Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 66 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 66

 

Seja lá qual fosse sua eficácia como burocrata, uma coisa logo ficou evidente para Clark, Jack e Chavez acerca de Agong Nayoan como operativo de inteligência: ou o sujeito não tinha treinamento sobre como se comportar em campo ou escolhera ignorar as regras, e em nenhum lugar isso era mais óbvio do que na sua escolha de senhas on-line, que Gavin Biery decifrou em poucas horas após Clark e companhia deixarem a casa do sujeito. O navegador no seu laptop tinha o conjunto normal de favoritos — de sites de compra aos de referência e tudo mais entre os dois —, mas também mantinha várias contas de e-mail on-line: uma no Google, uma no Yahoo! e uma no Hotmail. Cada caixa de e-mail continha dúzias de mensagens, a maior parte de amigos ou da família, mas também propaganda e spam, esses bem carregados com imagens em faixas que Biery escanearia à procura de traços de esteganografia.

Nayoan também era um usuário ávido do Google Maps, que Jack descobriu estar cheio de alfinetes digitais de marcação. A maioria desses assinalava restaurantes, cafés ou outras atrações de São Francisco a distância de caminhada da embaixada ou da sua casa. Um alfinete, entretanto, chamou a atenção de Jack; uma residência particular em San Rafael, a uns 20 quilômetros ao norte da cidade, do outro lado da ponte Golden Gate.

— Qual é o nome marcado nesse alfinete? — perguntou Clark.

— Sinaga — respondeu Jack.

— Parece um sobrenome.

— Já estou verificando — disse Jack antes que Clark pudesse fazer a sugestão. Um minuto depois estava com Biery na linha. — Preciso que você verifique as contas de Nayoan atrás de um nome: Sinaga.

Dez minutos depois Biery estava de volta.

— Kersan Sinaga. Nayoan emitiu sete cheques para ele nos últimos dois anos, desde 500 até uns 2 mil paus. Um dos resumos de cheque que saquei do site do banco tem uma anotação: “consultoria em computação”. Mas a parte interessante é esta: passei o nome pela Imigração, e ele está anotado. Supostamente deveria ter comparecido a uma audiência há oito meses e nunca apareceu. Também está marcado na lista dos que devem ser observados.

— Mau-olhado duplo — disse Chavez. — Faltar a uma audiência com o Serviço de Imigração não o colocaria automaticamente na lista.

— Não mesmo — concordou Clark. — O que mais?

— É procurado pela POLRI indonésia — respondeu Biery, referindo-se à Polisi Negara Republik Indonesia, a polícia nacional. — Parece que esse seu Kersan Sinaga é um falsificador de alto nível. Há quatro anos procuram por ele.

 

A viagem até o norte da cidade levou trinta minutos. Segundo o próprio mapa do Google que Jack usava, Sinaga morava na periferia leste de San Rafael, em um estacionamento de trailers pouco habitado. Passaram por lá, deram a volta e estacionaram a uns 100 metros do trailer de Sinaga, de largura dupla e cercado por uma tela de arame enferrujada e sebes.

— Ding, tenho um bloco de anotações dentro da pasta aí atrás — disse Clark por cima do ombro. — Pegue para mim, por favor.

Chavez lhe entregou.

— O que você pensa em fazer?

— Uma pesquisinha pela vizinhança. Volto em dez minutos.

Clark saiu, e Jack e Chavez o observaram ir pela calçada até o trailer mais próximo, onde subiu na escada e bateu à porta. Poucos segundos depois apareceu uma mulher, e Clark conversou com ela por meio minuto antes de passar pela casa seguinte, onde repetiu o processo, até chegar ao trailer de Sinaga. Quando reapareceu, foi até mais três trailers antes de voltar para o carro e entrar. Entregou o bloco para Jack. Estava coberto com nomes, endereços e assinaturas.

— Se importa em nos informar do que se trata? — disse Jack.

— Disse a eles que pensava em abrir um restaurante mais abaixo na estrada, e que precisava da assinatura de quinhentos residentes para solicitar uma licença de venda de bebidas. Sinaga não está em casa. Segundo seu vizinho, ele trabalha meio expediente na Best Buy perto da estrada. Deixa o serviço às duas da tarde.

Chavez verificou o relógio.

— Uma hora. Não é tempo suficiente.

— Vamos esperar escurecer — disse Clark.

— E então? — perguntou Jack.

— Então vamos sequestrar o filho da puta.

