem. Me avise quando voltar.

 

Clark já havia passado pelo Huck’s, mas nunca tinha entrado. Disseram a ele que ali havia as melhores tortas da Virgínia. Pela fachada não dá para perceber isso, pensou enquanto estacionava na diagonal diante do restaurante. Duas grandes janelas de vidro ao lado de uma única porta protegida por um toldo vermelho e branco desbotado. Uma luz neon na vitrine piscava “ucks”. Mau presságio?, pensou Clark. Provavelmente não.

A verdade é que ele só tinha boas lembranças de Gainesville, tendo passado muitas horas caminhando por suas ruas, ensinando agentes de campo da CIA técnicas de vigilância e contravigilância. Não era possível aprender tudo nas salas de aula do Camp Perry. Sem conhecimento dos cidadãos de Gainesville e de uma dúzia de outras cidades de Maryland e da Virgínia, a qualquer hora suas ruas eram atravessadas por espiões brincando de permanecer vivos antes de ter que fazer isso no mundo lá fora.

Ele empurrou a porta e viu Mary Pat sentada em um banco do balcão. Os dois se abraçaram, e Clark sentou. Um sujeito corpulento de cabelos ruivos já ralos e mãos manchadas de farinha de trigo foi até eles.

— O que trago para vocês?

— Maçã — disse Mary Pat sem hesitar. — Para viagem.

Clark sacudiu os ombros e pediu o mesmo.

— Como anda o Ed?

— Está bem. Um pouco eremita, acho. Está escrevendo um livro.

— Bom para ele.

Quando as tortas chegaram, ela perguntou:

— Que tal uma volta?

— Claro.

Lá fora, saíram pela calçada, falando miudezas até chegar a um parque grande coberto de grama verde e cercas vivas arrumadinhas. Acharam um banco e sentaram.

— Estou com um problema, John — disse Mary Pat depois dos dois darem umas mordidas nas tortas. — E acho que você e Ding podem ajudar.

— Se pudermos. Mas vamos começar pelo começo: você sabe que nós...

— Sim, já soube. Sinto muito. Conheço o excelentíssimo Charles Sumner Alden. É um babaca.

— Parece que muitos deles andam por Langley atualmente.

— Infelizmente, é verdade. Aquilo lá está começando a parecer a Idade das Trevas. Mas me diga: o que você acha do Paquistão?

— Belo lugar para visitar... — respondeu Clark, com um sorriso.

Mary Pat caiu na risada.

— É uma operação bem simples, cinco ou seis dias, talvez. Temos algumas coisas que precisam ser levantadas, mas não temos ninguém em campo por lá; pelo menos ninguém que possamos usar. A nova administração está podando a diretoria de operações como se fosse uma liquidação relâmpago. Temos um sujeito, britânico, que conhece a área, mas já passou do seu auge.

— Defina “coisas que precisam ser levantadas”.

— Deve ser uma simples coleta de informações. Trabalho de campo.

— Suponho que estejamos falando sobre algo periférico ao peixe grande? — Mary Pat assentiu. — E você já tentou pescar isso através de Langley? — Outro assentimento. Clark respirou fundo, e soltou. — Você está bem longe do padrão com isso.

— Mas só assim posso colher a fruta.

— Qual o seu cronograma?

— Quanto mais cedo, melhor.

— Me deixe pensar até mais tarde.

Uma hora depois ele estava de volta ao Campus. Achou Granger na sala de Hendley. Bateu na maçaneta, viu o gesto de Hendley mandando-o entrar, e sentou.

— Sam já me disse — falou Hendley. — Experimentou a torta?

— Maçã. Talvez não seja a melhor, mas é bem perto disso. Ela tentou me vender um contrato. Paquistão. — E delineou a conversa entre os dois.

— Ora — disse Granger. — Ela é do NCTC, de modo que não é difícil perceber o que está no radar deles. O que você disse a ela?

— Que ligaria mais tarde com uma resposta. Na verdade, não é difícil. Mas o problema é: se aceitar, não quero deixá-la no escuro.

— Sobre o Campus? — disse Granger. — Não sei...

— Desculpe — disse Clark. — Eu e Mary Pat temos uma longa história, e ela está arriscando muito com isso. Não vou enganá-la. Olhe, vocês conhecem a reputação dela, e sabem o que Jack Ryan pensa a respeito de Mary Pat. Se isso não for garantia suficiente, não sei mais o que seria.

Hendley ficou um instante matutando, depois assentiu.

— Muito bem. Mas aja com cuidado. Para quando ela precisa de você?

— Acho que para ontem — respondeu Clark.