Morto ou Vivo

Tom Clancy · Capítulo 26 de 92

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Morto ou Vivo

Capítulo 26

 

Quase um quarto do estoque mundial de guindastes pesados, pensou Badr, olhando na direção do porto Rachid. Cerca de 30 mil do total mundial de 125 mil guindastes, todos reunidos em um só lugar e com um único objetivo: transformar Dubai na joia do planeta e paraíso para os mais ricos de seus habitantes.

De onde estava, podia ver ao largo as ilhas Palmeira e Mundo — enormes arquipélagos artificiais, um na forma da própria árvore, e o outro, da terra —, assim como o hotel Burj Al Arab, um arranha-céu de mais de 300 metros com a forma de uma gigantesca vela.

Para o interior, a cidade era um mar de arranha-céus e rodovias se entrecruzando e equipamentos de construção. E em mais cinco anos, atrações continuariam pipocando na paisagem: o Dubai Waterfront, um crescente que se estendia por 80 quilômetros no oceano; o Hydropolis, um hotel submarino; a Cidade dos Esportes e o complexo de esqui; o Mundo da Ciência Espacial. Em menos de uma década, Dubai havia deixado de ser o que muitos consideravam apenas um desolado e atrasado ponto no mapa para se transformar em um dos principais destinos mundiais de resorts, um parque de diversão para os super-ricos. Muito em breve, pensou Badr, as atrações e amenidades de Dubai irão superar até mesmo as de Las Vegas. Ou talvez não, lembrou-se. A crise econômica mundial também tinha atingido os Emirados Árabes Unidos. Muitos dos guindastes que se assomavam pela cidade estavam na verdade imóveis, pois os projetos de construção haviam sido interrompidos. Badr suspeitava que nisso tudo estava a mão de Alá. Era impensável tal decadência em um país árabe.

— Magnífico, não é? — escutou atrás de si Badr e se voltou.

— Minhas desculpas por estar atrasado — disse o corretor de imóveis. — Como provavelmente já notou, às vezes as construções podem ser uma confusão. Sr. Almasi, não?

Badr assentiu. Não era seu nome, claro, e o corretor provavelmente suspeitava disso, mas outro dos muito admirados traços de Dubai era um respeito universal pela discrição e pelo anonimato entre seu exército de banqueiros, corretores e agentes. Negócios são negócios e dinheiro é dinheiro, e os dois eram muito mais estimados do que códigos de conduta arbitrários e totalmente subjetivos.

— Sim — respondeu Badr. — Obrigado por vir se encontrar comigo.

— Por nada. Por aqui, por favor.

O corretor caminhou até um carro de golfe elétrico. Badr entrou e os dois dirigiram pelo cais.

— Provavelmente já notou que a doca não é de concreto — disse o corretor.

— Sim. — De fato, a superfície tinha um leve tom de terracota.

— É um material composto, algo parecido com material sintético para docas, me disseram, porém muito mais forte e durável, e a cor vai se manter enquanto ela existir. Os designers consideraram isso mais atraente que o padrão cinza de concreto.

Pararam diante de um armazém no final do cais e saíram.

— O senhor mencionou a necessidade de privacidade — disse o agente. — Será que isso o satisfaz?

— Sim, acho que sim.

— Como pode ver, é uma unidade de esquina, com pontos de acesso à água pela frente e pelo lado, suficientes para acomodar dois navios de 90 metros de extensão. É claro, paus de carga móveis estão disponíveis para alugar, se precisar.

A verdade era que Badr pouco sabia sobre as necessidades de seu cliente além do tamanho e do formato do armazém e do período de tempo que seria usado. Acesso e privacidade, lhe disseram, eram de maior importância.

— Posso ver por dentro? — perguntou.

— Claro.

O corretor tirou um cartão magnético que deslizou pelo leitor ao lado da porta. Um bipe suave soou. O corretor apertou o polegar numa almofada ao lado do leitor. Pouco depois a fechadura fez um clique e se abriu.