 

O raciocínio de Clark estava certo. Nayoan raramente entrava em contato com Sinaga, e mesmo assim apenas por e-mail, de modo que o desaparecimento do sujeito provavelmente não acionaria nenhum alarme. Melhor ainda: se fizessem o trabalho direito, poderiam ser capazes de explorar a associação eletrônica dele com Nayoan e transformá-lo numa fonte de informações. No pior dos casos, estariam com um corpo quente que, mais que provavelmente, falsificara documentos para o CRO, talvez tanto ali quanto no exterior. Se Gerry Hendley gostaria da ideia de o Campus manter em custódia um tarefeiro do CRO era algo que eles não sabiam.

— É mais fácil pedir perdão do que permissão — observou Clark.

 

Dirigiram até a Best Buy e esperaram Sinaga aparecer, e o seguiram até o armazém próximo, e depois até sua casa. Esperaram trinta minutos, e então Clark reassumiu seu papel de proprietário de bar, dessa vez pegando o outro lado da rua antes de atravessar até o trailer de Sinaga. Cinco minutos depois estava de volta.

— Está sozinho. Jogando no Xbox e bebendo cerveja. Não vi toques femininos, de modo que provavelmente é solteiro — relatou Clark. — Mas tem um cachorro, um velho cocker spaniel. Não latiu até eu bater à porta.

 

Mataram tempo até escurecer, dirigiram de volta ao trailer e deram uma volta pelo quarteirão. O carro de Sinaga, um Honda Civic de cinco anos, estava estacionado sob o toldo da garagem, e havia luzes nas janelas. Uma única lâmpada iluminava a porta. Clark apagou as luzes do Taurus e desligou o motor, depois deu uma olhada no bloco de anotações.

— O vizinho, o tal que me disse que ele estava no trabalho, é um sujeito chamado Hector. Parece um pouco com você, Ding.

— Deixa que eu adivinho: vou pedir uma xícara de açúcar emprestada.

— Claro. Não há tela na porta, de modo que ela abre direto. Quando ele fizer isso, atropele-o, agarre o cachorro e o tranque no banheiro. Jack, você vai pelo portão lateral e cubra a janela dos fundos. Não há muita chance de ele chegar até lá, mas é melhor prevenir do que remediar.

— Muito bem.

— Não fique na espreita. Caminhe como se tivesse um propósito. Os vizinhos foram bem amistosos, de modo que, se alguém vir você, simplesmente acene ou diga alô como se fosse aqui da área. Vamos lá.

Desceram e caminharam pela rua, conversando em voz baixa, rindo de vez em quando, um trio de residentes voltando de algum lugar. Quando chegaram diante do trailer, Clark e Chavez se viraram na direção dele, Jack mergulhou nas sombras ao lado do portão e observou Clark se encostar na parede ao lado da porta e Chavez subir as escadas. Clark se virou e acenou de leve para Jack, que cuidadosamente empurrou o portão e entrou no quintal. Não havia muita grama por ali, mas um monte de raízes, pedaços de terra sem nada e pilhas de cocô de cachorro. Foi até o fundo do trailer e se ajoelhou, de maneira a conseguir enxergar todo o local. Havia duas janelas, porém uma era estreita demais para um adulto: a mais próxima dele era a única saída.

Lá da frente, Jack escutou Chavez bater à porta; alguns segundos depois seguiu-se um;

— Sim, quem está aí?

— Hector, seu vizinho do lado. Olha, cara, meu telefone foi desligado. Posso usar o seu um instante?

Passadas soaram no assoalho do trailer. Dobradiças rangeram.

— Ei!

Uma porta bateu, seguida por pisadas. Jack olhou para cima, alerta. Merda... o que...

— Indo para o seu lado! — avisou Clark. — Janela dos fundos!

Enquanto Clark falava, a janela deslizou e apareceu uma figura, mergulhando de cabeça. Aterrissou com um gemido, rolou e se levantou.

Jack parou momentaneamente e depois disse:

— Pare bem aí!