— Os cartões-chave e o leitor biométrico são totalmente programáveis pelo inquilino. Você, e apenas você, controla quem tem acesso ao local.

— Como isso é feito?

— Através de nosso site seguro. Uma vez criada sua conta, você simplesmente se registra, programa os cartões e escaneia os registros de digitais. Todos os dados são criptografados com o que é conhecido como NST, ou Nível de Segurança de Transmissão, e com certificados digitais.

— Muito bem. E a polícia?

— Nos últimos dez anos posso contar em apenas uma das mãos quantas vezes a polícia solicitou mandados de busca para nossas instalações. Desses, todos menos um foram negados pelos tribunais. Nós nos orgulhamos de proporcionar segurança e anonimato, ambos dentro dos limites legais dos Emirados, é claro.

Os dois entraram. O espaço, que media quase 200 metros quadrados, estava vazio. O chão e as paredes eram feitas do mesmo material da doca, mas de cor creme. Sem janelas, também, o que era um item que estava na lista do cliente. Não uma necessidade absoluta, mas certamente uma vantagem. O ar estava frio, por volta dos 23 graus, avaliou.

— Confortável, não? — perguntou o corretor.

Badr assentiu.

— Sistemas de controle de incêndio e roubo?

— Ambos. Monitorados por nosso centro de controle a um quilômetro e meio daqui. Em caso de incêndio, um sistema de supressão a halometano é ativado. No caso de entrada não autorizada, o inquilino é contatado para dar instruções.

— A polícia não é contatada?

— Apenas com aprovação do inquilino.

— E a sua companhia? Certamente tem acesso ao...

— Não. Se o aluguel do inquilino está sete dias em atraso, fazemos todo o possível para entrar em contato. No 14° dia, se o contato ainda não estiver estabelecido, o leitor de cartões e o escâner biométrico são removidos e o sistema de trancas é desmantelado, um processo caro e que leva tempo e que seria, é claro, debitado na conta do inquilino, tal como a reinstalação desses sistemas. No mesmo caso, todo o conteúdo do armazém é embargado.

— Não terão problemas conosco, pode ter certeza — afirmou Badr.

— Não tenho dúvida. Fazemos o contrato pelo período mínimo de um ano, com incrementos semestrais depois disso.

— Um ano deverá ser o suficiente. — Na verdade, bastaria um mês, segundo lhe disseram. O armazém ficaria vazio depois disso. Seu propósito, seja lá qual fosse, já teria sido alcançado. De fato, dias depois da partida de seu cliente, os artifícios financeiros estabelecidos para pagar o aluguel seriam a única coisa deixada para as autoridades descobrirem, e mesmo esses levariam apenas a mais contas fechadas e companhias de fachada. A “trilha de dinheiro”, que a comunidade de inteligência americana era tão boa em seguir, já estaria completamente gelada.

— Podemos proporcionar assistência para facilitar os procedimentos alfandegários, caso tenham que descarregar carga — disse o corretor. — Mas licenças de exportação, entretanto, seriam de sua responsabilidade.

— Compreendo — respondeu Badr com um sorriso maldisfarçado. Algo lhe dizia que a última preocupação de seus clientes seria com licenças de exportação. Deu uma olhada final e depois se voltou para o corretor. — Em quanto tempo pode ter o contrato de aluguel pronto?

 

Apesar de Adnan jamais vir a saber, seus contrapartes estavam não apenas mais adiantados em sua missão como também navegavam no conforto relativo de um barco fretado — ainda que fosse um barco de desembarque russo convertido.

Durante dias, Adnan e seus homens viajaram subindo a estrada da costa nas bordas do mar de Kara, passando por aldeias de pescadores e povoados abandonados e pela paisagem branca e desolada, vendo apenas um veículo ocasional na estrada, nenhum seguindo na mesma direção — fato que Adnan fazia o melhor possível para não tomar como presságio. Não conseguia imaginar alguém vivendo ali por vontade própria. Pelo menos no deserto se pode tirar alegria da luz do sol. Ali, céus nublados e cinzentos pareciam ser mais a regra que a exceção.