Sinaga girou para localizá-lo, a cabeça rodando primeiro para a esquerda, depois para a direita. Atacou Jack, e com a luz filtrada pela janela, Jack viu o brilho de aço nas mãos de Sinaga. Faca, avisou algum lugar distante em seu cérebro. E logo Sinaga avançava sobre ele, a faca cortando pelos lados. Jack recuou. O homem continuou avançando. Jack sentiu o arame da cerca bater em suas costas, e então viu Sinaga levantar o braço. Desviou a cabeça para o lado, sentiu um impacto no ombro direito. Ligeiramente desbalanceado pelo ataque selvagem, Sinaga tropeçou de lado. Jack agarrou seu braço, fechando a mão esquerda em seu punho, e o torceu; depois passou o braço direito pelo pescoço de Sinaga, pressionando a laringe do sujeito contra seu antebraço. Sinaga inclinou a cabeça para a frente, depois a jogou para trás. Jack percebeu o movimento, mas só foi capaz de girar o rosto de lado. A cabeça de Sinaga bateu no rosto de Jack. A dor inundou seus olhos de lágrimas. Sinaga se debateu, tentando se livrar, e jogou as costas de Jack outra vez contra a cerca, mas perdeu o apoio dos pés. Com as pernas sacudindo diante de si, Sinaga desabou e caiu sentado. Jack o manteve preso, e percebeu que se inclinava por cima da cabeça de Sinaga. Não solte, não solte... Com o braço ainda ao redor da garganta de Sinaga, Jack deu uma cambalhota. Ouviu um estalo abafado. Caiu e rolou para o lado, certo de que Sinaga ia para cima dele.

— Jack! — Era a voz de Chavez. Ding apareceu correndo pelo portão. Sem se deter, chutou a faca para longe da mão de Sinaga. Este não se movia. Sua cabeça estava numa posição estranha, de lado. Os olhos piscaram várias vezes, mas estavam fixos, olhando o vazio. Seu braço direito se movia espasmodicamente, batendo suavemente no chão.

— Jesus... — sussurrou Jack. — Jesus todo-poderoso.

Clark correu pelo portão, parou abruptamente e ajoelhou ao lado de Sinaga.

— O pescoço dele está quebrado. Ele já era. Jack, você está bem?

Jack não conseguia desviar o olhar de Sinaga. Enquanto observava, o braço do homem parou de bater.

— Jack, acorde. Você está bem? — disse Clark.

Jack assentiu.

— Ding, leve-o para dentro. Rápido.

Dentro do trailer, Ding fez Jack sentar na poltrona, depois foi para o quarto e ajudou Clark a passar o corpo de Sinaga pela janela. Voltaram para a sala da frente. Lá no banheiro, o cocker latia.

— Nada se movimentando lá fora — relatou Clark, fechando a porta. — Ding, verifique a geladeira, veja se um pouco de comida deixa o Lulu mais calmo.

— Saquei.

Clark ficou de frente para Jack.

— Você está sangrando.

— Hein?

Clark apontou para o ombro direito de Jack. O tecido da camisa estava escuro de sangue.

— Tire a camisa.

Jack obedeceu, revelando um corte de quase 5 centímetros na clavícula. O sangue escorria para seu peito.

— Hã — murmurou Jack. — Não sabia. Senti que alguma coisa tinha atingido meu ombro, mas não percebi.

— Uns 2 centímetros mais para cima e você estaria liquidado, Jack. Aperte com o polegar. Ei, Ding, veja se Sinaga tem superbonder por aí.

O ruído de gavetas abrindo e fechando veio da cozinha e em seguida Chavez entrou e jogou um tubo para Clark, que o entregou a Jack.

— Coloque uma linha nesse corte.

— Está brincando.

— Não. É melhor do que pontos. Faça isso logo.

Jack tentou, mas suas mãos tremiam. Olhou para eles.

— Desculpe.

— É só a adrenalina, mano — disse Chavez, pegando o tubo. — Não esquente com isso.

— Ele está mesmo morto? — perguntou Jack a Clark.

Clark assentiu.

— Merda. Nós precisávamos dele vivo.

— A escolha foi dele, Jack, e não sua. Você pode se sentir mal por conta disso. É natural. Mas não se esqueça: ele tentou rasgar sua garganta.

— Sim, acho. Não sei.

— Não fique pensando muito nisso. Você está vivo, ele morreu. Preferia que fosse o contrário? — disse Chavez.

— Porra, não.

— Então marque isso como uma vitória e vamos em frente. — Chavez tampou o tubo de superbonder e levantou.

— Só isso? Vamos em frente?

— Pode levar algum tempo para você processar isso tudo — respondeu Clark. — Mas, se não conseguir, é melhor continuar na sua mesa.

— Jesus, John.

— Se você carregar essa merda na cabeça, vai acabar provocando a sua morte ou a de alguém mais. Isso eu garanto. Esse trabalho não é para qualquer um, Jack. Não há vergonha nisso. É melhor você sacar isso agora do que mais tarde.