Como esperava, encontrar abrigo para suas paradas noturnas não era difícil, mas achar algum que fosse um pouco mais que uma choça era algo completamente diferente. Na primeira noite tiveram bastante sorte e acharam uma tenda abandonada com um aquecedor à lenha que funcionava, e, apesar de a lona estar furada e ter perdido seu revestimento à prova d’água, os polos de sustentação permaneciam bem-enterrados no solo e os arames de suporte ainda estavam esticados, de modo que passaram a noite em relativo conforto enquanto lá fora o vento quase de tempestade chicoteava a neve e o gelo contra a lona como estilhaços de metralha, e as ondas rugiam contra os rochedos. Na segunda noite foram menos afortunados, tendo que se amontoar em seus sacos de dormir na traseira do caminhão cuja lona parecia uma peneira e batia com o vento. Depois de tentar dormir por várias horas, desistiram e passaram o restante da noite bebendo chá preparado no fogão de acampamento portátil e esperando os primeiros sinais da alvorada.

E agora, depois de três dias de viagem, encontravam-se a no máximo um dia e meio de seu destino — pelo menos segundo o mapa, que Adnan consultava com atenção, verificando duas vezes as marcas e medidas com as de seu GPS portátil. Destino não era exatamente a palavra, não é? Ponto de partida, talvez. Contanto que o capitão do barco fretado fosse tão bom quanto dizia e quisesse ganhar o restante do pagamento, eles estariam um passo mais perto de seu objetivo, uma ideia que provocava um bocado de agitação em Adnan. Pelo pouco que lera sobre o lugar, ali onde estavam no momento, desolado como era, logo mostraria ser comparativamente luxuoso. E também havia a doença. Tinha pílulas para isso, mas o médico que lhes dera não tinha certeza sobre sua eficácia. Elas ajudariam, disseram a Adnan, mas não havia garantia disso. A melhor proteção seria rapidez e cuidado. Quanto mais tempo passassem ali, maior o risco. O pior é que nenhum deles saberia se estava a salvo até que transcorressem muitos anos, jamais sabendo, até ser tarde demais, que a morte invisível os devorava por dentro. Não importa, disse a si mesmo. Morte era morte, simplesmente uma passagem para o paraíso, e seus homens sabiam disso tanto quanto ele. Duvidar era um insulto a Alá.

A despeito do frio brutal e das rações escassas, nenhum deles tinha manifestado uma única queixa. Eram bons homens, fiéis tanto a Alá quanto à causa — que eram, é claro, uma única e mesma coisa. E, apesar de ele ter uma confiança razoável de que todos permaneceriam decididos quando ele finalmente revelasse o propósito da jornada, sabia que não podia abaixar a guarda. O Emir o escolhera pessoalmente para a missão, e o trabalho deles era importante demais para que o temor os fizesse recuar.

Mas e quanto à própria missão?, perguntou-se Adnan. Suas instruções eram detalhadas e claras, e facilmente acessíveis na sua mochila — várias dúzias de páginas laminadas —, mas e se houvesse complicações? Se suas ferramentas fossem inadequadas para o serviço? E se cortassem no lugar errado e o guincho não suportasse a carga? E se, Deus não permita, as medidas de segurança tivessem mudado desde que receberam a informação?

Pare, ordenou a si mesmo. Como o medo, a dúvida era um truque da mente, uma fraqueza a ser superada através da fé em Alá e no Emir. Ele era um sábio, um grande homem, e havia assegurado a Adnan que seu prêmio estaria esperando por eles. Eles podiam descobri-lo, fazer o que fosse necessário para capturá-lo, e depois voltar.

Mais três dias, então mais cinco de retorno.