Jack respirou fundo, esfregou a testa.

— Muito bem.

— “Muito bem” o quê?

— Muito bem, vou pensar nisso. — Clark sorriu com a resposta. — O quê?

— Foi a resposta certa. Você acabou de matar um homem. Eu ficaria preocupado se você dispensasse a reflexão sobre isso.

Ding chamou da cozinha:

— Achei algo, John.

 

Três dias depois de deixar Dubai em um voo fretado, o aparelho desembarcou no Aeroporto Internacional de Vancouver, na British Columbia. Por ter chegado um dia antes, Musa já esperava o voo. Seu cartão de visitas e a carta lhe deram acesso ao armazém da alfândega, onde encontrou o inspetor.

— Silvio Manfredi — apresentou-se Musa, entregando sua documentação.

— Obrigado. Phil Nolan. Seu pacote está ali.

Foram até um estrado sobre o qual estava a caixa de plástico.

Nem o cartão nem o papel timbrado haviam sido difíceis de criar usando Photoshop e um programa de editoração de alto nível. É claro que o inspetor pouco iria se importar com uma carta do departamento de medicina veterinária da Universidade de Calgary, mas o efeito psicológico não podia ser ignorado. O inspetor estava tratando com um concidadão e com uma renomada universidade canadense.

O que os 14 meses de estudo de Musa tinham lhe ensinado era que os inspetores da alfândega do mundo eram sempre sobrecarregados de trabalho, mal remunerados, e viviam de conferir listas e formulários. Para esse tipo particular de carga — materiais radioativos —, o inspetor estaria preocupado com três formulários de documentação: a fatura e o recibo de carga para o aparelho; os carimbos e os selos do agente da Associação de Transporte Aéreo Internacional (IATA), em Dubai, declarando a origem da carga; e a miríade de papéis exigidos pela Comissão de Segurança Nuclear do Canadá e pelo Ministério do Transporte do Canadá, e a licença para Substâncias e Aparelhos Nucleares, o formulário de Substâncias Nucleares Canadenses, e o formulário de Transporte de Materiais Perigosos. Apesar de nenhum desses documentos terem sido difíceis de reproduzir, só o levantamento de inteligência feito por Musa e seus homens levara oito meses.

— Então, o que é isso? — perguntou o inspetor alfandegário.

— É chamado de visor portátil de imagens equinas PXP-40HF.

— Como é?

Musa deu uma risadinha.

— Sei disso. É um palavrão. É uma máquina de raios X portátil para cavalos. Um amigo do presidente da universidade mora em Dubai. Seu garanhão árabe premiado vale mais do que você e eu ganharemos em toda nossa vida. O cavalo adoece, o amigo se queixa ao presidente, a universidade empresta a máquina.

O inspetor balançou a cabeça.

— Deve ser fantástica. O cavalo se recuperou?

— Sim. Saca esta: era apenas uma cólica. Passei uma semana lá bancando a babá de uma máquina de raios X porque o veterinário do sujeito não diagnosticou um caso simples de indigestão.

— Bem, pelo menos você pegou um pouco de sol. Ok... — disse o inspetor, folheando a papelada. — Preciso do código do radioisótopo, do nível de atividade, do nível de dosagem, dos limites de contaminação...

— Página quatro. E página nove. Na verdade, os limites são bem baixos.

— Sim, tudo bem, já vi. Então, esse troço é perigoso?

— Muito inofensivo, a menos que você consiga fazer uns duzentos exames nos seus colhões. Aí vai ter problemas.

O inspetor riu com isso.

— Não é mesmo uma arma de destruição em massa, certo?

Musa deu de ombros.

— Regras são regras. Melhor um pouco mais de precaução do que o contrário, acho.

— Sim. Diga, por que não mandaram você direto para Calgary?

— Não consegui um voo para cá até quarta-feira. Achei que seria melhor vir até aqui e alugar um carro. Com sorte, vou chegar em casa antes de escurecer.

O inspetor assinou onde precisava e colou selos adesivos na caixa. Fez Musa assinar os recibos nos lugares corretos, deu uma última olhada na papelada e a entregou de volta.

— Está liberado para ir.

— Meu carro alugado está no estacionamento...

— Vá até o portão. Vou dizer para deixarem você passar.

Musa apertou sua mão.

— Obrigado.

— Por nada. Boa viagem.